Arquivo mensal: Setembro 2022

Júlio Pereira – “Música Popular Portuguesa – Janelas Coloridas”

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 30 NOVEMBRO 1990 >> Cultura


Música popular portuguesa

Janelas coloridas


O NOVO DISCO de Júlio Pereira junta a pintura e a música. São dez quadros de pintores portugueses, traduzidos em outras tantas incursões musicais em que o folclore se dilui, de forma subtil, no som contemporâneo.
“Quadros numa exposição” – assim se intitulava uma obra de Mussorgsky que expressava no piano os sonhos pictóricos do pintor russo Victor Hartmann, em partitura posteriormente orquestrada por Ravel e finalmente liquidada pela pirotecnia circense dos Emerson, Lake and Palmer. Um século mais tarde, Brian Eno traduzia para música quatro aguarelas do pintor alemão Peter Schmidt, em “Before and After Science”. Agora chegou a vez de Júlio Pereira, tradicionalista na sensibilidade e inovador na maneira de a exteriorizar, inventar musicalmente dez quadros de pintores portugueses contemporâneos. À coleção, a exibir em público a partir do dia 6, chamou “Janelas Verdes”, numa alusão ao museu que lhe fica perto da casa e da alma lisboeta.
“Janelas Verdes”, nono álbum de originais na sua discografia, está longe de ser um museu, muito menos de arte antiga. Cada quadro é pretexto para, partindo de uma apreciação subjetiva da obra e de posterior conversa com o seu autor, recriar o universo das imagens em peregrinações pelo folclore do globo – “a música tradicional está toda nas ‘Janelas Verdes’, mas não de maneira evidente. Em discos anteriores, com ‘Cavaquinho’ ou ‘Braguesa’, ‘peguei’ em elementos etno-musicais do nosso país, uma chula, um vira, um corridinho, e desenvolvi-os, condicionado pela sua estrutura. Neste caso, não me agarrei a qualquer elemento musical conotado diretamente com a música tradicional. Conhecer os diversos pintores e a sua obra, foi conhecer outros tantos mundos diferentes. O pintor Eurico levou-me até ao México, a Paula Rego sugeriu-me uma coreografia de um menino e meninas a brincar numa horta. O quadro de Júlio Pomar transportou-me para o meio de um intensíssimo carnaval na Idade Média, e por aí fora, em dez viagens imaginárias…”.
Ao contrário do álbum anterior, “Miradouro”, a eletrónica tem aqui um papel mais discreto. Enquanto que o primeiro “foi todo concebido no computador, soando talvez por isso, um pouco maquinal”, o novo disco “foi realizado tecnicamente de maneira diferente, todo ele composto na viola braguesa que foi gravada em primeiro lugar, só depois sendo acopladas as partes eletrónicas”.
Viagens ulteriores apontam para a possibilidade de gravação de um disco inteiramente acústico – “Os próprios tempos apontam para isso”. Quanto mais nos embrenhamos na eletrónica, mais saudades temos dos instrumentos acústicos. O ‘sampler’ é um bom exemplo da nova direção que a música eletrónica está a seguir, paradoxalmente procurando reproduzir, por meios digitais, o som acústico natural…”.
Em “Janelas Verdes” o computador e os sintetizadores coabitam com o cavaquinho, a viola braguesa ou os instrumentos trazidos por músicos convidados, como o saxofone de Paulo Curado, o trompete de Tomás Pimentel, o oboé de António Serafim ou as vozes de Maria João, Anabela Duarte e Luís Madureira. A gaita-de-foles geme, apenas num dos temas – “No nosso país há poucas pessoas que saibam tocar bem o instrumento e menos ainda a construí-lo. Ao contrário do que acontece por exemplo na Galiza, onde observei escolas com dezenas de miúdos a tocar “gaita”, e em que abundam os construtores, em Portugal já só os velhos a fabricam”.
Do rock às chulas, da tradição ao folclore universal, do cavaquinho e da braguesa ao computador e aos “sete instrumentos”, Júlio Pereira continua a debruçar-se sobre o futuro. Desta vez de janelas das cores todas que os olhos conseguem ver.

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #70 – “Saturnia e Space-Rock (rat-tat-tat)”

#70 – “Saturnia e Space-Rock (rat-tat-tat)”

Fernando Magalhães
01.02.2002 180653
Quanto ao SUN RA e JOHN COLTRANE.
A questão está em que a música destes dois compositores é mais espacial no conceito do que na prática.
Em SUN RA, apesar de tudo, existem elementos verdadeiramente “cósmicos”. O meu preferido é mesmo o 2º lado, um longo solo de Moog, de “Nuits de la Fondation Maeght” (ed. Shandar, infelizmente fora de mercado).
O “It’s after the End of the World” está praticamente todo incluído num CD duplo intitulado, “Out in Space/não sei quê Myth” 🙂 🙂 🙂

Já a música de Coltrane apenas espiritualmente tem a ver com o espaço. O “Meditations” é uma longa dissertação do homem pelo interior de si mesmo (o inner space), nos limites do free jazz, muito bem secundado por umo segundo sax tenor, de Pharoah Sanders, e o piano de McCoy Tyner. Mas, para mim, prende-me mais à terra do que me impele para o cosmos!

Mas…e voltando ao SUN RA, o que este músico não levou às últimas consequências, fê-lo um seu ex-companheiro da sua Arkestra – um tal SAMARAI CELESTIAL, que descobri através de “o vendedor”. São dois CDs, um deles duplo, com temas longuíssimos (há um com mais de 60 min….), de eletrónica, entre o selvático e o planante, espécie de selva de sons orgânicos que, num dos temas, adquirem mesmo a forma de uma homenagem explícita ao mestre, numa faixa intitulada “Sun Ra”.
Percebe-se que o tipo é louco (ou será um iluminado?) mas a música é, de facto, uma verdadeira viagem!!!! Outro tema, de 20 min., é um longo solo de percussões eletrónicas com o Samarai a ler por cima um manifesto sobre a ascese planetária e a nova idade de ouro da humanidade.

FM

Roxy Music – “Heart Still Beating”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 28 NOVEMBRO 1990 >> Pop Rock >> LP’s


ELEGÂNCIA DECADENTE

ROXY MUSIC
Heart Still Beating
LP e MC duplos e CD, E.G. Records


Bryan Ferry afirma nada ter a ver com a edição deste álbum, gravado ao vivo em Frejus, França, há já perto de nove anos. Mais: não gostava dele na altura em que foi gravado, muito menos agora. Por seu lado, indiferente às queixas do cantor e Casanova de serviço nos Roxy Music, a editora, sem mencionar a data de gravação, apresenta o produto como se fosse o novo disco da banda, recorrendo ainda ao truque de mostrar uma das figuras femininas, fetiche de álbuns anteriores, de pose renovada – cabelos rapados, tronco masculino e olhar de pugilista andrógino.
Postas de lado tais questões chega-se à conclusão que Bryan Ferry até nem terá grandes razões para se sentir envergonhado. Comparado, por exemplo, com o recente vídeo a solo, verifica-se que a sua voz se encontrava então em bem melhor forma do que agora e que nunca a sua produção musical mais recente se voltou a equiparar aos feitos de antanho.
Descontando a irritação que as palmas do público possam provocar, o disco apresenta uma seleção de alguns dos grandes momentos da banda, então composta por Ferry, Phil Manzanera e Andy MacKay, auxiliados por outros cinco instrumentistas e um trio vocal feminino. Ao todo são catorze temas, abrangendo quase uma década, desde 1973, data do segundo álbum, “For Your Pleasure”, até 1982 e “Avalon”.
Representam a fase inicial dos Roxy Music (quando ainda integravam o “glamour” decadentista de Brian Eno) os temas “Editions of you” e “A Song for Europe”, este último “pastiche” irónico ao sentimentalismo de pacotilha das canções da Eurovisão, encenado e interiorizado por Ferry como se a verdade fosse feita de néons, lantejoulas e eternas “féeries” de champanhe.
Elegância decadente, o tempo que não passa e quando passa já é demasiado tarde para recuperar o que num ápice de serpentinas de perdeu. Tristeza imensa de um copo vazio, de madrugada, no terraço, e a lembrança de um decote de seda imaginado, de um nome que as brumas do álcool evocam sem cessar e fizeram esquecer – “Out of the Blue”, do álbum “Country Life”. Depois foram “Love is the Drug” e “Both Ends Burning”, de “Siren”, despedida de Ferry como ator de fantasias eróticas, sonhadas na companhia de bonecas insufláveis. A partir de aí levou-se a sério, perdendo-se na mudança de atitude o “charme” teatral e o humor inteligente que eclode da distanciação.
Renascidos das cinzas, os Roxy Music limitaram-se a passear por entre as ruínas esplendorosas do passado, com Ferry vestindo de vez a pele do romântico incorrigível, “crooner” de casinos sentimentais pintados em tons americanos e suavidades de veludo, acrescidos do fascínio da dança: “Manifesto”, “Flesh and Blood” e “Avalon”. O fantasma de Lennon em “Jealous Guy”, “Like a Hurricane” de Neil Young e o tema para a guitarra de Manzanera, “Impossible Guitar” são outros bons momentos de um disco que, se por ser ao vivo desfaz a ilusão introspetiva da alquimia Roxy, nem por isso obsta a uma diferente fruição de canções, entretanto alcandoradas ao estatuto de “clássicas”. (***)