Arquivo mensal: Junho 2010

Brian Wilson – Brian Wilson Presents Smile

01.10.2004
Brian Wilson
Brian Wilson Presents Smile
Elektra Nonesuch, distri. Warner Music
9/10
Brian Wilson Volta a Sorrir

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Custou mas foi, 38 anos decorridos sobre a sua concepção original, em 1966, “Smile”, a obra-prima-que-nunca-chegou-a-sê-lo, foi agora editada com pompa e circunstância, não como um álbum dos Beach Boys, mas como um disco a solo de Brian Wilson, ideólogo e líder do grupo, com o título “Brian Wilson Presents Simle”. A história desta obra maldita conta-se em poucas palavras. Após a edição do aclamado “Pet Sounds”, Brian Wilson subiu ainda mais a fasquia pretendendo a criação de uma verdadeira obra de arte que suplantasse tudo o que fora feito antes em ambos os lados do Atlântico. Chegaram a ser feitas gravações de estúdio mas raza a lenda que a edição de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, terá desferido sobre o ego de Wilson um golpe fatal. O músico terá ficado desmoralizado e achado que “Smile” não estaria à altura deste álbum dos “fabulous four” de Liverpool. Deixado na prateleira, “Smile” foi preterido pelo seu substituto, “Smiley Smile”, onde temas de “Smile” foram refeitos em moldes mais modestos.
“Smile” tornara-se, entretanto, numa obra de culto e numa causa jamais abandonada pelos fãs. Uma versão não oficial do disco chegou a ver a luz do dia mas a obra sumptuosa que Wilson e o seu companheiro letrista Van Dyke Parks, prometeram, nunca chegou aos escaparates. O novo “Smile” pode ser, como diz o seu autor, um “sonho tornado realidade”, mas é difícil tomá-lo como a conclusão do disco perdido original. É verdade que a sua apresentação ao vivo, no Royal Festival Hall, a 20 de Fevereiro deste ano, teve uma recepção estrondosa, o que terá contribuído para Wilson levar avante a gravação, efectuada nos estúdios Sunset Sound, em Hollywood, de 13 a 17 de Abril (no mesmo Studio One, com a sua câmara de eco mantida intacta, onde foram efectuadas sessões nos anos 60 de “Heroes and villains” e “Good Vibrations”). O trabalho de composição, levado a cabo por Wilson e Parks, já fora concluído na Primavera de 2003 mas este “Smile” é algo entre a ideia original e uma obra nova.
Wilson procurou respeitar alguns dos procedimentos dos anos 60, recriando-se a mesma estrutura “modular” das composições, gravadas separadamente de maneira a conservarem um som e textura específicos. Também idêntica foi a execução e gravação, ao vivo, no estúdio, das “masters”, com as cordas e os metais. A consola tubular usada para registar as harmonias vocais é igualmente semelhante à utilizada pelos Beach Boys no Western Studio 3, nos anos 60. As semelhanças ficariam por aqui, se fosse verdadeiramente possível comparar este objecto real com o seu duplo não realizado dos “Sixties”. Podemos, de qualquer forma, comparar os temas com as versões de “Smiley Smile” ou com as que acabaram por ir parar aos alinhamentos de outros álbuns, como “20/20” e “Surf´s Up”.
O novo “Smile” apresenta as orquestrações barrocas idealizadas para o antigo, as vozes dos elementos do novo grupo não são, obviamente, as dos Beach Boys (Wilson, esse não perdeu pitada do seu inconfundível falsetto) embora permaneça o intricado das harmonias vocais. Pegue-se, para fazer o teste definitivo, em “Good Vibrations”, considerada por muitos a melhor canção pop de todos os tempos. As diferenças são subliminares (lá está, igual, a linha floreada do theremin) e mal dão para perceber que este “Smile” pertence a uma época diferente. A voz aparece talvez mais compactada do que na versão original a que estávamos habituados. Seja como for, o melhor mesmo é apreciar “Brian Wilson Presents Smile” como um híbrido dos tempos modernos e deixar uma vez por todas de tentar responder à questão reformulada nas notas de capa: “Does ‘Smile’ really exist?”. Mais do que isto importa realçar que 38 anos não conseguiram apagar o génio de Brian Wilson. E que “Smile” deixou enfim de ser o sorriso enigmático como o da Gioconda para passar a ser uma realidade intemporal.

Música Portuguesa, Que Futuro?

[…]

Vitorino – “Se pudesse, gostava de cantar em sérvio, ou em gaélico. Em inglês é que não… Por isso é que comecei a cantar em castelhano [num álbum recente, “La Habana 99”, com reportório cubano e a presença do Septeto Habanero]…”
“Os textos em inglês que muitas bandas cantam estão sintacticamente errados.”

Amélia Muge – “Nada do que o Fernando Pessoa escreveu em inglês o impediu de escrever o que escreveu em português. E o Eça teve um cargo importante no consulado em Paris. Eu canto em português, porque é a maneira de resolver, em mim própria, influências que recebo de muitos sítios. Fazer uma canção com a mesma matéria, a mesma língua, com que penso. Um poema é, antes de mais, uma base de trabalho sonora”

Miguel Cardona – “Escrevo em português e em inglês. Quando é um ‘rapport’ autobiográfico, escrevo em português. É a única via para ser sincero comigo mesmo. As coisas não me acontecem em inglês. Nas quando aio da minha vida, já posso recorrer ao inglês.”

Jorge Dias – “Está associada a quem canta em inglês uma ideia de antipatriotismo. É uma estupidez completa. Não há coisa que mais me entristeça do que poder absorver uma islandesa como a Björk, uns judeus belgas ou uns tipos franceses, todos a cantar em inglês, e não conseguir ver ninguém do meu país a conseguir vingar lá fora, a conseguir mostrar que em Portugal se fazem coisas tão actuais e tão interessantes como no resto da Europa, sem ser remetido para a categoria do exotismo.”

Rui Reininho – “Os brasileiros apropriaram-se da linguagem de computador e já falam em ‘downlodar’ ou ‘browsar’.”
“No outro dia reparei num cartaz de uma ‘rave’. É impressionante como se faz uma solicitação destas sem uma única palavra em português. É uma tentativa de globalizar. Em Atenas ou no Senegal seria a mesma coisa. É tudo a mesma tribo.”
“É importante a defesa da língua portuguesa. Aprendi um bocado isso com os nossos amigos galegos. Não lhes passa pela cabeça cantar em inglês. E, se calhar, em certos aspectos, até são mais modernaços do que nós.”

Miguel Cardona – “Os espanhóis dobram tudo. Tem a ver com uma certa ideia de nação. Nós, enquanto artistas, reportamo-nos muitas vezes a coisas exteriores. Um guitarrista fala do seu ‘amp’, num som de “Rhodes”, há toda uma linguagem corrente em inglês.”

FM – O presente, parte 2. As editoras são as bruxas da história, porque só promovem o produto que vem de fora. Os “media” são vilões, porque só escrevem sobre música chinesa. O Estado não apoia. Há preconceitos e barreiras a romper.
Miguel Cardona – “O rock cantado em português não sofre da mesma injecção de espuma que o inglês. É possível ler nos jornais ‘revivals’ de Bob Dylan ou Pink Floyd, com a cumplicidade de toda a gente, que não passam de meras manobras de promoção de limpeza de fundo de catálogo. Com certeza que não vão buscar os NZZN ou os Tantra e promovê-los na América…”

Vitorino – A rádio não passa música portuguesa, enquanto as percentagens de música anglo-americana são brutais. O Ministério da Cultura só dá força ao cinema. Tem que começar a apoiar a música portuguesa. Os Beatles foram condecorados pela Rainha.”
Jorge Dias – “As bandas que cantam em inglês também não passam na rádio. Não por cantarem nesta ou naquela língua, mas porque não têm o apoio de uma grande campanha de ‘marketing’. Não há critérios de avaliação. As pessoas limitam-se a colar-se a modelos de sucesso. Como, com raras excepções, não se consegue criar cá nenhum desses modelos, ninguém liga. Quem está nos centros de decisão pertence à geração do Rui, dos que conquistaram para a música a língua portuguesa, mas que, de repente, fecharam os olhos. Existe hoje um caciquismo, entre aspas, nos ‘media’ e, sobretudo, nas editoras. Apresenta-se uma banda a cantar em inglês e é recusada só por esse facto, nem sequer chegam a ouvir.”

Rui Reininho – “Tenho pena de que ninguém tenha rompido aquela barreira do meio milhão de discos. Toda a gente encravou nos 300 mil. É uma barreira psicológica.”

FM – O futuro. Globalizar ou resistir. O que é que podemos fazer?
Talvez socializar.

Amélia Muge – “As coisas que vêm do Norte têm uma conotação de tecnologicamente mais avançadas, enquanto o étnico estaria umbilicalmente ligado a um certo terceiro-mundismo. A imagem da música, da cultura portuguesa, enquanto for passivamente vendida sob estas conotações de mercado, tem que submeter-se à máxima do ‘quanto mais étnico ‘ melhor. Se calhar o circuito que vende os Madredeus não é o mesmo que vende a música tradicional portuguesa, no seu sentido folclórico.”

Vitorino – “Há uma grande música deste século, a música anglo-americana dos anos 60 e 70, conotada com um movimento social universal. Depois entrou numa decadência horrível, quando começou a ficar visual, a ouvir-se através dos ‘clips’. Subverteu-se a escuta. No Midem latino de Miami as estatísticas afirmavam que nos últimos três anos a música anglo-saxónica já tinha perdido no mundo um espaço de 6 por cento para as músicas de expressão castelhana. A única possibilidade que temos de exportar uma música cantada em português no mundo é fazer uma aliança com os brasileiros, como os espanhóis têm com toda a América Latina e as Caraíbas. Infelizmente os brasileiros fecharam-se a nós nos anos 60, coincidindo com a ditadura.”
“A salvação é a socialização dos meios. Dentro de uns dois anos eu ou o Rui Reininho podermos gravar em casa sozinhos. Os anglo-saxónicos inventaram os ‘media’ e nós vamos aproveitar e socializá-los.”

Siva Pacifica – Last Voices From Heaven

29.10.2004
Siva Pacifica
Last Voices From Heaven
National Geographic, distri. Sony Music
3/10

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pwd: DoZor

“A mais perigosa viagem alguma vez empreendida na busca de música indígena”, lê-se na contracapa. Somos percorridos por um frémito. O lugar de pesquisa está assinalado no mapa nas ilhas do Pacífico, cerca de 200, e o intrépido explorador chama-se Anthony Copping, produtor e musicólogo, auxiliado por Adam Wren, dos Afro-Celt Sound System. Copping, australiano, andou a recolher as vozes do paraíso antes que estas se extinguissem definitivamente, ou seja, a gravar vozes, ambientes e instrumentos indígenas que depois levou para estúdio para os vestir com os trajes mundanos da ocidentalidade. Ficou o caldo entornado. Ao invés de algo excitante como o criado pela dupla italiana Roberto Musci/Giovani Vennosta, um novo mundo gerado pela fusão da tecnologia, a imaginação e elementos “World”, “Last Voices From Heaven” fica-se pela superficialidade e facilidade de processos. Os “field recordings” não passam de pretextos para um trabalho de maquilhagem onde os sintetizadores, as programações foleiras e os cânticos reverberados reduzem a escombros o mistério do desconhecido. Algures num território entre os Trance Mission e os Enigma, o projecto Siva Pacifica vende o paraíso num panfleto de super-mercado, com o seu exotismo de pacotilha.