Arquivo mensal: Maio 2016

Holger Hiller – “Little Present”

Pop Rock

29 de Novembro de 1995
Álbuns poprock

Holger Hiller
Little Present

IMPORT. CONTRAVERSO


hh

Em ponto algum da embalagem ou do próprio disco vem indicado o nome de uma editora. Edição de autor ou simples estratégia de ocultação, é mais um disco ao nível da reputação deste alemão antigo elemento dos Palais Schaumburg. “Little Present”consiste numa série e gravações efectuadas em vários locais da cidade de Tóquio, onde Hiller se deslocou para visitar um filho seu, de naturalidade japonesa. São 13 segmentos, indexados em 26, cada um dividido em duas partes, uma delas “com histórias e ambientes”, a outra com “música”. Da manipulação de samplers que caracteriza toda a primeira fase do autor, expressa numa espécie de “sinfonismo concretista” presente em discos como “Ein Bundel Faulnis in der Grübe”, “Oben im Eck” e “As Is”, Hiller passou posteriormente para investigações na área da “dub”, antes de chegar a este documento sonoro de “environmental music”. Um passo lógico, no sentido da passagem da manipulação de sons instrumentais para a manipulação, numa escala mais ampla, das próprias paisagens acústicas da cidade japonesa. Excertos de programas de televisão, sons de rua, conversas telefónicas ou em apartamentos, a voz do filho, ruídos de proveniência incerta são reconstituídos por Hiller numa “sucessão rápida e em constante mudança”, de modo a “interpretar” e “substituir” o ambiente “natural” por outra realidade, subjectiva, construída a partir dos mesmos materiais. Entre a música infantil, a tradição japonesa, o “jingle” à maneira de um Yasuaki Shimizu em “Music for Commercials”, o desenho animado e a arquitectura onírica, “Little Present” é um passeio virtual por Tóquio, como nunca ninguém a viu ou ouviu antes. (7)

Urban Turban – “Urban Turban”

Pop Rock

22 de Novembro de 1995
Álbuns poprock

Urban Turban
Urban Turban

SILENCE, DISTRI. MC-MUNDO DA CANÇÃO; IMPORT. CONTRAVERSO


ut

Neste final de século, anda tudo doido. Sucedem-se os projectos mais impensáveis e as ideias mais delirantes. Deixou de fazer sentido classificar a música por géneros. O universo passou a ter disponíveis todas as épocas e culturas. Os suecos Urban Turban sabem tirar partido desse imenso manancial sonoro, que utilizam numa proposta pelo menos curiosa, de transformar clássicos pop e rock como “Knock on wood”, “Voodoo child”, “Let’s work together” ou “Hoochie coochie man” em temas que soam tradicionais, os Urban Turban “tradicionalizam” a pop. Umas vezes reconhece-se nesta operação ecos dos Hedningarna, outras é possível sintonizar no mesmo comprimento de Captain Beefheart, como em “Wang dang woodle”. Sanfonas e gaitas-de-foles atropelam-se contra as guitarras eléctricas saturadas, sopros ébrios de swing e uma bateria que bate forte e feio, num carrossel de diversão a cem à hora. Peter Bryngelson, antes um reputado e obscuro compositor na área da “new music” (dele conhecemos um álbum gélido e bem comportado, “Via”), liberta-se, juntamente com Pelle Linsdtröm e um lote largo de convidados, de todos os condicionalismos, veste o turbante e oferece de bandeja fartos motivos de excitação. Nem que seja a de descobrirmos que a gaita-de-foles pode ser o instrumento perfeito para um blues. (8)



Bill Frisell, Hermit Driscoll, Joey Baron – “Live”

Pop Rock

1 de Novembro de 1995
Álbuns pop rock

Bill Frisell, Hermit Driscoll, Joey Baron
Live

GRAMAVISION, DISTRI. MVM


bf

Eis de regresso o velho Bill “bochechas” Frisell, de rosto irradiante de pureza. Mas não é bom guitarrista? É um óptimo guitarrista! Então e a música? Tecnicamente perfeita. Só? Pois é… Falta a este bom rapaz da “downtown” um coração, tripas, um esgar de mau humor. Ao vivo (já o vimos com Zorn, compenetrado nas suas matemáticas, enquanto o mestre vomitava no saxofone), neste caso, no teatro Lope de Vega, em Sevilha, nos Terceros Encuentros de Nueva Musica, pouco mudou no seu “approach” de técnico laboratorial que conhece todos os cantos da sua guitarra. Swing é palavra que não consta no vocabulário de Bill Frisell. Abstraccionista, falta-lhe a pulsão anarquista e convulsiva de um Elliott Sharp ou de um Christy Doran. Esteta, não tem a largueza de visão dos contemplativos da ECM como John Abercrombie ou Ralph Towner. Académico, embora encapotado, falta-lhe a polivalência de um Terje Rypdal ou de um Pat Metheny. “Live” poderia ser, ao menos, um espaço de comunicação e diálogo entre os três músicos, versão “power trio”, com o baixo de Driscoll e a bateria do pau para toda a obra que é Joey Baron, no contexto das “novas músicas”. Infelizmente, o estilo de Bill Frisell caracteriza-se pelo autismo. Os outros aguentam o barco, vão atrás e acrescentam os pormenores de esboços cuja articulação obedece, de forma absolutamente coerente, ao conceito “verbo de encher”. Frisell devia ter aprendido com Buster Keaton e passar a fazer música muda. (3)