Arquivo mensal: Setembro 2016

Nicola Alesini & Pier Luigi Andreoni – “Marco Polo”

Pop Rock

23 de Outubro de 1996
poprock

Nicola Alesini & Pier Luigi Andreoni
Marco Polo
MATERIALI SONORI, DISTRI. MEGAMÚSICA


mp

O termo “world music”, de tão vago, permite outras interpretações para além daquelas mais directamente conotadas com a música tradicional, de maior ou menor pendor fusionista. “Marco Polo” é “música do mundo”, no sentido de esbatimento de fronteiras e da incorporação de elementos musicais extrapolados dos seus lugares de origem para uma ideia de síntese e encontro de transversalidades. As viagens do célebre explorador servem, deste modo, de metáfora para outro tipo de viagem pelos sons, em tudo semelhante às “Songs from the Cold Seas” de Hector Zazou. Como no álbum de Zazou, embora numa escala mais modesta, também o ajuntamento de estrelas contribui para acentuar a diversidade do projecto. Sob a direcção de Nicola Alesini, nos sopros, teclados e percussões, uma espécie de Steven Brown italiano tecnicamente bastante mais evoluído, e Pier Luigi Andreoni, teclados e percussões, colaboraram em “Marco Polo” amigos habituais da editora como Harold Budd, Roger Eno e Arturo Stalteri, o bizarro sintetista e antigo elemento dos Pierrot Lunaire. A estes juntaram-se ainda David Sylvian, o violoncelista dos Harmonia Ensemble, Damiano Puliti e o guitarrista David Torn. Pela natureza dos nomes envolvidos, torna-se fácil perceber que se trata de um álbum pouco dado a radicalismos sónicos, antes fluindo por suaves trepidações étnicas, por ambientalismos de raiz jazzística à maneira da ECM ou ganhando corpo de canções nas características vocalizações sonambúlicas de David Sylvian. Agradável, convenientemente sinalizado, lamenta-se apenas que estas “explorações” não tenham arriscado partir para territórios musicais nunca dantes navegados, optando antes por lançar a âncora em águas de pouca ou nenhuma agitação onde o tráfico marítima é já intenso. (7)



Orchestral Manouvres In The Dark – “Universal”

Pop Rock

16 de Outubro de 1996
poprock

Orchestral Manouvres in the Dark
Universal
VIRGIN, DISTRI. EMI-VC


omd

Para os registos ficarão, provavelmente, apenas os dois “hits” do grupo da época dourada do electro pop, “Electricity” e “Enola Gay”. Mas os OMD sempre foram algo mais, conseguindo sobreviver à passagem dos anos com inflexões de estilo que lhes permitem não passar demasiado ao lado das correntes dominantes. Se “Organization” (uma homenagem aos mestres Ralf Hutter e Florian Schneider, através da referência à sua primeira banda, anterior aos Kraftwerk, os Organisation) e “Architecture & Morality” ainda hoje se deixam ouvir fora da estética então dominante, a verdade é que as linhas de electrónica suave dos OMD se foram progressivamente descaracterizando, ora numa tentativa de levantamento do que poderia designar-se por “soul cibernética”, ora confinando-se aos domínios da pop pura. “Universal” celebra a síntese de todos os malabarismos sónicos que moldaram a alma do grupo naquilo em que hoje se transformou, uma girândola barroca de extremo requinte, onde pululam moléculas de sintetizador e naves espaciais forradas a veludo trespassam os céus e deixam rastos de baunilha no azul. Uma produção esmerada e anos de experiência acumulada transportaram os OMD para um limbo caleidoscópico – onde cabem “sitars” cósmicas e o gospel – sem fronteiras definidas e onde bandas como os Tears for Fears ou Depeche Mode jamais se atreveram a entrar. Psicadélicos e plásticos, mais do que nunca apaixonados pela melodia descarada e pelo modelo dos Beatles, os OMD fragmentaram-se numa deliciosa confusão universal. (6)



Kula Shaker – “K”

Pop Rock

16 de Outubro de 1996
poprock

PSICAdelas de olho

KULA SHAKER
K (7)
Columbia, distri. Sony Music


ks

Os rapazes da “brit pop” andam a trabalhar com afinco, aproveitando para dar ouvidos à música do passado. A verdade é que lambuzar no boião da cultura nunca fez mal a ninguém e agora que o rótulo “pós-modernismo” se aplica a seja o que for que tenha desistido de arriscar a “primeira vez”, há que tirar partido das virtudes da síntese e da polivalência.
Os Kula Shaker são a coqueluche do momento, em Inglaterra, onde o primeiro lugar do Top já lhes pertence. Sem querer desfazer no gosto de consumidor britânico vulgar, tão vulgar como o dos seus parceiros do continente, a verdade é que os Kula possuem argumentos de sobra para justificar este e posteriores triunfos. A primeira impressão que se tem ao escutar “K” assume a forma da secular questão: “Onde é que eu já ouvi isto?” Percebe-se, também, imediatamente, que os Kula Shaker se agarraram a uma época, fazendo tudo o que podiam para espremer até à medula o seu sumo. A época remonta a 1967, quando o psicadelismo deixava pouco espaço a outros sons e comportamentos. Mas o engraçado é que o grupo começa por se socorrer de um filtro temporal intermédio, agarrando-se a um degrau ou a um corrimão de segurança, no seu movimento de regressão, dando de caras, nos três primeiros temas, com os “psicadélicos” da geração de 80, Stone Roses, Julian Cope e Legendary Pink Dots.
Alcançado esse primeiro estágio, introduzem a nota do exotismo orientalista. É então que surgem as “sitars” indianas, George Harrison, Ravi Shankar (o mediático, de Woodstock, entenda-se…), o Guru Maharishi, toda a galeria de santos e quinquilharia “hippie” que serviam de bagagem para a “trip” de LSD. O truque resulta, dando passagem à fase da cópia com menor ou maior descaramento. Por esta altura, a audição de “K” já se transformou num jogo de adivinhas cujo gozo consiste em apanhar as fontes de onde as frases foram sacadas. Os Pink Floyd contribuem com uma importante fatia de pano para as mangas. Em “Magic theatre”, a guitarra cósmico-indolente fugiu de “Meddle”, em Tattva”, de “Wish You Were Here”. “Grateful when you’re dead/Jerry was there” (reparem bem no título) é uma homenagem aos Grateful Dead que soa aos Beatles da fase inicial misturados com um “riff” de “I’m a man”, dos Chicago, enquanto “303” descolou do túmulo as distorções da “Fender Stratocaster” de Jimi Hendrix. Quanto ao vocalista, toma-se amiúde por um sósia de Edward Kaspel, como acontece em “Temple os everlasting light” e no tema final, “Hollow man”. Torna-se difícil resistir a esmiuçar até ao fim as moléculas musicais de “K”. Há quem tenha encontrado os Monkees, os MC5 de “Kick out the Jams”, o álbum branco dos Beatles, os Cactus, Crosby, Stills & Nash…
Quando nos dermos por satisfeitos com este jogo de rato e do gato, resta-nos admirar a unidade demonstrada por esta monstruosa colagem e reconhecer as artes de encantamento dos Kula Shaker. É que cada canção, soe da maneira que soar, tão saturada de referências como uma enciclopédia, nem por isso deixa de evidenciar uma enorme capacidade de sedução. Os Kula Shaker, mais do que ladrões, são prestidigitadores.