Arquivo mensal: Janeiro 2015

Milton Nascimento e Pat Metheny – Concertos –

Pop Rock

27 MAIO 1992
SÓ CONCERTOS – JULHO

MILTON NASCIMENTO E PAT METHENY

Milton Nascimento, no Porto. Pat Metheny, também. Milton Nascimento e Pat Metheny, juntos no mesmo concerto, só em Lisboa, no Campo Pequeno, a 30 de Julho. Quanto às datas portuenses: Milton a 28 de Junho, Pat a 1 de Julho, ambas no Coliseu. Em Lisboa, a primeira parte será preenchida pela banda de Milton Nascimento, que actuará cerca de uma hora e meia. A seguir brilhará a guitarra de Pat Metheny, mais ou menos durante duas horas e meia. Para o fim, está previsto espectáculo extra: o guitarrista americano deverá juntar-se à banda do brasileiro. Se os astros quiserem e os músicos também, as duas bandas poderão mesmo tocar em simultâneo, numa experiência que, a acontecer, constituirá decerto momento inolvidável. Os preços dos bilhetes vão dos 2500 aos 6000 escudos. A Scat organiza. Nos concertos do Porto, deverá ser um pouco mais barato.
Milton Nascimento traz consigo seis músicos, todos brasileiros, avultando a presença de três percussionistas. Ao lado de Pat Metheny, o nome mais conhecido é o do teclista Lyle Mays. Há mais quatro, entre os quais também dois brasileiros. Se em relação ao Milton Nascimento (tornado importante pela excelência de “O Milagre dos Peixes”), os elogios são mais ou menos unânimes (a principal crítica diz respeito à por vezes excessiva reverência aos modelos americanos), já Pat Metheny tem a desagradável (e felizmente ocasional) tendência para se afundar na mais completa mediocridade. Não faltam exemplos nos recentes álbuns gravados para a Geffen. Pontos altos são a maioria dos seus discos da ECM e o magistral “tour de force” reichiano que é “Electric Counterpoint”. Da primeira vez que esteve entre nós, há dois anos, no Coliseu de Lisboa, foi o delírio, parece.



Folk Tejo – Festival de Folk em Lisboa

Pop Rock

27 MAIO 1992
SÓ CONCERTOS – JUNHO

FOLK TEJO

Finalmente Lisboa vai ter a sua grande festa de folk. Nos dias 1 e 2 de Junho, no Coliseu dos Recreios. A organização chamou-lhe “Folk Tejo” e é ela que abre as “Festas da Cidade”. Os preços variam entre os 1200 escudos, para a Geral, e os 12500 escudos, para um camarote de 1ª, para cinco pessoas. No Sábado: Maddy Prior, McCalmans, June Tabor e Davy Spillane. No domingo será dia dos portugueses Vai de Roda e Júlio Pereira, do brasileiro Paulo Moura e da banda americana Moore by Four. Considerada, ao lado da malograda Sandy Denny, uma das duas grandes vozes femininas britânicas do movimento revivalista folk dos anos 70, Maddy Prior viria a abandonar a banda que a celebrizou, os Steeleye Span (“Ten Man Mo por Mr. Reservoir Butler Rides again”, “Below the Salt” e “Parcel of Rogues” ficaram para a história), para se dedicar a uma discreta carreira a solo, voltada para sonoridades progressivamente mais distantes da música tradicional. Nos últimos anos, a filha pródiga regressou ao lar e à música antiga, integrada nos Carnival Band, de “A Tapestry of Carols” (recolha de canções de Natal que remontam à Idade Média) e “Sing Lustilly & with Good Courage”, recuperação brilhante do ambiente palaciano e das danças da Renascença inglesa. Fundamentais são ainda os dois álbuns (com destaque para “No more to the Dance”) que, juntamente com June Tabor, gravou sob a designação Silly Sisters – duas vozes femininas irmanadas numa paixão comum pelas origens, magistrais no modo como ambas se harmonizam no canto dessa paixão.
June Tabor, que, de resto, estará também presente na festa. De voz mais contida e interiorizada que a da sua “irmã” Maddy, nem por isso deixou de desempenhar um papel fulcral no movimento do “folk revival” britânico. Vista nos meios folk como uma purista, o seu álbum “Ashes and Diamonds” causou escândalo na época (1977), devido à utilização descomplexada dos sintetizadores, hoje, para o melhor e para o pior, tornada usual. De entre um extenso e meritório currículo, salientam-se as participações no épico “The Transports”, de Peter Bellamy e “Till the Beast’s Returning”, de Andrew Cronshaw, bem como a parceria com Martin Simpson em “A cut above”. No seu disco mais recente (“Some other Time”), optou por um estilo “jazzy” e pela interpretação de alguns dos seus “standards”, com resultados duvidosos. No Coliseu, presume-se, será diferente.
Os escoceses McCalmans integram a segunda linha dos grupos folk britânicos, apesar de já contarem no activo com 17 álbuns. A sua música distingue-se pelos apurados jogos vocais e por uma rudeza estilística que os aproxima do som “pub” dos Dubliners ou dos Wolfetones. Ao vivo, podem tornar-se irresistíveis. De Davy Spillane, menino prodígio da gaita-de-foles, há quem o deteste e quem o venere. No primeiro caso estão aqueles que o acusam de perverter (a solo ou integrado nos Moving Hearts) o espírito celta, ao acrescentar-lhe a vergonha do “rock‘n’roll”, a crueza dos “blues” e a contaminação “country”, em álbuns como “Atlantic Bridge”, “Out of the Air”, “The Storm” ou o recente “Shadow Hunter”. No segundo caso, rejubila quem acha que deve ser assim, que o termo “celta” tudo engloba e que o mais importante é o facto de Spillane ser hoje um dos principais embaixadores da cultura irlandesa no mundo.
António Tentúgal e os Vai de Roda vão mostrar como se pode ser antigo, moderno, rural e urbano ao mesmo tempo e sem deixar de ser português. Lisboa vai poder deliciar-se ao vivo, pela primeira vez, com as histórias de “Terreiro de Bruxas”, que a banda portuense tão bem sabe contar. Júlio Pereira, acompanhado pela sua nova banda, trará para a cidade as suas paisagens pintadas nas “Janelas Verdes”. Paulo Moura, brasileiro, saxofonista, influenciado por Charlie Parker, mistura o jazz com ritmos rurais como a gafieira ou o chorinho. “Confusão Urbana, Suburbana e Rural”, título de um dos seus álbuns, ilustra nem tal atitude. Finalmente os Moore by Four, cinco instrumentistas e quatro vocalistas, de Minnesota, EUA, banda de “fusão” swingante, permeável ao “gospel” e à pop, que alguns comparam, na abordagem vocal, aos Manhattan Transfer. “Folk Tejo” – da tradição celta à tradição do “swing”.



Vários – “Em Tempo Real”

Pop Rock

30 OUTUBRO 1991

Vários
Em Tempo Real
CD, El Tatu, distri. Polygram

PLOPcd

As bandas que partilham entre si o tempo deste CD de apresentação da nova editora El Tatu estão-se nas tintas para a música portuguesa. Ainda bem. É verdade que os Plopoplot Pot, A Máquina do Almoço Dá Pancadas (sobretudo estas duas) e os No Noise Reduction são sensíveis a influências externas. Mas, em qualquer dos casos, trata-se de uma assimilação de linguagens, não de uma cópia. Sem excepções, nota-se em todos os intervenientes (na maioria excelentes executantes) o prazer e a alegria de fazer música, sem preconceitos e livre das imposições mesquinhas que são a regra no pântano do nosso meio musical.
Os Plopoplot Pot e A Máquina bem poderiam figurar no catálogo Recommended. O grupo de Nuno Rebelo transporta as sonoridades dos Lounge Lizards e da “down town” nova-iorquina para um universo bizarro de manipulações electrónicas sobre o qual se desenrolam as deambulações modais dos saxofones de Rodrigo Amado e Paulo Curado, suportados pelo baixo de Rebelo e a rítmica sincopada de Bruno Pedroso. Preciosa, a intervenção, na guitarra eléctrica, de Luís Areias, em “Ataque nocturno c/ radar”.
A Máquina (de João Pires de Campos, mais conhecido por Flak, nos Rádio Macau…) integra a na sua música a estética “free pop” dos Henry Cow (evidente em “7:5:3” e “Paisagens de Madeira”) e o minimalismo tonal dos Soft Machine de “Seven” (“Barcos na água”). O resultado é francamente sedutor.
Passando ao lado das improvisações em guitarra/baixo/bateria do trio Luís Desirat, Rafael Toral e João Oliveira e Silva, meros exercícios de estilo sobre as potencialidades dos respectivos instrumentos, cabe aos No Noise Reduction (Paulo Feliciano e Rafael Toral) fechar em beleza um disco que abre portas à nova música feita em Portugal. Mestres operadores do ruído (na mesma área em que se movem, por exemplo, David Linton, Steve Fisk ou Chris Burke), os NNR recorrem aos “samplers”, às técnicas de “scratch”, à manipulação de fitas magnéticas ou de leitores de CD “preparados” e às programações computorizadas para a criação de miniaturas cibernéticas que juntam o humor, Jimi Hendrix, os jogos electrónicos e o ruído “puro” com que encerram a sua prestação. “Em tempo real” acaba de vez com a execrável ladainha do “para portugueses não está mal”. Excelente disco. Em Portugal ou em qualquer parte do mundo. (8)