Arquivo mensal: Julho 2017

Dulce Pontes – “O Primeiro Canto”

Sons

15 de Outubro 1999
PORTUGUESES


Voz de barro

Dulce Pontes
O Primeiro Canto (7)
Polydor, distri. Universal


dp

Dulce Pontes reencontrou o canto que melhor calha à sua voz. O canto de inspiração étnica, afastadas anteriores hesitações e desvios de percurso. Novos registos vocais nascem como que por magia da garganta de Dulce nesta sua demanda do barro primitivo capaz de se transmutar nos quatro elementos que compõem o mundo. “Alma guerreira (fogo)” abre de forma auspiciosa, em espirais que começam por sugerir o mesmo tipo de pesquisas de Amélia Muge, embora descaiam no fim para a pompa de um Rick Wakeman a quem presentearam com brinquedos novos. Depois da obrigatória passagem pelo fado, em “Fado-mães”, Dulce toca na tradição transmontana com um “Tirioni” muito Brigada Victor Jara mas nem por isso menor na sedução que transmite. Dedicado a José Afonso, o título-tema é outro dos bons momentos de “O Primeiro Canto”, tanto pela beleza formal – com citações a Índia e a África – como pela versatilidade que a cantora imprime à interpretação, num baile entre os graves e os agudos em contraponto com o “overdubbing”. Depois da folk de câmara de “O que for há-de ser (ar)”, dos momentos mais tocantes do disco, “Modinha das saias” mostra um trio com Maria João e a cantora lírica Gemma Bertagnolli que recorda a Banda do Casaco. “É tão grande o Alentejo” é mesmo grande, com o cante de Dulce e dos Ganhões de Castro Verde a responder à gaita-de-foles do sueco Anders Norudde, dos Hedningarna, sobre uma drone de didgeridoo. Espectáculo dentro do espectáculo, a voz de Dulce em “Pátio dos amores” bem poderia ser uma homenagem a Amália. O flamenco (“Garça perdida”), a música angolana, (“Velha chica”, com Waldemar Bastos), o celtismo com banca num baile popular (“Ai solidom” com a harpa do bretão Myrdhin), a new age de ouvido à escuta a Maria João (“Suite da terra”) ou o prazer de ouvir Kepa Junkera tocar trikitixa e, em geral, um abraço estreito à world music, são outros focos de interesse que fazem deste primeiro canto de Dulce Pontes um desfile de promessas cumpridas que apenas pecará pelo desculpável novo-riquismo da produção “porquê usar apenas um som quando se pode usar dez?” e de uma lista de convidados – além dos nomes citados, participam Leonardo Amuedo, Justin Vali, Wayne Shorter, Jacques Morelenbaum e Trilok Gurtu – que por pouco não rivalizava com Carlos Nuñez.



Discmen – “Part Human Part Simpson”

19 de Novembro 1999
PORTUGUESES

Discmen
Part Human Part Simpson (8)
Microwave/Staalplaat, distri. Ananana


discmen

Os homens-disco são apenas um, José Moura, que depois de uma estreia auspiciosa com produção nacional regressa com um álbum distribuído internacionalmente pela prestigiada editora holandesa de “new music” Staalplaat. Adepto do erro controlado enquanto sistema gerador e catalisador/reconversor da prática musical, confesso admirador dos Oval, Discmen (vamos chamar-lhe assim) usou no seu trabalho anterior discos compactos danificados para a criação de grooves descontínuos e agrestes que evocavam, de facto, as “malfunctions” digitais do grupo de Markus Popp. Em “Half Human Half Simpson”, se não mudou a matéria-prima, terá mudado por certo o aproveitamento e manipulação da mesma, já que a música evoluiu para sonoridades cíclicas mais fluidas que lembram “Idioglossia” de Chris Burke mas, sobretudo, um tipo de colagem usado pelos Negativeland. 25 segmentos electrónicos de curta duração, com montagem e desmontagem de batidas, drones, timbres e ciclos capturados do leitor de CD, combinam automatismo e emoção digital. Artesão com corpo de homem e espírito de Simpson, Discmen soube tirar o melhor partido dos materiais utilizados, qual demiurgo de um universo de microssistemas autónomos produtores de sinais de comunicação eternamente rolando em sistemas fechados. Imagens bloqueadas de um filme de animação que, à força de repetir os mesmos “gags”, se transforma em ameaça.

Quadrilha – “Quarto Crescente”

19 de Novembro 1999
PORTUGUESES


Quadrilha
Quarto Crescente (6)
Vachier & Associados, distri. MVM


quad

Há anos a jogar na segunda divisão dos grupos de música de raiz tradicional, os Quadrilha têm tentado de várias formas ascender ao escalão principal. Demasiado tempo abrigada à sombra dos Romanças, a banda liderada por Sebastião Antunes persegue uma fórmula relativamente virgem no panorama nacional: o folk rock, sem grandes pretensões de autenticidade etnográfica e voltado para a simplificação e estilização de ritmos e melodias que apenas remotamente cultivam o respeito pela tradição. “Quarto Crescente” denota influências várias que vão dos Romanças e Luís Represas, em Portugal, aos Fairport Convention, em Inglaterra. A instrumentação é mais rica do que em álbuns anteriores e inclui violino, gaita-de-foles, harpa e sanfona. Não chega para fazer de “Quarto Crescente” um álbum essencial, mas tem a virtude de refrescar um som que, uma vez mais, se revelou incapaz de ultrapassar as limitações do costume: pobreza rítmica, leitura redutora da música tradicional, mas também ausência de um verdadeiro espírito de ruptura. Contudo, há momentos em “Quarto Crescente” a merecer alguma atenção, como “Ninguém é dono do mar”, o canto das ondas de “Canto do quarto crescente”, o introspectivo “Lágrima de lobo”, “Má sorte teres sido tu” (daqui poderia nascer um caminho seguramente mais interessante para a Quadrilha), uma “Aninhas” devedora dos Vai de Roda e uma “Valsa da bailarina” que cruza os Ad Ville Que Pourra com Jorge Palma. Ainda não é desta que os Quadrilha subirão à primeira divisão, mas a verdade é que dela já estiveram mais longe.