Arquivo mensal: Janeiro 2017

Stephen Scott – “Vikings of the Sunrise”

Pop Rock

8 Janeiro 1997
poprock

Stephen Scott
Vikings of the Sunrise
NEW ALBION, DISTRI. ANANANA


ss

Subintitulado “Fantasy of the Polynesian Star Path Navigators”, esta nova composição do autor de “Minerva’s Web” propõe a exploração sistemática das possibilidades dramáticas, expressivas e tímbricas do piano, na condição de não se tocar nas suas teclas. É surpreendente o modo como os Bowed Piano Ensemble armam uma sinfonia de cambiantes insuspeitos, que vão desde o ambientalismo naturalista ao abstraccionismo mais radical. As madeiras são raspadas e percutidas, as cordas submetidas a toda a espécie de maus tratos. O que poderia resultar numa experiência formal soa, pelo contrário, como organização metódica – nalguns casos romântica – dos materiais e do conceito original, “as navegações, explorações e descobertas do Oceano Pacífico, desde a Antiguidade aos tempos modernos”. São-nos ocultados os gestos, na sua função mecânica, para se nos deparar o prazer do som pelo som, moldado em rítmicas minimalistas e paisagismos de colorações ambíguas. Incursão em profundidade no lado mais telúrico do piano, “Vikings of the Sunrise” transporta-nos para latitudes ignoradas do planeta, criando imagens perturbantes, que oscilam entre a tragédia subaquática de “The Sinking of Titanic”, de Gavin Bryars, e as dissoluções modais de um Ingram Marshall. Obrigatório. (9)



Cluster – “Live Japan 1996” + Kluster – “Eruption” + Dunkelziffer – “In The Night” – + Dunkelziffer – “Dunkelziffer III” + La Düsseldorf – “La Düsseldorf” + Yatha Sidhra – “A Meditation Mass”

Pop Rock

4 Junho 1997
reedições

Missa nos claustros de Düsseldorf

Cluster
Live Japan 1996 (7)
SOUL STATIC SOUND, DISTRI. SYMBIOSE

Kluster
Eruption (7)
MARGINAL TALENT, DISTRI. SYMBIOSE

Dunkelziffer
In the Night (7)
Dunkelziffer III (7)
FÜNF UND VIERZIG, DISTRI. MEGAMÚSICA

La Düsseldorf
La Düsseldorf (8)
GERMANOFON, IMPORT. CARBONO

Yatha Sidhra
A Meditation Mass (7)
TEMPEL, IMPORT. PLANETA ROCK


ys

Alemanha. “Krautrock”. De reedição em reedição vai-se desdobrando o mapa. Os Cluster – está toda a gente de acordo, ou, se não está, deveria estar – são os pais do pós-rock. Foram eles os primeiros, na Alemanha, a ligar os sintetizadores a uma unidade fabril, a ousarem baixar a cabeça do cosmo para o inferno da urbe industrializada, a tratar o minimalismo como um palácio de ferro. Moebius e Roedelius continuam activos. “Live Japan 1996” apresenta a dupla germânica numa série de concertos ao vivo registados o ano passado em Tóquio e Osaka. Sem constrangimentos temporais de qualquer espécie os dois elaboram nas suas máquinas duas longas improvisações (25 e 35 minutos), mais dois excertos curtos, que estão longe do caos das gravações pioneiras, ainda sob a designação Kluster, “Klopfzeichen” e “Zwei Osterei”.
Sobressaem as progressões lentas e minimalistas, numa mutação imperceptível que acumula e liberta pequenos focos de tensão (apontamentos de piano impressionista, interferências eléctricas quase subliminares). A meia hora final é um mantra tribal/industrial infatigável e monótono até ao encantamento que confirma os Cluster como progenitores da prole do pós-rock. O prazer da manipulação pura por dois magos da electrónica.
“Kluster und Eruption”, gravado 25 anos antes, em 1971, é uma obra rodeada de alguma controvérsia. Embora na ficha técnica conste o nome Kluster, é opinião corrente que o disco (com a indicação de ter sido gravado ao vivo) é na realidade o resultado da manipulação, por Conrad Schnitzler, de fitas do grupo gravadas previamente. Seja como for, não se está longe da sonoridade dos dois primeiros trabalhos dos Kluster, atrás citados. São 56 minutos (separados em dois temas sem título) de ruído, ou melhor, de “elektroakustische Musik”, que se acompanham como a um corpo sinistrado. Ruído sim, mas do bom e genuinamente revolucionário.
Os Dunkelziffer existiram nos anos 80, podendo ser considerados “clones” dos Can, o que se compreende, atendendo a que da sua formação fazem parte o vocalista japonês Damo Suzuki, que integrou os Can, nos álbuns “Soundtracks”, “Tago Mago”, “Ege Bamyasi” e “Future Days”, e elementos dos Phantom Band, banda do baterista dos Can, Jaki Liebezeit. Nos Dunkelziffer é tudo mais leve e menos profundo do que nos Can. A batida é semelhante mas nota-se uma tendência para o “jazz rock”, relacionada com a preponderância no som do grupo do saxofonista Wolfgang Schubert. Damo Suzuki também se mostra bastante mais comedido, enquadrando a sua voz num formato de canção, o que raramente fazia nos Can. É a diferença entre a improvisação orgânica e mágica dos originais e a composição planeada dos Dunkelziffer.
“In The Night” é mais calmo, com incursões no reggae e na música árabe (“Orientsal cafe”) e um tema inicial longo, “Retrospection”, na linha da música produzida pela banda de Irmin Schmidt e Bruno Spoerri, os Toy Planet. “Dunkelziffer III”, editado a seguir (terceiro de uma discografia total de cinco álbuns), tem maior consistência e é ainda mais parecido com os Can. O ritmo adensa-se, Suzuki arrisca chegar ao registo gutural que usava nos Can, os teclados e o saxofone dispensam a facilidade e a beleza, por vezes fútil, do álbum anterior. Um bom sucedâneo dos reis de Colónia.
Os La Düsseldorf, trio liderado pelo dissidente dos Neu!, Klaus Dinger, conseguiram criar, com o seu álbum homónimo de estreia, um clássico do “krautrock”. Protótipo do rock minimal, influenciou directamente o punk rock e, duas décadas mais tarde, o pós-rock. A electrónica rodava numa pista de corridas, as guitarras e a bateria metronómica funcionavam com a precisão de um motor. A música dos La Düsseldorf fez divergir a mecânica futurista dos Kraftwerk para o terreno duro de uma cidade, Düsseldorf, hipnotizada pela sua própria paranóia.
O oposto aplica-se aos Yatha Sidhra, com “A Meditation Mass”, de 1973, filho único de um projecto idealizado pelo multinstrumentista Rolf Fichter (“Moog”, flauta indiana, vibrafone, piano eléctrico, guitarra eléctrica, voz) com o seu irmão Klaus (bateria e percussão), cuja música é típica da vertente mais cósmica do “krautrock”. Considerado por alguns uma das obras-primas da “kosmische musik”, entre os quais os autores da enciclopédia “A Crack In The Cosmic Eye”, “A Meditation Mass” é uma suite dividida em quatro movimentos que cativa enquanto o grupo se mantém fiel à electrónica planante, de pendor místico, à la Popol Vuh, mas se torna penosamente embaraçosa quando Rof Fichter decide que também sabe tocar jazz e solar no vibrafone e no piano eléctrico.
De resto, os jovens “krautrockers” eram, regra geral, executantes com óbvias limitações (e, amiúde, inaptos para dominar o mais simples 4/4, fruto da tal falta de convívio com as raízes negras do rock ’n’ roll), embora óptimos conceptualistas e manipuladores de som, quando se tratava de disparar automatismos (Kraftwerk, Tangerine Dream pós-“Phaedra”, Cluster…). Exemplos não faltam, inclusive em obras e autores considerados marcantes. Veja-se os casos dos Tangerine Dream e do Edgar Froese guitarrista, antes de optarem pela electrónica total, do Klaus Schulze baterista, dos Mythos, dos próprios Faust… Há excepções, claro: Manuel Göttsching (apesar do ácido…), Michael Rother, Achim Reichel, Ax Genrich (o Hendrix alemão), Michael Karoli, Jaki Liebezeit, Jürgen Dollase, Uli Trepte, Mani Neumeier…
Apesar desta lacuna, “A Meditation Mass” conserva uma aura indefinível e uma originalidade que a faz atravessar relativamente incólume a passagem do tempo. Ao Planeta Rock, especializado na área do progressivo, chegaram também – em quantidade reduzida – “Malesch” e “2nd”, dos Agitation Free, “Traum”, dos Hölderlin, “Broselmaschine”, dos Broselmaschine, “Saat”, dos Emtidi, “UFO” e “Hinten”, dos Guru Guru, “Trauma”, dos Gomorrha, “Motherfucker gmbh”, dos Xhol, “Schwingungen” e “Le Berceau de Cristal”, dos Ash Ra Tempel, “Irrlicht”, “Cyborg” e “Picture Music”, de Klaus Schulze, e toda a discografia – historicamente importante mas musicalmente irrelevante – dos Amon Düül (com pouco ou nada a ver, em termos musicais, com os Amon Düül II…). Enquanto isto, a Torpedo prepara-se para receber Whithuser & Westrupp, Harmonia e Liliental. A MVM, a Música Alternativa e a Megastore da Valentim de Carvalho começam a disseminar os discos e a mensagem do pós-rock, dignos continuadores do experimentalismo e da atitude do “krautrock”. A propósito: se gostam dos Neu! e acham, como nós, que “Surrender To The Night”, dos Trans AM, é uma das obras-chave do movimento, comecem, desde já, a procurar o “álbum branco” dos Fridge. E a procissão ainda vai no adro…



The Byrds – “The Notorious Byrd Brothers” + “Sweethearts of the Rodeo” + “Dr. Byrds and Mr. Hyde” + “Ballad of Easy Rider”

Pop Rock

2 Abril 1997
reedições

E os pássaros caíram do espaço

THE BYRDS
The Notorious Byrd Brothers (8)
Sweethearts of the Rodeo (5)
Dr. Byrds and Mr. Hyde (6)
Ballad of Easy Rider (6)
Columbia, distri. Sony Music


byrds

Roger McGuinn quis ser astronauta, mas não o deixaram. Quando Neil Innes, palhaço sábio da “troupe” Bonzo Dog Doo Dah Band, cantava, ainda nos anos 60, “I’m the urban spaceman” (canção posteriormente recuperada no antológico espectáculo ao vivo dos Monty Python no Hollywood Bowl), estava longe de imaginar que o tema se tornaria numa espécie de hino para McGuinn, líder pouco poderoso dos Byrds. Uma fantasia que voara pelo céu nos clássicos “Eight miles high”, “Mr. Spaceman” e “CTA – 102”, mas que ao longo de toda a obra dos Byrds posterior à obra-prima “Younger than yesterday” apenas teria direito a aparições fugazes, ou relegada para tapa-buracos, nos temas extra.
É uma história triste a que se conta a partir de 1967 e da edição dos quatro primeiros e seminais álbuns da banda americana. Remasterizados, polidos e embrulhados de acordo com a reputação dos seus autores, o novo pacote dos Byrds faz a história da decadência e o registo dos inúmeros equívocos que destroçaram por completo a identidade original do grupo.
Em 1968, McGuinn entrara para uma seita religiosa oriental, David Crosby afundava-se na droga e desafinava de propósito nas canções de que não era autor. Conta-se que era frequente, durante os concertos, olhar constantemente para o relógio e, passados mais ou menos 45 minutos, ala que se faz tarde, abandonar o palco. Crosby acabou por sair de vez, regressando, para o seu lugar, um dos elementos originais do grupo, Gene Clark, conhecido por um medo atávico de andar de avião. Infelizmente, a esta fobia juntara-se, entretanto, também o medo do palco e a claustrofobia. Depois de três espectáculos em que a sua prestação foi tão má que os outros se viram na obrigação de desligar subrepticiamente a amplificação da guitarra e o microfone, e de um ataque de pânico num elevador encravado, Gene não teve outro remédio senão ir de novo à vida.
Apesar de tantas contrariedades, “The Notorious Byrd Brothers” mantém a magia dos quatro primeiros discos, tirando partido da produção sofisticada de Gary Usher (antigo colaborador de Brian Wilson). É um disco que alia o interesse crescente de McGuinn pelas sonoridades electrónicas e pelo sintetizador Moog em particular (com a ajuda do mago Paul Beaver, parceiro de Bernard Krause nos seminais “Gandharva”, “In a Wild Sanctuary”), em temas como “Space odyssey” ou o extra “Moog raga”, com a apoplexia barroca dos emblemáticos “Sgt. Peppers”, dos Beatles, e o abortado “Smile”, dos Beach Boys. Naipes de cordas, em “Artificial energy” (sobre “speed”), vozes saturadas de “phasing” e pérolas pop como “Goin’ back” (de Carole King) e “Natural history” fazem de “The Notorious Byrd Brothers” o álbum mais estranho do grupo. De fora ficara “Triad”, um tema sobre amor a três, que acabou por estrear na fantástica versão dos Jefferson Airplane, em “Crown of Creation”, mas que agora foi recuperado na colecção dos extras.
A partir daqui tudo se complicou, com a entrada do novo elemento, Gram Parsons, para o grupo. McGuinn pensava então ter chegado a altura de pôr em prática a sua obra, há muito projectada, de “space music”, contando para tal com os talentos de teclista do novo elemento. Pura ilusão. Parsons tomou conta dos Byrds e, com o apoio de outro elemento restante da formação original, Chris Hillman, convenceu o próprio McGuinn de que o futuro não estava no espaço, mas no campo. Os Byrds tornavam-se num grupo de música “country” e “Sweethearts of the Rodeo” acabaria, estranhamente, por ser, de entre toda a discografia do grupo, o álbum que lançaria sementes, formando gerações de novos músicos, que aí viram o pretexto para pegar nas raízes da música branca norte-americana.
Esta dicotomia entre tensões contrárias, o gosto pela ruralidade, por um lado, o apelo da tecnologia e da inovação, por outro (esta última, como é óbvio, instigada por um homem só, Roger McGuinn), ficaria ainda por resolver no álbum seguinte, “Dr. Byrds and Mr. Hyde”, título só por si revelador da personalidade esquizofrénica que os Byrds desenvolveram na proporção directa da sua desagregação, de resto, fielmente retratada na fotografia da contracapa, onde um “cowboy” e um astronauta seguram no disco, com a legenda “Cowboys and spacemen: A short saga”. É um álbum que hesita entre a insistência na canção “country” (afinal, a própria crítica especializada desvalorizara o esforço anterior…) e os restos de um psicadelismo perdido, em temas em que os Byrds, se ainda voavam, voavam baixinho, como em “Child of the universe”, ou choramingando na nostalgia por Bob Dylan, que repescam em “This wheel’s on fire”.
O naufrágio consumar-se-ia em “Ballad of Easy Rider”, um álbum e uma nova formação erráticos (com John York, Gene Parsons e Clarence White), que procuraram, num último esforço, a salvação do “gospel” (“Jesus is just alright”, um “hit”, pelos Doobie Brothers), nos cânticos tradicionais dos marinheiros ingleses, em Woody Guthrie e, ainda e sempre, em Dylan, através de “It’s all over now, baby blue”, título profético. Do sonho espacial de Roger McGuinn ficariam, a fechar o disco, “Armstrong, Aldrin and Collins”, a celebrar a conquista da Lua pelos americanos e, nos extras, a derradeira aberração de “Fiddler a dram”, um instrumental “folk” tocado no sintetizador Moog.