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Rolling Stones – “Avô, Conta-me A História Dos Stones!” (televisão)

PÚBLICO DOMINGO, 29 JULHO 1990 >> Local

RTP


Avô, conta-me a história dos Stones!

NUNCA MAIS se vai embora, a maior banda de rock ‘n’ roll do universo. O que é que eles se julgam, que são eternos? Que a paciência não tem limites? O pior é que os mais novos só agora lhes apanharam o nome e toca de comprar os discos como se fossem novidade. Deste modo, o ciclo renova-se constantemente e os Rolling Stones têm o resto do futuro garantido. Mick Jagger, Keith Richards, Bill Wyman, Charlie Watts e Ron Wood são hoje respeitáveis avozinhos, entretidos a fingir subversões e a montar espetáculos de feira, para gáudio das multidões. Gravam um álbum de cinco em cinco anos e vivem dos rendimentos, administrando sabiamente o mito e a imagem cuidadosamente encenados. Tanto lhes faz passar por psicadélicos como por praticantes de um “funky” descomplexado. “She’s a Rainbow”, “Emotional Rescue”, qual a diferença? São tolerados como uma instituição representativa dos antigos valores de uma geração hoje convertida a ideais menos desprendidos que os de há três décadas. Só Brian Jones soube manter-se-lhes fiel, por força de uma morte precoce. O programa de hoje conta a história toda.

Canal 1, às 17h30

Rolling Stones – “A Década Ao Contrário” (artigo de opinião | história do rock)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 8 JUNHO 1990 >> Cultura


A década ao contrário

NO INÍCIO eram apenas uma entre muitas bandas brancas a brincar ao “rhythm‘n’blues”. Depois foram crescendo até se tornarem na maior banda de “rock and roll” do mundo. Hoje são um fantasma sorvedor de divisas e recordações de rebeldia.
Mick Jagger e Keith Richards andaram juntos na mesma escola primária. Perderam-se de vista. Anos mais tarde encontraram-se num comboio. Dois rapazinhos ansiosos por dar nas vistas, ambos apreciadores do “rhythm‘n’blues”. Corria o ano de 1960, primeiro de uma década que viria a dar que falar. Brian Jones conhece Jagger numa das suas visitas a Londres. No “Korner’s Club”, onde este atuava com Long John Baldry. O destino juntava o trio mágico Jagger/Richards/Jones, mal sabendo a confusão que iria causar. Em 63, Charlie Watts e Bill Wyman completam a lendária formação. Escolhido o nome (baseado na canção “Rollin’ Stones”, de Muddy Waters) só faltava dar o sinal de partida.

Os blues

As primeiras gravações de estúdio são “Soon Forgotten”, “Close Together” e “You Can’t Judge A Book (By Looking At The Cover)”. Nenhuma editora lhes pega. Tornava-se necessário criar urgentemente uma imagem. Sobretudo que vendesse. Andrew Oldham (que já trabalhara com os Beatles), na altura com apenas 19 anos, encontrou-a. Se os “fabulous four” eram os meninos bonitos da pop, havia que lhes arranjar adversário à altura. Os Stones eram o ideal para representar o papel de maus.
Finalmente, em junho de 63 a Decca edita o single “Come On”, versão do tema original de Chuck Berry, com um dos versos alterado não fosse ferir a sensibilidade dos homens da rádio. Perversão ou não, os Stones agarram num original dos rivais Lennon/McCartney e editam-no sob a forma de um “R&B”. É o clássico “I Wanna Be Your Man” e torna-se o primeiro hit da banda. Graças aos Beatles…

A imagem

Enquanto os de Liverpool provocam gritinhos histéricos e desmaios, Jagger e os outros desencadeiam súbitas e assustadoras descargas de adrenalina e agressividade. Fans para o hospital, destruições várias e um cheirinho a droga, faziam então parte da imagem de marca do grupo. Pior ainda, usavam cabelos ainda mais compridos do que os Beatles. Às vezes chegavam mesmo ao ponto de não usar gravata. Eram provocações a mais. Brian Jones, esse então, abusava, sobretudo da droga. Mas perdoavam-lhe facilmente – era fino, engraçado e além do mais inofensivo – Jones era um dandy, um aristocrata mais preocupado em destruir-se do modo mais elegante possível. Conseguiu-o, sem muito esforço, em apenas cinco anos. Com Brian Jones os Stones gravaram sete álbuns. Após a sua morte, Mick Jagger tinha o caminho livre à sua frente.
“The Rolling Stones” (64) e “The Rolling Stones no.2” (65, o mesmo de “Satisfaction”) são inspiradas rendições do som negro dos blues, acrescentado do frenesim típico do “rock‘n’roll”. O som vai progressivamente endurecendo à mesma velocidade que a violência suscitada nos fans. Aumentam as histórias e os escândalos. Os adultos tremem enquanto os jovens deliram. “(I Can’t Get No) Satisfaction” é número um em ambos os lados do Atlântico e torna-se hino de uma geração frustrada e à beira da grande explosão. “Out Of Our Hands” (65, com temas “soul”) e “Aftermath” (66, o 1º álbum exclusivamente assinado pela dupla Jagger/Richards) fecham a fase inicial da banda.
A explosão eclode afinal pacificamente. Com flores no cabelo, flores na camisa, flores no cérebro acionado a LSD. Os Stones são apanhados de surpresa mas recompõem-se depressa. Ao mesmo tempo que hippies anestesiados atingem o nirvana lisérgico e a contemplação das grandes verdades cósmicas, o quinteto terrível lança “19th Nervous Breakdown” e “Paint It Black”. A compilação “Flowers” e o single “We Love You” são, pelo menos no título, cedências provisórias ao “Flower Power”. O golpe de misericórdia (depois do álbum pop “Between The Buttons”, de 67) dá-se com “Their Satanic Majesties Request”.
Em plena época de propagação de valores positivos, como a paz e o amor, os Stones invertem o processo, utilizando as mesmas armas. Por detrás das imagens coloridas e em 3D da capa e de canções psicadélicas como “She’s A Rainbow” ou “2000 Light Years From Home”, revela-se o lado negro e diabólico oculto na sombra das alucinações. “Their Satanic Majesties Request” é a genial inversão, o negativo de “Sgt. Peppers” e do espírito da época. Símbolo da raiz demoníaca subjacente a toda a música rock, por mais que a queiram disfarçar com os trajos grotescos da boa consciência e das boas intenções.
Anos mais tarde, dezembro de 69, último de uma era, em Altamont, durante a atuação dos Stones, uma jovem negra, Meredith Hunter, é assassinada pelos Hell’s Angels. A década dos sonhos terminava, com os Rolling Stones em pesadelo.

Tom Petty & The Heartbreakers – “Live!” (vídeo | VHS)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 2 MAIO 1990 >> Videodiscos >> Programas


TOM PETTY & THE HEARTBREAKERS
Live!
Virgin Music Video, Edisom – Venda Direta



O estatuto de arte desde há muito que foi concedido, por decreto-lei, à música. Quanto ao vídeo, é bastante mais novinho, mas nem por isso deixou de dar passos importantes no sentido da sua emancipação artística. Música e vídeo nasceram para se entenderem. Por vezes, a combinação não funciona, ou porque os sons não estão à altura das imagens (o que frequentemente acontece no caso dos clips, em que a imaginação do realizador e/ou as técnicas de ponta, no campo visual, excedem de longe a pobreza musical), ou o fenómeno inverso, em que a “videoart” perde as três últimas letras para se reduzir a um amontoado de imagens desconexas, desligados do seu complemento sonoro.
Mais doloroso e dramático é quando ambas as partes constitutivas da videocassete musical se ficam pela completa nulidade. Infelizmente é este o caso do objeto em análise. A música de Tom Petty & The Heartbreakers inclui-se na miseranda categoria do “Rock FM”, sopa artificial e insípida cuja finalidade única é vender. Quanto às imagens, consistem numa sequência, sempre idêntica, de planos, focando os músicos em plena função, sem qualquer espécie de imaginação ou arrojo formal. O visionamento e audição desde subproduto – que ofende por igual as duas linguagens estéticas que, por princípio, deveria servir – tornam-se deste modo uma autêntica tortura. Os apreciadores da “música” de Tom Petty ou os sócios de videoclubes que acham “O Maneta de Ferro e a Guilhotina Voadora” o máximo, não devem ter tantos pruridos.