Vangelis
1492 – Conquest of Paradise
LP/MC/CD East West, distri. Warner Music
Apresentação exemplar: muitas gravuras (a cores) alusivas à descoberta da América e fotografias (a cores) retiradas do filme homónimo de Ridley Scott (com quem o grego volta a trabalhar, depois de “Blade Runner”). Uma tentação que quase leva a dispensar os sons… Vangelis é um dos autores de bandas sonoras mais requisitados do momento. A sua música presta-se a isso: é pomposa, grandiloquente, ocupa bem os espaços, não há buraco que as vagas épicas dos seus sintetizadores não tapem. O tema de “1492” não lhe poderia ser mais propício, de tão épico que é. Colombo, o herói descobridor. O paraíso desbravado à custa da matança dos nativos. Muitas caravelas. Lutas. Bandeiras. Vangelis agarra nos tópicos óbvios e sobre eles constrói uma catedral de sinfonismos electrónicos, enriquecidos de coros majestosos e toques ocasionais de “world music” (flamenco e africanismos sortidos). Não se pode negar a esta música a virtude de ser extremamente agradável de se ouvir. E não é afinal toda a obra do compositor uma demanda incansável de um outro paraíso? O paraíso, dizia David Byrne, “é um lugar onde nunca nada acontece”. Não é bem o caso. As cores são belíssimas. (6)
NEIL YOUNG
Harvest Moon (7)
LP/MC/CD Reprise, distri. Warner Music
É difícil dissociarmos “Harvest Moon” do seu antepassado “Harvest”, por muito que o seu autor insista em que se tratou de uma simples coincidência. “Harvest”, gravado em 1972, prolongamento lógico de “After the Goldrush”, projectou o nome do autor canadiano na cena rock internacional e vendeu bastante bem, na ordem do milhão de exemplares, chegando a número um no top de vendas de álbuns nos Estados Unidos. Talvez seja possível ver então na semi-sequela que é “Harvest Moon” um desejo, não necessariamente da parte do músico, em alargar o leque de potenciais consumidores.
As semelhanças começam logo pela escolha da banda, que é a mesma de “Harvest”: os Stray Gators, formados por Kenny Buttrey (bateria), Tim Drummond (baixo), Bem Keith (“steel guitar”) e Spooner Oldham (piano). Jack Nietzsche volta a ser convidado para assinar os arranjos de cordas de um tema, neste caso “Such a woman”, à semelhança do que havia feito em “Harvest”, com “A man needs a maid”. Citem-se ainda os nomes de Linda Ronstadt, James Taylor e Nicolette Larson (que já participara em “Harvest”), presentes em “Harvest Moon” para darem um ajuda nos apoios vocais.
“Harvest Moon” significa uma rotação de 180 graus em relação ao anterior “Weld”. Depois da neurose, a pacificação. Depois da violência e do ódio, o amor. A guitarra eléctrica ultra-saturada e à beira do colapso cede o lugar às reverberações da sua irmã acústica. “Weld” retratava a paranóia urbana, registada no centro do furacão, em plena guerra do Golfo. “Harvest Moon” retorna à serenidade dos campos americanos, iluminados pela Lua, contra a qual se recorta uma figura de espantalho. Um tom de abandono que serve de pano de fundo a canções de amor, nas quais Neil Young volta a enfrentar alguns dos seus fantasmas, mas agora em tempo de paz, no silêncio permitido pela solidão.
O som é amplo, espelhado, feito de pausas e ecos. A serenidade raramente é quebrada. Uma “steel guitar”, uma harmónica e coros celestiais dão logo no tema de inicial, “Unknown legend”, o tom que domina todo o álbum. Música dos grandes espaços, da América ainda com capacidade de sonhar. “From Hank to Hendrix”, primeiro grande tema de “Harvest Moon”, convoca as imagens dos ídolos, os verdadeiros e os de barro, enquanto ao longe assoma o espectro de Bob Dylan.
“You & me”, “Harvest Moon”, “War of man”, este impelido por uma poderosa linha de baixo, e “One of these days” não se afastam do ambiente geral de intimismo e introspecção. Convocam-se amores e amigos, escrevem-se cartas, trocam-se palavras e recordações.
O segundo lado consegue ser ainda mais amplo. O som torna-se espacial. O piano e as cordas embalam a história de amor que se conta em “Such a woman”. “Old king” (não é sobre Elvis mas sobre a morte do cão de estimação que acompanhava o músico a todo o lado) quebra por instantes a superfície lisa do lago, entre os soluços de um banjo e um registo declaradamente “country”. “Dreamin’ man” conta a loucura e a incapacidade de lidar com a realidade. Qual realidade? Neil Young, americano, nascido no Canadá, é por natureza o estrangeiro, o caminhante das estradas solitárias que terminam no pôr-do-sol. Por essa estrada interminável vão os passos do tema final, “Natural Beauty”, longa litania gravada em Portland, ao vivo e em cores “gospel”, sobre a beleza ambiental e a sua degradação, observada por quem sente pelos “states” uma indiferença apaixonada – misto de proximidade e distância, intervenção e afastamento crítico, ódio e desejo. “Harvest Moon” não é um grande álbum, nem sequer dos melhores de Neil Young, mas tão-somente uma visão lúcida e desencantada da América de hoje, protagonizada por um viajante eternamente de passagem.
JOHN MORAN
The Manson Family – an opera (8)
CD, Point Music, import. Contraverso
“The Manson Family”, contraponto de horror, negativo das grandes visões minimais/cosmológicas de Philip Glass, é o retrato a negro e vermelho do Inferno, disfarçado sob a capa do surrealismo. O ponto de partida é a “família” Manson, responsável, no final dos anos 60, por uma série de assassínios rituais que culminaram no da actriz Sharon Stone e chocaram os Estados Unidos de Gerald Ford. Charles Manson, líder espiritual da seita, foi preso e condenado à pena máxima, mais tarde revogada, sem que se soubessem bem os motivos…
John Moran, um compositor pouco conhecido e apreciador de temas que aliam o mórbido e o horror às teorias sobre o homem novo, de preferência com chifres e cauda bifurcada – mais um Cronenberg da música a engrossar a lista dos fabricantes de monstruosidades –, gostou da história e com ela fez uma ópera, que Philip Glass acolheu na sua novel editora. A polémica estalou de imediato, caindo sobre o autor ameaças e acusações de vária ordem, inclusive a de fazer a apologia do criminoso Manson. Antes Moran assinara outros trabalhos de índole obscura, como “Hospital (Night Nurse)”, “Haunted House” e “Solar System”.
Não há em “The Manson Family” juízos morais. Ou seja, não há “bons” de um lado e “maus” do outro. Moran não defende um ponto de vista acusatório contra o assassino. A sua intenção é apresentar um panorama mais vasto, situando as diversas personagens envolvidas nos acontecimentos de 1969 (o mesmo ano da tragédia de Alatamon, terminando em sangue a década do “Verão do amor”), permitindo-lhes criar como que realidades alternativas possuidoras de uma lógica própria e “natural”, segundo os princípios do sonho enunciados por Breton nos seus “Manifestos do Surrealismo”. Perspectiva ambígua que, em última análise, coincide com a subjectividade total, quando Moran afirma que “The Manson Family” acaba por ser mais sobre o seu autor (que na estreia da ópera, há dois anos, em Nova Iorque, no Lincoln Center’s Serious Fun, escolheu para si o papel de Chrales Manson…) e menos sobre o assunto tratado.
Em termos conceptuais, joga-se pois nos terrenos da ambiguidade. Os diálogos e a acção descolam do tempo, mantendo-se numa espécie de imponderabilidade narrativa. Apesar do aviso “contém linguagem que pode ser considerada ofensiva” afixado na capa, sobra uma impressão de se estar para além de qualquer moral, num arrojo nietzschiano de teor provocatório. Tudo se confunde num “puzzle” de significados e remetências que ao ouvinte cabe organizar. Os Beatles na qualidade dos quatro cavaleiros do Apocalipse ou Iggy Pop, símbolo da rebeldia Pop, no papel de advogado de acusação, Vincent Bugliosi, são apenas dois exemplos de um jogo de espelhos infinito onde a noção de “real” acaba por perder todo o sentido. É isso que John Moran pretende, quando põe Charles Manson a dizer: “Não podem provar nada do que aconteceu ontem [o crime] ‘agora’ é a única coisa real. Podem tentar provar que Colombo navegou por um oceano… mas já não é o mesmo oceano…”. Apologia do momento e da acção pura. Nietzsche de novo, puxado para o lado perigoso. Nesta perspectiva, Hitler e o holocausto poderiam ter uma razão de ser.
É o horror total, o puxar do tapete debaixo dos pés. Tudo é lícito, visto que o direito legal não passa de um mero produto que visa manter um “status quo” social. Nega-se, é evidente, a existência de um direito de outra ordem, transcendente, ou seja, a lei divina. Obviamente, John Moran, e Manson, e a mentalidade ocidental que aos poucos vai vendendo a sua alma, acreditam mais no diabo do que em Deus. Manson, como Hitler, como Gilles de Rais, como todos os grandes criminosos da História, levou esta filosofia até às últimas consequências.
“The Manson Family” é ainda a psicadelia voltada do avesso e a transgressão completa de uma narrativa operática convencional. As vozes podem ser “sampladas” dos Beatles do álbum branco ou gravações originais da voz de Manson, de modo a acentuar uma dimensão ultratemporal. A electrónica assume o papel, não de niveladora, à semelhança por exemplo do que acontece nas óperas de Robert Ashley ou do próprio Philip Glass, mas de criadora, também ela, de desequilíbrios e desfocagens várias, aproximando-se, neste aspecto, “The Manson Family” de estratégias típicas dos Negativland ou de Chris Burke, no álbum “Idioglossia”. Um pesadelo sem fim.