Arquivo mensal: Outubro 2020

The Chieftains – “The Chieftains Actuam Na Festa Do ‘Avante!’ – O Brilho Da Esmeralda”

Cultura >> Sábado, 05.09.1992


The Chieftains Actuam Na Festa Do “Avante!”
O Brilho Da Esmeralda


Os Chieftains, como Turlough O’Carolan, Joyce, Beckett, os castelos, o whiskey Bushwills ou a cerveja Guiness, são uma instituição e um emblema da Irlanda. Actuam hoje à noite na Festa do “Avante!”. A música tradicional porta-voz da outra revolução.



De entre as trevas do obscurantismo marxista uma jóia resplandece. Coberta de poeira, sem dúvida. Maculada pela ideologia, é verdade. Mas nem por isso menos brilhante. É a Festa do “Avante!” que o Partido Comunista Português organiza todos os anos nos arredores da capital. E, convenhamos, do capital.
Este ano, o programa musical prescindiu daqueles grupos do Leste com nomes de luta repescados do imaginário bolchevique da Revolução de Outubro, centrando-se as atenções na actuação, sábado às 22h, dos irlandeses The Chieftains. Afinal a continuação de uma política de destaque dado à música tradicional desde sempre seguida pela organização, muito por “culpa” e amor à causa de Ruben Carvalho, responsável, ao longo de várias edições da Festa do “Avante!”, pela vinda a Portugal de alguns expoentes da folk como Fairport Convention, Gwendal ou, no ano passado, June Tabor, Savourna Stevenson e Boys of the Lough.
Ao contrário dos amanhãs que cantam (este ano, pela primeira vez, vão estar ausentes na festa do “Avante!”), os Chieftains não cantam, sendo uma banda totalmente instrumental. Considerados uma lenda viva da Irlanda, a banda personifica a flâmula que brilha no interior da “terra da ira” ou “Ilha de esmeralda”, numa alusão ao verde da terra e, a nível mais profundo, à gema que esmaltava a fronte de Lúcifer, o anjo decaído que, reza uma lenda obscura, terá arrancado a ilha ao continente, na tentativa de a fazer escapar ao amplexo de pedra do catolicismo. Irlanda, transformada em terra de exílio. Lúcifer, antigo “senhor da luz”, tornado “senhor da ira”. Entendam-se o espírito e os símbolos que animam a lenda. Os Chieftains, banda esmeraldina.

Tradicional Popular

Nascidos em Dublin no seio da associação musical Ceoltori Cualann, dirigida pelo compositor e cravista Sean O’ Riada, os Chieftains desempenham hoje o papel de embaixadores da Irlanda no mundo, representando a sua música e danças, os seus mitos e, não menos importante, o seu whiskey, que deve ser bebido sempre, e a sua Guiness, que também deve ser bebida sempre, mas morna, e na versão “ale”.
Escutar as lamentações e o grito de guerra da “uillean pipes” de Paddy Moloney, as cintilações aquáticas da harpa de Derek Bell, as brisas evocativas do “tin whistle” e da flauta de Matt Molloy, as convulsões xamânicas do violino de Sean Keane ou o batimento orgânico dos ossos e do “bodhran” manipulados por Kevin Conneff, mesmo entre a poeirada da Quinta da Atalaia, na Amora, Seixal, é aceder ao paraíso e à radiação celta. E a oportunidade rara de transcender a História e o materialismo dialéctico, em pelno palco 25 de Abril.
A questão, de resto, não é de hoje e serve de pretexto original a uma boa discussão, senão mesmo ao debate ideológico: é a música tradicional, por essência, de esquerda ou de direita? Quer dizer, fascista ou comunista? A designação “tradicional” fornece bons argumentos aos defensores da primeira hipótese. Por isso a outra facção, preocupada, prefere utilizar o termo “música popular”. Evidentemente nas cidades a história escreve-se mais a vermelho e a música folk teve e tem, em músicos como Pete Seeger, Ewan MacColl, Roy Bailey, Leo Rosselson ou Peter Bellamy, acérrimos defensores da luta de classes e dos direitos do proletariado. Mas no meio das raízes étnicas, além da foice, quem agita o martelo?
Logo a seguir ao concerto dos Chieftains conviria então meditar, realizar conferências e colóquios sobre esta problemática, quiçá submete-la à consideração das cúpulas do partido de modo a, no futuro, evitar equívocos que poderão ser perniciosos à revolução, sempre na prdem do dia.

Folk Dialéctica

Límpido e isento de equívocos tem sido o percurso discográfico dos Chieftains, ao longo de uma carreira de 25 anos (25 anos, palco 25 de Abril, estarão afinal os Chieftains prestes a tornarem-se militantes de honra do PCP?) embora a fase recente mostre indícios de alguma indefinição, em parte causada pela crescente aceitação internacional (do grupo e da música irlandesa em geral) e o consequente convívio com as grandes estrelas do Rock.
“The Chieftains 5”, “Bonaparte’s Retreat” (com Dolores Keane), “Boil the Breakfast Early”, “The Chieftains 10”, “Celtic Wedding” (contendo na totalidade temas de música bretã) e “Celebration” (celebração, de aniversário da banda e da cultura celta, com a participação de Van Morrison e dos galegos Milladoiro) são obras-primas no modo como recuperam e traduzem a tradição musical irlandesa, servidas por intérpretes magistrais. Ao seu lado, discos como “The Year of the French” e “Ballad of the Irish Horse”, compostos para séries de TV, ou o acalmado “The Bells of Dublin”, no qual participam os convidados Elvis Costello, Marianne Faithfull, Nancy Criffith, Rickie Lee Jones e Jackson Browne, surgem como episódios menores de uma saga interminável pelo oceano onde o lendário Brendan e o “Ulysses” de Joyce navegaram. No fundo, uma viagem dialéctica.
Marx, se fosse vivo, havia de gostar.

Vários – “Recordar É Viver” (fado)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 19.08.1992


RECORDAR É VIVER

Música ligeira. Artistas da rádio, do tempo em que se ouvia música pela telefonia e se lia na “Flama”, na “Plateia” ou no “Século Ilustrado” as últimas sobre o “affaire” amoroso de António Calvário com Madalena Iglésias…
Nacional-cançonetismo e piroseiras do mais requintado mau-gosto emparceiram com algumas lendas vivas do fado. Nostalgia. Ingredientes que finalmente se reúnem na totalidade de um lote de 23 CD com o genérico “O Melhor de…” que a Valentim de Carvalho passou a ter disponível no mercado nacional.
O fado apresenta a melhor música e algumas das suas glórias, de um passado lisboeta já distante no tempo: Alfredo Marceneiro, Carlos Ramos, António dos Santos, Hermínia Silva. O fado de Coimbra faz-se representar por Luiz Goes. O resto é um pouco a alegre confusão, segundo o critério unificador que consiste em reunir os nomes mais sonantes de um período temporal compreendido entre as décadas de 40 e 70: Simone, Max, Maria Teresa de Noronha, Lucília do Carmo, Tristão da Silva, Fernando Farinha, Eugénia Lima, Maria Clara, Alberto Ribeiro, Tony de Matos… o melhor de… os melhores, ao lado do pior… dos piores. Mas aqui vale, sobretudo, a imagem, na maior parte dos casos retocada pela imaginação, que para alguns significará conservar para a posteridade a saudade dos tempos que já lá vão e, para outros, um saudável exercício de diversão “kitsch”.
Muitos dos artistas da série “O Melhor de…” já morreram. Outros estão vivos, mas preferem deixar de si apenas o que deles recordamos dos anos dourados, casos de António dos Santos ou de Hermínia Silva. Os familiares de alguns deles prontificaram-se a conversar com o PÚBLICO sobre os mitos, maiores ou menores, que fizeram sonhar e suspirar os nossos pais. Histórias que hoje dão que sorrir e pensar. A vida, então, corria mais forte e devagar.

Carlos Ramos – “O Fado Azul”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 19.08.1992


Carlos Ramos
O FADO AZUL


Cantou para a alta sociedade e para a geral. Teve a ousadia de trazer uma orquestra para o fado. Carlos Ramos, um cantador e guitarrista que quis tirar o fado da sarjeta e acabar de vez com o choradinho. Na Marconi, onde foi radiotelegrafista, costumavam cantar-lhe “Não venhas tarde”. Até um dia…



Podia ter sido médico. Ou violinista clássico. O seu destino acabou por ser o fado. Carlos Ramos nasceu no seio de uma família de músicos. As tias tocavam piano, o pai, trompa. Ele começou a tocar violino aos seis anos de idade. Ainda antes de cantar, foi guitarrista profissional. “Foi acompanhante privativo, durante muitos anos, da grande Ercília Costa” – recorda António Morais, casado com a filha mais nova do fadista, Odete Ramos, recentemente falecida. “Depois do Armandinho, ele foi o maior guitarrista português, durante muito tempo.”

Fado De Orquestra”

A estreia como cantor profissional ocorreu no teatro (antes “ia para o Jardim da Estrela tocar guitarra nos tempos de estudante no Liceu Pedro Nunes”, recorda a filha mais velha, dona Cecília Ramos), mais precisamente no quadro “Malhoa”, de uma revista onde uma noite se viu obrigado pelas circunstâncias a substituir a cantora de serviço. Anos mais tarde, à semelhança de outros fadistas, passou a cantar numa casa própria, no restaurante A Toca.
A Carlos Ramos se devem algumas inovações. Foi o primeiro a cantar o fado acompanhado por uma orquestra. “Na altura, houve muitos artistas do fado que o criticaram violentamente por isso”, lembra António Morais. “Hoje todos os fadistas cantaram, pelo menos uma vez, com orquestra. Naquela altura foi um choque.”
As causas de tal “ousadia” prendem-se com um objectivo determinado: “Ele estava tirando o fado da sarjeta, do choradinho, da desgraça”. Carlos Ramos cantava então textos de Gabriel de Oliveira, Domingos Gonçalves Costa ou Frederico de Brito, entre outros autores, sem esquecer um disco “cujas letras são todas do professor Moniz Pereira, o treinador de atletismo do Sporting”.
Com Carlos Ramos “o fado saiu da vulgaridade e entrou para os salões”. Como diz a letra: “Cantei para princesas, para reis também cantei”. E não se trata apenas de uma figura de estilo. Carlos Ramos, juntamente com Amália Rodrigues, chegou a cantar em privado para a princesa Margarida de Inglaterra.
Aristocrata do fado? Para António Morais, “era uma pessoa que tinha de se diferenciar um bocadinho. Ele tinha uma certa cultura, bom-gosto, muita apresentação, sabia estar”. Saber estar que lhe facultou a entrada nos estratos sociais mais elevados – “ia a casa de toda a alta sociedade do país”, assegura o genro do fadista, frisando que isso não impedia Carlos Ramos de cantar “para o povo”. Costumava dizer que “cantar para a geral é muito importante”.

Todos Do Belenenses

Era uma época entre os anos 40 e o final dos 60, deconvívio entre a gente fadista. “Havia uma ligação entre os fadistas, de homens com história, com valor, casos do Manuel Fernandes, do ‘miúdo da bica’, do Alfredo Marceneiro, do Tony de Matos, do António dos Santos, do Manuel de Almeida, com quem Carlos Ramos teve uma relação bastante forte – trabalharam muitos anos juntos na Tipóia.“ O convívio estendia-se ao futebol. Carlos Ramos era adepto ferrenho do Beleneneses, talvez por ter nascido ali ao pé, em Alcântara. “Não sei se sabe, mas a amioria dos fadistas era do Belenenses”, diz António Morais. Como se vê, até na preferência clubista Carlos Ramos foi azul.
Durante 22 anos, Carlos Ramos foi radiotelegrafista da Marconi. “Um dos melhores”, garante António Morais que, a propósito da profissão de fadista, tem uma história para contar: “Como ele era semiprofissional, deitava-se e levantava-se tarde todos os dias e às vezes chegava atrasado. É claro que tinham de chamá-lo à ordem. Um dia, ele chegou mais atrasado, foi ao vestiário, despiu-se todo, ficou só com os sapatos, meias e gravata e apresentou-se assim ao chefe, dizendo: ‘O meu interesse em chegar cedo foi tão grande que nem perdi tempo a vestir-me!’.” Não se sabe se, depois disso, o chefe alguma vez lhe voltou a cantar o célebre “Não venhas tarde”…