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Didier Malherbe – “Zeff” + “Fluvius”

pop rock >> quarta-feira >> 24.01.1996


Didier Malherbe
Zeff (8)
Fluvius (7)
TANGRAM, DISTRI. FABRICA DE SONS



Para quem não se lembrar, Didier Malherbe era o saxofonista e flautista, “Bloomdido Bad de Grass”, ou “Glad de Brass”, dos Gong, uma das bandas menos alinhadas e mais representativas do rock (?) que se fez nos anos 70. Autor de uma discografia a solo razoavelmente preenchida, este francês de expressão alucinada tem vindo a desenvolver a faceta mais “zen” e orientalizante dos “pothead pixies”, tornada autónoma a partir de “Shamal” (título inspirado no músico indiano Shamal Maitra, aliás, um dos convidados de honra de “Zeff”), primeiro álbum dos Gong sem o seu guru Daevid Allen. Em “Zeff”, a voz principal pertence às flautas – incluindo a estranha flauta baixo circular que, certo dia, um marselhês anónimo lhe ofereceu, em plena rua – num conjunto de temas que giram obsessivamente em torno de “Zeff”: “Zeff dance”, “Zeff waves”, “Drôle de Zeff”, “Zeff over the dunes”, “Zeff up”, etc. Fusão original da música indiana com o jazz, num registo mais contemplativo que o dos Shakti, de John McLaughlin, arrisca ainda a electrónica (“Zeff waves”) e a improvisação (“Am stam jam”), dando a revelar um compositor e instrumentista com identidade e discurso próprios. Entre os músicos convidados, contam-se ainda John Livengood (ex-Red Noise, grupo francês da década de 70, parceiro recente de Richard Pinhas, em “Cyborg Sally”) e Jean-Phillippe Rykiel, nas teclas. “Fluvius” dispersa-se por outros afluentes, estando, curiosamente, mais perto do espírito original dos Gong. Conceptual, concedendo maior espaço de manobra ao saxofone, envolve-se sem preconceitos nas malhas do jazz-rock e do flamaneco-jazz (“Au moulin d’Andé”) mas também na música africana (“Pyxie-Java”, citação directa do grupo-mãe, que, na sua mais recente encarnação, apresenta a sua versão pessoal da música deste continente, em “Shapeshifter”), no free-jazz espacial à Sun Ra (“Broken Waves”), na amálgama de “downtown acid-jazz” e vocalisos indianos da treta, em “Trashville” ou no cruzamento do piano romântico com Pascal Comelade e o “film noir”, em “Blues de l’horizon”. Uma cabeça felizmente ainda mal refeita dos chás de haxe que ajudavam as conversas telepáticas do planeta Gong.

Gong – “Live 2 Infinitea”

10.11.2000

Gong
Live 2 Infinitea
Snapper Music, distri. Música Alternativa
7/10

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É COM UM FERVOR quase religioso que os adeptos dos Gong saudaram a música dos seus ídolos na digressão mundial realizada pelo grupo na Primavera deste ano. Trinta anos depois de terem engolido a poção original, Daevid Allen está com o aspecto de um ancião feiticeiro e Gilli Smyth com o de uma velha gaiteira de mini-saia, mas a música dos Gong soa com a frescura dos velhos tempos, parecendo almejar a imortalidade. “Live 2 Infinitea” recupera a música do recente álbum ao vivo “Zero to Infinity” – deixando as divagações jazz rock deste último, para se concentrar nas viagens psico, em que são mestres – e ressuscita a velha mística das sessões dos anos 70, com os glissandos cósmicos da guitarra e as fábulas lunares de Allen, os vagidos astrais de Smyth e o saxofone estrábico de Didier Malherbe. A “trip” dos Gong é, de facto, infinita. LSD em excesso no bule de chá.