Arquivo mensal: Junho 2010

Joni Mitchell: Cinco Estrelas

12.05.2000
Cinco Estrelas

33 anos de carreira, 20 álbuns de originais ao longo dos quais a cantora e compositora canadiana tem escrito e reescrito a sua própria história. Um universo pessoal, tão musical como pictórico, sem paralelo na enciclopédia dos grandes singers-songwriters norte-americanos. Desta longa viagem confessional retirámos cinco momentos que são outros tantos álbuns de retratos. Uma escolha assumidamente subjectiva, não consensual, que exclui a fase mais recente da cantora, presente em álbuns como “Turbulent Indigo” ou “Taming the Tiger”, sem dúvida excepcionais. Apenas porque a intenção foi, acima de tudo, chamar a atenção para o barro e para as estrelas de um passado sem o qual nunca se teria iluminado o firmamento de clássicos que Joni Mitchell, no seu mais recente capítulo de uma história de amor interminável, entroniza em “Both Sides Now”.

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“Blue” (1971)
“Sentia-me isolada, como uma ave presa na gaiola. Já não conseguia relacionar-me com as pessoas. Uma certa dose de sucesso pode acabar com uma pessoa, de várias maneiras”. Esta dose de sucesso tinha sido granjeada ao longo dos três álbuns precedentes e “Blue” é a resposta aos que queriam ver nela apenas a “hippie” que assinou o hino “Woodstock”. Com “Blue”, Joni Mitchell demarca-se do seu passado recente, abandonando os concertos ao vivo para se auto-analisar num retiro interior do qual resultou este álbum, onde é possível descortinar os claros-escuros de um poço emocional e criativo sem fundo. É ainda a autora que, a propósito deste seu trabalho, afirmou: “Neste período da minha vida não tinha quaisquer defesas, por isso dificilmente se encontrará nas letras ou na voz o mínimo sinal que não corresponda a uma sinceridade absoluta”.

“For The Roses” (1972
Apesar da ausência voluntária dospalcos, “For the Roses” entra, num ápice, para as listas de vendas dos EUA, feito para o qual muito contribuiu o impacto do single “You turn me on, I’m a rádio”, o primeiro “hit” da cantora que chegou a ter alguma divulgação em Portugal. Embora muitos prefiram o tom mais extrovertido do álbum seguinte, “Court & Spark”, é em “For the Roses” que a relação entre a voz e o piano de Joni Mitchell – nalguns casos e pela primeira vez, pontuados por uma orquestra – se tornam cúmplices de mil e uma solidões repartidas. Um crítico do “New York Times” apontava então para ela como uma “cantora e compositora de génio que fazia com que não nos sentíssemos sozinhos”, enquanto ela própria, na canção “Woman of heart and mind”, canta: “Pensas que sou como a tua mãe, ou outra das tuas amantes, ou a tua irmã, ou a rainha dos teus sonhos, ou apenas outra rapariga tonta, quando o amor faz de mim o que quer.”

“The Hissing of Summer Lawns” (1975)
Há quem não morra de amores por este álbum, embora tivesse sido, uma vez mais, um sucesso de vendas. Ao contrário de todas as obras anteriores, auto-confessionais, “The Hissing of Summer Lawns” aponta o bisturi para o exterior, fazendo a dissecação de alguns dos vícios da sociedade americana. É, em simultâneo, em termos musicais, o álbum mais experimental da compositora, carregado de uma electrónica densa que atinge o esplendor em “The jungle line”. Manhattan transformada numa selva tropical, cimento e lianas, atravessada por jibóias e batuques rituais. E o jazz começava a despontar.

“Hejira” (1976)
O oposto do anterior. Se “Hissing tjhe Summer Lawns” era calor e humidade, “Hejira” é branco e frio, com o desenho rigoroso de uma patinadora no gelo. Conta Joni Mitchell que a maioria das canções foi composta em viagens de automóvel. O título significa “uma viagem empreendida com a finalidade de escapar a um ambiente hostil ou indesejável”. Por vezes algo hermético, de um apuro formal levado à perfeição, “Hejira” é um exercício de jazz ambiental, cuja arquitectura depende em grande parte do baixo de Jaco Pastorius, da bateria de John Guerin e do vibrafone de Victor Feldman. Neil Young, um velho amigo, toca harmónica como convidado. “Coyote” e “Amelia” são as canções que fogem um pouco a esta paisagem imaginada por uma esteta.

“Mingus” (1979)
Depois da participação, em 1978, no filme de Scorcese, “A Última Valsa”, Charles Mingus, um dos maiores contrabaixistas e compositores da história do jazz, já na fase terminal da sua doença, contactou-a, manifestando-lhe o desejo de trabalharem juntos numa adaptação musical de “Four Quartets”, de T. S. Eliot. Ele escreveria a música, ela editaria os textos. Joni Mitchell declinou a oferta, com a justificação de que seria mais fácil fazer uma síntese da Bíblia. Mingus, insistiu, compondo seis composições para a voz da cantora. Acabaram por ser utilizadas apenas quatro, incluindo o “standard” “Goodbye pork pie hat”. Completam o alinhamento de “Mingus” dois originais da cantora e cinco designados rap, que não são mais do que curtíssimos excertos de monólogos de Mingus, um “Parabéns a você” e conversas e sons de circunstância captados durante o funeral do músico. Mingus morreu a 5 de Janeiro de 1979, mas “Mingus”, o álbum, ficou como uma tocante homenagem a esse músico visionário. Contribuíram para a gravação, além de Guerin e Pastorius, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Peter Erskine e Don Alias.

Radian – Juxtaposition

29.10.2004
Radian
Juxtaposition
Trapist
Ballroom
Thrill Jockey, distri. Ananana
7/10

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Trata-se da música das máquinas. Começou com a cena industrial dos 80’s, apadrinhada pelos krautrockers Cluster, Conrad Schnitzler ou Seesselberg, mais de uma década antes. E os Kraftwerk, claro, mas esses optaram por colocar uma alma de surfista nos circuitos. Com o pós-rock, alguma daquela desumanidade regressou e os austríacos Radian, com o patrocínio dos This Heat, podem ser considerados descendentes do industrialismo na sua faceta mais esquálida. “Juxtaposition” retoma os “grooves” descarnados, as drones ferrugentas e as pulsações secas desenhadas a papel milimétrico sobre paisagens desoladas. O prazer do som sustentado por um “pacemaker” que alimenta um corpo de metal. Na mesma editora, os Trapist são trabalhadores da mesma fábrica. Usam tinta envenenada e brocas de laser nas suas esculturas de electricidade e contraplacado. O longo tema de abertura poderia ser um “test signal” dos This Heat, até as guitarras trazerem vida aos materiais inanimados. Mas a palpabilidade dada aos timbres é manifesto, aspecto em que “Ballroom” é pródigo, na abundância de texturas suculentas dos sintetizadores analógicos. Radian e Trapist escavam um nicho entre a electro-acústica e a electrónica.

Nova Música Electrónica Portuguesa: Um Oásis No Deserto

03.11.2000
Nova Música Electrónica Portuguesa
Um Oásis No Deserto
A música electrónica tem sido uma paisagem desoladora, onde a vida escasseia. Mas no meio do deserto surgem, de quando em quando, oásis. É sobre eles que o PÚBLICO fala esta semana, em conversa com Vítor Joaquim, no balanço do festival EME 2000, e através da recensão de alguns álbuns representativos do género, por ilustres desconhecidos.

Nos últimos tempos algo mudou na música electrónica produzida em Portugal. Provam-no a edição, nalguns casos de autor, de diversos e interessantes CD apostados em dignificar a electrónica feita em Portugal e até, pasme-se, a organização de concertos protagonizados por músicos nacionais. É o caso do festival, ou dos encontros, Eme 2000 que recentemente teve lugar em Setúbal onde, entre outros, estiveram presentes Nuno Rebelo, Vítor Joaquim, Emídio Buchinho e Rodrigo Amado. Vítor Joaquim, de nome artístico Free Field, autor do projecto com este nome ao qual se deve a edição de “Tales from Chaos”, um dos marcos da música electrónica feita em Portugal, foi aliás um dos responsáveis pela organização do evento.
“Tales From Chaos” faz parte de um grupo selecto de discos que também inclui clássicos como “Mr Wollogallu”, de Nuno Canavarro e Carlos Maria Trindade, “Plux Quba”, de Nuno Canavarro, “Música de Baixa Fidelidade”, de Tozé Fereira, “Musiques de Scéne”, de Carlos Zíngaro, “Celsianices”, de Celso de Carvalho, “Part Human, Part Simpson”, de Discmen, “Evil Meatal”, dos Telectu, “M2” e “Azul Esmeralda” de Nuno Rebelo, “A Nova Portugalidade”, dos U-Nu, e Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzp!” do grupo com este nome, do qual será editado em breve um novo álbum. A estes nomes pode acrescentar-se os dos No Noise Reduction, Vítor Rua, Rafael Toral e Bernardo Devlin, entre outros.
Mas sob o solo lavrado pelos clássicos agitam-se novos miasmas e organismos vivos em fase de crescimento, ávidos de saírem para a luz do dia. É sobre alguns destes novos discos e projectos que falaremos neste artigo, ao mesmo tempo que convidámos Vítor Joaquim a fazer um balanço do Eme 2000. A electrónica já dá choque, em Portugal.

Eme 2000

O Eme 2000 dividiu-se em três sessões ao longo das quais a electrónica andou lado a lado com a música improvisada. Vítor Joaquim (VJ) explica como foi possível: “Após três meses de produção solitária, maioritariamente de telefone em punho e e-mails intermináveis (enquanto os amigos iam de férias e para a praia!), acabou por surgir um conjunto de apoios bastante interessante que viria a tornar viável a montagem dos encontros, enquanto se delineava simultaneamente uma equipa de pessoas entusiasmadas, que do primeiro ao último momento contribuiu com o seu melhor nas tarefas mais diversas que se possa imaginar: vender bilhetes, servir cafés, esticar alcatifas, carregar aparelhagem, esticar cabos, controlar entradas, etc.”.
Quanto ao critério de escolha dos artistas, a “ideia fundamental foi encontrar um grupo de músicos que pudesse proporcionar um conjunto suficientemente diversificado de abordagens em termos da génese do som – desde a electrónica acentuada até à exclusividade acústica -, assim como do próprio discurso interpretativo sem perder de vista, obviamente, o lado performativo de cada indivíduo na sua relação com o(s) instrumento(s)”. Não foi esquecida, “num plano paralelo de opções, uma perspectiva de ‘sedução’ na apresentação e progressão dos concertos, com toda a subjectividade que o termo pode implicar”.
O Eme 2000 pôde contar com o apoio de “13 entidades que se mostraram disponíveis para prestar apoio à sua realização, sendo que, de entre elas, cinco fizeram apoio financeiro directo, enquanto as restantes colaboraram em termos de permuta publicitária”. Uma crítica à autarquia do concelho que VJ culpa pelo “trabalho nulo ao longo dos anos” e acusa de não ter contribuído “com um único centavo” para a realização destes encontros.
Sobre o saldo final em termos de adesão de público e dos músicos, ou do ambiente, e dada a escala modesta destes encontros, Vítor Joaquim é peremptório: “Em termos de adesão de público foi verdadeiramente surpreendente. Não só pelo número global de espectadores como também pelo aumento na afluência, passando de aproximadamente 85 pessoas no primeiro dia para 100 no segundo, culminando em cerca de 120 no terceiro.”
VJ refere mesmo a existência de “sérios indicadores de um interesse progressivo pela área da improvisação e da experimentação, provando-se desta forma que, quando há trabalho e empenhamento por parte dos músicos e produtores, as coisas acontecem de facto”. “Ao que as pessoas reagem”, acrescenta.

Macacos E Apóstolos

Ainda em relação à Câmara Municipal de Setúbal, VJ não resiste a comentar que “está na fase de aprender a soletrar” e que “demorará ainda algum tempo até que, para além das palavras, as pessoas em causa saibam compreender os conceitos que elas abrigam ou invocam”. E cita Lichtenberg: “Tais obras são como espelhos; se um macaco olhar para dentro delas, nunca poderá ver um apóstolo”.
O Eme 2001 está na calha, com a hipótese de participação de músicos estrangeiros, embora a “primazia continue a pertencer aos portugueses”. Entretanto, “como forma de preencher o vazio existente entre duas edições, está em fase de implementação um programa de espectáculos que carece ainda de um suporte finaceiro regular por forma a poderem ser produzidos espectáculos não só na área da experimentação musical como da dança, perfomance, instalações, etc.”, diz VJ.
Vítor Joaquim prepara entretanto a edição de um novo álbum, que dará pelo nome de “La Strada is on fire” com o subtítulo “And we are all naked”, onde contará com participações de Vítor Coimbra, no baixo, Rodrigo Amado, no saxofone, e o inglês Martin Archer, em saxofone, assim como colaborações de Chris Bywater e Charlie Collins, na electrónica.

Novos Rumos
Code-N
Per:Form
Ed. de Autor
Nuno Correia é o cérebro dos Code-N. Entre temas compostos para um recital de poesia multimédia e para uma peça de teatro, “Per:Form” atravessa os territórios da electrónica ambiental, do dum ‘n’ bass, do breakbeat, do neo-industrialismo e da techno de corridas (“Mach One”), entrando em regiões menos exploradas do universo electro em temas como “Southwest”, “O Som dos Instrumentos” ou “Luzazul”. A manipulação digital assumida a cem por cento, com resultados por vezes surpreendentes.

Mola Dudle
Mobilia
Ed. de Autor
Nasceram em Tavira e arrumaram a mobília da casa segundo o design e a lógica alucinada de um louco. Nanu e Miguel Cabral, os “loucos”, asseguram a totalidade da produção sonora, usando para tal “tudo o que produz som que se pode encontrar em casa”. Colagens, electrónica desconstrutivista e dissecação de canções que não chegam a sê-lo, confluem num compartimento onde a desarrumação sonora é apenas aparente. A estética Recommended espreita, os desarranjos psicológicos de uns Biota, idem, mas quando o swing electrónico de um tema como “Allo…” funciona em pleno, são os melhores Negativland ou os actuais brincalhões da a.musik que deitam a cabeça de fora, enquanto em “Partypooper” enm Frank Zappa faria melhor. Mas os Mola Dudle devoraram todas as influências e, queira alguém “pegar” neles, poderão tornar-se num dos casos mais sérios e originais da nova música portuguesa.

Ras.Al.Ghul
Subharmonic Density Strucutures
Aquatica, distri. Symbiose
Terceiro trabalho desta banda formada por ex-elementos dos “industriais” Cranioclas, “Subharmonic Density Structures” limpou o som das antigas impurezas para se concentrar numa electrónica de cariz hipnótica e forte carga onírica em forma de mantras que comandam os movimentos do cérebro. Do transe psicadélico ao chill out, passando pelo techno ambiental, os Ras.Al.Ghul visitam as divisões vazias deixadas pelos Biosphere para tentarem chegar ao lado obscuro revolvido pelos Coil.

Vários
Ar Da Guarda
Ed. Câmara Municipal da Guarda
A julgar pelos 13 exemplos apresentados nesta colectânea, a Guarda apresenta-se na vanguarda das novas músicas nacionais. Entre os exercícios das guitarras “new age” de Rogério Pires a parasitária de Albrecht Loops, o neoclassicismo pianístico de Maria João Magno e de Hélia Fernandes, destacam-se as colaborações de Leonel Valbom e José Tavares, ambos discípulos do “sequenciador analógico” dos Heldon, Vítor Afonso, do projecto Kubik, com uma sequência acutilante de percussão e vozes de “contemporânea erudita”, sax zorniano e electrónica fraccionada (David Garland meets Holger Hiller meeets Laibach) e Miguel Prata Gomes, com um excelente pedaço de mistério em fita magnética na linha de Steve Moore/Jocelyn Robert. Anote-se ainda a proposta consistente de Gilberto Costa na área do jazz fusionista tendência “electrodowntown”, a portugalidade bizarra de um fado astral electrocutado por Carlos Barreto Xavier e o “jazz mesmo” que Maria João e Mário Laginha poderiam assinar se estivessem pedrados, de António Cavaleiro, com a voz de Joana Correia. Saudáveis e inovadores estes ares que sopram da Guarda.