Pegando nas palavras da própria Dulce Pontes, quando se refere à necessidade de equilíbrio entre o coração e a cabeça na interpretação da música de Morricone, somos tentados a considerar que é, por aí, que “Focus” não cumpre por inteiro as expectativas que a colaboração entre ambos criara à partida. Bem entendido, a majestosidade dos novos arranjos criados por Morricone para “Cinema paradiso”, “A rose among thorns” (de “A Missão”9 ou “Your Love” (de “era uma vez no Oeste”) impõem de imediato o selo típico do mestre. Para Dulce ficou reservada a responsabilidade de lhes conferir o tal cunho “ibérico” pretendido pelo compositor. Acontece que a cantora portuguesa se terá deixado levar em demasia pelo coração e menos pela cabeça, ao não conseguir resistir a levantar a voz acima daquele nível no qual essa noção de “equilíbrio” deixa de fazer sentido. Cantar “ibérico” não é subir perdidamente aos píncaros da expressividade decibélica. Que Dulce Pontes é dona de um potente instrumento vocal, é do conhecimento geral; mas não havia necessidade de nos atirar isso à cara. Mesmo porque em faixas como “No ano que vem” – fortíssimo ímpeto digno da ópera-rock “Jesus Cristo Superstar” -, “Nosso Mar”, no seu aceitável brasileirismo (enquanto a voz não sobe de tom…), “Antiga palavra” e “I girasoli” (o mais arrojado dos arranjos), se torna evidente que o seu leque de registos se estende bastante para além do mero histrionismo. Entre as sensuais entoações árabes dos primeiros segundos de “The ballad of Sacco e Vanzetti” ou o fado com dedicatória a Amália, “Amália por amor”, fica a frustração de que “Focus” poderia ter enveredado por criar outro tipo de dialéctica entre a grandiosidade orquestral e a plasticidade da voz. Assim, soa a exibicionismo e a “world” em cinemascope de pacotilha. Mas não terá sido isso, afinal, que juntou Ennio e Dulce e dá brilho à música quer de um quer de outro?
Conheceram-se, ligaram-se e, nos últimos oito anos não se largaram. Dessa relação nasceu “Focus”, álbum de BSOs para filmes míticos, agora dobrados em português. Ennio Morricone e Dulce Pontes concretizaram a missão.
Ennio Morricone e Dulce Pontes conheceram-se em 1995, durante as filmagens de “Afirma Pereira”, para o qual o compositor e maestro italiano escreveu a banda sonora, que incluía a canção “A brisa do coração”, de Francesco de Melis e Emma Scoles, pela voz da cantora portuguesa, precisamente.
Nessa altura juraram voltar a trabalhar juntos mas o autor das partituras de “Aconteceu no Oeste”, “A Missão”, “Cinema Paraíso2 e “Saco e Vanzeti” impôs como condição que Dulce esperasse até fazer 30 anos. Para ganhar experiência. Dulce esperou, apagou as 30 velas e Ennio cumpriu a promessa.
E de que maneira: oferecendo-lhe um álbum inteiro com música sua. O álbum chama-se “Focus”, tem 16 canções e letras, entre outros, de Frederico Garcia Lorca, Joan Baez, Francesco de Melis, José Mário Branco, Mark Niedzwiedz, Carlos Vargas, Phil Gladston, Audry Stainton, M. Travis e da própria Dulce Pontes, na canção de homenagem a Amália Rodrigues, “Amália por amor”. A portuguesa cantou na língua natal mas também em italiano, espanhol e inglês. Com empenho. Interiorizando a colaboração como um “sonho tornado realidade” e um “acto de amor”, capaz de lhe provocar o “êxtase”.
Morricone, com a calma e a distanciação própria dos seus 75 anos (40 de carreira), não poupa, porém, nos elogios impressos na capa do disco, na forma como se refere às cinco novas composições que escreveu para o disco (“Amália por amor”, “Antiga palavra”, “Luz prodigiosa”, “Voo” e “I Girasoli”): “Escrevi-as a pensar na voz de Dulce. Queria dar um ritmo intencional a estas novas peças – chamemos-lhe um ritmo ibérico – porque queria que a Dulce pudesse expressar o seu alcance vocal, mas também manter as conotações do fado português (…) ela tem qualidades ‘camaleónicas’ tão completas, tão incrivelmente variadas, que tenho de dizer que ela toca em todos os aspectos da canção, todas as formas de cantar”. Vai mesmo mais longe, ao afirmar que este é um dos discos “mais importantes” que alguma vez fez “com um cantor”, definindo-o como extraordinário.
Perfeccionista
1995 foi o ano da luz. Dulce e Ennio encontraram-se nas circunstâncias atrás descritas e ele mão a largou mais. “Começou a convidar-me para ir cantar aos concertos dele”, conta a cantora portuguesa, ainda mal refeita desse encontro “profissional” e “pessoal” com o mítico autor de BSO para “Western spaghettis” como “Por um Punhado de Dólares”, de Sérgio Leone. “Mantivemos contacto ao longo dos últimos anos e estivemos juntos em várias partes do mundo, como na Arena de Verona, o Palácio dos Congressos, em Paris, Londres, Norte da Europa…”. Proximidade e afecto mútuos ao ponto de levarem Dulce a considerar o maestro como “uma pessoa da família”. Alguém que descreve como “perfeccionista” e com “uma objectividade muito grande” em relação às suas concepções musicais, “o que se reflecte na sua maneira de ser” – usa muito a expressão ‘dignidade artística’”. “Há poucas pessoas que conservem tais princípios ao longo da vida”, reconhece, acrescentando ter estado ao lado de alguém “acessível, sempre disposto a contar anedotas”.
Dulce Pontes acompanha a música de Morricone desde a adolescência. Cita como banda sonora preferida “A Missão”. E reconhece que a sua voz se adapta a ela com naturalidade. “Porque a música dele descreve muitas imagens, uma música multifacetada que me permite tocar várias cambiantes da minha personalidade e da minha voz enquanto intérprete”, diz Dulce que, apesar dessa admiração mútua, teve que esperar até aos 30 anos para retomar a ligação artística com o mestre italiano. Mas valeu a pena a espera. “Isto acontece no melhor tempo da minha vida. Este disco não seria nada do que é se o tivesse feito no meio do rodopio em que eu normalmente andava. Depois, o facto de ter sido mãe fez-me ficar com mais corpo, o que me ajuda imenso na parte técnica. E tenho hoje uma estabilidade afectiva que antes não tinha”.
Foram oito anos de espera até, finalmente, “se desbloquearem uma série de situações”, como o facto da editora querer que a cantora lançasse mais um disco antes da aventura Morricone, o que implicou “cedências”, das quais, porém, Dulce “não se arrepende de nada”.
Ao fim e ao cabo proporcionaram-se as condições para “Focus” avançar e poder contar com cinco composições novas oferecidas “de bandeja” à cantora que em 1999 conquistou o Prémio José Afonso com o álbum “O Primeiro Canto”. “Sobretudo pela quantidade de vozes magníficas que existem no planeta, sinto-me privilegiada por ele me ter escolhido”.
“Va Bene, Bravo!”
“Focus” foi gravado no mesmo estúdio que “Brisa do coração”, no Fórum estúdio, em Roma. Durante sete dias, “tudo de seguida”, sempre com Morricone presente. “Sugeri que gravássemos ao mesmo tempo com a orquestra mas ele não quis, preferiu gravar a orquestra primeiro. Ouvi as orquestrações cerca de oito dias antes de ir para lá, onde acrescentei depois a voz. Um dos temas, ‘Someone you once knew’, tinha um andamento muito fixo e expliquei-lhe isso assim que cheguei ao estúdio, exemplificando. Ele percebeu de imediato e optou por, nessa vez, gravar mesmo em tempo real com a orquestra. Deu-me total liberdade, mas adorava que tivesse sido mais exigente comigo (risos) porque o que acontecia, na maioria das vezes, era eu fazer dois, três ‘takes’ e ele comentar ‘va bene, bravo!’. Eu pedia para repetir, Às vezes repetia demais, talvez por insegurança, noutras por uma certa dificuldade em adaptar-me às mudanças de linguagem”.
Agora que “Focus” aí está para ser lançado em todo o mundo, incluindo no formato SACD (Super Áudio CD), o que acontece pela primeira vez com um artista português, Dulce Pontes não tem dúvidas em reconhecer que se trata de um momento único da sua carreira e que poderá ser o início de um reportório à parte, “para cantar coisas de outras pessoas”.
“Focus” tem apresentações marcadas para Roma, no mês que vem, e para o Royal Albert Hall, em Londres. Por cá, “haja luz!”: “Adorava fazer o espectáculo antes do Natal, até porque o Ennio Morricone nunca esteve em Portugal”.
Para já, Dulce Pontes não se cansa de saborear o momento “Tive que me beliscar, não acreditava que estava a cantar ‘A Missão I’!”. Nem de rebobinar na sua cabeça um filme de que ainda não assimilou sequer “os créditos”. “Talvez por defesa. Não gosto de criar expectativas em relação a uma coisa, como fiz no passado, e depois desiludir-me. Tenho medo disso. Embora sinta que este momento foi um passo muito importante, e que representa a possibilidade de crescimento e de internacionalização, há coisas neste disco que talvez gostasse de repetir, tenho sempre essa sensação. Houve momentos em que fui ainda mais exigente que o maestro, talvez estupidamente exigente (risos)”. Porque a música de Morricone “não se pode interpretar nem só com o coração nem só com a cabeça, tem de haver um equilíbrio delicadíssimo. Tens aqui um par de asas e agora põe-te a voar. De repente abre-se diante de ti um precipício enorme mas sabes o prazer que podes ter a voar”.
01.10.1999
Barro Doce
Dulce Pontes Fala De “O Primeiro Canto”, O Seu Álbum Mais Recente
Liberta das lágrimas do fado, Dulce Pontes renovou a sua imagem e a sua música. No seu novo álbum, “O Primeiro Canto”, cobriu-se de barro, despiu-se da electrónica e das roupas para encontrar a nudez essencial do canto, expresso nos quatro elementos e numa busca insaciável de novas sonoridades.
Kepa Junkera, Myrdhin, Anders Norudde (dos Hednongarna), Justin Vali, Wayne Shorter, Trilok Gurtu, Jacques Morelenbaum, Maria João e Waldemar Bastos participam todos no novo álbum de Dulce Pontes, “O Primeiro Canto”. Dulce Pontes explicou ao PÚBLICO a sua aproximação à “world music” e a redescoberta de si própria. Através da nudez – do corpo, da alma e da voz.
FM – Como é que conseguiu juntar tanta gente importante para participar neste disco?
DULCE PONTES – Os nossos caminhos cruzaram-se, numa ou noutra altura. Identifiquei-me com o tipo de linguagens que todos eles desenvolvem. Apareceu primeiro o conceito, a composição dos temas e, a partir daí, surgiu a ideia concreta do tipo de sonoridades que queria ouvir. Fui estabelecendo os contactos…
FM – Em “É tão grande o Alentejo” juntou um didjeridoo australiano, uma gaita-de-foles sueca e o cante alentejano dos Ganhões de Castro Verde. Combinação, no mínimo, pouco vulgar, não acha?
DULCE PONTES – A ideia inicial previa apenas o didjeridoo mas achei que não funcionava por si só. Quando o Anders chegou ao estúdio e ouvi o timbre da gaita-de-foles, senti que era isso mesmo que fazia lá falta.
FM – Qual a função dos quatro elementos no contexto de “O Primeiro Canto”?
DULCE PONTES – Serviram como fio condutor de uma busca – o regresso a uma certa origem, a uma nudez essencial que está presente em todas as coisas e em todas as pessoas. Ao mesmo tempo tem relação com outro tipo de busca, de sonoridades ligadas ao vento ou à água, por aí fora, até tentei transmitir o som das pedras. Ligações a um lado cultural mas também telúrico. Como encontrei, por exemplo, nos Ganhões de Castro Verde, na força da sua ligação à terra.
FM – Esse processo foi um retrocesso, um andar para trás até à fonte?
DULCE PONTES – Foi um processo intenso, continua a ser, é um processo de uma vida inteira. É fácil estabelecer relações esotéricas neste álbum mas não foi isso que pretendi. Claro que há algum esoterismo inerente mas não foi premeditado. É unicamente a procura de uma certa nudez.
FM – Dedica um dos temas do álbum, precisamente o título-tema, a José Afonso. Até que ponto ele foi importante para a génese deste disco?
DULCE PONTES – Pode fazer-se um paralelo entre os métodos que ele utilizava e os que segui neste disco. E aprendo sempre, cada vez que ouço os seus discos. Aprendo, sobretudo, uma atitude perante a vida que se transmite através da música.
FM – É verdade que fez gravações de campo antes de entrar em estúdio?
DULCE PONTES – Sim, andei por Miranda-do-Douro, Sendim, por Idanha-A-Nova, Castro Verde. Mas acabei por não aproveitar grandes coisas. Pretendo desenvolver com ele um trabalho relacionado só com folclore. Quando parti para essa pesquisa já tinha a maioria dos temas compostos e senti, em relação ao trabalho de campo, que até acabava por haver uma riqueza menor em comparação ao que tinha recolhido.
FM – Até que ponto é que este disco determinou uma diversificação dos seus registos vocais? Há mais e diferentes vozes em “O Primeiro Canto” que em todos os seus discos anteriores juntos…
DULCE PONTES – Tudo isso se prende com a voz ser um instrumento. Mais uma sonoridade ao serviço do todo. Foi também uma busca da delicadeza, não só da força. Consegui com este tipo de sonoridade diferentes “nuances” e formas de interpretar, antes era mais difícil, com toda a parafernália electrónica. Era mais peça força. Comecei a sentir que era muito mais fiel a mim própria havendo mais espaço para a voz.
FM – “Modinha das Saias” é um canto a três entre si, Maria João e a cantora lírica Gemma Bertagnolli.
DULCE PONTES – Encontrei Gemma Bertagnolli nos espectáculos que fiz com o Ennio Morricone, em Roma. Houve uma grande empatia, ficámos no mesmo camarim. Quanto à Maria João, já a admiro há muito tempo e sempre tive vontade de trabalhar com ela. Fiz a “Modinha das Saias” quando ia a caminho de Miranda, a pensar numa imagem que o Tó Pinheiro da Silva me descrevera: um vulcão na ilha Graciosa em cuja cratera a luz entra numa determinada perspectiva e onde existe uma reverberação de onze segundos. Não sei porquê, pensei em nós três naquele sítio. Gravámos as três ao mesmo tempo, nada de “takes” separados.
FM – A presença neste disco de tantos convidados ilustres vai facilitar-lhe a entrada no mercado da “world music”? Kepa Junkera já a convidou para “Bilbao: 00h00”. Podem seguir-se mais convites…
DULCE PONTES – Mercado com o qual me identifico muito, muito mesmo. Estou a lembrar-me de uma jam session que fiz há uns tempos em Israel, onde estava também o Salif Keita. Cantei com irlandeses e com um grupo de percussões hindu. Ao todo, éramos para aí uns 50. Foi uma jam session “non stop”.
FM – Fez algum tipo de investigação sobre os instrumentos, alguns deles bastante exóticos, aos quais recorre no álbum?
DULCE PONTES – Fui fazendo viagens. Em relação ao Carlos Blanco Fadol, por exemplo, foi uma coincidência muito gira. Ele apareceu, de repente, no ensaio do concerto que eu fiz cá com a Cesária Évora e a Marisa Monte, a dizer que tinha 1800 instrumentos à minha disposição. Ele tem um museu de música étnica em Alicante, constrói instrumentos, já escreveu livros. A coincidência máxima foi ele ter-me dito que andava já há algum tempo a investigar a construção de instrumentos relacionados com os quatro elementos. Nessa altura, mal ele sabia o que eu andava a fazer…
FM – Sente alguma empatia com algum instrumento em especial?
DULCE PONTES – Para além de a minha voz poder sentir-se mais ou menos confortável com algum instrumento, gosto do desafio, de explorar coisas diferentes. A forma como o Jacques [Morelenbaum] escreve os arranjos para solistas é fabuloso. É como se ele cantasse ao mesmo tempo. Lembro-me quando lhe mandei os demos, escrevi alguns textozinhos a explicar, às vezes de forma muito metafórica, qual era a ideia de cada um. Pensei que ele não ia perceber nada, mas não, percebeu de forma impressionante o que eu pretendia. Ele é uma grande parte deste trabalho.
FM – Quem é a figura que aparece na capa?
DULCE PONTES – Sou eu, coberta de barro. Estava mesmo nua. Quis transmitir a ideia de que o corpo é apenas um invólucro. A posição das mãos pode sugerir um dar e receber implícitos. Também uma espera, uma atenção.