Arquivo da Categoria: Gótico

Lisa Gerrard & Patrick Cassidy – “Immortal Memory”

06.02.2004

Lisa Gerrard & Patrick Cassidy
Immortal Memory
4AD, distri. MVM
6/10

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Agasalhem-se, bebam uma aguardente, cheguem-se perto da lareira. Lisa Gerrard, a voz de mármore dos Dead Can Dance e This Mortal Coil, passeia-se pelo cemitério numa noite de luar. “Immortal Memory” depura o gótico e as recriações de música antiga dos Dead Can Dance, com toques de “folk” e mitologia céltica (Cassidy é um compositor irlandês que a cantora conheceu quando trabalhava na banda sonora de “Gladiador”) e uma grandiosidade expressa em grandes massas orquestrais, numa produção tumular e em canções que sugam a alma até esta ficar da cor de um lençol. “The Song of Amergin” poderia passar por Enya do outro lado do espelho, na banda sonora de uma versão de terror de “O Senhor dos Anéis”, com Lisa a invocar a entidades do além com os seus cânticos de diva sonâmbula. A partitura de Howard Shore para o filme de Peter Jackson parece ser, de resto, a principal referência de “Immortal Memory”, ao nível dos arranjos, a julgar por orquestrações como as de “Maranatha” e “Armegin’s Invocation”, esta a roçar a clonagem… Evocam-se lendas e rituais solenes, perdidos no tempo e na memória mas os grandes glaciares desta música que dança, mais ou menos ostensivamente, com a morte, têm efeitos bem mais profundos na obra dos The Zone, Lustmord ou nas inultrapassáveis e temivelmente belas litanias de “Zamia Lehmanni (Songs of Byzantine Flowers)”, dos SPK.

The Third Eye Foundation – “Ghost”

19.09.1997

The Third Eye Foundation
Ghost (7)
Domino, distri. Música Alternativa

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“Corpses as bedmates”, “Cadáveres como companheiros de cama”, é um dos títulos deste álbum de fantasmas. Os Third Eye Foundation têm um sentido de humor muito particular. “Ghost”, que tem provocado algum furor lá fora (destaque na revista “Magnet”), surgiu rotulado como “pós-rock”, embora não haja muitos grupos conotados com o movimento parecidos com os TEF. É visível que o principal objectivo deles é fazer-nos sofrer. O som desfaz-se, numa tortura de “samples” que tanto podem esganar vozes étnicas como sinfonizar os ruídos industriais mais insuportáveis. Em termos rítmicos, a confusão de “breakbeats” tem como finalidade a ordenação possível do caos de distorção e deformidade harmónica. Mas, se no “pós-rock” apenas os Rome – ou, num registo de cruel exposição ao vazio, os Stars of the Lid – poderão rivalizar com os TEF no jeito para o massacre, já na década anterior encontramos outros ilustres torcionistas do som. É o caso dos This Heat, de Charles Hayward, referência óbvia em temas como “Corpses as bedmates”, “The star’s gone out” ou “Ghosts…” (em versão “drum ‘n’ bass” no castelo dos horrores), numa idêntica combinação de bateria industrial, ruído rosa e metal “hurlant”. E dos Throbbing Gristle, em “The out sound from way in”, no mesmo gosto sádico com que fazem da elaboração de relatórios do pesadelo urbano deste final de século e do cinismo uma arma de vingança (o som de harpa, neste tema, é um esgar de gosto tenebroso). “I’ve seen the light and it’s dark”, avisam os TEF. Nós ouvimos a música e é ainda mais escura.

Matt Howden – Sinfonias do Sol Negro

15.03.2002

Matt Howden – Sinfonias do Sol Negro

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Matt Howden e Aranos. Dois violinistas loucos. Demónios. Pagãos. Artífices de uma música que brota das profundezas, com o rosto corado pelas maldições lançadas pelos antigos gigantes. Matt Howden é um dos astros negros dos Dieben e, com Tony Wakeford, dos Sol Invictus (além de fazer parte dos Raindogs, banda com base em Portugal). Aranos, enigmática personagem de ascendência cigana, natural da Boémia, é uma das entidades em acção nos Nurse With Wound, de Seteven Stapleton, e nos Current 93, de David Tibet. Os dois tocam juntos, hoje e amanhã, em Lisboa, no Teatro Ibérico de Xabregas, duas noites que se prevêem fora do comum.
Em cada uma destas apresentações os músicos reservaram os dez, quinze minutos finais para interpretarem temas compostos para os concertos de Lisboa. Na 6ª feira, após o concerto, terá lugar uma aula de tango pelo grupo Milonga das Estrelas, para o qual Aranos escreveu propositadamente um tango (convém esclarecer que o tango é uma das suas paixões, bem como a guitarra de Carlos Paredes). A Matt Howden e Aranos juntar-se-ão em palco Paulo Romão, dos Raindogs, e, em três ou quatro temas, B’Eirgh, vocalista da banda britânica In Gowan Ring, pertencente à editora World Serpent.
É extensa a obra de Howden, a solo ou nos projectos Sol Invictus, Sieben e Stiki. De comum, a proximidade do Mal, as cores soturnas, as luzes fátuas, os rituais ocultos de louvor a deuses cruéis e antigos. “Intimate & Obstinate”, “Hellfires” e “Redroom” são os três trabalhos com a ssinatura de Matt Howden. Na forja está uma longa peça conceptual intitulada “Voyager”, inspirada na expedição espacial que leva a sonda para fora do Sistema Solar, ao encontro do desconhecido.
Em “Hellfires”, os “Fogos do Inferno”, Hoden fez incidir a sua atenção nas concepções filosóficas e religiosas do Inferno em algumas das civilizações do passado, como o Hades etrusco ou o Amenti egípcio. Temas como a transmigração das lamas ou a condenação eterna são abordados segundo uma perspectiva que o levou, por exemplo, a questionar-se sobre as “regras” e os “motivos” que poderiam levar Shu, deus da luz, a determinar a “aniquilação completa” de uma alma pecadora. Charun, “meio humano, meio besta, com o seu olhar flamejante e o seu aspecto selvagem”, considerado uma “concorrente do próprio Satanás”, é outra das simpáticas personagens que Howden convocou para “Hellfires”.
“Redroom” é a obra em vermelho, a cor que cobre as paredes do seu estúdio. A cor do Inferno, do sangue e do sexo. “Voyager” não deverá ter esta cor, mas é de prever que seja escuro. A escuridão do espaço sideral. Matt Howden faz questão de explicar que este seu trabalho não significa qualquer conversão ao espírito “new age”, deixando, aliás, o aviso para esperarmos dele “toda a espécie de coisas estranhas e assustadoras”.
Mas nem só de trevas vive a música de Matt Howden. As formas com que reveste as suas visões de pesadelo têm amiúde a solenidade da música clássica, reportando-as ao mesmo tipo de sinfonias infernais de projectos como SPK (de “Zamia Lehmani”), Lustmord ou Zone. No folclore pop colou-se-lhes o rótulo de “gótico”.
Feiticeiras, a decadência da Europa, a intrusão do mundo astral no mundo físico, o cosmo em ruínas, a oposição luz/trevas e um lote bem fornecido de criaturas mitológicas e títulos em latim integram o léxico fundamental da sua obra, que pode ser apreciada num sem número de realizações das quais as mais recentes são “The Line and the Hook”, dos Sieben, e “Thrones”, dos Sol Invictus, este editado já em Fevereiro.
Fica assim entendido que tem apetência pelo lado escuro da mente e pelos rituais que a fazem sintonizar-se com o buraco negro do Inconsciente. A normalidade repugna-lhe. A tempestade vai bem com a sua personalidade. Recorda com nostalgia um concerto dos Sieben no “Wave Ghotic Festival” em Leipzig, quando, durante o “encore”, a noite explodiu em trovões e relâmpagos: “Great stuff!”
Será assim em Lisboa? A meteorologia não prevê uma melhoria do tempo, estando reunidas as condições para que o cerimonial decorra da melhor forma. Com fantasmas à solta. Quem tem medo do escuro?

Matt Howden & Aranos
Lisboa | Teatro Ibérico de Xabregas
6ª e sáb., às 21h30. Bilhetes a 12,50 euros