Arquivo mensal: Setembro 2022

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #72 – “Sons de ontem (hehe) (FM)”

#72 – “Sons de ontem (hehe) (FM)”

Fernando Magalhães
11.02.2002 160432
quote:
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Publicado originalmente por starsailor
Também ouvi Ash Ra Tempel, o primeiro disco (ainda com Klaus Schultze). Não conheço nada deste pessoal – Schultze, Göttsching (?). Como só ouvi uma vez, não quero fazer grandes comentários. É, no mínimo, uma grande trip sonora, mas talvez pouco… “precisa”. Alguns tiques do guitarrista são claramente influenciados pelo Hendrix ao vivo. Depois, direi mais qualquer coisa. O que é que achas deste disco, Fernando?________________________________________

“Pouco preciso”? Pois…LOOOOOOOL. Todos os álbuns dos Ash Ra Tempel foram declaradamente gravados sob o efeito de LSD. Um deles, “Seven up”, contou mesmo com a participação do Timothy Leary!
Durante alguns anos fui completamente insensível à desordem aparente, sobretudo desse primeiro álbum. Depois, à medida que fui entrando em força no Psicadelismo, apercebi-me de uma série de coisas, sobretudo da estrutura de uma música que, incrivelmente, parte de uma raiz “bluesy” e do rock & roll para partir nas suas incursões cósmicas. O álbum seguinte, “Schwingungen” já deriva para outros espaços sonoros, sendo o segundo lado uma verdadeira “trip” nas nuvens. Claro que não aconselho a ninguém a audição desta música sob os efeitos de, digamos, determinadas substâncias ilícitas. O efeito poderia ser devastador!

Eu sugeriria uma audição da vertente mais planante que o Manuel Gottsching/Ashra exploraria a solo, depois da aventura Ash Ra Tempel, em álbuns como “New Age of Earth” (que o César já trouxe de “o vendedor”…), um álbum entre o minimalismo de “E2-E4” e as grandes sinfonias wagnerianas de Klaus Schulze, “Inventions for Electric Guitar” e “Blackouts” (este também bastante minimal).

Mas se preferires afogar-te numa orgia de eletrónica, em delírio absoluto, então parte para a descoberta dos 4 álbuns dos COSMIC JOKERS, que não eram mais do que a pandilha toda da editora Ohr (incluindo os Ash Ra Tempel), completamente tripada e à solta em improvisações no estúdio. Estas sessões duravam horas e horas mas eram depois editadas pelo Ralf-Ulrich Kaiser (patrão louco da Ohr) de forma a soarem como um produto acabado. Álbuns como “The Cosmic Jokers”, “Galactic Supermaket” e “Planeten Sit-in” são clássicos do space rock, na sua versão mais “outer space”!

Também és capaz de gostar do último álbum dos Ash Ra Tempel, “Starring Rosi” (ed. CD na Spalax) o mais bem comportado, digamos assim, só com o Manuel Gottsching (os outros ou já tinham flipado, como o baixista Hermut Hanke, ou partido para outras aventuras, como o Klaus Schulze) e a namorada, Rosi Muller. O álbum é uma mistura de rock planante, eletrónica, bossa-nova e pop estratosférica.

saudações kraut

FM

10,000 Maniacs – “Hope Chest – The Fredonia Recordings, 1982-1983”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 5 DEZEMBRO 1990 >> Pop Rock >> LP’s


10,000 Maniacs
Hope Chest – The Fredonia Recordings, 1982-1983
LP e CD, Elektra, distri. WEA



Natalie, a vocalista da banda, tem uma voz engraçada que se esquece cinco minutos após a sua audição. Não é propriamente uma Diamanda Galás, antes um sussurro fresquinho e fraquinho, agradável para passar o serão ou para enfeitar festas liceais, de discos riscados e namoricos de verão. “Hope Chest” é uma coletânea de temas gravados na Universidade Estatal de Fredonia, algures não sei aonde, dispersos pelo EP “Human Conflict Number Five”, o álbum “Secrets of the I Ching” e por lado nenhum. Um longo texto impresso na contracapa explica tudo menos a inconsequência da música, à deriva entre vocalizações “pop bubblegum” perpetradas às escondidas pela irmã mais nova de Debbie Harry e aproximações ao “reggae”, sem ganja nem ganza, substituídas por limonadas e cornetos. **

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #71 – “Happy, Moore, H.Cow…p_The Preacher (FM)”

#71 – “Happy, Moore, H.Cow…p_The Preacher (FM)”

Fernando Magalhães
04.02.2002 160436
O meu thread ficou “tapado” pelo do Karalinda… 🙂

Para que esta mensagem possa servir a mais interessados, aqui vai de novo:

Seguir para onde? É complicado!

Eu sugeriria 3 vias divergentes, mas qualquer deles traduzida em álbuns magníficos:

“The Henry Cow Leg End” (1973) dos HENRY COW, é o “pai” de toda a música europeia do chamado “rock de câmara”. É um disco a todos os títulos fascinante que alia um humor Frank Zappiano, o experimentalismo dos Faust, o jazz mais avançado (mas que, surpreendentemente, adquire nos HC uma acessibilidade notável) e até uma fabulosa canção pop, “Nine funerals of the citizen king”.

Outra obra-prima, já por mim aqui referenciada, é “Flying doesn’t Help”, de ANTHONY MOORE (às vezes aparece escrito “More”…o homem fez parte dos Slapp happy e dos Henry Cow), sem exagero, um dos mais fantásticos álbuns de…ROCK, de todos os tempos. O espírito dos Velvet Underground traduzido para um som contemporâneo. Baladas diabolicamente apelativas alternam com descargas de rock poderoso, pautadas por riffs de guitarra/eletrónica sem paralelo. A versão de “War”, tema incluído no álbum “In Praise of Learning”, dos Henry Cow, é, por si só, uma experiência arrasadora.

Dos SLAPP HAPPY, podes investigar o álbum anterior, “Sort of…”. Mais clássico mas mesmo assim escondendo algumas pérolas (canções, sempre as canções com um toque de magia e e excentricidade…) que “Slapp Happy”.
O “Ça Va” é engraçado mas eu prefiro o som mais “antigo” do grupo.

Claro que ainda tens as discografias do JOHN GREAVES e da DAGMAR KRAUSE a solo…

Importante: Os HENRY COW prosseguiram, de certa forma, no grupo ART BEARS (Fred Frith, Dagmar Krause, Chris Cutler). Uma música mais “fria” e esotérica que a dos HC que, de qualquer forma, se traduziu pelo menos numa obra prima: o álbum de estreia “Hopes and Fears”.
“Winter Songs” (uma leitura musical hermética da simbologia das catedrais medievais) e “The World as it is Today” (o mais complexo dos álbuns dos Bears) são igualmente muito bons, sobretudo o segundo.

O “problema” é que, se gostares de todas estas obras, tens pela frente um universo de discos, todos importantes, de dezenas e dezenas de bandas, cada qual um mundo de descobertas: 5 UU’s, MOTOR TOTEMIST GUILD, THINKING PLAGUE, UNIVERS ZERO, NON CREDO, DOCTOR NERVE, PFS, ZERO POP, ETRON FOU LELOUBLAN, SAMMLA MANNAS MAMA…

FM

Fernando Magalhães
04.02.2002 180642
quote:
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Publicado originalmente por thePreacher

Eu entretanto no outro post deixei-te uma pergunta, que era, se tiveres alguma disponibilidade, uma breve explicação para um leigo como eu de “rock de câmara”.
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Rock tocado com um rigor e um classicismo que evocam a música de câmara. Mas o termo foi usado sobretudo para acentuar o carácter “erudito” ou “elitista” (eheh) de uma música que juntou a energia do rock ao conceito de “música de interiores” e aos compassos complexos conotados com a música de câmara.
Claro que, a partir daqui, este conceito se tornou redutor, partindo a maioria dos grupos ligados a esta estética, chamemos-lhe assim, para músicas pessoalíssimas que integraram toda a espécie de elementos, do free jazz à eletrónica, de registos folk às programações de computador, da música concreta à canção pop, do Progressivo à improvisação.

O movimento foi despoletado ainda nos anos 70 por uma associação chamada “Rock in Opposition” da qual faziam parte os ingleses HENRY COW, os italianos STORMY SIX, os franceses ETRON FOU LELOUBLAN e os suecos SAMMLA MANNAS MAMA. E os belgas UNIVERS ZERO também, se não estou em erro…

Outras bandas que ainda não referi: SKELETON CREW, NEWS FROM BABEL, THE MUFFINS, WONDEUR BRASS, PRESENT, CONVENTUM, DÉBILE MENTHOL, AKSAK MABOUL…

FM