Tantos caminhos para uma só voz. Dulce Pontes escolheu partir em direcção ao desconhecido, arriscando expor-se onde outros considerariam a hipótese de consolidação de um estilo. O estilo de Dulce Pontes é cantar, simplesmente. Se em “Lágrimas”, o álbum anterior, acolhia e traduzia os mundos antagónicos de José Afonso e Amália Rodrigues, neste seu novo trabalho as referências diversificaram-se num leque que pretende mostrar a essência de uma world music em português, na confluência do fado, do folclore e da música popular de autor. World music porque a produção aponta inequivocamente para um som internacional, não diremos a pensar só na exportação, mas com toda a probabilidade, atenta a ouvidos que a maior agressividade do mercado português além-fronteiras despertou.
“Caminhos” é essa vontade de explorar sonoridades e atitudes que vão da vocalização de “Verdes anos”, ao fado tradicional de “Fado português” e “Gaivota” e à Galiza, em “Lela”, o tal tema com produção “irlandesa” de Paddy Moloney e um dos que conta com o talento instrumental do prodigioso Carlos Nuñez. Que vão do enquadramento orquestral ao naturalismo “a capella” de “Senhora do Almortão” para encontrarem um novo equilíbrio na interpretação de duas canções saídas do universo pessoalíssimo do açoriano Zeca Medeiros, uma das quais, “Cantiga da terra”, temos como um dos expoentes, na matéria e no espírito, do que chamamos “nova tradição portuguesa”. Mas também há fado-tango, passagens pelo Alentejo e por Cabo Verde e José Afonso, de novo revisitado, em “Catedral de Lisboa”. Caminhos que, numa futura etapa, poderão levar Dulce Pontes a uma encruzilhada. (7)
Dulce Pontes sente os “Caminhos” do seu novo álbum
“Fica tudo levezinho, doce…”
Dulce Pontes gosta da naturalidade, de se ouvir experimentar a voz numa igreja ou num espaço aberto, sob a chuva ou os aplausos do público. Com uma nova imagem e um novo disco, “Caminhos”, encontrou amigos da Galiza e a essência da música portuguesa, da qual é hoje uma das estrelas mais cintilantes.
O sucessor de vendas do seu disco anterior, “Lágrimas”, em Portugal e nos estrangeiro, e a participação na banda-sonora de um filme com Richard Gere, “Primal Fear”, exibido e todo o mundo, não afectam a natural simplicidade de Dulce Pontes. O mais importante continua a ser cantar os poemas e as músicas que lhe dão prazer. “A capella” ou acompanhada por uma orquestra. Demarca-se de Amália, “Somos mundos distantes”, e leva Carlos Nuñez “a sítios onde ele não iria”. Dulce Pontes segue, no fundo, o seu próprio caminho, que toca com os caminhos dos outros. O PÚBLICO acompanhou-a na fase mais recente da sua viagem.
PÚBLICO – A abrir caminho no disco está “O Infante”, com letra de Fernando Pessoa e música sua. Como surgiu este tema?
Dulce Pontes – Há uns três meses atrás estávamos a jantar, eu e o Guilherme [Inês], e à procura de um poema que pudesse ser o “leitmotiv” de todo o disco. Encontrei-o nesse poema.
P. – Que “leitmotiv” é esse?
R. – Inspirando-nos nas nossas raízes – o fado, o folclore e a música popular – quisemos alargar um pouco mais estas influências, sendo o mar o factor de união.
P. – “Caminhos”, pelo tipo de produção, parece-nos feito a pensar no mercado internacional. Concorda?
R. – Também. É para quem o quiser ouvir. É evidente que pessoas como o Carlos Nuñez ou o Leonardo Amuedo tiveram influência no som final. Procuro que a minha mensagem seja universal.
P. – Não receia perder-se num atalho, tantos são os caminhos do disco?
R. – Não. Andar num caminho com umas palas nos olhos seria pior. Podemos continuar no nosso caminho tendo uma visão mais abrangente, influenciada por tudo o que se vê à nossa volta.
P. – O que é que dá unidade a “Caminhos”?
R. A tal essência da música portuguesa. A música é algo muito maleável e a portuguesa, por ter uma base tão simples, harmonicamente falando, permite uma série de interpretações, uma série de caminhos distintos. Dá-me imenso gozo experimentar essas diferentes formas de cantar, esses diferentes sons, embora tendo sempre como base o ponto de partida que já referi.
P. – “Lela”, um dos temas com Carlos Nuñez, já aparecia no álbum deste músico, “O Caminho das Estrelas”. Foi um aproveitamento?
R. – Não. Aliás, isso também aconteceu noutro tema, “Porto”, que está no disco do Leonardo. Com o Carlos Nuñez trata-se de o levar a sítios onde ele não iria e vice-versa.
P. – No meio da sofisticação que impera na maioria dos arranjos, acaba por sobressair a sua interpretação “a capella”, em “Senhora do Almortão”. Em qual dos contextos prefere cantar?
R. – Em termos afectivos – e noto muito isso nos espectáculos ao vivo – prefiro o “less is more”, sinto que consigo aproximar-me mais do público do ponto de vista emotivo, quando canto “a capella”, ou só com o piano ou uma guitarra.
P. – Por que razão foram precisos seis estúdios para gravar o disco?
R. – Aconteceu… Bem, no que respeita àquele onde fizemos as misturas, os Wisseloord studios, em Hilversum, na Holanda, é fácil de explicar: São os Rolls Royce dos estúdios da Europa. A orquestra sinfónica fomos gravá-la em Roma também porque era mais fácil ir eu lá com o Guilherme e os dois técnicos do que trazer a orquestra inteira para aqui. Em Espanha, foi por ter estado lá a gravar um tema do disco de Luís Pastor, “Chuva de Maio”. Adorei o estúdio, tinha um grande microfone, daqueles antigos, com um som que não tem explicação! Com uma naturalidade e neutralidade espantosas!
P. – Cultiva essa naturalidade, não é?
R. – Sim, embora também goste do que se faz em estúdio, efeitos, “delays”, “reverbs”, mas de facto tenho esse gosto pelo natural. Por vezes, quando estive numa igreja, em Brasília, comecei a cantar lá dentro, só para ouvir o som, um som que não se consegue em estúdio nenhum. Noutra ocasião, ia a passear na Arrábida, ao pé do convento, estava a cair uma chuva miudinha. Parei para fazer uma coisa que gosto de fazer em espaços abertos, quando está silêncio absoluto: emitir alguns sons, não é bem cantar. Consoante os lugares, obtêm-se “delays” diferentes. Nessa altura, de repente, estava eu a fazer esse tipo de experiência, vejo ao fundo uma luz a acender e a apagar, ao ritmo do que fazia com a voz. Acho que estavam a gravar cenas do filme “Afirma Pereira” e alguém deve ter ligado o projector, quando me ouviu…
P. – Como é que se sentiu a cantar com uma orquestra?
R. – Foi arrepiante. Parece que se sente o som a atravessar os poros. Fica tudo levezinho, doce… É um luxo a que não estamos habituados em Portugal, infelizmente. Continua a haver alguns preconceitos de alguns músicos clássicos em relação à música ligeira, o que é uma estupidez.
P. – As fases mais recentes da sua carreira, com participações em filmes estrangeiros, como “Primal Fear”, e o sucesso de vendas do disco anterior, “Lágrimas”, conduziram-na ao estrelato. Como lida com este estatuto, tão rapidamente adquirido?
R. – Não sinto muito… Como fui sempre um bocadinho “marginal”, não sinto quaisquer pressões, apenas a da responsabilidade do trabalho que falço. O que mudou na minha vida foi passara a ter menos tempo para estar com os amigos, algo um pouco doloroso. Mas por outro lado posso estar com muita gente, amigos anónimos. Uma coisa compensa a outra. Quando acabo um espectáculo, o facto de saber que as pessoas estão na sala com um sorriso, que, de alguma forma, lhes proporcionei um bom momento, sentir que tive esse privilégio, faz-me ultrapassar tudo.
P. – Irritam-na ou sente-se lisonjeada com as constantes comparações que fazem entre si e Amália?
R. – Não me irritam, é um elogio, mas não gosto que façam essas comparações. Como intérpretes e cantoras não temos nada a ver uma com a outra. Nem a forma de sentir o fado. São mundos distantes.
P. – Mudou a sua imagem. Porquê?
R. – Toda a gente me dizia para não cortar os caracóis, que não era lá muito boa ideia, que as pessoas estavam habituadas ao corte que tinha. Mas decidi mesmo cortar, depois já não havia nada a fazer. E foi como voltar a sentir-me de novo dentro da minha pele.
Com algum tempo de atraso, como é vulgar e de bom tom acontecer neste cantinho lusitano, a moda das homenagens chegou a Portugal. É verdade que por cá não abundam nomes de peso, vivos ou não, que justifiquem tais iniciativas, nem o necessário conhecimento de causa da parte de muitos dos celebrantes. Era preciso procurar mitos, artistas que povoassem o imaginário musical português, capazes de reunir o consenso e atrair tanto os jovens leões como os veteranos. Mas não foi preciso procurar muito. Assim, a jeito e com a estatura mínima pretendida, dois nomes se destacavam à partida, um deles já falecido, o outro ainda vivo e alvo de adoração do povo português: José Afonso e Amália Rodrigues.
O primeiro teve honras de grande acontecimento, através da edição do duplo contendo versões de canções suas, pelos Filhos da Madrugada, designação genérica que englobou praticamente todos os grupos mais conhecidos da pop nacional, mas deixou de fora pessoas que conviveram de perto e tocaram com o autor de “Coro dos Tribunais”. Amália foi, para já, objecto de homenagem mais modesta, por parte de Dulce Pontes, que lhe repescou uma série de fados e adoptou o título de um deles para o seu próprio álbum, “Lágrimas”. Por sinal, também José Afonso foi arrastado na corrente, aproveitando Dulce Pontes para homenagear de uma penada dois artistas cuja obra, ideologia e personalidade não poderiam ser mais opostos.
Enquanto isso, no Seixal, por ocasião das festas de Corroios, alguém se lembrou de editar um “Especial José Afonso”, disco que, curiosamente, não teve o mesmo sucesso de vendas que o dos Filhos da Madrugada. É que não se percebe muito bem o que têm grupos como os Oboé, Nível de Vida, Dixit, Últimos Suspeitos, Quatro+1, Tropa de Choque, Irmãos de Sangue e O Incesto a menos que os GNR, UHF, Sétima Legião, Resistência, Delfins, Madredeus, Peste & Sida, Mão Morta ou Sitiados!
O terceiro homenageado do ano foi outro falecido, António Variações, personagem controversa, ao contrário das outras duas, e, em vida, incómoda para muitos. Foi logo nos primeiros meses de 1994 que os nomes do costume decidiram juntar-se para umas “Variações” em torna deste artista, que adorava Amália, afirmava estar “entre o Minho e Nova Iorque” e misturava nas suas canções preocupações existenciais com uma vertente sonora electropop que, até hoje, permanece como uma das propostas m ais originais da música popular feita em Portugal. Assim, aos especialistas nas homenagens, Delfins (Miguel Ângelo foi dos primeiros a compreender e a “apropriar-se” da música do cantor-barbeiro), Ritual Tejo, Madredeus, Resistência, Sitiados e Mão Morta, juntaram-se Sérgio Godinho, Isabel Silvestre, Santos e Pecadores (bela designação para uma hipotética banda do homenageado…) e Três Tristes Tigres, num álbum que recupera temas dos álbuns “Anjo da Guarda” (1983) e “Dar e Receber” (1984), os únicos que Variações editou em vida.
Foi pois no fundo do baú que muita gente andou a remexer nas raízes perdidas. Num tempo de vacas gordas em termos de vendas (para o qual contribuiu em grande parte a aposta – ganha – na exportação, por algumas multinacionais) para a música portuguesa, a que correspondeu um tempo de crise, em termos de aparecimento de novos valores (exceptuando a saudável investida nas editoras independentes que apresentaram propostas de grande valor como as dos Bizarra Locomotiva, U-Nu ou Tina & The Top Tem, entre outras), investiu-se na bolsa dos valores seguros e na celebração de um classicismo que, inspirado nos tempos áureos da MPP ao longo das décadas de 60 e 70, ganhou novo eco na facção pop. Nesta corrida ao passado encontrou muita gente o fôlego providencial para o relançamento de carreiras em risco de estagnação. Para outros, terá sido verdadeiramente uma sentida homenagem. Para outros ainda, o mero oportunismo e o embarque à última da hora no comboio da jogada comercial. Fossem quais fossem as intenções de cada um, ninguém pode negar, porém, a este fenómeno, das homenagens, uma virtude: a de trazer a música dos mestres para o convívio das gerações mais novas, provocando nelas, como já aconteceu nalguns casos (Paulo Bragança ou a própria Dulce Pontes, por exemplo) o desejo de retomar e actualizar a tradição.