Arquivo da Categoria: Humor

Pascal Comelade – “Musiques Pour Films, Vol. 2”

Pop Rock

29 de Maio de 1996
poprock

Pascal Comelade
Musiques pour films, vol.2
LES DISQUES DU SOLEIL ET DE L’ACIER, DISTRI. ANANANA


pc

A estratégia é a mesma, mas, enquanto o efeito de encantamento que provoca não se dissipar, não há razões para a mudança. O coelho das pilhas Duracell continua enfiado no seu mundo pessoal de valsas, tangos e boleros, um brinquedo para os sentidos e uma provoação cheia de humor ao convencimento das chamadas “músicas sérias”. Neste conjunto de peças compostas para diversas bandas sonoras, de que não existe nenhum primeiro volume, os pianos, xilofones e sopros de brincar andam, como sempre, a vasculhar nos arquivos mais empoeirados da memória e os instrumentos de verdade a deleitar-se por ninguém os obrigar a andar na linha. Os três últimos temas enveredam por um caminho mais próximo da electrónica, culminando em “Back to Schizo”, em que Comelade se encontra com um dos seus heróis, Richard Pinhas, guitarrista com inconfundíveis traços frippianos, na recriação da sonoridade dos Schizo, formação anterior aos Heldon. O único tema não original é a “Chanson”, lengalenga em mono de uma criancinha, que aparece em “Détail Monochrome” e fechava em segredo certas “Estranhas frequências” que assombravam antigas noites radiofónicas… (8)



The Residents – “Have a Bad Day”

Pop Rock

15 de Maio de 1996
poprock

The Residents
Have a Bad Day
EURO RALPH, DISTRI. SYMBIOSE


res

“Estão preparados para o vosso pior dia de sempre?” É a pergunta que os Residents fazem, utilizando uma táctica que junta a manipulação ao “merchandising”. O grupo americano serve-se do sistema para, do interior, o subverter. Apregoam os seus produtos, dos vídeos aos “posters”, relógios e “t-shirts”, com a candura de comerciantes que apenas fazem pela vida. Mas por detrás desta aparente cedência aos moldes de funcionamento normais da indústria esconde-se um esgar de crueldade e uma estética de fealdade. A música dos Residents, a partir do momento em que reciclaram todas as suas fontes sonoras em artefactos electrónicos, tornou-se como que o negativo de um filme de Disney ou do “Feiticeiro de Oz”. Um desenho animado colorido, com ritmos de brinquedo e luzinhas a piscar, que seduz para perverter. Comparado com o jogo em formato CD-ROM, “Have a Bad day” é, por assim dizer, “piece of cake”, como que uma espreitadela sonora inofensiva aos horrores, estes sim bem mais perturbantes, do suporte principal com imagem. Banda-sonora dos piores sonhos que o cérebro pode produzir, trata-se ainda e sempre da mesma arquitectura alucinatória, segundo um mecanismo de atracção e repulsa que faz dos Residents o objecto e projecto artísticos mais subversivos de toda a história do rock. (7)



Albert Marcoeur – “Sports et Percussions”

POP ROCK
3 de Janeiro de 1996

Álbuns Pop Rock

Albert Marcoeur
“Sports et Percussions”
CONCORD, IMPORT. PLANETA ROCK


am

O universo artístico de Albert Marcoeur destina-se a ser saboreado até ao tutano por quem andou pelos anos 70 a entusiasmar-se com as músicas de gente como Henry Cow, Magma, Faust, Gong e outros que tais, e se impregnou da leitura de “Rock & Folk”, ou da BD de “bíblias” como a “Metal Hurlant” e “A Suivre”. Gente, ainda, que gargalhou com o estilo gráfico verdadeiramente genial de Gottlib, autor de pranchas onde o humor dos desenhos e dos textos só encontra paralelo, do outro lado da Mancha, no cinema, nos sagrados Monty Python. Albert Mancoeur já vem muito de trás a fazer álbuns onde a estranheza se confunde com o humor. “Sports et Percussions”, o mais recente, é uma série de “comptines” em torno de desportos como o ciclismo, o boxe ou o automobilismo (fórmulas 1 e 2…), sem esquecer os jogos de azar ou o empate futebolístico de um “Tchecoslovaquie-Écosse 0-0”. Bizarro sem ser obscuro, organizado segundo delírios sonoros que poderiam ter brotado da imaginação do nosso amigo capitão Cap (obrigado, Alphonse Allais!), “Sports et Percussions” alterna a poesia surrealista (ou dada?) com o teatro progressivo à maneira de uns Etron Fou Leloublan, o “muzak” extraterrestre e os nós rítmicos tipicamente “Recommended”. No tal jogo que acabou em empate, encontram-se arremedos de celtismo esmagados por uma pedrada monumental, sobre a gritaria das claques, acabando a função em clima de guerra, ao som dos gritos e rajadas de metralhadora. Demencial. Na consola, um “hacker” de tenra idade andou a fazer das suas, minando com electrónica desaparafusada canções de mil malabarismos. Marcoeur, com o espírito ladino e livre de uma criança, assina os seus números com a superioridade dos não-comprometidos.