Arquivo mensal: Janeiro 2015

Vários – “Country Hits – Volume I” e Country Music Video Magazine [Vídeo]

Pop Rock

20 FEVEREIRO 1991
VÍDEOS

VÁRIOS
Country Hits – Volume I
e Country Music Video Magazine
BMG, Video

ch

“Country music”, a música da América, não é? Pois é. Mas, a julgar por estes dois vídeos sobre a dita música, apetece perguntar: “América, América, para onde vais?” Claro que a culpa não pode ser assacada a uma nação, ainda por cima tão novinha, sem responsabilidades. Aponte-se antes o dedo aos realizadores, sobretudo os responsáveis pelos “clips” da série “Country hits”. As imagens jogam com todos os lugares-comuns típicos do género. Ainda por cima jogam mal. Em cada cinco segundos surgem “close-ups” sobre dedos dedilhando guitarras. Depois, são os chapéus de “cowboy”, casas de campo, estradas sem fim com paragem em bares onde se joga bilhar e se encontra o amor. Elas, Lorrie Morgan, o duo The Judds, Baillie (com os respectivos Boys) e K. T. Oslin são geralmente bonitas (sobretudo os seus cabelos), de pose cândida e voz doce. Vestem quase sempre de branco. Lorrie Morgan, então, exagera: em “Dear me” as imagens, desde o vestido às paredes do quarto, passando pela roupa da cama, têm o colorido de um copo de leite derramado sobre a neve. Eles usam barba rija, vestem-se de “cowboys”, fogem de casa, mas acabam sempre por regressar aos braços delas. Ah, sim, a música… – tem pouco a ver com a “country” genuína. Digamos que se equipara aos “filtros David Hamilton”, profusamente utilizados ao longo de todo o vídeo.
“Country Music Video Magazine” é mais sério e discreto. Como o título indica, resume as actividades “country” de um determinado período, alternando declarações de artistas com excertos raros de concertos ao vivo e mesmo a apresentação crítica de discos. Por aqui passam, entre outros, Dwight Yoakam, K. D. Lang (dissertando sobre a “progressive country music” enquanto faz festas a uma vaca) e os Byrds, estes em imagens de arquivo interpretando “Mr. Tambourine Man” e, na versão actual e anafada, a recordar o mesmo tema. Ambos os vídeos fazem a apologia da brancura. ***



Joni Mitchell – “Shadows And Light”

Pop Rock

13 FEVEREIRO 1991
VÍDEOS

JONI MITCHELL
Shadows and Light

Warner Home Vídeo

jm

Sombras e luz. Cegueira e visão. A imagens iniciais mostram James Dean em frente a uma televisão. Imagens extraídas de “Fúria de Viver” de Nicholas Ray. “Todos os quadros têm sombras e alguma fonte de luz.” Joni Mitchell, recorde-se, desenha e pinta, para além de cantar. Sugere-se um universo pictórico que afinal nunca se chega, neste vídeo, a concretizar.
Filmado e gravado em 1980, “Shadows and Light” centra-se numa actuação ao vivo da cantora canadiana, aqui acompanhada por uma formação de luxo constituída por Pat Metheny (guitarra), Jaco Pastorius (entretanto falecido, baixo), Michael Brecker (saxofone), Don Alias (bateria) e Lyle Mays (teclados).
Ao prazer musical proporcionado pela excelência dos intérpretes e ao reencontro com as palavras que Joni Mitchell, como poucas, tão bem sabe manejar, pouco mais há a acrescentar. Em termos visuais, aparece um coiote a correr desalmadamente pela neve, durante a interpretação de “Coyote”, do álbum “Hejira”. É muito pouco para uma obra (também) visual, da parte de uma mulher perita em mover-se no universo das imagens. Poderá encontrar-se justificação na tentativa de concentrar todas as atenções na música, mas para isso já existem os discos. Resta então apreciar o rosto luminoso e, nessa época, os caracóis da autora de obras fundamentais como “The Hissing of Summer Lawns”, “Don Juan’s Reckless Daughter” e “Mingus”, ilustrativas da fase mais jazzística, seguindo uma linguagem que viria a revelar-se ideal para as sinuosidades e diversidade de registos característicos de uma voz e estilo inconfundíveis. Procure-se aí a luz e sombras a que o título alude. ***

aqui



Naked City – concerto em Portugal

Pop Rock

27 MAIO 1992
SÓ CONCERTOS – JULHO

Zorn

NAKED CITY – Segunda vez em Portugal. A mesma formação do ano passado: John Zorn (saxofone esquizóide, gritos e apitos), Fred Frith (baixo confortável), Wayne Horvitz (teclados, bits e bites), Bill Frisell (guitarra planante ou arranhada, é conforme), Joey Baron (bateria circunspecta). Data única confirmada: 10 de Julho, em Lisboa, na Aula Magna. Para fazer esquecer o barracão das traseiras do Fórum, capaz de tornar lixo o melhor som, como foi o caso. Organização de novo a cargo dos Concertos de Portugal. Os preços, por confirmar, devem rondar os 2500 escudos. Nas Picoas, foi um pouco como ir ao circo. As bocas abriram-se muito de espanto, perante a velocidade estonteante dos executantes. Sobretudo as daqueles desconhecedores de obras capitais do saxofonista, como “The Big Gundown” ou “Spillane” (em que a rapidez não apagava os pontos intermediários da viagem, ou então é o crítico que está a ficar senil) ou, no caso de Frith, os geniais “Gravity” e “Speechless”, sem esquecer a importância das obras a solo de Horvitz e Frisell. Desta vez, como será? Aparentemente, ainda mais rápido. “Torture Garden”, o novo álbum dos Naked City, impressiona como o estalo de um raio. As faixas raramente alcançam a eternidade dos sessenta segundos. Os ouvidos têm de ser rápidos para acompanharem a coisa, a riqueza do pormenor, as “nuances” microscópicas, às dezenas, espalhadas por cada milésimo de segundo. Houve que ousasse aplicar-lhe o termo “trash”. Talvez por não se ter apercebido da subtileza, quase sinfónica, de uma música somente perceptível e saboreável em profundidade a uma rotação de disco por segundo. Os cinco intérpretes, não se duvide, são fabulosos. Independentemente de conseguirem ou não alguma vez condensar a história completa da música numa única espira. Enquanto não o conseguem, vale a pena apreciar as tentativas.

Naked City – “Naked City” (1989), 320kbps, aqui