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Youssou N’Dour – “21 De Outubro, Coliseu Do Porto 22 De Outubro, Coliseu De Lisboa” (concertos | antevisão | artigo opinião)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 17 OUTUBRO 1990 >> Pop Rock


YOUSSOU N’DOUR
21 de outubro, Coliseu do Porto
22 de outubro, Coliseu de Lisboa


N’Dour é sobretudo conhecido pela fusão, nos seus discos, de vários estilos musicais, nomeadamente as sonoridades étnicas do Senegal, o “reggae”, a eletrónica e a música de dança. Sensível aos sons e cultura ocidentais, e não só, trabalhou com Peter Gabriel, no álbum “So”, Paul Simon (“Graceland”), Ryuichi Sakamoto (“Beauty”), Bruce Springsteen, Sting e Tracy Chapman (estes últimos ao vivo na “tournée” mundial organizada pela Amnistia Internacional, “Human Rights Now”).
Em 1976, juntou-se aos Star Band, e três anos mais tarde formava a sua própria Super Étoile de Dakar, banda com a qual se tornou conhecido fora do país natal. Depois do sucesso internacional de “The Lion”, “Set” (“limpo”, em dialeto wolof, produzido por Daniel Lanois) é o registo discográfico mais recente deste senegalês apostado em estender as fronteiras da África pelo mundo fora. Em “Set”, a sonoridade é mais urbana do que nunca, baseada no “mbalax”, “cocktail” rítmico que mistura ambientes de mercado, clubes noturnos e festas particulares.
Ao contrário, nomeadamente de Mory Kante, seu concorrente direto no campo da revisão moderna dos dialetos tradicionais africanos, Youssou N’Dour parece agora apostado em manter-se fiel a um som que, apesar de sincrético, não faz concessões ao gosto americanizado. De modo que, se “Lion” foi o seu ensaio mais sério no plano da massificação, “Set” é um disco que equivale a um retrocesso autenticista. Internacionalista, mas não pura curiosidade turística, em Portugal teremos oportunidade de escutar a sua voz tenor e o vibrante entusiasmo com que procura, a partir do grande caldeirão de culturas, pôr o mundo inteiro a dançar, mas sempre e sobretudo agora numa perspetiva africana.

Mary Wells – “A Voz Por Um Cigarro” (obituário)

Cultura >> Terça-Feira, 28.07.1992


A Voz Por Um Cigarro



Morreu Mary Wells. Aos 49 anos, com um cancro na laringe (fumava uma média de dois maços por dia), num hospital de Los Angeles. Não se ouvia falar muito de Mary Wells, enquanto era viva. Mas também quem é que ouve falar de tantos outros artistas, muitos deles importantes, que compõem, cantam e tocam por este mundo fora? Sobretudo se forem negros, embora o racismo não exista?
De Mary Wells falou-se sobretudo nos anos 60, quando a cantora negra, natural de Detroit, no Michigan, levou ao top a canção “Bye bye baby”. Fez parte do lote de artistas de ouro da Tamla Motown, editora com a qual assinou contrato, logo aos 16 anos de idade. “Bye bye baby” foi o primeiro êxito. Mas houve outros: “The one who really loves you”, “You beat me to the punch”, “Two lovers”, que vendeu cerca de um milhão de cópias, e “My Guy”, qualquer deles escrito em colaboração com Smokey Robinson.
Mary Wells foi a primeira artista da Tamla Motown a andar em digressão por Inglaterra e f~e-lo logo na companhia dos Beatles. Actuou ao lado de Marvin Gaye, com quem gravou os “hits” “What’s the matter with you, baby” e “Once upon a time”. A Tamla Motown deve-lhe parte do prestígio que ao longo dos anos angariou, como sede principal do que melhor se fez, durante os anos 60 e 70, no campo da “soul music”.
O corte de relações e consequente abandono da Motown coincidiu com o princípio do fim da cantora. A partir daí apareceu esporadicamente nos tops norte-americanos de “rhythm ‘n’ blues” mas a decadência era irreversível. O casamento com Cecil Womack e a mudança de Detroit para Los Angeles piorou a situação, ao ponto de levar a artista à beira da ruína. Já depois do divórcio com Womack, e de lhe ser diagnosticada a doença que viria a vitimá-la, Mary Wells viu-se forçada a vender a casa para pagar os tratamentos e internamento hospitalar. Diana Ross, Bruce Springsteen, Rod Stewart e os Temptations, juntamente com a “The Rhythm ‘n’ Blues Foundation”, contam-se entre os nomes que a ajudaram a pagar algumas contas.

James Brown & Friends – “James Brown & Friends” (vídeo / vhs)

Pop-Rock 27.02.1991 – VÍDEOS


JAMES BROWN & FRIENDS
James Brown & Friends
Music Club, distri. Anónima, 57 min.



Para os amantes da música “soul” este registo ao vivo das actuações de James Brown e alguns convidados muito especiais, no “Taboo Club” de Detroit, Michigan, em 1987, é uma peça de arquivo fundamental. Para todos os que não se incluem na categoria restrita atrás enunciada, funciona como um entretenimento agradável e apenas isso. Não há quaisquer efeitos especiais, para além daqueles eventualmente provocados pela audição da música. Um apresentador apresenta, como lhe compete. Os instrumentistas tocam, como se lhes pede. Os cantores cantam, como seria de esperar. Boa oportunidade para se recordar clássicos da “soul music” na voz de um dos seus expoentes – “Papa’s Got A Brand New Bag”, “In The Midnight Hour”, “When a Man Loves aWoman”, entre outros.
James Brown apresenta-se com o bom-gosto habitual: “smoking” prateado e reluzente, decotado até ao umbigo, cabelos cimentados de laca, penteados ao estilo Freddy-Mercury-de-peruca. À medida que os convidados vão chegando, a coisa aquece: primeiro Wilson Pickett, outro senhor da “soul”, seguido de Billy Vera e Joe Cocker, este para interpretar “When A Man Loves A Woman”. Robert Palmer (impecável, de barba bem aparada, gravata e fato completo, de corte irrepreensível) interpreta “Sugar & Spice” em dueto com Brown e, a solo, um dos temas que lhe deu fama e proveito, “Addicted to Love”, Aretha Franklin, decotada e dificilmente contendo dentro do vestido os excessos de adiposidade, dança um “slow”, agarradinha ao chefe Brown, e canta como só ela sabe. Por fim, juntam-se todos no palco para, felizes, cantarem em coro “Living in America”. E acabou. Muito para uns, pouco para outros. É como tudo na vida.
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Legenda:
. Imperdoável
* Mau Mau
** Vá Lá
*** Simpático
**** Aprovado
***** Único