Arquivo mensal: Maio 2019

Rui Veloso – “Rui Mingos No Tempo Dos Samurais” (concerto / documentário / televisão / rtp)

03.01.1991
Sábado, Local, Televisão


Rui Mingos No Tempo Dos Samurais



Todos precisam de um pai. Rui Veloso é papá e papa do rock português, ou seja, é venerado como pai e como santo. Não que p “Chico Fininho” fosse muito católico, ou que actividades como “Rolar contigo num Palheiro”, sejam próprias para dizer na missa.. Muito menos no “Dia da Comunhão Solene”, ainda segundo as palavras de Carlos Tê.
Os dias 25, 26 e 27 de Outubro do ano passado foram datas de liturgia e reunião familiar, em Lisboa, no Coliseu dos Recreios, transformado em catedral a que acorreram milhares de fiéis, entre os quais o nosso presidente fixe. Segundo rezam as crónica, foram duas horas e meia de boas canções que não deixaram ninguém indiferente, celebração festiva de uma carreira feita de coerência e pureza de intenções. Rui Veloso e Carlos Tê sabem contar histórias. Pelos “blues”, estrada que o cantor gosta de trilhar, em baladas sobre gentes e lugares que conhece e imagina. E pelo rock, o tal de que é pai em Portugal.
No Outono foi assim – passagem por caminhos antigos, de “Rolar contigo num Palheiro”, ouvir o “Negro do Rádio de Pilhas”, ou os percorridos pelo andar gingão do Chico da Cantareira, mas sobretudo a homenagem completa de “Mingos e os Samurais”, cantando as glórias e agruras da banda que quase ninguém conheceu. Personagens de um tempo de que hoje sorrimos e recordamos com emoção. Menos os mais novos, que talvez não saibam como é escuro quando “Não Há estrelas No Céu”.

Vários – World – “O Melhor De 1990” (balanço anual)

Pop-Rock 02.01.1991


O Melhor de 1990

WORLD


1990 foi sobretudo o ano de todos os encontros, cabendo ao Oriente a parte de leão, desde a enésima versão das vozes búlgaras às divagações eléctricas centradas na Ásia. Em Portugal, o acontecimento do ano, nesta área musical, passou despercebido: numa perspectiva descentralizadora, realizaram-se no passado Verão, em Oeiras, Famalicão e Évora, os primeiros Encontros Musicais da Tradição Europeia, organizados por uma cooperativa nortenha. Foi possível escutar ao vivo a magia musical de regiões culturalmente tão ricas como a Escócia, a Cantábria, o Piemonte e a Ocitânia, trazidas respectivamente por Andrew Cronshaw, Manuel Luna, La Ciapa Rusa e Perlinpinpin Folc. Também no capítulo das edições discográficas, nomeadamente de música celta, os adeptos não se puderam queixar, graças a alguns importadores nacionais que tornaram disponíveis, entre nós, catálogos tão importantes como os da “topic”, da “Iona” ou da “Green Linnet”.

MARTA SEBESTYEN & MUZSIKAS
Blues For Transylvania
Hannibal, distri. Nébula

Foi na Transilvânia que Drácula e Ceaesescu, pela imaginação ou pela revolta verdadeira da população, se viram arrancados dos tronos do poder. Terra de violentos confrontos, telúricos e políticos, cantada pela voz forte e doce de Marta Sebestyen. Como em “The Prisoner’s Song” e “Muzsikas”, de novo se canta a história e o dorido queixume da alma romena, aqui expressos com tanta intensidade, como se do lamento de um “blues” se tratasse. No seio das “Muzsikas”, a tradição é assumida como acto. No ano passado, a banda tocava em homenagem às vítimas de Timisoara, conciliando o inconciliável – tradição e revolução.

MARI BOINE PERSEN
Gula Gula
Real World, distri. Edisom

Mari nasceu em Gamehisnjárga, promontório algures a norte da Escandinávia, atravessado pelo rio Anarjohka e habitado pela etnia Sámi. Os mapas não registam tal local. Nunca é tarde para se aprender geografia. Mari optou pela “civilização”, passando a sentir na carne o confronto entre diferentes culturas. Na escola ensinavam em norueguês. Resolveu mudar o estado das coisas, recuperando a língua e o espírito antigos. “Gula Gula” significa “Escuta a voz dos antepassados – assombrações e melodias estranhas, auroras boreais que esculpem, lentamente, novas maneiras de sentir.

Banda Sonora Do Filme “The Mahabharata”
Real World, distri. Edisom

O princípio do mundo, segundo a lenda hindu, recriado pela inspiração colectiva de um grupo de intérpretes de várias nacionalidades, baseada nos sons tradicionais, nomeadamente do Tibete e da Índia. Música de “fusão”, bem entendido, que combina diferentes sensibilidades e discursos musicais, unificados por uma comum aspiração à beleza absoluta. “Música do mundo” em todo o seu esplendor a que os poemas de Rabindranath Tagore e a voz de Sarmila Roy acrescentam a dimensão do sublime.

MOUTH MUSIC
Mouth Music
Triple Earth, import. Contraverso

Discos de música celta, saídos este ano, ainda cá não chegaram. Este “Mouth Music” (ou “Puirt a Beul”, em gaélico, designando um estilo vocal destinado à dança) acaba por ser um bom substituto, talvez não muito do agrado dos puristas, mas, de qualquer modo, uma entre outras interpretações possíveis da música tradicional escocesa. Os instrumentos de Martin Swan e a voz cristalina de Talitha MacKenzie fazem-nos acreditar que o mundo é uma história de encantar.


ELECTRO

Tornado obsoleto o termo “new age” – por demasiado redutor quando aplicado, na generalidade, a músicas formal e esteticamente assentes no primado da electrónica -, nem por isso estas têm deixado de enveredar por caminhos e “idades” (passadas e futuras) que constantemente procuram actualizar o conceito de “novo”, “Ambiental”, “industrial”, “planante”, “meditativa”, “ritual”, “techno”, são outras categorias abrigando o espírito exploratório dos “malucos” dos computadores, sequenciadores, sintetizadores e máquinas afins, unidos na epopeia de “dar novos mundos” ao mundo da música.
1990 foi o ano da pluralidade e da síntese dos folclores planetários (reais ou imaginários) com a alquimia digital. Nunca como agora soaram tão bem juntos o vento, a água, o canto das vozes e dos instrumentos tradicionais, a electricidade e a imaginação humana. Insustentável beleza do Apocalipse…

JON HASSELL
City: Works Of Fiction
Land, import. Contraverso

O trompete galáctico e tribal, guia condutor das viagens pelos sonhos e lugares luxuriantes do mundo que há de vir, Jon Hassell demanda a totalidade e nunca, como nestas “ficções”, esteve tão próximo de a alcançar. Depois das experiências, em “Flesh Of The Spirit”, com o agrupamento do Burkina Faso, Farafina, e do tropicalismo brasileiro de “Earthquake Island”, o trompetista americano lançado por Brian Eno consegue criar uma espécie de “funky” estratosférico (o temas “Voiceprint” teve mesmo direito a nova mistura, em versão maxi, ainda mais dançável) que actualiza a ideia de “aldeia global)” enunciada por McLuhan.

INGRAM MARSHALL
Three Penitential Visions / Hidden Voices
Elektra Nonesuch, import. VGM e Contraverso

Para Ingram Marshall, todos os sons são matéria susceptível de transmutação. Um computador soletra as sílabas mágicas da natureza, sirenes de nevoeiro vibram como sinfonias. “Abrandamento da percepção temporal” e “evocações encantatórias”, segundo o compositor. Em “Three Penitential Visions” utiliza como matriz sonora o ranger do gigantesco portão em aço da cadeia de Alcatraz. “Hiden Voices” junta “samples” de cânticos fúnebres russos, a uma soprano feminina entoando um hino religioso. Reinvenção do sagrado.

STEVE SHEHAN
Arrows
Made To Measure, distri. Contraverso

Steve Shehan toca neste disco cerca de cinquenta instrumentos diferentes, desde os artefactos étnicos primitivos aos “samplers” mais sofisticados. Na confluência das sínteses festivas da dupla Musci / Venosta com o ascetismo e contenção de Stephan Micus, a música de Steve Shehan cria paisagens de extraordinária serenidade e complexidade, recriando as forças de um mundo ancestral em que “a música existia somente por causa do poder da vibração e do seu efeito, místico e sensível, sobre a condição humana”.

ERSATZ
Ersatz
Pinpoint, import. Contraverso

Dieter Moebius (antigo companheiro de Joachim Roedelius, nos Cluster), e um tal Renziehausen, inventaram a fábrica do futuro. Ambientais, industriais, frios, robóticos, hipnóticos, os Ersatz são tudo o que se lhes quiser chamar. Se Roedelius representava a faceta romântica dos Cluster, Moebius deitou para trás a melodia e carrega com força na tecla do ritmo e dos automatismos electrónicos. Abstracta, terrivelmente sedutora, a música destes alemães prolonga a racionalidade milimétrica dos Kraftwerk até ao limite demoníaco da pura matemática.

KLF – “Chill-Out” (o melhor disco do ano de 1990)

Pop-Rock 02.01.1991


O DISCO DO ANO



Depois de “Chill Out”, deixa de fazer sentido falar de “nova vaga” ou de simples evolução musical. Se calhar, nem sequer vale a pena falar de “música”. Para já o demónio é quem domina a “nova” idade.

O universo evolui aparentemente em círculos. Na verdade não se trata de círculos, mas de uma infinita espiral a desdobrar-se pela eternidade. Assim, contrariamente às aparências, nada se repete e tudo se transforma. Na música, como em tudo. Em “Chill Out”, dos KLF, cada som evoca a um tempo as imagens do passado e visões de um possível futuro. Da capa, em que figura bucólica paisagem onde pastam pacíficos carneiros, aos acordes espaciais de longínquas guitarras, assoma o espectro dos Pink Floyd (é lícito ver no disco uma “pastiche” irónica a “Atom Heart Mother”) e dos misticismos electrónicos que, nos anos 70, viriam a desembocar na corrente denominada “planante”.
O estilo e o conceito prestam-se a todas as interpretações e mistificações, confundindo por igual aqueles que insistem em ver no disco um indesmentível sinal de retorno ao passado e os que julgam ter encontrado, nos KLF, os profetas do som da “nova idade”. “Chill Out” existe, simplesmente, como objecto de catalogação impossível, buraco negro que aspira a multiplicidade de géneros, esvaziando-os de sentido, ao mesmo tempo que se serve deles como plasticina infinitamente moldável e permeável a todas as perversões. Trata-se, em concreto, de uma longa sucessão de colagens sonoras, em que cabe tudo: a electrónica, sons naturais, pedaços roubados (diz-se “samplados”.) de outros discos, mensagens quase subliminais, o silêncio. A primeira impressão sugere serenidade e promessas de um futuro dourado, como o antecipam os “new age gurus” de longas barbas e cérebros ligados a terminais de computadores, perdidos na contemplação de paraísos que julgam naturais. Depois nasce a suspeita. Como nas primeiras imagens de “Blue Velvet”, passa-se da luz e cores da superfície, para as sombras e monstruosidades ocultas nas traseiras da realidade. Erra quem julga ver na actual vaga da “ambiente house” (torna-se cómodo arrumar o disco nesta categoria) um passo no sentido da pacificação. Não se trata (como a capa e a sonoridade geral parecem sugerir) de um retorno à Natureza, mas, pelo contrário, de uma fuga em direcção desconhecida. Tornada uma acumulação de símbolos destituídos de qualquer significado, a realidade transforma-se numa sucessão de imagens, deslizando à velocidade de um filme. O caminho escolhido pela nova geração não é o da integração, mas antes o da fuga para a frente – do êxtase da dança alimentada a comprimidos, incapaz já de prolongar por mais tempo a alucinação, avançou-se em direcção ao asilêncio -, não o da serenidade finalmente atingida, mas o de quem não tem nada a dizer, por nada haver já que dizer. Do sonho frenético para o sonho da anestesia. Paralisia. Instantâneo fotográfico – em “Chill Out”, a música não avança nem recua, todos os movimentos se autodevoram, culminando um processo de simulação, que acumula farrapos e simulacros de todos os géneros que fizeram a história da música popular, para os reduzir a nada, como se, para além de todo o movimento, estivesse irremediavelmente a absoluta imobilidade, isto é, a morte. Os KLF obrigam a que se comece tudo de novo.