Arquivo mensal: Junho 2015

Planxty – “Planxty” + “The Well Below The Valley” + “Cold Blow And The Rainy Night” + “After The Break” + “The Woman I Loved So Well” + Words And Music” (Reedições)

Pop Rock

21 OUTUBRO 1992
REEDIÇÕES

PLANXTY: UM RASTO DE LUZ

Planxty (9)
The Well below the Valley (10)
Cold Blow and the Rainy Night (10)

CD, Shanachie, distri. MC – Mundo da Canção
After the Break (9)
The Woman I Loved so Well (9)
Words and Music (8)

CD Tara, distri. MC – Mundo da Canção

Com a reedição recente em compacto de “Cold Blow and the Rainy Night”, fica a partir de agora disponível, neste formato, a obra completa de uma das bandas que de modo exemplar contribuíram para implantar e desenvolver o movimento de renovação da música tradicional irlandesa ocorrido em inícios dos anos 60.

planxty

Aos Planxty de deve grande parte do impacte que este género musical teve sobre as gerações mais novas do Reino Unido, Estados Unidos e Europa. Antes deles havia a tradição, no sentido mais ortodoxo do termo, celebrada por praticantes como os Clancy Brothers, Dubliners e Chieftains – estes os únicos, e tardiamente, a ousarem a reconversão para modalidades menos arreigadas às regras que limitavam a projecção desta música numa escala mais alargada. Rompendo com a estagnação e inovando sem trair o passado, os Planxty fizeram história. Os três primeiros álbuns, gravados respectivamente em 1972, 73 e 74, para a Polydor, formam uma trilogia seminal que, nessa altura, abalou a estagnação em que se encontrava o “Folk Revival” irlandês, atrasado em relação ao dos vizinhos ingleses, que já então se orgulhavam de ter apresentado o trabalho pioneiro de bandas como os Fairport Convention, Steeleye Span, Pentangle e Strawbs, entre outras de segunda linha. Graças aos Planxty e ao consequente “boom” de novos grupos por ele motivado, a Irlanda não só passou para a frente como é hoje o maior viveiro e cadinho de todas as experiências realizadas com e sobre a tradição de raiz celta.
“Planxty”, a estreia discográfica, pecará apenas por uma produção que se revelou não se a mais adequada para o tipo de sonoridade que viria a caracterizar a banda – uma espantosa combinação dos instrumentos de corda dedilhada (“bouzouki”, bandolim, guitarra) com as “uillean pipes” e a originalidade de vocalizações partilhadas por vários membros dos Planxty. A partir deste disco, os quatro Planxty da formação original entraram directamente para a lenda, vindo a revelar-se, todos eles, obreiros de eleite na construção do Templo.
Andy Irvine, admirador de longa data de Woody Guthrie, aplicou com sucesso à música irlandesa certas técnicas do bandolim empregues por este músico americano. Foi também um dos pioneiros na utilização da sanfona na música tradicional britânica (instrumento solista no tema “Planxty Irwin”, incluído no primeiro álbum), além de um vocalista notável que, desde os tempos dos Sweeney’s Men (onde alinhava ao lado de Joe Dolan e Johnny Moynihan), viria a criar escola e continuadores como Andy M. Stewart, dos escoceses SillyWizard.
Lyam O’Flynn, que cedo mostrou as suas credenciais de grande tocador de “uillean pipes”, digno dos mestres de antanho, dotou os “reels”, marchas e “hornpipes” de uma profundidade harmónica que lhes faltava, advinda do uso sistemático dos bordões da gaita, uso que contrariava a tendência manifestada pela generalidade de outros gaiteiros irlandeses, que privilegiavam a melodia e as ornamentações desenhadas no ponteiro. E não é por acaso que o compositor Shaun Davey lhe entrega invariavelmente o papel de solista, nas suas obras orquestrais centradas sobre a mitologia irlandesa (“The Pilgrim”, “The Brendan Voyage”, The Relief of Derry Symphony”).
Christy Moore, também credenciado vocalista, enriquecia então o som dos Planxty com a religiosidade de um órgão antigo de pedais e um estilo peculiar de percutir o “bodhran”. Moore, hoje considerado uma lenda viva na Irlanda, conseguiu passar, sem convulsões, de expoente da música tradicional assinalado em obras capitais como “The Iron behind the Velvet” a cantor popular que não descurou a origens, assim exposto em álbuns como “Ordinary Man” ou o novo “Smoke & strong Whiskey”.
De Donnal Lunny, intérprete de excepção de bandolim e ”bouzouki”, basta referir que foi um dos fundadores dos Bothy Band, gravou um óptimo disco de parceria com Paul Brady (passou pelos Planxty, hoje vegeta sem glória na Pop sentimentalona mais inócua) e é na actualidade um dos produtores e músicos de estúdio mais activos e criativos do circuito “Folk” europeu.
Com esta formação, os Planxty assinaram as duas obras-primas “The Well below the Valley” e “Cold Blow and the Rainy Night”, a última das quais pode ser considerada um dos melhores álbuns de sempre e um marco decisivo na evolução da música tradicional irlandesa. Se “The Well below the Valley” atinge a perfeição – demonstrando um equilíbrio sem falhas entre a escolha imaginativa de reportório, o virtuosismo dos intérpretes e arranjos que vão da complexidade quase “sinfónica” dos instrumentais ao intimismo apaixonado das baladas –, o álbum seguinte atinge o estado de graça.
“Cold Blow and the Rainy Night” demonstra toda a riqueza que habita o coração da música irlandesa. É um vulcão, uma floresta, um mar sem limites. Canções fabulosas: “Johnny Cope”, “P Stands for paddy, I suppose”, “Cold blow and the rainy night”, The little drummer”. Os instrumentais estão divididos por secções de “medleys”: polkas, “reels” e “jigs”. “Bañeasa’s green glade”, balada comovente, composta por Irvine, em que se narram tempos vividos na Roménia, passados entre tocar na rua a juntar moedas, passeios pela estranheza e o gastar dos tostões na taberna, entre música, a recordar os amigos e a Irlanda distante, e “Mominsko Horo” (instrumental búlgaro) são os primeiros testemunhos gravados da paixão nutrida por Andy Irvine (viveu durante algum tempo na antiga Jugoslávia) pela música dos Balcãs. Seguir-se-iam “Smeceno horo” (em “After the Break”), “Paidushko horo” (do álbum a solo “Rainy Sundays… Windy Dreams”) e a entrega total de “East Wind”, numa colaboração com Davey Spillane. Mas é preciso ouvir a totalidade para se apreender a magia e dar conta do momento irrepetível em que quatro músicos unidos por um amor comum – a uma causa, a um país, a um passado – depõem esse amor sobre a espuma do presente.
Atingida a plenitude, os Planxty separaram-se. Regressam cinco anos mais tarde em regime de “part-time”, com “After the Break”, gravado em 1979. Trazem um músico brilhante: Matt Molloy, na flauta, recrutado por Lunny, quando ambos integravam os Bothy Band, formação que deixou para a posteridade os álbuns “The Bothy Band”, “Old hag you Have Killed me” e “Out of the Wind into the Sun” (mais outro ao vivo, “Afterhours”). A mudança de editora, da Polydor para a Tara, e o passar dos anos limaram até certo ponto a sonoridade dos Planxty. Se, por um lado, o som se tornou mais sofisticado, mais claro, por outro, ficou pelo caminho alguma da energia e da vivacidade que inflamavam os discos da primeira fase. As baladas perderam em fogosidade, os instrumentais tornaram-se polidos e esquemáticos, mais formais. É que os Planxty tinham-se tornado entretanto numa instituição e a música reflectia esse novo estatuto – continuava a ser música tradicional irlandesa de excepção, mas, agora, acrescentada das obrigações e dos limites que a condição de “clássicos” lhes impunha.
Como que a reforçar esta imagem de “monstros sagrados”, de mestres consagrados a quem se pede que sejam embaixadores da Irlanda no mundo, o álbum seguinte, “The Woman I Loved so Well”, apresenta pela primeira vez uma lista de convidados: Noel Hill (concertina), Tony Linnane (violino, estreante nos Planxty, o que é sintomático da “diferença” que o grupo sempre fizeram gala em evidenciar, neste caso através da recusa de um instrumento-ícone da música irlandesa) e Bill Whelan (teclados, mais tarde produtor de “East Wind”). Derradeira obra superior, “The Woman I Loved so Well” recupera o formato esquemático de “Cold Blow”, intercalando as baladas com secções instrumentais, aqui de “double jigs”, “hornpipes” e “reels”. Lyam O’Flynn assume uma posição de destaque no seio do grupo, infiltrando por todo o lado o som das suas “uillean pipes” e culminando esta operação na homenagem prestada ao seu professor de gaita-de-foles – o lendário Leo Rowsome – no tema final “Words and Music”, desta feita com os convidados Bill Whelan, James Kelly (violino), Nollaig Casey (violino) e Eoghan O’Neill (baixo), soa como uma despedida triste, acenada em longas e lentas baladas (um pouco longas de mais, fazendo crescer a tristeza até à agonia) e num tema de Bob Dylan sobre a emigração, “I pitty the poor immigrant”. O som electrifica-se e banaliza-se, sem contudo cair na vulgaridade. Os rasgos de génio, que antes eram regra, passam a ser excepção. O adeus definitivo pronunciado pelo colectivo não poderia encontrar melhor epitáfio que “The Irish March”, título derradeiro de uma trajectória que deixou no céu um rasto de luz. A luz de uma estrela. A luz de um farol.

discografia



Folk Tejo (artigo de opinião – concertos – festivais)

Pop Rock

27 MAIO 1992
SÓ CONCERTOS – JUNHO

FOLK TEJO

ft

Finalmente Lisboa vai ter a sua grande festa de folk. Nos dias 1 e 2 de Junho, no Coliseu dos Recreios. A organização chamou-lhe “Folk Tejo” e é ela que abre as “Festas da Cidade”. Os preços variam entre os 1200 escudos, para a Geral, e os 12500 escudos, para um camarote de 1ª, para cinco pessoas. No Sábado: Maddy Prior, McCalmans, June Tabor e Davy Spillane. No domingo será dia dos portugueses Vai de Roda e Júlio Pereira, do brasileiro Paulo Moura e da banda americana Moore by Four. Considerada, ao lado da malograda Sandy Denny, uma das duas grandes vozes femininas britânicas do movimento revivalista folk dos anos 70, Maddy Prior viria a abandonar a banda que a celebrizou, os Steeleye Span (“Ten Man Mo por Mr. Reservoir Butler Rides again”, “Below the Salt” e “Parcel of Rogues” ficaram para a história), para se dedicar a uma discreta carreira a solo, voltada para sonoridades progressivamente mais distantes da música tradicional. Nos últimos anos, a filha pródiga regressou ao lar e à música antiga, integrada nos Carnival Band, de “A Tapestry of Carols” (recolha de canções de Natal que remontam à Idade Média) e “Sing Lustilly & with Good Courage”, recuperação brilhante do ambiente palaciano e das danças da Renascença inglesa. Fundamentais são ainda os dois álbuns (com destaque para “No more to the Dance”) que, juntamente com June Tabor, gravou sob a designação Silly Sisters – duas vozes femininas irmanadas numa paixão comum pelas origens, magistrais no modo como ambas se harmonizam no canto dessa paixão.
June Tabor, que, de resto, estará também presente na festa. De voz mais contida e interiorizada que a da sua “irmã” Maddy, nem por isso deixou de desempenhar um papel fulcral no movimento do “folk revival” britânico. Vista nos meios folk como uma purista, o seu álbum “Ashes and Diamonds” causou escândalo na época (1977), devido à utilização descomplexada dos sintetizadores, hoje, para o melhor e para o pior, tornada usual. De entre um extenso e meritório currículo, salientam-se as participações no épico “The Transports”, de Peter Bellamy e “Till the Beast’s Returning”, de Andrew Cronshaw, bem como a parceria com Martin Simpson em “A cut above”. No seu disco mais recente (“Some other Time”), optou por um estilo “jazzy” e pela interpretação de alguns dos seus “standards”, com resultados duvidosos. No Coliseu, presume-se, será diferente.
Os escoceses McCalmans integram a segunda linha dos grupos folk britânicos, apesar de já contarem no activo com 17 álbuns. A sua música distingue-se pelos apurados jogos vocais e por uma rudeza estilística que os aproxima do som “pub” dos Dubliners ou dos Wolfetones. Ao vivo, podem tornar-se irresistíveis. De Davy Spillane, menino prodígio da gaita-de-foles, há quem o deteste e quem o venere. No primeiro caso estão aqueles que o acusam de perverter (a solo ou integrado nos Moving Hearts) o espírito celta, ao acrescentar-lhe a vergonha do “rock‘n’roll”, a crueza dos “blues” e a contaminação “country”, em álbuns como “Atlantic Bridge”, “Out of the Air”, “The Storm” ou o recente “Shadow Hunter”. No segundo caso, rejubila quem acha que deve ser assim, que o termo “celta” tudo engloba e que o mais importante é o facto de Spillane ser hoje um dos principais embaixadores da cultura irlandesa no mundo.
António Tentúgal e os Vai de Roda vão mostrar como se pode ser antigo, moderno, rural e urbano ao mesmo tempo e sem deixar de ser português. Lisboa vai poder deliciar-se ao vivo, pela primeira vez, com as histórias de “Terreiro de Bruxas”, que a banda portuense tão bem sabe contar. Júlio Pereira, acompanhado pela sua nova banda, trará para a cidade as suas paisagens pintadas nas “Janelas Verdes”. Paulo Moura, brasileiro, saxofonista, influenciado por Charlie Parker, mistura o jazz com ritmos rurais como a gafieira ou o chorinho. “Confusão Urbana, Suburbana e Rural”, título de um dos seus álbuns, ilustra nem tal atitude. Finalmente os Moore by Four, cinco instrumentistas e quatro vocalistas, de Minnesota, EUA, banda de “fusão” swingante, permeável ao “gospel” e à pop, que alguns comparam, na abordagem vocal, aos Manhattan Transfer. “Folk Tejo” – da tradição celta à tradição do “swing”.



Vários – “Blues In The Mississippi Night”

Pop Rock

28 OUTUBRO 1992

Vários
Blues in the Mississippi Night

CD, Rykodisk, distri. MVM

mississi

Aqui se conta a história verdadeira dos blues e das suas origens, pela voz dos mestres: Memphis Slim, Big Bill Broonzy e Sonny Boy Williamson, em gravações originais dos anos 40 editadas por Alan Lomax. Trata-se antes de mais de um documento histórico de vital importância para o estudo dos blues e das coordenadas sociais que lhe estão subjacentes. Os três “bluesmen” citados, nascidos no delta do Mississipi, encontraram-se à volta de uma mesa, para trocar impressões, recordações e vivências por vezes dolorosas. É explicado o conteúdo de canções e exemplifica-se cantando. “Blues in the Mississipi Night” é quinze minutos de música e uma hora de texto falado. Procure-se aqui a informação, recolhida das fontes originais com o bónus adicional de pequenos fragmentos musicais. E o contacto em directo com a História. Dos blues, nesta noite de sons soltos em conversa, se fala sem barreiras. Os blues que movem o coração, inseparáveis da escravatura a que foi sujeita a população negra trazida para o Sul para trabalhar nas plantações de algodão. “Blues in the Mississipi Night” é ainda, apesar da violência e da exploração, a alegria e um canto de liberdade. Como se canta na canção: “When a woman blue, she hangs her head and cries/when a man gets the blues, he grabs a train and rides.” (7)

torrent