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Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #94 – “Morreu FAD GADGET-FRANK TOVEY! (FM)”

#94 – “Morreu FAD GADGET-FRANK TOVEY! (FM)”

Fernando Magalhães
04.04.2002 160438
Recebemos agora mesmo a notícia aqui na Redação.

FRANK TOVEY, conhecido no início de carreira por FAD GADGET morreu ontem, em circunstâncias ainda por apurar.

Os quatro primeiros álbuns que gravou são muito bons, sobretudo o 2º, “Incontinent” – experimental, pop, humorístico e algo assustador (inclui uma valsa “industrial” que…).
“Fireside Favourites” (disco de estreia), mais rude e metálico, e os posteriores “Under the Flag” (muito bom, talvez o álbum mais sólido e rock) e “Gag” (com um dos temas dedicados aos Einstuerzende Neubauten) também valem a pena.

FAD GADGET era a versão pop da música industrial dos anos 80, ao lado dos CABARET VOLTAIRE, HUMAN LEAGUE, CLOCK DVA, THE NORMAL, THOMAS LEER, etc
Foi, quanto a mim, a grande influência de Matt Johnson/THE THE. Comparem, se puderem, os discos…

Era, além disso, um showman com características muito especiais. Num dos concertos, apareceu com o corpo coberto de alcatrão e penas (imagem que aparece na capa de “Gag”)…

Na fase mais recente (e inferior) da sua carreira, gravou discos em nome de FRANK AND THE WALTERS.

Uma notícia triste.

FM

João Gonçalves
04.04.2002 160444
Sim, e… ?

Fernando Magalhães
04.04.2002 160447
E…não deve poder voltar a cantar tão cedo!

FM
com um humor muito negro mas vocês puxam por mim e depois é isto: piadas de gosto duvidoso!

Frank Zappa – “Frank Zappa Morre Vítima De Cancro O Pai Da Invenção”

cultura >> terça-feira, 07.12.1993


Frank Zappa Morre Vítima De Cancro
O Pai Da Invenção


“Estamos nisto apenas pelo dinheiro”, dizia o título de um álbum dos Mothers of Invention. A provocação durou quase 20 anos, durante os quais Frank Zappa criou uma obra onde o humor cáustico, o virtuosismo instrumental e a experimentação inventaram novas formas para o rock. A arte, como a política, usou-as com a habilidade de um prestidigitador.
Chamaram-lhe génio, pervertido e impostor. Zappa achou sempre que o aplaudiam “pelas razões erradas”.



Frank Zappa, o grande sátiro do rock, morreu na noite de sábado na sua residência em Los Angeles, com 52 anos de idade, vítima de um cancro na próstata. A notícia chegou assim, com a frieza de um boletim clínico, como algo de inevitável e de há muito esperado.
O pais das mães (ou seja, seu avô comum) da invenção morreu. Os escândalos, as provocações e as posições incómodas que sempre defendeu, contra o “business” e a sociedade norte-americana em geral, deixaram de chocar uma América hipócrita que pode finalmente engolir e digerir com prazer e segurança aquilo que antes condenara mas agora consente como sendo apenas as excentricidades de um génio. Com o seu desaparecimento perdeu-se, e isto é o mais importante, um músico que revolucionou por completo os sons, a pose e as ideias da música Rock. Já para não falar dos bigodes.
Zappa, um dos últimos nomes que figuram na Enciclopédia da música popular deste século, nasceu a 21 de Dezembro de 1940. Passou os anos da juventude a ouvir Varese, a escrever bandas sonoras para filmes de série B, a fazer gravações pornográficas e, por consequência, a ser preso. Em 1967 resolveu tirar dividendos deste tipo de actividades e a gravar discos, tornando-se deste modo um dos maiores terroristas musicais que a História conheceu. Nesse mesmo ano em que os jovens de ambos os lados do Atlântico se enfeitavam com flores e falavam de paz, Frank Zappa, com os Mothers of Invention, entrava a matar, despedaçando o mito “hippie”, em “We’re in it only for the Money”, álbum que satiriza, desde a “pastiche” da capa, o mito máximo dessa filosofia, o monumental “Sgt. Peppers” dos Beatles. Antes, a sua veia satírica exercitara-se a gozar os clássicos dos anos 50 – osmesmos que habitam o núcleo da sua música – na estreia “Freak Out”, para em “Absolutely Free” deitar por terra a hipocrisia e o falso bem estar da América do põs-guerra.

Manifestos Da Loucura

Continua no mesmo andamento até ao fim, expondo à luz do dia os tabus mais secretos das sociedades modernas, acumulando gozo e perversões (conta a lenda que durante um concerto na Alemanha anterior à queda do Muro, Zappa conseguiu excitar a audiência ao ponto de convencê-la a fazer em peso a saudação nazi) e gravando para a posteridade álbuns em que deixou patentes, além do seu virtuosismo na guitarra, o seu génio de compositor e arranjador. São cerca de 50 obras que esticaram os limites da música popular, com o estatuto de manifestos da loucura: “Cruisin’ with Ruben and the Jets”, uma paródia ao rock ‘n’ rol, “Uncle Meat” (com Jean Luc Ponty no violino, que homenageia e interpreta a sua música no álbum “King-Kong: Jean Luc Ponty Plays the Musico f Frank Zappa”), “Weasels Ripped my Flesh”, “Burnt Weeny Sandwich”, os hilariantes “Overnite Sensation” e “Roxy & Elsewhere”, gravado ao vivo. Já com o nome próprio, assinou a obra-prima “Hot Rats”, “Chunga’s Revenge” (com outro grande violinista, Don “Sugarcane” Harris), o épico-musical “200 Motels”, “The Grand Wazoo”, “Sheik Yerbouti”, “Joe’s Garage” e “Them or Us”, entre dezenas de obras importantes.
A Frank Zappa se deve ainda ter dado a conhecer ao mundo a visão musical tresloucada de três personalidades “sui generis”: o genial, Don van Vliet, aliás Captain Beefheart – de quem produziu o clássico “Trout Mask Replica” e com quem gravou “Bongo Fury” -, um louco verdadeiro, o cantor e animador de rua Wild Man Fischer, cuja demência fiocou registada no inenarrável “Na Evening with Wild Man Fischer”, e, mais maquilhado antes de se dedicar ao golfe, o homem das serpentes (por acaso até perdeu uma delas na sanita da casa de banho) e do “glamour” sanguinolento, Alice Cooper. A sua costela decadentista e provocatória levou-o a produzir o grupo de “groupies” depravadas GTO (Girls Together Outrageously).Em anos mais recentes Frank Zappa compôs o bigode e testou a sua música em tipologias de todo afastadas do rock e da Pop: a experimentação com o computador Synclavier, traduzida em trabalhos como “Mothers of Prevention” ou “Jazz from Hell”, uma colaboração com Pierre Boulez em peças de bailado interpretadas pela Ensemble Intercontemporain que fazem parte de “The Perfect Stranger and Other Works”, a escrita de partituras clássicas e a direcção de orquestras sinfónicas. O humor, esse nunca desapareceu. Uma das peças, encomendadas pelo IRCAM, de Boulez, incluídas em “The Perfect Stranger”, é, segundo Zappa “sobre um vendedor de aspiradores e uma dona de casa desleixada”.

Zappa Candidato

Ficaram célebres algumas considerações do artista sobre a cena musical (“não se pode saber se a música é boa se ela nos atinge no traseiro”) ou personagens dos “media” (jornalistas de rock “são pessoas que não sabem escrever e entrevistar pessoas que não sabem falar para pessoas que não sabem ler”).
Em 1969, durante uma digressão pelo Canadá, desfez pela primeira vez os Mothers of Invention, alegando que o público “aplaudia pelas razões erradas”. É o Frank Zappa intervencionista, sempre acutilante e pronto a pôr o dedo nas feridas. As letras dos discos eram, em certos casos, de fazer corar de vergonha até um tomate, como as de “Uncle Meat” (meia hora de dissertação pornográfico), “Does it hurts when I pee”, “Dinah – moe humm” (que conseguia que todos os homens conjugassem o verbo vir na forma reflexa) ou “Darling Nikki” (apologia da masturbação feminina) ou então autênticas heresias como a frase “God is stupid and a little ugly on the side” (de “You are what you is”, dirigido a Michael Jackson). Os “gays” não lhe perdoaram ter escrito “He’s so gay”. Os judeus sentiram-se ofendidos com “Jewish princess”.
Quando a censura norte-americana, através da criação da “The parents Music Resource Center, decidiu intervir, propondo uma classificação etária para os discos considerados “obscenos” ou de alguma maneira ofensivos para a moral, Frank Zappa insurgiu-se de imediato contra a principal promotora desta iniciativa, Tipper Gore – mulher do senador e vice-presidente dos democratas e actual colaborador de Clinton, Albert Gore – chamando-lhe, em pleno senado, a ela e a outras “esposas de Washington”, “um grupo de donas de casa chateadas”.
Empenhamento que, meio a brincar meio a sério, levou Zappa a apresentar-se como candidato independanete às eleições presidenciais americanas, em 1992. Na altura, o músico declarou que seria fácil vencer “sem precisar sequer de sair de cas”. “As eleições vão ser tão aborrecidas, um enorme bocejo, que as companhias de televisão farão bicha para me entrevistar”, disse. Só por manifesta má vontade dos eleitores Zappa não ganhou.
No ano anterior, o Presidente checo Vaclav Havel, mais liberal e decerto com maior sentido de humor, nomeara-o adido cultural no Ocidente.
Antes de morrer, Frank Zappa editara o álbum “The Yellow Shark”, previsto para ser executado ao avivo, com direcção sua – o que não chegou a acontecer -, pela Orquestra Sinfónica de Berlim. Acabara de terminar outra obra, “Civilization, Phase III”, a editar na próxima Primavera. Com a sua morte foi também parte dessa civilização que se perdeu. Da arte feita e vivida com humor. Humor que seria negro ou não seria humor, como dizia André Breton.

Léo Ferré – “Léo Ferré Morre Aos 77 Anos – Amor-Anarquia” (obituário)

cultura >> domingo, 18.07.1993

OBITUÁRIO


Léo Ferré Morre Aos 77 Anos
Amor-Anarquia


“No meu enterro não quero ver mais ninguém senão mortos”, disse uma vez em desafio. Ontem, no dia do seu funeral, talvez a sua vontade não tenha sido respeitada. Polémico e indomável, Léo Ferré, aos 77 anos de idade, partiu por fim para o “mundo perdido” de amor-anarquia que sempre cantou.



Poeta, músico e anarquista, Léo Ferré incarnou a revolta do indivíduo contra os poderes instituídos. As suas armas foram o amor e a anarquia, rosas com espeinhos de dizer a liberdade. Sonho de um “porta-voz de umk mundo perdido”, como se autodefinia.
Léo Ferré nasceu em 1916, no Principado de Mónaco. Começou a sonhar desde muito cedo. Aos quatro anos dirigia orquestras imaginárias. A primeira das quais, o mar. Quando já se fingia de adulto, em 1954, dirigiu a Ópera de Monte Carlo, numa “Symphonie Interrompue” da sua autoria, e uma adaptação musical de Baudelaire. “Le Chanson du Mal Aimé”. Cerca de 20 anos mais tarde, em 1975, voltou a vestir o fraque de maestro na direcção do “Concerto pour la Main Gauche”, de Maurice Ravel, no Palácio dos Congressos de Paris.
Nos tempos de juventude, estudou Direito. Um paradoxo para quem, como Ferrés regras. Da, na e para a poesia. Depois fez as malas e partiu para Paris – a “Paris canaille” de uma das suas canções – para os cabarés de Saint German-des-Près, onde a vida então merecia ser vivida. Aos poucos, foi descobrindo que o amor, melhor dizendo, a paixão, é inseparável da morte. E que as palavras podem ser uma maneira de a vencer. “Não sou violento na vida, sou violento nas palavras”, disse, porque “a poesia não se faz com panfletos, faz-se com as goelas bem abertas e com os verbos habituais, de preferência activos”.

“Amor Louco”

Léo Ferré escolheu cantar as palavras que minavam o senso-comum, o sono, a mediocridade e a subserviência. Sonhou alto canções que abriram as portas e janelas da loucura e do “amor louco” – segundo a expressão de Breton – dos poetas surrealistas: Aragon, Apollinaire, Eluard e Valéry. E dos simbolistas Rimbaud, Verlaine e Baudelaire.
Jacques Prévert entusiasmou-se com as suas canções. André Breton não lhe perdoou a publicação de “Poètes, vos papiers”. Ferré, libertário do sonho, solitário e solidário, sem defesas contra a vida, tinha a visão pura de uma criança e a inquietude de um adolescente a morder-lhe o espírito. O presidente francês François Mitterrand, para quem a morte do cantor significou “a perda de um dos criadores que levaram a canção ao mais alto nível de exigência e qualidade” viu no poeta-cantor “alguém que incarnava uma tradição que, desde a Idade Média, procurou unir a poesia e a música, a ligação da arte com o amor pelo povo”. Jack Lang, ex-ministro francês da Cultura, declarou por seu lado que Léo Ferré simbolizou a “memória das revoltas”, foi o “poeta das esperanças” dos franceses e que jamais será “recuperado pelos poderosos deste mundo”.
Mas se após a sua morte os poderosos se apressaram a ver nele o filho dilecto da doce França republicana, foram igualmente os poderosos – neste caso a sua editora de discos – que nos anos 60 lhe censuraram a canção “Mon général”, porque há coisas onde não se toca… Era incómodo este homem que se vestia de negro, cantava as “Flores do Mal” de Baudelaire, reivindicava de igual modo a esperança e a solidão. E que, numa das suas canções mais conhecidas – “Ni Dieu, ni maître” – proclamava não ter “nem Deus [“O que eu digo é que temos de nos libertar da ideia de Deus, da falsa ideia de Deus, de que os outros se servem para oprimir o próximo! Não há polícia melhor do que as religiões”], nem mestre” [“a posição de Bakunine é uma posição fantástica: é a do assassino, do bandido. Nós somos bandidos e, se isto for considerado um sacrilégio, estou de acordo!”.

O Anarquista De Mercedes

Léo Ferré que actuou na Federação Anarquista e cujas canções – “La Grève”, “Amour anarchie”, “L’été 68” – os estudantes revoltosos agitaram como bandeira no Maio de 68 e que mais tarde, lhe exigiram “música gratuita”, acusando-o de “anarquista de Rolls Royce”. A ele, que sempre preferiu o Mercedes. Yves Montand telefonou-lhe, certa vez, para lhe chamar “fascista vermelho”.
O mesmo Léo Ferré, polémico, incatalogável e indomável, que exigia um preço baixo para os bilhetes dos seus concertos, mas que declarava em tom de provocação: “Tenho dinheiro, é verdade. E depois? Vou ter de descer à rua para o distribuir? Porque sou um anarquista? Uma coisa não tem nada a ver com a outra e qualquer dia tudo isso há-de ser explicado.”
Uma das suas canções tinha por título “o anarquista de luxo”.
Vivendo em contramão Léo Ferré adoptou nos anos 70 a linguagem do rock progressivo, numa colaboração com o grupo Zoo, e elogiou publicamente um “clip” de Mick Jagger, partindo depois para o seu retiro em Itália, em Castellina, onde viveu durante os últimos 25 anos, na companhia da mulher, italiana, e dos seus três filhos. E onde morreu no passado dia 14, vítima de doença prolongada.
Na década de 80 actuou no Teatro Libertário de Paris e gravou os álbuns “Loubards”, “On n’est pas Sérieux quando on a Dix-Sept Ans” e “Les Vieux Copains”, este último já de 1990. Ferré actuou por diversas vezes em Portugal, depois do 25 de Abril, cantando em “A mon Enterrement” que no seu enterro não queria “ver mais ninguém senão mortos”. Preparava o espectáculo de consagração que nunca teve, no Grand Rex, quando a morte o levou.
Numa ocasião, em palco, Léo Ferré contou que recebeu uma chamada telefónica e uma voz lhe disse: “Alô, sou a morte, gosto bastante do que você faz.” Resposta do cantor: “Eu também!”

CAIXA
15 Quilos De Poesia

Quando a magia do verbo se une à poesia do traço e das cores, a arte torna-se uma emoção fora do comum. É o que sucede com a excepcional colecção que um pequeno editor decidiu consagrar à poesia de Léo Ferré.
Dirigida por André Philippe, a Grésivaudan publicou a poesia do cantor em cinco volumes, cada um deles ilustrado por dez litografias em página dupla e desenhos originais do pintor Jacques Pecnard, pesando o conjunto 15 quilos.
Esta obra poéticfa engendrou uma obra-prima da bibliofilia. Léo Ferré aplicara-se no trabalho de impressão, colaborando na paginação, escolhendo, inclusive, o tipo de letra, o Baskerville. Antes, porém, o editor terá precisado de seis anos para convencer Feré a publicar os seus poemas.
Depois, forma mais três anos de trabalho. Mas André Philippe estava longe de ser um novato, tendo já editado André Gide, Jean Giono, Guy de Maupassant, Jules Renard, Edmond Rostand, Paul Valéry, Georges Brassens e Jacques Brel. Fundou a Grésivaudan em 1968, após ter descoberto o universo dos livros, que começou por vender porta a porta.
Quanto ao pintor Jacques Pecnard, trabalhou para as maiores editoras (Flammarion, Larousse) e durante vinte anos colaborou no “France Soir”. Galardoado, em 1971, com o Grande Prémio dos Ilustradores de imprensa, tem exposto não só em Paris, como nos Estados Unidos e Japão.
Em Março de 1984, a Ulmeiro editou em Portugal a obra “Léo Ferré”, com uma primeira tiragem de 5200 exemplares. A selecção e tradução de poemas e canções foram de Luiza Neto Jorge, enquanto a coordenação e a tradução de outros textos pertenceram a Manuel João Gomes.