Arquivo mensal: Novembro 2020

Jethro Tull – “A Little Light Music”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 14.10.1992


Jethro Tull
A Little Light Music
CD, 2xLP, Chrysalis, distri. EMI – Valentim de Carvalho



Os dinossauros não morrem? Aparentemente não. Ou, se morrem, depois ressuscitam. O século XX aproxima-se do fim e eles continuam a proliferar. Os Jethro Tull vão andando, trôpegos é verdade, Ian Anderson já deve ter uma certa dificuldade em tocar flauta sobre uma perna só, mas enfim, vão andando. Com 24 anos de vida, 19 álbuns de originais gravados e um passado às costas que afinal não parece difícil de suportar.
“A Little Light Music”, gravado ao vivo na Europa, dá a ouvir palmas, os músicos (os fundadores Anderson e Martin Barre, mais David Pegg e Dave Mattacks, ambos ex-Fairport Convention) em forma razoável e as músicas do costume: rhythm ‘n’ blues sinfónico, baladas em tons medievais (“Minstrel in the Gallery”, “Songs from the Woods” e “Heavy Horses” não eram maus álbuns…), solos para todos os gostos e uma total falta de imaginação. O primeiro lado é mais eléctrico, o segundo e o terceiro mais acústicos e o último acaba com o clássico “Locomotive breath”. Ian Anderson é que já não tem propriamente o fôlego de uma locomotiva…
“A Little Light Music” não ofende os órgãos auditivos (nem os Jethro Tull têm já força para ofender quem quer que seja), apresentando até a vantagem de poder proporcionar algumas horas de sono. (4)

Sérgio Godinho – “Escritor De Canções No Porto” (concerto)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 14.10.1992


ESCRITOR DE CANÇÕES NO PORTO



“Sérgio Godinho – Escritor de Canções”, espectáculo apresentado pela primeira vez há dois anos, na capital, volta a ser encenado, desta feita no Porto, na sexta-feira, às 21h45, no Teatro Rivoli. À semelhança das anteriores apresentações, “Escritor de Canções” vai mostrar a cenografia de João Calvário, o desenho de luz de Paulo Graça e o grafismo de Luís Miguel Castro, com produção de Paulo Pulido Valente e direcção de Ricardo Pais. Acompanham Sérgio Godinho, em palco, Manuel Faria, nos teclados, e Nani Teixeira no baixo. “Sérgio Godinho – Escritor de Canções” tem o patrocínio do Pelouro de Animação da Câmara Municipal do Porto e a colaboração de “MC – Mundo da Canção”.
Faz todo o sentido esta visita de Sérgio Godinho ao Porto, só pecando por tardia. Sérgio Godinho é natural desta cidade mas foi preciso esperar dois anos para se assistir ao regresso do filho pródigo, com um espectáculo que passou por algumas localidades portuguesas, entre as quais Coimbra e Chaves, e outras menos, como Macau e Goa.
Por uma razão ou por outra, “Escritor de Canções” não chegou ao Porto antes, em parte devido a uma impossibilidade física (um grupo de teatro que então utilizava o edifício), embora isso não justifique tudo. Passado o tempo, que nunca se sabe se será o certo, passou a oportunidade.
Sérgio Godinho empenhou-se, entretanto, no cinema e na realização de três curtas metragens, com o genérico “Ultimacto”, intituladas “Entre Mortos e Vivos”, “A Reconstrução” e “SOS Stress”, a apresentar na RTP1 em três quintas-feiras consecutivas, a partir do próximo dia 12 de Novembro. Em Dezembro, o compositor e um dos “sobreviventes” da época de ouro da música popular portuguesa entrará em estúdio para a gravação de um novo álbum, primeiro de originais desde “Aos Amores”, gravado em 1989.
Enquanto não chega esse novo volume de histórias do quotidiano, mistério e imaginação, fica este intervalo de conversa entre amigos, no despojamento e na encenação discreta de canções antigas. Uma conversa que, no Porto, já tardava.

João Bosco – “João Bosco Tocou Ontem Em Lisboa – Cantos Do Imprevisto”

Cultura >> Sexta-Feira, 09.10.1992

João Bosco Tocou Ontem Em Lisboa
Cantos Do Imprevisto

Música brasileira não é só a que vem aos Coliseus dar-nos telenovelas e carnaval. Música brasileira pode ser sem fronteiras e viajar até ao imprevisto. João Bosco assim o disse e cantou. Num dos poucos espectáculos realizados este ano em Portugal em que fez sentido o termo “ao vivo”.



Devia haver mais brasileiros que portugueses, quarta-feira À noite, no Teatro Maria Matos, a assistir à estreia portuguesa de João Bosco. Foi um concerto notável, principalmente do lado direito da sala, mesmo junto à parede, que foi o local julgado ideal pela organização para situar o jornalista. Este, empolgado pela música, lá foi esticando e entortando o pescoço, como o homem dos colchões Pikolin, até ficar mais ou menos a meio. Valeu a pena.
João Bosco não é muito conhecido por cá. Escutando-se a sua música percebe-se porquê. Bosco não é um músico brasileiro parecido com os outros, que de cinco em cinco minutos vêm cá dar-nos beijinhos ao Coliseu dos Recreios, embora também já tenha composto temas para telenovelas, como “Tieta” e “Pantanal”. Ele próprio se define como um “artista inquieto, em constante delírio” que não deixa que as “barreiras impeçam a livre criação”. É óbvio que está a falar verdade. João Bosco não é tanto um compositor de canções, na acepção tradicional, mas um músico total, um “jongleur” de palavras e sons, um equilibrista no arame que rompe com os esquemas convencionais do canto. O seu último álbum tem por título “Zona de Fronteira”, com o selo Sony Music. Uma fronteira que existe para ser ultrapassada.

Voz De Comando

Uma guitarra acústica, um banco, uma garrafa de água do Luso sem poiso certo, eram os únicos artefactos em cena. Chegaram para ajudar o artista em cena, na primeira parte do espectáculo, a mostrar tudo o que vale. A voz de João Bosco recusa amarras. As canções são-lhe ponto de partida para uma divagação constante. A voz é quem comanda, a canção vai atrás. O artista brasileiro arriscou tudo, libertando-se da segurança de arranjos fixos que não passariam de espartilhos. É em casos como este que faz sentido falar da voz como um instrumento de possibilidades infinitas. Logo no primeiro tema, em que imitou a gaguez de um homem apaixonado, o ritmo brotou como que por magia das palavras, das onomatopeias, das síncopes cheias de “swing”, da plasticidade de uma voz que a cada instante se reinventou. “Obrigado gente!”, repetiu invariavelmente após cada “canção”. Em jeito humilde de quem vai pesquisando as emoções alheias e as conquistas para o seu território. Bosco é um louco, no bom sentido. A “grande confusão musical” – como define, com humor, a sua música – é a confusão de mundos, coabitando em simultâneo, de sons libertos em dança perpétua. Samba, bossa nova, os “blues”, o flamenco, África, Milton, Chico Buarque, Tom Jobim, João Gilberto, cruzam-se e encontram-se com os papéis trocados, no canto e no violão. O “louco” é afinal quem, como ele, se deixa tocar pela música, pelas músicas, e lhes dá voz própria.

Além-Fronteira

Na segunda parte juntaram-se a João Bosco, Ricardo Silveira, na guitarra eléctrica, e Armand Sabal Lecco, que já tocara anteriormente em Portugal, integrado na banda de Paul Simon, no baixo. Bosco, por sua vez, trocou a guitarra acústica por uma eléctrica. Loucura completa. Os três entusiasmaram-se e entusiasmaram a assistência. Não havia instrumentos de percussão nem se deu por falta deles. Duas guitarras e um baixo criaram ritmos intricados, dialogaram de forma imprevisível e improvisaram a cada momento, desmultiplicaram-se em cadências que misturavam o rock, ritmos brasileiros e fusões de índole jazzística.
Os músicos levantaram-se, riram, brilharam. João Bosco dançou pelo palco e fez gestos de agarrar as vibrações que pairavam no ar. E agarrou-as mesmo. Música sem fronteiras que no final foi aplaudida em pé, por uma plateia em delírio. O trio regressou ao palco para uma “jam session” admirável, carburando como uma máquina no máximo da afinação. Na zona além-fronteira. Zona livre.