Arquivo da Categoria: Gótico

Lisa Germano – “Lullaby For Liquid Pig”

18.04.2003

Lisa Germano
Lullaby For Liquid Pig
Ineffable, distri. Edel
8/10

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Quase sempre os lugares mais interessantes da pop são os mais misteriosos e difíceis de encontrar. Não é fácil descortinar entre os vultos do bosque a cabana onde Lisa Germano se esconde e projecta, em noites de insónia, os fantasmas da sua fantasia. O chão está molhado, forrado de vermes e cetim apodrecido. Das paredes tombam farripas de papel de cores indefinidas, desbotadas pela chuva, como as canções e as palavras que escorrem tristemente de “Lullaby for Liquid Pig”. Podemos imaginar uma sessão de espiritismo. Podemos imaginar “The Lodge” – a capela do medo que Lynch instalou no meio do nada de “Twin Peaks”. Podemos mesmo ver, nas fotos da capa, um corpo suspenso no ar ou encurralado a um canto de um quarto vazio. Ou a floresta onde Lisa corre como uma noiva perdida. Predominam a melancolia, sombras coleantes, cânticos de solidão e amores de sentido único, pianos bolorentos, correntes de ar electrónica a compor o mesmo tipo de emoções veiculadas pelos This Mortal Coil. Lisa sussurra-nos ao ouvido farrapos de melodias decalcadas dos seus discos anteriores, como um carrocel que não pára de girar no mesmo sítio mas continua a salpicar-nos de sangue.

Swans – “Children of God / World of Skin” (self conj.)

03.10.2003
Swans
Children of God / World of Skin
9/10
Swans Are Dead
8/10
Ambos 2xCD Young God, distri. Sabotage

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Swans – A Praga dos Cisnes

“O bem estar e a felicidade nunca me pareceram um fim absoluto. Sinto-me mesmo inclinada a pensar que estes propósitos morais são mais parecidos com os de um porco”. Quem o diz é Jarboe, a serpente entre os cisnes. Os Swans eram uma daquelas bandas americanas dos anos 80 que achavam que o inferno é o melhor local para se viver e que procuravam convencer o seu público do mesmo. Como Clint Ruin, Lydia Lunch, Sonic Youth ou The Art Barbeque, os Swans moldaram o rock em volutas de “noise”, escolhendo como temas para as suas litanias infernais, a religião, o sexo, a morte e, em geral, todas as actividades humanas . da escatologia mais infame a um ascetismo neurótico – que conduzem ao sofrimento e à loucura.
“Children of God”, editado originalmente em 1897 no formato de duplo-álbum e agora reeditado e remasterizado em conjunto com “World of Skin”, do projecto paralelo, Skin, não foge a esta tecla com a diferença de que, comparativamente aos discos anteriores como “Filth” ou “greed”, pauta o horror por uma espécie de Psicadelismo negro, faceta que viria a acentuar-se nos Skin e na obra a solo de Jarboe.
É verdade que logo a abrir, “New Mind” nos põe K.O. Rock sinónimo de agressão física e psíquica, crispado na guitarra carnívora de Gira, arrepiante numa letra que ousa dizer “The sex in your soul will damn you to hell”. Mas “Children of God” aborda o mal noutra perspectiva, aquela que se disfarça sobre o manto carmesim do Belo. Jarboe sibila entre guitarras acústicas, pianos e naipes de cordas, num jardim de pesadelo que mima o Psicadelismo, enquanto Gira faz ecoar a sua voz de barítono, invectivando tudo e todos, numa impossível catarse em que o amor é ainda um outro rosto da morte. “I’ll always remember your hand on my shoulder, pulling me down, into the cold dead earth”, um pouco à maneira do pregador Nick Cave, em “Real Love”. A agonia eleva-se, enfim, nas asas de vampiro de uma majestade feita de ódio e orgulho, música quase sinfónica, no formidável “Beatiful Child” – tão totalitária como a dos Einsturzende Neubauten, horrivelmente pornográfica como a de Boyd Rice (Non), eivada de uma dimensão cinematográfica como a de Jim Thirlwell sob o pseudónimo de Foetus. E se a dupla condescende em afirmar que somos todos “children of god”, é com um arrepio que reconhecemos a natureza dessa divindade.
Jarboe brilha como uma estátua de sal no outro lado da lua, na compilação de temas dos Skin, “World of Skin”, bom complemento para “Children of God”. Cantora de verdade, em “Cry me a river”, “Blood in your hands” ou “My own hands”, a sua voz chega a ser atraente, atraindo-nos para um labirinto de gigantescos espinhos de rosa. Os violinos e violoncelos cortam como punhais, a electrónica afunda-se em nevoeiros sinistros a envolverem as vozes, mais litúrgicas do que nunca, dos oficiantes. Tudo em “World of Skin” ostenta uma religiosidade malsã. Ouve-se um tema como “We’ll fall apart” e a confusão enrola-se no impossível acordo entre Sade Adu e os Dead Can Dance em dia de enterro ou quando a harmónica dos Supertramp (!) é estrangulada por um piano tumular, em “Cold Bed”. Ou, como cantava Marc Almind: “Beauty is skin deep”.
Mas não é tudo. Como proclamava Frank Zappa, “the torture never stops”. A par de “Children of God/World of Skin”, foi igualmente reeditado, em CD duplo, “Swans are Dead”, registo das derradeiras digressões do grupo, em 1995 e 1997. Aguente quem puder os 16 minutos de mantra de ruído a que o grupo chamou “Feel Happiness”, capazes de deitar por terra a aliança Glen Branca/Sonic Youth. Mas também há um anjo a voar montado num vibrafone a assombrar a missa negra “The Sound” e os 17 minutos de “Helpless child”, reflexo distorcido num espelho de águas inquinadas. No canto de cisne dos Swans, o niilismo dos anos 80 transitou, tal qual um vírus já disseminado pelo corpo todo, para os 90. Como uma praga.

Elizabeth Anka Vajagic – Stand With The Stillness Of This Day

17.09.2004
Elizabeth Anka Vajagic
Stand With The Stillness Of This Day
Constellation, distri. Sabotage
6/10

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Passar 40 minutos a gemer em agonia num disco não é proeza ao alcance de qualquer um. Elizabeth Anja Vangajic não só o consegue como deixa quem o ouve de rastos. É mais uma artista da Constellation e está tudo dito. A coisa passa-se assim: Elizabeth esvai-se em cada canção enquanto por detrás se fazem ouvir omnipresentes “drones” de violinos sepulcrais, mais pianos gélidos, guitarras sem alma, lascas de mármore e ruídos de electrónica de tempestade, como em “Around here”. Existe um som Constellation, sem dúvida, e para acentuar tal facto nem faltam neste disco as colaborações de elementos dos gybe! E dos A Silver Mt. Zion. Significa que o já tradicional movimento “vai acima, vai abaixo”, leia-se subidas e descidas musico-emocionais, entre clímaxes de “noise” orquestral e a depuração máxima, funciona em pleno. A capa também não engana, com as suas estátuas, portos desertos à chuva e templos em ruínas, em tons de pastel escuro. Estranhamente, o tema de abertura, quase podia fazer lembrar os Radiohead à hora da morte. É que Anka não perdoa, ao cantar palavras versos lapidares como “I Saw your face when you killed yourself/Smashed your face and you killed yourself”. Está visto que o Verão acabou.