Arquivo mensal: Julho 2017

Ala dos Namorados – “Solta-se o Beijo”

Sons

5 de Fevereiro 1999


Beijos ao vivo

Ala dos Namorados
Solta-se o Beijo (6)
Ed. e distri. EMI-VC


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A Ala dos Namorados é uma boa e sólida banda portuguesa. Das poucas, aliás, que ainda se podem considerar genuinamente portuguesas. “Solta-se o Beijo” reúne material gravado ao vivo, o ano passado, em Paço de Arcos, dos seus três álbuns de estúdio, “Por Minha Dama” e “Ala dos Namorados”, ambos de 1994, e “Alma”, de 1996. Mais um original, “Solta-se o beijo”, e três temas nunca antes gravados pelo grupo, “Can’t help falling in love”, “Perdidamente” e “Não tragais borzeguis pretos”. De “Solta-se o beijo” nada a dizer de especial, num tema de “music hall”, com letra de Catarina Furtado, vocalizado pela convidada Sara Tavares. As harmonias vocais dos Vozes da Rádio funcionam como mais-valia no “standard”, “Can’t help falling in love”, enquanto “Perdidamente”, um original dos Trovante sobre um poema de Florbela Espanca, conta novamente com uma vocalização de Sara Tavares, cujos trejeitos não fazem esquecer Luís Represas. O tom de música antiga, tão caro à Ala, está presente no tradicional do séc. XVI “Não tragais borzeguis pretos”, no registo de trovador que casa bem com a voz de Nuno Guerreiro. O modo como a Ala dos Namorados se apropria do universo folk, adoptando-a a um discurso original, é, aliás, uma das características mais fascinantes do grupo, exemplarmente demonstrada em temas como “De tudo e de nada” ou no belíssimo, e colorido com tonalidades medievais, “Manto negro”. E se a voz de Nuno Guerreiro se mostra tão à vontade tanto nos ambientes mais fadistas como nas baladas ou nas marchas populares, já o registo mais agudo de fantoche que utiliza em “Princesa desalento” irrita sobremaneira, um final infeliz para um disco algo desequilibrado, pautado com demasiada frequência pelo ruído das palmas da assistência. Nada como a intimidade do estúdio para fazer ressaltar a paixão dos namorados.



Amélia Muge, Brigada Victor Jara, Gaiteiros de Lisboa, João Afonso e Sérgio Godinho – “Novas vos Trago”

Sons

11 de Junho 1999
PORTUGUESES


Romances para o ano 2000

Amélia Muge, Brigada Victor Jara, Gaiteiros de Lisboa, João Afonso e Sérgio Godinho
Novas vos Trago (8)
Ed. e distri. Tradisom


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A ideia é excelente e capaz de constituir um estímulo adicional para os neurónios dos músicos envolvidos: criar novos arranjos e interpretações para romances da tradição ibérica medieval. O livrete (igualmente excelente, aliás, como toda a apresentação gráfica do CD) que acompanha a edição de “Novas vos Trago” explica em detalhe a origem deste género musical que cruzou continentes e oceanos ao longo da expansão portuguesa nos séculos posteriores e deixou vestígios em territórios geográficos tão distantes como o Brasil e Goa. Na origem do projecto está um programa designado “Marés do Som”, conjunto de espectáculos e iniciativas musicais enquadrados no ciclo de exposições Memórias do Oriente promovido pela Comissão dos Descobrimentos. Foi neste âmbito que surgiu o convite a Amélia Muge, Brigada Victor Jara, Gaiteiros de Lisboa, João Afonso e Sérgio Godinho, tendo presente que o produto musical daí resultante obedeceria a critérios de contemporaneidade e a uma leitura actualizada e vivificante do romanceiro tradicional. Neste sentido, se “Novas vos Trago” traduz as várias sensibilidades dos artistas participantes, representou de igual modo a possibilidade de estes poderem experimentar novos métodos de criação e de se envolverem em contextos poético-musicais divergentes das facetas mais habituais das respectivas obras. É neste aspecto que “Novas vos Trago” se revela particularmente fascinante, no modo como faz sobressair a diversidade a partir da unidade do conceito.
Dez temas (dois por cada artista) compõem o alinhamento de “Novas vos Trago”. João Afonso abre o disco com “Morte do príncipe D. Afonso de Portugal”. Este e o outro tema com a sua chancela, “S. Simão”, constituem o elo fraco do disco. A voz, demasiado lisa e pouco expressiva do cantor, impede qualquer tipo de profundidade. Parece Fausto com anemia. Os arranjos, simplistas e algo preguiçosos, não ajudam.
Sérgio Godinho aparece a seguir com “O rei e a virgem romeira”. Não é um portento, mas soa interessante a maneira como tira partido do naipe de cordas. Em “As bodas de Paris” está nas suas sete quintas, num tom “andante” sobre a temática do amante e do marido traído que pode voltar a qualquer momento, recorrente em inúmeros romances medievais (pudera, a ida dos fidalgos para a guerra deixava em casa desejos não satisfeitos, não havendo cinto de castidade que lhes valesse…).
Amélia Muge faz questão, como seria de esperar, em correr riscos. O arranjo de José Manuel David (que também toca neste tema trompa, gaita-de-foles, caixa de rufo, tamboril galego, bombo e adufe) e a presença de outros dois Gaiteiros de Lisboa, Pedro Casaes (coros) e Rui Vaz (coros, gaita-de-foles, caixa de rufo e adufe) permitem-lhe fazer dançar a voz, como tanto gosta, em “Donzela guerreira”, um tema feminista “avant la lettre”. A toada épica, envolvida pelo coral dos Gaiteiros, regressa em “Dona Olívia”. Amélia canta como se a D. Olívia fosse ela num tema que vale ainda pela intervenção de José Manuel David na cromorna e pelo lamento final, a perder-se no fundo das eras, da cantora.
Como um pregão, “Floresvento” anuncia a entrada oficial dos Gaiteiros de Lisboa. Soa completamente medieval, com o toque de ousadia que os Gaiteiros imprimem a tudo o que fazem. A parte da polifonia vocal faz lembrar os Gentle Giant mas a gaita-de-foles repões de imediato as coisas no lugar certo. Que no caso dos Gaiteiros nunca é o que se espera. “O falso cego”, faixa que encerra “Novas vos Trago”, inicia-se num tom brechtiano e prossegue com uma espantosa e originalíssima polifonia vocal, aspecto em que os Gaiteiros se revelam, cada vez mais, verdadeiros mestres.
A maior e mais agradável surpresa de “Novas vos Trago” é trazida, porém, pela Brigada Victor Jara, que parece ter agarrado a oportunidade para se lançar em voos mais altos do que os que lhe são habituais. “Parto em terras distantes”, com arranjo de Aurélio Malva, balança com o tom medievo apropriado na voz da convidada Margarida Miranda, apoiada pelo proverbial toque de classe do violino de Manuel Rocha. Mas a surpresa maior e um dos momentos mais tocantes de todo o disco é a vocalização de Lena d’Água, na segunda versão do mesmo tema, desta feita assinada por Ricardo Dias. Diferente de tudo o que fez antes, Lena faz aparecer nos recantos da sua voz uma Idade Média imaginária. O modo como a antiga cantora dos Beatnicks e dos Salada de Frutas coloca aqui a voz e faz uso de ornamentações, permite pensar num novo reposicionamento deu na música popular portuguesa. Lena d’Água, a mesma de “Olha o Robô”, quem diria?…
“Novas vos Trago” aproxima a música portuguesa das suas raízes mais longínquas, empurrando-a simultaneamente para o futuro. Um trabalho com cabeça, tronco e membros. Ou uma questão de amor…



Maria João e Mário Laginha – “Lobos, Raposas e Coiotes”

Sons

8 de Outubro 1999


Maria João e Mário Laginha
Lobos, Raposas e Coiotes (8)
Ed. e distri. Universal


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Voz única da música feita em Portugal, Maria João ensaiou ao ,longo da sua carreira experiências várias que incluíram os diálogos frutuosos com a pianista japonesa Aki Takase e a participação, em duo, trio ou quarteto, com alguns dos nomes mais prestigiados do jazz contemporâneo. Mas foi com o pianista Mário Laginha que a sua voz e a sua expressividade de intérprete de excepção encontraram terreno sólido para se desenvolver com outra regularidade. Ao lado de Mário Laginha, Maria João redescobriu-se numa intimidade que tem sabido renovar a cada novo lance. Se em “Cor”, álbum cronologicamente anterior a este mas posterior no tempo da sua realização, os dois músicos cultivaram a balada de tonalidades étnicas, neste novo trabalho a inclusão de uma orquestra concedeu-lhes uma maior amplitude e espaço de manobra. “Lobos, Raposas e Coiotes” vive da dinâmica entre as grandes massas sonoras orquestrais e os discursos solistas da voz e do piano, num todo cujo parentesco estético com a obra mais concertista de Egberto Gismonti é, por vezes, evidente. E se Maria João não descura a assinatura de registos que se tornaram imagem de marca do seu estilo – referências à Índia, a África e ao Brasil, os trejeitos infantis em contraste com os graves guturais “masculinizados” – todas essas vozes parecem ter encontrado um equilíbrio novo e uma razão de ser, quando, noutras ocasiões, rondaram perigosamente o lugar-comum. As extraordinárias interpretações de “Beatriz”, de Edu Lobo e Chico Buarque, e do clássico “Asa branca”, de Luís Gonzaga, ou os tempos contemplativos de “Chão”, fazem esquecer a técnica para revelarem emoção pura. Os lados gismontiano e “meredith monkiano” sobressaem em “Uma casa com gente” enquanto “Várias danças” é motivo de múltiplas cadências, do som e da alma. Mário Laginha, por seu lado, brinca com prazer com os naipes orquestrais, extraindo-lhes uma ludicidade que distingue “Lobos, Raposas e Coiotes” do academismo que afecta tantos trabalhos deste tipo ao mesmo tempo que o seu “soloing” continua a revelar nuances inesperadas, como a melancolia, muito satieana, de “Chão”. Uma campanha bem orquestrada.