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John Cale – “John Cale Em Lisboa Para Acompanhar Ao Vivo ‘The Unknown’ – A Europa Sem Braços”

cultura >> sexta-feira, 02.06.1995


John Cale Em Lisboa Para Acompanhar Ao Vivo “The Unknown”
A Europa Sem Braços


O cinismo é, para John Cale, a característica que mais o impressiona em “The Unknown” (“O Homem Sem Braços”), obra-prima do cinema mudo realizada por Tod Browning, para a qual compôs uma partitura. “Tirei partido desse cinismo”, disse o antigo elemento dos Velvet Underground em conferência de imprensa dada ontem logo após a sua chegada ao aeroporto de Lisboa.



A ideia para John Cale compor e tocar ao vivo durante a projecção de “The Unknown” surgiu a partir de uma encomenda que lhe foi feita pela organização das “Jornadas do Cinema Mudo” realizadas em Pordenone. Uma ilustração sonora, em simultâneo com as imagens, para os amores cruéis entre Nanon e Malabar, com um circo por cenário, um espectáculo para ser visto e ouvido hoje às 22h no Cinema Tivoli, nos “Mistérios de Lisboa”, iniciativa da Associação Cultural Saldanha com o patrocínio da Expo-98.
“The Unknown”, a “banda-sonora”, alterna a linguagem electrónica dos sintetizadores, “indicada para pôr em relevo o lado sobrenatural da música”, com o piano e gravações de arquivo de vozes como as de Ezra Pound, T. S. Elliott e Winston Churchill, ou um excerto, a que chama “The hypnotist”, um discurso, “numa voz muito calmante”, com “conselhos às pessoas que sofrem de asma”.
Cale enfrentou o desafio que é dar uma nova coloração sonora a um clássico do cinema, reconhecendo que, neste caso, pela sua antiguidade, “foi preciso ter muito cuidado”. “Não é a mesma coisa”, disse, que “fazer uma digressão rock ‘n’ rol”. “Uma vez começada, não se pode parar a música”, disse ainda John Cale, referindo-se ao modo como trabalhou na partitura para a obra de Tod Browning que, de resto, constituirá a próxima edição discográfica do autor que no ano passado assinou “Last Day on Earth”, de parceria com Bob Neuwirth.
“É a história de um circo, uma alegoria sobre a Europa entre as duas guerras, e das deslocações das suas populações. Na minha juventude, no País de Gales, sempre achei os filmes passados em circos muito deprimentes. Tive sempre a ideia que as pessoas do circo não tinham uma verdadeira casa, que andavam sempre à deriva. Num circo cada um desempenha um papel determinado, de padre ou de polícia. No filme é como se não houvesse nenhuma lei. O cinismo da história está na maneira como a credulidade é levada ao extremo. É difícil acreditar que alguém possa pensar como a personagem desempenhada por Lon Chaney [Malabar, o homem dos músculos que se faz voluntariamente amputar os dois braços por amor de Nanon – Gloria Swanson, por esta não suportar que algum homem a tocasse]. Há uma sensação de claustrofobia no desenrolar da acção à qual a música não consegue fugir”.
Sobre a sua antiga companheira nos Velvet Underground, Nico, a cantora alemã presente no seminal “The Velvet Underground & Nico” e com a qual colaborou em vários dos seus discos a solo (“The Marble Index”, “Desertshore”, “The End…”) Cale referiu a sua personalidade metódica, enquanto actriz”, a aprendizagem no Actor’s Studio e os ensinamentos que lhe foram ministrados por Elia Kazan. “Vivia de acordo com o seu próprio relógio, o que fez sempre até ao fim da sua vida. O seu sentido de ‘timing’ era imaculado. E perturbante!”.
Nico era a actriz emblemática dos filmes de Philippe Garrel, o qual costumava dizer que fazia filmes “para não se suicidar”: “A Cicatriz Interior”, “Athanor” e “O Berço de Cristal”. Os três serão exibidos no cinema Monumental, integrados na programação dos “Mistérios de Lisboa”. John Cale, por seu lado, fez a música de “La Naissance de l’Amour”, deste mesmo cineasta, e mais recentemente “Paris s’Éveille”, do Oliver Assayas, e “N’ Oublie pas que tu vas Mourir”, de Xavier Beuavois, vencedor do prémio do Júri no Festival de Cannes deste ano.
No Tivoli teremos um John Cale “desconhecido”. A sua música do cinismo e da crueldade.

filme “Brincando Com O Inimigo) – “MOBY, QUÊ? – Brincando Com O Inimigo” (filme)

rádio e televisão >> segunda-feira, 01.05.1995


MOBY, QUÊ?
Brincando Com O Inimigo
Canal 1
Filme


NÃO FIXEI o nome do tradutor do filme “Brincando com o Inimigo” (“Demonic Toys”, no original) que o Canal Um da RTP passou na madrugada de sábado, na chamada “Sessão Dupla”. Agora, “a posteriori”, depois de ter ouvido o que ouvi e de ter lido o que li, tenho pena. Mais que não fosse, para o (ou a, seja lá quem for, é um verdadeiro criativo) felicitar. É que não todas as noites que o limite é ultrapassado. Das leis da tradução e da razão. E o tradutor de “Brincando com o Inimigo” ultrapassou-as.
Foi assim. Corria a pacata acção, com uns bonecos diabólicos, género “Chucky”, a fazerem a vida negra aos marmanjões de carne e osso, quando o impensável aconteceu. Uma das cenas mostra um dos bonecos a arrastar uma das vítimas humanas – por sinal bastante gorda – por umas escadas abaixo. Eis senão quando, visivelmente incomodado com o peso da vítima, o boneco não se contém e chama à dita vítima: “You, Moby Dick!”, uma maneira literária e até certo ponto cortês de lhe chamar “ó baleia!”.
Zás! O que ele foi dizer! Para o tradutor, a quem, ao longo de todo o filme não escapou um único palavrão, tanto bastou para se encher de brios e escarrapachar por baixo da imagem a respectiva tradução: “Seu Moby-pila!”.
O impacte foi tremendo. Antes porém da vaga de fundo, como um “tsunami”, varrer à gargalhada a consciência, gerou-se na sala um silêncio de sepulcro. Ninguém compreendeu logo. Ninguém queria acreditar. Seu “moby-quê”? A verdade surgiu como um raio. Fulgurante e mortífera. “Seu moby-pila!”. O artista, vá lá saber-se porquê, fizera a tradução do calão “dick”. Assim, pela metade, quiçá num obscuro desejo de equilíbrio, numa original combinação da exactidão do cientista com a brandura casta do seminarista.
O choque justificava-se. Não só pelo facto de ter sido violada uma das regras básicas que impede a tradução dos nomes-próprios (as excepções existem, em nome de um bom trocadilho, por exemplo, mas nunca desta forma) mas também pelas suas óbvias implicações freudianas.
“Moby-pila”. Não, “Brincando com o Inimigo”, não é um filme erótico. Nada, nem antes nem depois, fundamenta o sucedido. Que filme estaria então a passar na mente do tradutor? Estaria ele a trabalhar imediatamente após o visionamento de um episódio da “Playboy”? Mas nem sequer era na SIC… Ou estaria ele (ou ela?…) a pensar numa marca comercial de próteses anatómicas, do estilo “Dinky toys”?
Talvez nunca venhamos a saber. Talvez o mistério permaneça inviolável pela eternidade. O que sabemos é que a partir de “Moby-pila” a pureza de olhar deixou de ser possível. Nunca mais veremos um filme como “Mary Poppins” com os mesmos olhos e a mesma inocência. Que diremos nós aos nossos filhos sobre aquela cena em que o actor Dick van Dyke aparece a saltar nos telhados de Londres? Como ousaremos encará-los de frente e explicar-lhes que se trata simplesmente de um “dick” aos saltos?
Desopilante, se me é permitida a expressão!

Vários (John Cale + Rodrigo Leão + Laurie Anderson + Ingrid Caven + …) – “Hoje A Associação Saldanha Apresenta-se E Revela A Sua Proposta Cultural Para Lisboa, Em Junho – Grandes Emoções No Monumental” (Vasco Câmara e Fernando Magalhães”)

cultura >> terça-feira, 18.04.1995


Hoje A Associação Saldanha Apresenta-se E Revela A Sua Proposta Cultural Para Lisboa, Em Junho
Grandes Emoções No Monumental
Vasco Câmara e Fernando Magalhães


John Cale, Laurie Anderson, Ingrid Caven e Bernard-Henry Levy, que apresentará o seu filme “Bosna!”, passarão por lá; Midnight Movies e Noites do Oriente serão propostas cinematográficas: um fluxo que começa no “underground americano” – Warhol, Waters ou Kenneth Anger -, passa por Godard, Garrel, Pasolini, Genet, Fassbinder e Jean Eustache, e acaba a dar visibilidade às artes marciais da China e de Hong-Kong e ao cinema erótico japonês. De Camilo, encenar-se-á “Os Mistérios de Lisboa”, folhetim com episódios diários e ao vivo que junta 21 actores; outros nomes portugueses: Rita Blanco – encenada por José Nascimento -, Diogo Dória, António Pinho Vargas, Rodrigo Leão e Nuno Rebelo. Em Junho, o Cine-Teatro Monumental, em Lisboa, não vai parar. É o “pontapé de saída” de um “projecto estratégico cultural para Lisboa”. A Associação Saldanha, “associação cultural sem fins lucrativos”, apresenta-se hoje em conferência de imprensa. A eternidade e o tempo suspenso das emoções fortes. Depressa…



É uma “acção exaltante” de um grupo de cidadãos que vai pôr o Cine-Teatro Monumental, em Lisboa, a servir de vibrante palco giratório multidisciplinar durante o mês de Junho, num cruzamento permanente e que se prevê arriscado entre teatro, música e cinema. Fará passar por aquela sal, com capacidade para 400 lugares, nomes como John Cale, Laurie Anderson, Ingrid Caven, Bernard-Henry Levy, Rita Blanco, Diogo Dória, Heiner Müller, António Pinho Vargas, Rodrigo Leão ou Nuno Rebelo, filmes do Oriente, das artes marciais ao erótico japonês, ou a solicitação do culto com os Midnight Movies – o ponto de partida será o “underground” americano, via Kenneth Anger, John Waters, Jack Smith e Andy Warhol, mas o percurso continuará por Godard, Garrel, Pasoilni, Genet, Fassbinder, Jean Eustache ou Rosa von Prauheim.
Hoje, às 17h30, no Cine-Teatro Monumental apresenta-se esse grupo de cidadãos, “conjunto de pessoas das mais diversas áreas” – a título meramente exemplificativo, nomes como os de Manuel Graça Dias, Augusto M. Seabra, Paulo Branco, Hermínio Monteiro, Rita Blanco, Maria João Seixas, Catarina Portas, Ana Salazar, Maria Nobre Franco ou Inês de Medeiros, entre 50 outros – que se organizou numa “associação cultural sem fins lucrativos, distinta dos poderes do Estado mas também da área de produção normal”: a Associação Cultural Saldanha.
Da conversa com o seu presidente, Augusto M. Seabra, fica já aqui o ambicioso princípio constitutivo: preencher o vácuo deixado por Lisboa-94, concebendo um “projecto estratégico cultural” para a cidade, algo, portanto, que não se quererá esgotar em Junho e poderá enquadrar-se em outras iniciativas como as Festas da Cidade, organização da Câmara Municipal de Lisboa.

Entre Lx-94 E A Expo-98

Podemos dizer que isto surgiu ao longo de Janeiro, quando verificámos aquilo que já suspeitávamos, que as potencialidades do aumento da oferta cultural durante Lx-94 não iam ter continuidade em 95, apesar de várias vezes as instâncias oficiais terem falado na hipótese de um festival em Lisboa e de se construir uma ponte – e não um hiato – entre Lx-94 e a Expo-98, explica o presidente da Associação Cultural Saldanha.
“A partir daí, um conjunto de pessoas organizou-se para criar um fórum onde cada um dos membros propõe as suas ideias originais para um espectáculo, ou aquelas ideias que entender, por conhecimento que teve no exterior. Entendemos que deveríamos correr os riscos de uma acção que é exaltante e ao mesmo tempo potencialmente suicidária, quer dizer, com a consciência de que isto tem um grão de loucura que andava a faltar nesta terra. É evidente que, segundo os processos habituais, é praticamente impossível mobilizar a partir de Janeiro os fundos necessários – mais e 100 mil contos – e conseguir organizar todo um programa, muitas vezes tendo de passar ao lado dos caminhos instituídos.”

A Margem E As Instituições



A constituição da Associação Saldanha fez-se à margem das instituições do Estado, mas a iniciativa de Junho vai precisar de apoios oficiais. “Ainda não são os suficientes e designadamente da parte da Câmara Municipal de Lisboa (CML) não houve até agora – embora já haja espectáculos a ensaiar em espaços cedidos pela CML – a resposta que esperávamos para algo que não é apenas uma iniciativa pontual mas que nos parece um projecto estratégico cultural para a cidade. Temos garantias importantes da Secretaria de Estado da Cultura, e esperamos que de outras entidades para-oficiais, estilo Fundação Oriente ou Expo-98, se concretize a abertura que tem havido da parte delas. Depois, é o imenso trabalho de encontrar uma margem de apoio mecenático”.
O horizonte é enquadrar a iniciativa numa programação mais vasta para a cidade, de modo a articulá-la com iniciativas públicas. É assim que um projecto estratégico cultural se distingue de um projecto de animação esporádico.
Mas mesmo para Junho, a associação Saldanha associar-se-á a “outra entidade” numa das manifestações de encerramento da iniciativa, quando acontecer um “um mega-evento” que sairá do espaço do Monumental – e que o presidente da Associação não quer ainda anunciar.
“Resta saber qual o balanço que as entidades oficiais, quer a nível da SEC quer da CML, vão fazer em termos de projectar esse balanço na definição de um modelo. É salutar que existam iniciativas autónomas dos cidadãos, produtores e consumidores culturais. Se as for possível articular, teremos a hipótese – e isso são os poderes públicos que têm de equacionar – de nas Festas da Cidade ou num futuro Festival de Lisboa se decidir entre um de dois modelos: uma comissão, mesmoq eu paritária, nomeada pelos poderes públicos que decida da programação – foi assim Lx-94 -: ou a coordenação de uma série de propostas autónomas de associações de cidadãos e produtores culturais, obviamente sempre com o acompanhamento das autoridades públicas a quem não podemos pedir um cheque em branco”.

Pontapé De Saída



Diz Augusto M. Seabra que “isto tem uma grande diferença em relação ao futebol, já que o mais difícil é o pontapé de saída”. Monumental 95, em Junho, vai ser então a prova decisiva de uma corrida contra o tempo em direcção à fixação de uma programação. E em relação a ela, o critério – inevitavelmente “um somatório dos nossos próprios interesses culturais individuais” – foi a transversalidade.
Os nomes presentes, e às vezes cada um deles – ou o título de um filme a apresentar, como “Cinema Falado”, de Caetano Veloso – são sinais dessa opção estética pela multidisciplinaridade. Laurie Anderson, por exemplo, que poderá vir apresentar o seu actual espectáculo, ou John Cale, violinista dos Velvet Underground, que se apresentam de novo em Portugal, a 2 de Junho, desta vez com uma bateria de instrumentos electrónicos para acompanhar ao vivo a projecção de um admirável filme de Todd Browning, “The Unknown”, com Lon Chaney e Joan Crawford (1927), viagem cruel masoquista ao mundo da paixão – a história de um artista de circo que amputa os braços porque a rapariga que ama não gosta de ser tocada; ou ainda “Cousines La Cousine”, espectáculo falado e cantado, em que vereos Edith Scob (a mulher silenciosa que habitava “Casa de Lava”, de Pedro Costa) juntar textos de renascentistas franceses, poemas do século XVI, com música de Georges …perghis.
Duas propostas conceptuais atravessam então Monumental-95. De um lado, a visão do “underground” americano e um percurso a partir daí; do outro, a proposta mais arriscada, “Os Mistérios de Lisboa” – de novo a ideia de fluxo de energias interior e subterrâneo – adaptação teatral do folhetim de Camilo Castelo Branco.
A proposta é tão arriscada quanto decisiva para a filosofia da programação, visto que até lhe emprestou o subtítulo: “Monumental-95 / Os Mistérios de Lisboa”. É uma estratégia inédita que reúne 21 actores em torno do encenador Adriano Luz e Maria José Pascoal, Nuno Rebelo, Natália Luísa, Orlando Costa e outros…) para 23 horas de teatro ao vivo.
Todos os dias, durante quase duas semanas, haverá uma hora de teatro, com o “remake” do capítulo anterior e as cenas dos próximos capítulos. O “jogo” torna-se mais vertiginoso quando se pensa que a televisão poderá estar interessada na proposta…
“Se o folhetim foi o antepassado da rádio-novela, e depois da telenovela, então agora num sítio que tem sido basicamente audiovisual, o Cine-Teatro Monumental, vai repor-se teatralmente as origens, no que se podia chamar uma teatro-novela”, resume Augusto M. Seabra.

A Etrernidade E Depressa!

Teatrais e portugueses serão ainda as propostas “Hot Line”, com a actriz Rita Blanco encenada por José Nascimento (estreia no teatro de um homem de cinema) – novamente a ideia de cruzamento: linhas telefónicas, segredos e revelações – e “Inquisitório”, de Robert Pinget, encenado e interpretado por Diogo Dória.
“Impressionou-me reler duas frases de Almada Negreiros, visíveis no espectáculo que José Ernesto de Sousa montou em 1969. ‘Nós não estamos algures’” – um dos documentos dos anos 60 e 70 do “underground” português que também será mostrado.
“Uma é ‘A eternidade existe, sim, mas não tão devagar’ – gostaríamos de ter alguma pressa, se não para chegar à eternidade, para chegar àquele tempo suspenso em que temos as grandes emoções fora do nosso quotidiano.
“A outra é ‘Às vezes ponho-me a pensar em coisas que eu nunca vi naturalmente, só lá muito longe nas outras terras’. Gostaríamos que algumas dessas coisas fossem visíveis aqui.”

Caixas
Pela Noite Dentro

(Vasco Câmara)

Prometeu Cai No Saldanha
JUNHO PROMETE ser, em matéria de concertos e outros acontecimentos relacionados com ma música, um mês quente no Monumental.
Os “Mistérios de Lisboa” vão neste caso descobrir-se no eixo que liga Nova-Iorque a Berlim. O cruzamento de linguagens e a recontextualização de nomes já conhecidos em projectos de orientação inusitada, serão a regra de ouro no princípio de Verão. Entre os nomes internacionais já confirmados, encontra-se o de John Cale, violista dos Velvet Underground [ver texto principal]. Os Velvet são de resto um dos focos principais destes “Mistérios”, com a sua cantora emblemática, Nico, a ser objecto de particular atenção, através das filmografias de Andy Warhol, com “The Velvet Undergound and Nico”, Suzanne Ofteringer, com o documentário “Nico-Icon”, e, sobretudo, com o ex-suicidário Phillipe Garrel. O realizador francês que uma vez disse que fazia filmes para não se suicidar escolheu a falecida cantora, actriz e modelo germânica para personagem de assombração de “La Cicatrice Intérieure”, “Athanor” e “Le Lit de la Vièrge”, todos com projecção assegurada nas sessões de “Midnight Movis”. No sentido inverso, está “Songs for drella”, de Ed Lachman, que filmou o concerto de homenagem de John Cale e Lou Reed ao homem que imortalizou as sopas Campbell e fez um sofá com os lábios de Mae West.
Outro dos nomes mais importantes da cena, vá lá, “underground”, de Nova-Iorque presente no Saldanha, é Laurie Anderson, num espectáculo cujo formato está ainda por definir, já que tanto pode ser um concerto como uma sessão de histórias declamadas da sua “Nerve Bible”, na linha do que é possível escutar no álbum “The Ugly One with the Jewels”. Seja como for, à meia-noite será exibido “Home of the Brave”, da sua autoria. De David Byrne, outro visitante assíduo ao nosso país, serão exibidos alguns dos seus vídeos.



Concerto grande, para perdurar na memória, será aquele a apresentar na festa de encerramento destes “Mistérios de Lisboa”: a ópera radiofónica “A Libertação de Prometeu”, um texto de Heiner Müller musicado e sonorizado por Heiner Goebbels.
Ainda no capítulo das imagens será possível rever filmes como “Don’t Look Back”, de D. A. Penbaker, por onde desfilam todos os nomes importantes da década de 60, sob a égide de Bob Dylan, e “Gimme Shelter”, documentário de Albert e David Mayles com Charlotte Zwerin sobre os Rolling Stones, a mesma banda que Godard filmou em “One + One”, também incluído na programação das meias-noites. Nick Cave e Nina Hagen poderão ser vistos como actores em “Dandy”, de Peter Sempel.
O encenador preferido dos minimalistas, Bob Wilson, marcará presença com o vídeo “La Mort de Molière”, entre outros, enquanto Jim Jarmush permitirá rever as capacidades de representação do saxofonista dos Lounge Lizards, John Lurie, um dos esteios da “downtown” nova-iorquina. Caetano Veloso estreia-se como realizador, em “Cinema Falado”.
Na lista anunciada de espectáculos inclui-se ainda “As Time Goes By”, de Augusto M. Seabra, com Luís Madureira, Helena Afonso e Elsa Saque – em versão remodelada – e poesia negra, numa noite de “rap” com General D, Boss AC e os Black Company (“mad nigger não sabe nadar, yé”).



A representação portuguesa suscita curiosidade acrescida, na medida em que a maioria dos nomes investirá na diferença, manobrando em campos de acção que não serão, em cada caso, os mais habituais. António Pinho Vargas, por exemplo, tocará com o saxofonista José Nogueira, reatando uma relação musical interrompida há oito anos. Nuno Rebelo vai mostrar por fim “O Mundo Desbotado”, composto em bases computacionais sobre um vídeo de Edgar Pêra. Rodrigo Leão fará uma pausa nos seus Vox Ensemble para manipular fitas magnéticas com textos de poetas portugueses. Mário Laginha actuará em quarteto com os irmãos Julian e Steve Arguelles, respectivamente saxofonista e baterista, e Bernardo Moreira, no contrabaixo. O violino e os dispositivos electro-acústicos de Carlos Zíngaro entrarão em diálogo com o contrabaixo de Peter Kowald. Novas músicas e novas situações, numa tentativa de inventar horizontes mais vastos para uma cidade que não quer ser provinciana.