Arquivo da Categoria: Progressivo

Ferdinand Richard Et Les Philosophes – “… Enclume”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 02.12.1992


Ferdinand Richard Et Les Philosophes
… Enclume
CD Rec Rec, import. Audeo



Filosofia à parte, Ferdinand Richard é, de facto, um amante da palavra, do texto. Ganhou notoriedade como baixista dos Etron Fou Leloublan, grupo francês que aliava o “vaudeville” e Captain Beefheart às divagações literárias de pendor surrealista. Tudo bem se Ferdinand não insistisse em ser ele próprio a cantá-las. Pela simples razão de ser tão bom baixista como mau vocalista, mas parece que ninguém tem coragem para lhe dizer isso. Nem sequer Fred Frith, com quem gravou um bom disco intitulado “Dropera”. “… Enclume” é um festival de baixo, guitarra (Alain Rocher) e bateria (Dominique Lentin) ao desafio, em intricadas texturas ao modo Etron Fou com o toque Frithiano que caracteriza grande parte das produções guitarrísticas com o selo Recommended. O pior são as tais palavras, excessivas, que brotam em catadupa em cada canção, no estilo discursivo de Richard – “50 sílabas por cada verso; se não couber, aperta-se” – que impede a respiração e uma maior eficácia na explanação instrumental. Não fora a oratória (e alguns textos até são interessantes, corrosivos e sarcásticos na análise a estereótipos sociais) e o tom redundante das vocalizações e a filosofia de “… Enclume” poderia ser bastante mais que um mero exercício de retórica. (6)

Brian Eno – “The Shutov Assembly”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 25.11.1992

O PINTOR DA ETERNIDADE


BRIAN ENO
The Shutov Assembly
LP, CD Opal, distri. Warner Music




Espaço e tempo são as duas grandes coordenadas da realidade manifestada. A pintura recria, a duas dimensões, a tridimensionalidade do espaço. A música, num sentio unidirecional, reinventa o tempo. A pintura é uma unidade, síntese de formas / instantes que se condensam numa imagem. Os sentidos podem abarca-la na totalidade. Na música existe um drama. Sendo uma arte que vive do e sobre o tempo, torna-se impossível aos sentidos captar imediatamente a obra na sua completude. Ou seja, ao contrário da pintura, a música depende da duração. A imagem é esculpida. O som, uma escultura de silêncio.
Brian Eno tem consciência deste dilema. Toda a sua música dita ambiental procura inventar um método que, pelo menos parcialmente, consiga transcender esta situação. Não por acaso o autor procura pôr em paralelo a sua música com a pintura, através da criação de painéis sónicos de acontecimentos por onde o auditor possa “passear” sem se prender a nenhum em particular. A procura de uma simultaneidade (im)possível dos sons. A música igual a um quadro. “The Shutov Assembly”, passado o ataque de nervos de “Nerve Net”, é o capítulo mais recente nesta busca incessante de uma “música paisagística” – arquitectura de sons onde os sentidos, mais do que “aprenderem”, possam instalar-se, como num “lugar” – depois de “Discreet Music”, “Music For Films”, “Music For Airports”, “On Land”, “Apollo Atmospheres & Soundtracks” e “Thursday Afternoon”. É o próprio Eno que, no folheto promocional, diz o seguinte: “Penso nos sons em termos de qualidades como brilho, calor, aspereza, claridade, escuridão, iridiscência, angularidade, rugosidade, nebulosidade, nivelamento [tudo qualidades aferíveis à pintura]. Pretendo fazer música como se pintasse um quadro – criar um lugar [e sublinha o substantivo] possível e credível, pleno de vida – com concordâncias e tensões, com uma teia de pontos focais sem nenhuma hierarquia entre si.” Palavras de um pintor que procura dar a ver e a habitar a eternidade.
Composto por dez peças com títulos de nove letras e ressonências bizarras e italianizantes – “Triennale”, “Lanzarote”, “Francisco”, “Innocenti”, “Cavallino” – “The Shutov Assembly” reúne temas compostos desde 1985 para quadros do pintor russo Sergei Shutov, que Eno conheceu em Moscovo, retomando deste modo um convívio, nunca abandonado, com artistas plásticos, numa colaboração efectiva cujos resultados mais conhecidos se encontram na parceria com o malogrado Peter Schmidt, nas capas de “Another Green World” e “Evening Star” (com Robert Fripp” e na colecção de aguarelas que acompanhavam a edição original de “Before and After Science”.
Temas atemporais, sons de cristal, pulsares iluminando vagas de escuridão, fluem à deriva no silêncio, negro ou branco, consoante o fundo for visto como o espaço sideral (aquele onde o tempo conquista a sua dimensão de relatividade. Recorde-se, a propósito, o sentido e a importância capital de “Apollo Atmospheres” em que a imagem da imponderabilidade e do vazio funcionam como metáforas da vitória sobre a temporalidade) ou uma tela, virgem de formas e texturas. Em “The Shutov Assembly” reúne-se a assembleia de todos os possíveis, de sons / luzes / cores em interconexão sinestésica. Enquanto o fim dos tempos não vier revelar a simultaneidade e a cruz de passado, presente e futuro, num instante – o “aleph” vislumbrado por Jorge Luís Borges -, Brian Eno terá que se contentar com a solução intermédia, de compromisso, que é o vídeo, formato que tem sustentado os seus mais recentes trabalhos, simulacro da impossível e definitiva unidade em que num momento de instantânea contemplação se possa perceber o mundo e a obra de arte libertos do espartilho de Cronos. Quando formos capazes de olhar além do cérebro, esse artífice de ilusões. (8)

Pink Floyd – “A Caixa Sem Segredos” (box – Nove compactos, um livro encadernado, uma colecção de postais, iconografia a granel)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 18.11.1992


A CAIXA SEM SEGREDOS

É só brilho, do título à apresentação. Parte da música também atinge o brilhantismo do embrulho. “Shine On” é um objecto de luxo, uma extravagância, um deleite, tanto para os olhos como para os ouvidos. “Shine On” pretende ser o testamento audiovisual definitivo dos Pink Floyd: Nove compactos, um livro encadernado, uma colecção de postais, iconografia a granel. O aspecto geral é sedutor e convida á posse de quem se deixa impressionar pelos enfeites.
Aos oito compactos correspondentes aos álbuns “A Saucerful of Secrets”, “Meddle”, “Dark Side of the Moon”, “Wish You Were Here”, “Animals”, as duas partes de “The Wall” e “A Momentary Lapse of Reason”, junta-se uma compilação original, à laia de bónus, de dez “singles”. Em cinco destes, pontifica a presença mítica de Syd Barrett: “Arnold Layne”, “See Emily Play”, “Candy and a current bun”, “Scarecrow” e “Apples and oranges”.
Os compactos vêm arrumados em caixas negras opacas, com a reprodução das capas originais coladas por cima. O alinhamento das respectivas lombadas, por ordem cronológica, revela a imagem de “Dark Side of the Moon” – um raio de luz branca refractado por um prisma nas cores do arco-íris. “Shine On” equivale, deste modo, à edição brochada das obras completas de Eça de Queiroz pelo Círculo dos Leitores, ou a uma série de Enciclopédias Verbo sobre as catatuas da Amazónia. São obras de arte de peso, ideais para impressionar o olhar alheio, do alto das prateleiras, onde, altaneiras, nos contemplam.
A colectânea recupera, sob novas roupagens, peças (importantes umas, medíocres outras) da vida e obra de uma banda marcante dos anos 70, que se arrastou em demasia pela década seguinte. Começa por ter de se lamentar, logo à partida, a não inclusão de dosi álbuns fundamentais: “The Piper At The Gates of Dawn”, único saído directamente da visão e do génio torturado de Syd Barrett e “Atom Heart Mother” – um dos dois álbuns “experimentais”, que foram, por muitos, considerados como os melhores (do outros, a obra-prima “Ummagumma”, há que aceitar ter sido derixado de fora, por ser duplo – sendo preterido a favor de “The Wall” – e porque o primeiro disco é preenchido por versões ao vivo de canções do álbum anterior). Por outro lado, é discutível a inclusão de “Animals” – primeira tenativa gorada de Roger Waters de fazer dos Pink Floyd o divã de psiquiatra para as suas paranoias existenciais – e, por razões emparte opostas, de “A Momentary Lapse of Reason”, um disco anódino, totalmente falho de inspiração, que procura dar vida ao cadáver de uma banda que conseguiu sobreviver sem Barrett, mas que finalmente sucumbiu após o abandono de Waters. Indiscutíveis, pelo papel determinante que desempenharam na evolução da música dos anos 70 e na própria banda, todos os outros.
De “A Saucerful of Secrets” basta referir que foi um marco do psicadelismo, saído das entranhas do “U.F.O. club”, reunindo a poeira residual que Syd deixara a pairar no ar, com as incursões cósmicas-planantes que viriam a determinar a direcção dos álbuns seguintes.
“Meddle”, e em particular a longa faixa do segundo lado, “Echoes” constitui por seu lado a bíblia inspiradora da escola planante alemã, coincidente com a descoberta das virtudes do sequenciador e das potencialidades do espaço sideral. “Phaedra” e “Rubycon”, dos Tangerine Dream, mostraram como era possível levar, até às últimas consequências, a estética que, em primeira mão, os Floyd enunciaram.
Na altura em que “Dark Side of the Moon” foi editado, em 1972, a rádio encarregou-se da divulgação, até à náusea, de temas como “Money”. O disco ainda hoje se agita, no fundo dos “tops” mundiais. Reescutado à distância, tem que se reconhecer que, independentemente das vendas astronómicas, é um bom álbum. Há quem considere melhor o seu sucessor, “Wish You Were Here” – uma homenagem a Syd Barrett lavrada no céu, no tema “Shine on you crazy Diamond”.
Roger Waters tem razões para se orgulhar de “The Wall”, derradeiro álbum conceptual, que encerrou com chave de ouro os anos 70, quando se acreditava que todas as histórias tinham música para as contar. Passa por ser a autobiografia oficial de Roger Waters. Musicalmente, é um disco brilhante. Contém o hino de todos os estudantes do mundo, “Another brick in the Wall” e pavorosas encenações de pesadelo, de que “One of my turns” ficou para a posteridade, como uma das mais perturbantes. Não fossem os Pink Floyd, e o muro nunca teria caído.
Feitas as contas, música num dos pratos da balança, apresentação, livro e postais no outro, chegou-se a uma média de (7).

O LIVRO COM SEGREDOS



“Shine On”, o livro, fornece material suficiente de reflexão e entretenimento aos apreciadores, e não só, dos Pink Floyd. Capa forrada a pano negro. Ao centro, uma espécie de mandala cabalística, desenhada a prateado. Também a prateado, ao alto, a inscrição lapidar: “Pink Floyd Shine On”. São 114 páginas profusamente ilustradeas a cor. Óptima impressão. O conteúdo divide-se em oito capítulos. No primeiro traça-se a cronologia, ano a ano, de 1967 a 1992, do quarto de século de carreira do grupo. Os sete restantes dizem respeito, cada um, ao compacto respectivo e incluem as letras, notas críticas aos discos e a alguns concertos, fotografias raras e extractos de uma entrevista com David Gilmour, entre outros “fait divers”. Dão-se a conhecer coisas curiosas. Por exemplo, a existência de uma banda desenhada, intitulada “The Pink Floyd Experience”, cujos personagens são os membros da banda. Ou de um “Super all-action official music programme for boys and girls”, editado por altura de “Dark Side of the Moon”.
Ficam imagens e recordações de uma banda amada por muitos e odiada por outros. E, para sempre, o espectro de um génio franzino, “morto” ainda em vida: Syd Barrett. A propósito de “Wish You Were Here”, gravado pelos Pink Floyd em sua homenagem, a descrição de um momento irrepetível: “Durante a gravação do disco, nos estúdios Abbey Road, exactamente no dia escolhido para fazer os apoios vocais para “Shine on you, crazy Diamond”, quem havia de aparecer senão o próprio Syd Barrett?! A música de “Shine On” flutuava pelos corredores do estúdio e lá estava ele, em pessoa. Não era visto havia sete anos. Apareceu, simplesmente, sem se fazer anunciar – gordo, careca e com ar assombrado. Alguns elementos da banda nãoo reconheceram imediatamente, outros ficaram comovidos. Roger Waters confessou mais tarde que chorou. A determinada altura, Syd perguntou se podia ajudar nalguma coisa; ele estava disponível, se fosse necessário. Ninguém o vira nos últimos sete anos! E desde esse dia não voltou a ser visto.”