Arquivo mensal: Janeiro 2016

Sérgio Godinho – “Os Sobreviventes” – Série: “Os Melhores De Sempre – Música Portuguesa”

Pop Rock

10 de Maio de 1995
Os melhores de sempre – música portuguesa

Sérgio Godinho
Os Sobreviventes


sg

Como foi

Nove anos no estrangeiro, três dos quais passados em Paris, de finais de 1967 até 71, o contacto com outras músicas e culturas, serviram de bagagem para a relação com a língua portuguesa que se haveria de seguir e fazer de Sérgio Godinho um dos compositores-intérpretes portugueses mais importantes deste século. “Quando aterrei em Paris”, conta o autor, “já cantava, mas em francês; uma das minhas preocupações era encontrar uma voz própria: soava-me tudo ou a Zeca Afonso ou a poetas que eu admirava. Nessa altura, a presença musical do Zeca bloqueava-me.”
O encontro, na capital francesa, com José Mário Branco, com quem inicia uma colaboração musical assídua, vem a revelar-se decisiva no desencadeamento de nova fase da sua carreira. Entretanto, a par da sua participação na versão parisiense de “Hair”, dá-se aquilo a que Sérgio Godinho chama uma quase revelação, “uma espécie de desbloqueamento em relação ao português”. “Para aí metade” das canções de “Os Sobreviventes” foi composta nesta altura, num “curto período de tempo”. Os estímulos desta mudança são vários. “Curiosamente, a própria cidade de Paris, o ‘Hair’, uma multiplicidade de vivências, aproximaram-me da minha língua em vez de me afastarem. Talvez fosse uma necessidade de voltar às minhas raízes e ao som que as palavras tinham na minha infância.”
A par de Paris, também o interesse pelo que se estava a passar em Portugal, com o agudizar da guerra colonial e a decadência do regime” faz o músico desejar o reencontro com a realidade portuguesa. “O facto de não poder vir a Portugal, de ser refractário, de estar com gente com uma consciência política que eu tinha também, foi igualmente importante.” Embora o cantor já nessa altura tenha outro tipo de preocupações, além das políticas: “A minha motivação primeira para ir para fora foi sempre muito vivencial. A necessidade de conhecer outras culturas, de correr mundo, de vagabundear, no sentido filosófico do termo.” Mais forte que tudo é, porém, “a vontade de escrever em português”.
Já com “uma mão cheia de canções”, falta apenas a gravação. “José Mário Branco tinha já contactado a Sasseti, a quem eu já enviara fitas. Fiz uma maqueta também para a Arnaldo Trindade mas foi a Sasseti que me deu uma resposta mais entusiástica e as melhores condições.” À semelhança de José Mário Branco e de José Afonso, Sérgio Godinho vai gravar no famoso estúdio do Château d’ Hérouville. “Fomos praticamente inaugurar aquilo, com condições privilegiadas.” O som pretendido “tinha uma componente de banda, com uma abordagem ‘pop’”, algo que logo nessa altura afasta Sérgio Godinho da vaga dos chamados baladeiros. Não só nunca fui um baladeiro”, diz “como, de certo modo, era até crítico em relação ao que de negativo tinha esse termo.” Sérgio recorda, a propósito, que o anátema lançado nessa altura sobre aquele termo foi dirigido em brande parte “contra o Zeca e o Adriano, de uma maneira muito injusta”.
Com José Mário Branco a funcionar em estúdio um pouco como o “supervisor”, a música toma forma a partir de um colectivo. “Basicamente, aquilo que eu tinha na cabeça era uma estrutura de guitarra, baixo eléctrico e bateria – um som ‘rock’ como o do tema ‘Maré alta’ – aqui e ali com a pontuação de outros instrumentos, algo que ensaiei mais tarde noutros discos”. Sérgio Godinho vê hoje “Os Sobreviventes” como um disco “exuberante e denso”, onde quis “meter muita coisa”, se bem que não o satisfaça muito “vocalmente”: “Tive medo de soltar a voz. É um disco onde canto à defesa. Certinho mas sem o tipo de liberdade interpretativa que tive noutros discos e que, inclusivamente, já era de certo modo capaz na altura. Também senti problemas de garganta, laringite. Não sei se de origem psicossomática ou não…” O cantor cita, sobre este aspecto, o tema “O charlatão”, composto por José Mário Branco, que poderia ter “mais energia”.
O outro dos dois temas escritos pelo autor de “Margem de Certa Maneira”, “Cantiga da velha mãe e dos seus dois filhos*”, tem uma história curiosa: “A letra foi feita para a música do ‘Maio Maduro Maio’, de José Afonso. O Zeca tinha uma vez chegado a Paris e disse-me que não era capaz de escrever uma letra para ela. Eu ofereci-me para o fazer. Ele, entretanto, foi para Portugal e eu fiz mesmo a letra. Fiquei eu com uma letra pendurada. Foi então a vez do José Mário Branco se oferecer para fazer uma música. Aconteceu uma espécie de pingue-pongue.”
Outra canção, “Paula”, teve uma primeira letra em francês antes da versão final em português. “Romance de um dia na estrada” foi escolhido para um EP, “raríssimo de encontrar”, que surgiu antes de o LP sair. “Podia ser, de certo modo, um título alternativo para o álbum. Era um tema que reflectia o lado vivencial que eu, nessa altura, prezava muito e que continuou como imagem de marca. É uma canção de percurso, uma canção de revelações.” O outro lado, “mais político”, está presente numa canção como “Senhor marquês”: “Cantei-a pela primeira vez para o Zeca, quando ele estava em Paris. Ficou muito entusiasmado. ‘Isto é que é a linguagem que eu devia estar a fazer!”, exclamou ele. Eu contrapunha: “Tu és maluco! Eu é que queria fazer a linguagem que tu estás a fazer!”
“Os Sobreviventes” teria, depois, outras histórias para contar, mas essa pertencem já a uma história mais triste que estava prestes a acabar. O disco recebeu o prémio “melhor autor de letra” pela Casa da Imprensa (ao lado de obras de José Afonso e José Mário Branco) mas foi retirado das lojas pela censura, para, pouco tempo depois, regressar aos escaparates. Algo que reflectia a desorientação de um regime que agonizava. O álbum, esse, sobreviveu para a posteridade.

* Em vez de “filhos”, no original lia-se “discos”.

Como é

Afinal, é mesmo verdade que as cegonhas trazem os bebés de França. Em Paris, há 24 anos, nascia uma das relações mais fortes e duradouras da música com a língua portuguesa. Sérgio Godinho trazia na mochila a música francesa, brasileira e inglesa, e quilómetros de viagem nas pernas e na alma. As primeiras histórias contam-se, por vezes, com alguma timidez e a ajuda de amigos. José Mário Branco, já nessa altura bordão e fonte de ensinamentos, não só assinou dois temas como inspirou o ambiente geral de uma composição como “A-E-I-O-U”. Os Beatles, com algumas notas de “Michelle”, insinuam-se por sua vez em “descansa a cabeça (estalajadeira)”.
Se é verdade que a riqueza metafórica que caracteriza toda a obra posterior do autor se encontra aqui ainda na sua fase embrionária, não é menos verdade que “Os Sobreviventes” é hoje um álbum que envelheceu bem, não surgindo de modo algum datado. Temas como “Paula” ou “Farto de voar”, em toda a sua pureza, soam hoje rodeados de um estranho fascínio, enquanto, em canções como “Que bom que é” e “Senhor marquês”, estão já presentes todas as características que marcariam a obra de Sérgio Godinho: a não linearidade do desenvolvimento temático, a sobreposição de registos vocais, a alternância de tonalidades, a importância da fonética, do que se esconde e revela no simples som que as palavras têm – o prazer, em suma, de dançar com as palavras e os seus significados.
“Romance de um dia na estrada” perspectiva uma das vertentes de sempre do universo poético-musical do autor: a introspecção, o conceito de percurso, nunca numa perspectiva abstractizante, antes romanceada em forma de situações arrancadas a um quotidiano ficcional ou não. E se a época era de luta, entre “Que força é essa” e “Maré alta”, os dois temas onde é mais acentuado o cariz intervencionista, era já no fluxo de emoções e das pequenas e grandes descobertas interiores que o caminho de Sérgio Godinho se desenhava. Um “primeiro dia”, sempre.



Rui Júnior – “O «O Que Som Tem?” – Série: “Os Melhores De Sempre – Música Portuguesa”

Pop Rock

19 de Abril de 1995
Os melhores de sempre – música portuguesa

Rui Júnior
O Ó, que som tem?


rj

Como foi

Rui Júnior andou ausente nos últimos anos. Uma ausência determinada por razões bastante traumáticas para si e que se prendem com a destruição, pouco depois da gravação de “O Ó, que Som Tem?”, de toda a sua colecção de percussões, provocada por uma inundação da cave onde se encontrava este material. Nos últimos meses o percussionista regressou, de corpo e alma restaurados, para as sessões de gravação de “Todos os Dias”, de Amélia Muge, e para integrar o projecto “Maio Maduro Maio”.
“O Ó, que Som Tem?”, o seu projecto de percussões, editado em 1983, representa a visão pessoal deste músico, em cujo currículo figuram os nomes de Júlio Pereira, Fausto, José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Janita Salomé, Vitorino, Rão Kyao, Jorge Palma, António Pinho Vargas e a já citada Amélia Muge, ou seja, a nata do que se convencionou chamar “música popular portuguesa”.
Na calha está a gravação do segundo capítulo deste projecto, único na cena musical portuguesa, e de um compacto didáctico sobre percussões. Com os mesmos músicos, entre eles Rui Vaz, Fernando Molina e José Salgueiro – “todos eles agora craques” -, mas um espírito diferente, “de maior acalmia”.
“O Ó, que Som Tem?” resultou, nas palavras do seu mentor, da “necessidade de poder compor e interpretar com instrumentos de percussão”. Na altura, vai fazer doze anos, ninguém tinha muita experiência de estúdio. “ninguém sabia como seria meter percussionistas num estúdio e gravar um disco.” Para Rui Júnior, “o José Fortes [engenheiro de som] foi muito útil em todo o trabalho”, por estar “mentalmente muito disponível”, mas também por ter “disponibilizado o estúdio”.
Rui Júnior recorda que o grupo, na ocasião, encheu o chão com uma quantidade de canas. “Queríamos um som de canas. Fomos a um canavial que havia lá perto, cortámos as canas, levámo-las para o estúdio e fizemos várias experiências, batendo com elas no chão. Depois íamos buscar mais e voltávamos a experimentar. Acabou por ficar tudo sujo.” “Por isso”, acrescenta, “há que louvar também a disponibilidade da senhora que fazia as limpezas!”
A gravação representou para todos “uma descoberta”. “Em estúdio o som tem que ser tratado de outra maneira. Tivemos, em conjunto com o José Fortes, de proceder a experiências ao nível da captação. Onde e como se deviam captar os bombos, por exemplo. Neste caso a ideia foi obter um som mais ou menos de ar livre, através da utilização de uma sala muito grande, na maior parte das vezes com os microfones no ar, por cima de nós e a uma certa distância.”
“O Ó, que Som Tem?” demorou uma semana a ser gravado. Durante esse período, as coisas “correram bem ao nível da gravação, embora menos ao nível da produção”. Rui Júnior refere a este propósito a existência de “algumas faíscas”, entre ele e o produtor da Sassetti. “A ideia deles era diferente da minha. O meu disco resultou de uma aposta da Sassetti, no seguimento do ‘Cavaquinho’, do Júlio Pereira, e do ‘Por Este Rio Acima’, do Fausto, dois discos em que participei.
“Quando lhes falei no novo projecto, pensaram logo em mais uma coisa dentro do mesmo estilo, música popular, tum tum tum, isto vai ser canja. Quando se começaram a aperceber que não ia ter os mesmos ingredientes, com sintetizadores, uns coros, umas coisas bonitas e tal, é que foi pior. A ideia deles era limar, uniformizar, para obter um som que pudesse ser mais vendável. Por isso fiz muita questão que a ‘master’ não fosse tocada por ninguém. O produtor praticamente não teve influência. Tive que me impor para impedir que houvesse mudanças.”
O que, por outras palavras, significa que Rui Júnior sempre se regeu e continua a reger exclusivamente por critérios de ordem estética e nunca de ordem comercial. “Guio-me pelo meu gosto pessoal, como única forma de coerência.” Sobre este aspecto o percussionista cita o tema de abertura do álbum, “Recolhimento”, onde mistura coros gregorianos com adufes. “Hoje já se ouve os mesmos cânticos gregorianos sobre uma batida funk… Eu fiz isso dez anos antes, porque gostava, talvez por influência da minha mãe, que cantava nas igrejas, ‘Avés-Marias’, essas coisas. Achei que não havia ligação mais bonita que a dos cantos com aquele ritmo.”
E, afinal de contas, o ó, que som tem? “É um jogo de sons que me foi sugerido pelo meu pai, a propósito de uma das brincadeiras que tinha, quando era pequenino. Um miúdo voltava-se para outro e perguntava: ‘O ó, que som tem?’ O outro respondia: ‘Ora de ó, ora de u.’ Uma espécie de miniladainha.”

Como é

É sabido que as percussões, na música tradicional portuguesa, não primam pela subtileza. É mais bombos e foguetório, pés bem assentes na terra e gritar muito de baixo para o alto. É certo que no Minho ou nas Beiras há quem bata com mão mais ligeira o adufe, como a já mítica Catarina Chitas, de Penha Garcia. Só que depois ouvimos todas aquelas senhoras da Galiza a manejarem as pandeiretas como se estas tivessem asas, e olhamos desconsolados para o nosso descomunal umbigo em forma de bombo.
Rui Júnior achou que não tinha que ser necessariamente assim. Armou-se de um grupo de amigos – e de percussões – e decidiu inverter o processo. Nas suas mãos e nas dos seus companheiros, as peles, os sinos, os tubos, as madeiras, as pinhas, as canas, até os bombos, transformaram-se em utensílios nobres, para a construção de polirritmias que devem tanto à música portuguesa como a África, ao Brasil e à Índia, quando não a batimentos ainda mais primevos.
“O Ó, que Som Tem?” representa não só a emancipação e dignificação de uma classe de instrumentos, as percussões, como a instauração de uma estética que hoje é cultivada em todo o mundo mas que em Portugal não teve seguidores. Para Rui Júnior, as percussões, do simples tambor às canas que chocam contra o chão, devem cantar uma melodia, ter um discurso próprio para além da simples marcação de tempos. Razão pela qual o músico se veio a especializar anos mais tarde nas “tablas” indianas, instrumento de grande riqueza cromática, capaz de, com as suas alturas variadas, fazer o que ele lhes pede, isto é, cantar.
No disco, que muito em breve e em boa hora terá uma continuação, é visível esta conjugação entre, por um lado, a estilização da linguagem percussiva e, por outro, a ligação aos alicerces rítmicos tradicionais, não só portugueses, como já foi dito. Emblemático desta dialéctica entre o apego às raízes e o desejo de renovação é o tema de abertura, “Recolhimento”, onde a fusão do canto gregoriano e da gaita-de-foles com os adufes, o vibrafone e os sinos lhe confere uma dimensão de religiosidade que hoje é apregoada por muitos e aviltada por alguns.



Corpo Diplomático – “Música Moderna” – Série: “Os Melhores De Sempre – Música Portuguesa”

Pop Rock

15 de Março de 1995
Os melhores de sempre – música portuguesa

Corpo Diplomático
Música Moderna


cd

Como foi

Verão de 1979. Os Faíscas, juntamente com os Aqui d’El Rock e os Minas e Armadilhas, um dos poucos representantes do punk português, tinham durado o tempo que uma chama demora a arder. Pedro Ayres e Paulo Pedro Gonçalves avançaram o passo lógico e criaram os Corpo Diplomático, um dos poucos grupos new wave surgidos na época devida em Portugal. António Sérgio, na altura à frente do programa Rotação, da Rádio Renascença, estava, como sempre, atento. Era amigo de alguns dos músicos, passara os Faíscas no programa. Nos Corpo Diplomático encontrou “uma atitude diferente da dos Tantras ou outros grupos afins” que então proliferavam. “O reportório tinha interesse, era bastante provocante. Lembro-me de uma letra, a de ‘Amor de guichet’, que é um gozo ao empregadinho de escritório, aquele ambiente um bocado podre dos notários, o tipo de ambientes que lá fora o punk também atacava.”
Para o popular locutor, os Corpo Diplomático eram “o espelho da nossa new wave, com uma atitude até bastante mais vincada que a de muitos outros casos que eram simplesmente pop, ou bubblegum pop.” António Sérgio cita até uma espécie de concorrente seu na altura, Luís Filipe Barros, da Rádio Comercial: “Ouvia-o dizer que os Blondie eram new wave e eu passava-me de todo. Era um disparate de todo o tamanho.” Por sua vez, Carlos Gonçalves, ou Ultravioleta, vocalista principal dos Corpo Diplomático, fala numa “estética e abordagens diferentes”, em paralelo com correntes musicais trazidas por nomes como The Normal, Human League ou Pere Ubu, na tentativa de “anular a ‘décalage’ existente entre o que se passava em Portugal e lá fora”.
Sérgio, que nessa altura estava ligado à Nova, editora discográfica responsável pela distribuição nacional dos catálogos Stiff e Sire, entre outros, “tinha uma fé especial no tandem Paulo Pedro e Pedro Ayres”. Para ele, tratava-se de “uma dupla totalmente criativa”. O passo seguinte foi convencer Hugo Lourenço, um dos responsáveis da editora, a fazer o disco. “Estávamos a ter muito êxito com o reportório internacional, em que ele não acreditava muito. Quando ouviu os Ramones pela primeira vez, jurou para nunca mais, mas daí a uns tempos os Ramones não só estavam a vender na rua como a ser compradas por grosso, até pelo Círculo de Leitores.”
Na Nova olhavam para Sérgio “um bocado como se fosse maluco”, embora reconhecessem que “havia na maluqueira dele coisas que funcionam”. Acabaram por aceitar. António Sérgio seguiu para estúdio na companhia dos músicos e de um segundo produtor, João Henrique, com créditos firmados na área do cançonetismo.
Durante as gravações António Sérgio funcionou como “catalisador”. Dos dois produtores dos disco, era ele quem “conseguia contactar” com os músicos, para quem “o João Henrique era um gajo velho, de uma escola velha”. “Tanto o Paulo Pedro, na altura ainda o conhecíamos por Paulo Canadiano, como o Pedro Ayres [Dedos Aires, nos Corpo Diplomático, depois de ter sido Dedos Tubarão nos Faíscas] eram a flor da rebeldia.” Sérgio “conhecia-lhes a linguagem, sabia a atitude deles, o que é que podia ficar num disco”. João Henrique “tinha só a noção das operações de estúdio e das poupanças”.
Em paralelo com o lançamento do álbum, foi editado um single de coleccionador, com os temas “Festa” e “Engrenagem”, de José Mário Branco, numa versão com “ruídos de maquinismos” na qual, segundo Carlos Gonçalves, o próprio autor na altura reconheceu existir uma característica “que ele próprio tinha tentado dar sem o conseguir”. Deste disco foram editados mil exemplares, “sem capa inteira”. “Era outro gozo, do tipo ‘Holidays in the sun’, dos Pistols, inspirado naquela ideia do turista parvo que anda a explorar a pobreza dos outros para fazer roteiros.” De “Música Moderna” fizeram-se igualmente mil exemplares, dos quais se terão vendido, segundo António Sérgio, “cerca de metade”.
Para a história fica ainda uma ocasião célebre, que Sérgio recorda: “Quando contratámos a Stiff, fizemos ua festinha num ‘ferry boat’, ali no Tejo. A banda convidada foram os Corpo Diplomático. Vieram pessoas da Stiff, incluindo um dos músicos da editora, o Wreckless Eric, além do ‘staff’ todo. Estavam curiosos em ouvir a banda tocar. Instalámos o grupo no tombadilho, com um PAzinho. Começaram com um instrumental qualquer e os gajos até pararam de comer e de beber, sintoma de que estavam a ouvir. Só que a seguir entrou o Ultra Violeta, ou ‘urubu’, como lhe chamávamos, o vocalista [Carlos Gonçalves]. O homem estava entusiasmado por ver os gajos ingleses. Então desatou a dançar e a cantar de uma maneira tal que pontapeava os cabos constantemente, desligando os instrumentos, uma guitarra, o amplificador… Foi um caldinho daquele tamanho. Não havia tema nenhum que chegasse a meio. Desaparecia sempre qualquer instrumento ou até mesmo a voz dele. Pontapeava tudo com umas botas em bico, estilo Joe Jackson. A partir de certa altura chegámos à conclusão de que o melhor era pôr a banda sonora que já tínhamos, uma cassete gravada com música da Stiff e da Sire.”
Depois disso o projecto “entrou num limbo”. Sobraram três músicos, Pedro Ayres, Paulo Pedro Gonçalves e Carlos Maria Trindade, para a criação dos Heróis do Mar.

Como é

“Música Moderna”, desde o título à estética da capa, uma reprodução de um cartaz de propaganda do Partido Comunista Chinês, procurou ser um manifesto de diferença e de ruptura contra, por um lado, o niilismo violento e, por vezes, sem nexo do “Punk” e, por outro, o lastro dos “sinfónicos”, que em Portugal sobreviveram para além do tempo devido na pessoa dos Tantra.
Dos Corpo Diplomático pode-se dizer que foram um dos poucos grupos aos quais a classificação “new wave” se aplicava com justiça. À energia e irreverência do “punk”, acrescentaram uma atitude diferente, de maior distanciamento e com outro tipo de linguagem, que os fazia identificarem-se com a chamada “cold wave” ou “afterpunk”, para utilizar o termo então inventado por Yves Adrien nas páginas da “Rock & Fok”. Uma estética que viria rapidamente a bifurcar-se em dois extremos opostos, a música industrial (Throbbing Gristle, Cabaret Voltaire) e a electropop (Orchestral Manouevres in the Dark, Depeche Mode).
Os Corpo Diplomático, sem terem tido tempo para optar por um dos lados, fizeram a transposição possível da linguagem dos “afterpunks” europeus para um contexto nacional. A terminologia típica destes, marcada pela utilização de referentes tecnológicos inseridos numa visão cínica e apocalíptica da realidade, foi utilizada pelo grupo português para fazer crítica social a personagens e situações da vida nacional. As associações automáticas dos textos nascem de conceitos como “televisão”, “caixa neurótica clorofórmio eléctrico”, “espantalhos automáticos” ou “um botão no meu cérebro”, e o som está repleto de desfasagens e intromissões electrónicas do sintetizador, mas toda esta parafernália serve aos Corpo Diplomático para apontarem as baterias a uma “Maria” ou, como em “Amor de guichet”, a uma relação amorosa entre empregados de escritório que são bem portugueses.
É esta dicotomia entre a modernidade de um discurso europeizado em confronto com o provincianismo saloio característico da mentalidade portuguesa que torna “Música Moderna” num disco cuja descendência só anos mais tarde os Ocaso Épico, de Farinha, viriam a continuar. Como sempre acontece por estas bandas, ninguém foi atingido e “Música Moderna” foi arrumado na gaveta das loucuras inconsequentes.