Felix Kubin
Filmmusik (7)
a-Musik, distri. Matéria Prima
Oleg Kostrow
The Great Flashing Tracks from Iwona (8)
Storage Secret Sounds, distri. Matéria Prima
Felix Kubin actuou há dias em Portugal em duas memoráveis “performances” no interior de um cacilheiro, a caminho da sessão de tortura dos Pan Sonic que nos esperava do outro lado do rio. “Filmmusik”, composto por temas retirados de três bandas sonoras para filmes (de animação?) de Mariola Brillowska (“Katharina & Witt, Fiction & Reality”, “Die Contr-Contras”, “Der falsche Spieler” e “Morgenröte”, este co-realizado com o próprio Kubin), não tem o mesmo sentido de humor que Kubin evidenciou ao vivo (do alinhamento de 26 faixas, apenas “Pornodisko” foi tocado no barco), optando por fragmentos vocais dispersos, processos de samplagem aprendidos com o seu mestre e amigo Holger Hiller e ambiências electrónicas que ilustram a dedicatória de Kubin: “Long live psycho sci fi pop!” Bastante mais interessante que o álbum de Kubin é “The Great Flashing Tracks from Iowa”, do seu compatriota Oleg Kostrow. Um extraordinário trabalho de samplagem e colagem, sem costuras, de canções de filmes das últimas quatro décadas, lounge jazz, disco, psicadelismo, drum ‘n’ bass, easy listening e electrónica composto para a banda sonora da peça de teatro infantil “Iowna”, idealizada pelo artista russo Andej Bartenev, antigo colaborador de Paco Rabane e Brian Eno. Alguém definiu esta sinfonia de “flashes” da imaginação como um cruzamento de “Trip Tease”, dos Tipsy, com “Organ Transplants”, de Stock, Hausen & Walkman. Um álbum de pop electrónica leve como o vento. Esqueçam os Air.
Nova Huta
At Bambij Robot’s Nonstop Datscha (8)
Storage Secret Sounds
Pluxus
Fas 2 (7)
Slowball, distri. Matéria Prima
Toda a gente se anda a divertir na música electrónica. Ainda bem. Longe vão os tempos dos rostos sisudos perdidos numa confusão de botões, circuitos e enciclopédias. Agora tudo é permitido como num desenho animado. Os Cluster, claro, foram os “culpados”, quando ainda na primeira metade dos anos 70, gravaram o álbum que se tornaria na bíblia da nova electrónica: “Zuckerzeit” (na década seguinte reactualizado por Holger Hiller, Der Plan e Pyrolator). Os Nova Huta, do alemão Oleg Kostrow, companheiro de quarto, sem malícia, de Felix Kubin, e os suecos Pluxus (mas também os também germânicos Sack & Blumm e Bluthsiphon, em breve nesta páginas, não perca!) juntam sons como uma criança monta um Lego. No caso dos Nova Huta o brinquedo cola ritmos “motorika” com melodias românticas de “easy listening” imberbe (como no viciante “Soft end” ou na quase imbecilidade de “Amazing tante diwan”), solos de calculadora de bolso e caixas de ritmo num tom geral de Kraftwerk para o jardim de infância cortado pela interferência dos Suicide, no tema final “Babsie me”. Tudo com o selo do bom-humor, como na inscrição da capa “All music made by this hands” ilustrada por um par de mãos. Os Pluxus são um trio mais “electro” que reactualiza a electro-pop dos OMD mas que ouviu de certeza o seu compatriota Bo Hansson, a julgar pelo tema “Hej, hej ign, hej då”, com a mesma caixa de ritmos e o órgão Farfisa de álbuns como “Lord of the Rings” e “Magician’s Hat”. Música para festas para se dançar com a cabeça no ar e o cérebro atafulhado de “confetti”.
VÁRIOS ARTISTAS
Eyesore: A Stab at the Residents (7)
Vaccination, import. SYMBIOSE
Há mais de 20 anos que os Residents permanecem incógnitos. À proximidade do milénio, estão mais activos e subversivos do que nunca. Três dezenas de nomes, quase todos desconhecidos, responderam ao pedido da editora Vaccination e apresentaram as suas versões pessoais de temas destes anjos do bizarro, como lhes chamaria Edgar Allan Põe. É a homenagem “oficial”, de genérico “Eyesore: A Stab at th Residents”. Um objecto tão absurdo como fascinante.
Homenagem aos Residents? Estão a brincar! Será a reacção mais provável a este “digipak” com cores de cadáver e de sangue que a Vaccination Records, uma pequena editora californiana vocacionada para a ruína, acabou de lançar no mercado. As bandas e os nomes avulsos de “Eyesore” foram convidadas, d acordo com aquela companhia, através de métodos como a “persuasão”, a “tramóia” e a “boa vontade”. Os que responderam à chamada fizeram-no por piro amadorismo (“por amor à música dos Residents”), não recebendo quaisquer lucros em troca, nalguns casos financiando eles próprios as gravações. Alguns declinaram a oferta, por falta de fundos. Stan Ridgway, o ex-Wall of Voodoo que encerra o compacto, usou como “tema” a gravação da sua voz, via telefone, a desculpar-se por não apresentar uma única nota de música, nem dele nem dos “fabulous four” (perdoem o sacrilégio…) com cabeça em foram de globo ocular. Há ainda um “bonus track” secreto. Tudo com o selo “Residents approved” e o conveniente tom d conspiração.
A lista das bandas e solistas participantes é como segue: Only a Mother, Idiot Flesh, Heavy Vegetable, Frank Pahl, Thinking Fellers Union Local 282, Borgia Popes, Ubzub, Mooseheart Faith, Spatter Trio, Amy Denio, U-Totem, Greg Roe, Giant Ant Farm, Charming Hostess, Richie West & Bomb Factory, Silica Gel, Mommyheads, Supercollider, Snakefinger, Fibulator, Dramagold, Shakin’ Ray Levis, Poxy Boggards, Big Butter, Cracker, Pink Floyd the Barber, Non Credo, Lungpigs, Eskimo, Primus e o já citado Stan Ridgway. Alguns parecem invenção mas não são.
Deste rol de inanidades, conhecemos os U-Totem, de James Grigsby, banda conotada com o som Recommended, e os Negativland, os (Segundo cremos) suiços Non Credo, outra banda da estética Recommended, Snakefinger (guitarrista que, durante anos, participou nos álbuns dos Residents, entretanto falecido), os Cracker e Amy Denio, “performer” habitual da Knitting Factory que já actuou entre nós. Os Idiot Flesh e os Giant Ant Farm já têm álbuns da Vaccination. Outras bandas estão em agenda para gravar. A grande maioria, porém, compõe uma grande incógnita, embora alguns disponham já de endereços próprios na Internet. Todos os temas estão interligados, formando uma longa peça sonora, de maneira idêntica à dos primeiros álbuns conceptuais dos homenageados, como “The Third Reich ‘n’ Roll”, “Not Available” ou “Eskimo”. Os álbuns repescados em “Eyesore” abrangem um período temporal que vai do EP de estreia, de 1972, “Santa dog”, ao álbum do ano passado, “The Gingerbread Man”. No total, 76 minutos de incongruência, caos, loucura, paródia, devoção, paranóia e algum humor, numa para de “freaks” desejosos de agradar aos progenitores.
Os sons e os ruídos, os decalques e as variações, a acumulação de citações e desvios, a estranheza pela estranheza ou a assunção séria da diferença que se derramam em “Eyesore” fazem deste produto – que seria perturbante se a ânsia de esquisitice não fosse, em muitos casos, gratuita – algo de impenetrável, quase anedótico. A estética das várias bandas confunde-se e contagia-se mutuamente, a alucinação acústica esbarra na derivação electrónica mais esotérica, as vocalizações tanto seguem as estratégias fonéticas que, segundo os Residents, lhes teriam sido ensinadas por uma misteriosa personagem de nome N. Senada, como inventam elas próprias novos e insanos vocabulários. Seria despropositado destacar temas, uma vez que o princípio da identificação não funciona aqui. As bandas, mesmo aquelas cuja discografia é do nosso conhecimento, fazem questão em soar como se fossem outras, esmagadas pela sombra imensa que sobre elas paira.
Seria o equivalente à (des)montagem sistemática de canções dos anos 60, de êxitos dos Beatles, Roilling Stones e Beach Boys, empreendida em “The Third Reich ‘n’ Roll” se não pecasse pela ausência de um objectivo preciso e perverso como era o dos Residents nesse álbum, primeiro de uma longa série (que hoje inclui outros formatos como o vídeo e o jogo em CD-ROM), de destruição, inversão e contágio da música popular deste século.
Os Residents sabem – e os participantes de “Eyesore” não – que não se destrói um organismo com o poder do rock, à martelada, a tiros ou à bomba, como fizeram, por exemplo, e com idêntico projecto, os Einstuerzende Neubauten, mas de outra forma, mais subtil, operando por dentro uma mutação genética. “Eyesore” é um “cartoon”, banda desenhada convulsa mas pueril de uma operação de maior gravidade. Um ovo de pequenas criaturas parasitas posto, mas não chocado, pela besta-mor.
P.S. – Na capa de “Eyesore”, um tal Penn Jilette conta uma história. Amigos de longa data dos Residents, conhece o nome dos seus músicos, o tal segredo mantido inviolável há mais de duas décadas. Durante um concerto de estádio dos Talking Heads, no Texas, um par de jovens à sua frente suspira. O se maior desejo, dizem, é conhecer os nomes, os tais nomes… Penn Jilette, atrás deles, grita e pronuncia claramente os nomes e apelidos de cada um dos Residents. Os jovens ouvem o som mas não prestam atenção. A decifração do segredo passa-lhes ao lado. Há uma moral qualquer a extrair deste episódio.