Arquivo da Categoria: Folk

Júlio Pereira e Kepa Junkera – “A QUATRO MÃOS E UMA VOZ”

pop rock >> quarta-feira >> 10.01.1996


A QUATRO MÃOS E UMA VOZ



“Lau Eskutara” (”A quatro mãos”, em basco) é o título da colaboração discográfica entre Júlio Pereira e o acordeonista basco Kepa Junkera. Editado em Espanha no selo Elkar, o álbum tem já assegurada distribuição nacional pela Sony Music.
Na base deste encontro entre os dois “virtuoses” está um convite do mestre da “trikitixa” (como chamam no País Basco ao acordeão diatónico) ao mago português do bandolim, cavaquinho e outras cordas. “O Kepa viu alguns concertos meus em Espanha e telefonou a convidar-me. Da primeira vez, eu não estava muito para aí virado. Hoje em dia estou virado para um outro tipo de música que não propriamente uma música que tenha referências muito concretas a uma música popular de um sítio específico”, explica Júlio Pereira. “Mas o Kepa, de facto, insistiu muito. Houve uma vez que foi ainda mais insistente. Foi ter comigo a Madrid, quando eu estava a dirigir o disco da Uxia [“Estou Vivindo no Ceu”]. Foi tão teimoso que cedi. A partir daí encontrámo-nos uma única vez, uma tarde, aqui em Lisboa, e depois reunimo-nos, estivemos 12 dias fechados num estúdio em San Sebastian.”
Na ficha técnica pode ler-se Júlio Pereira mais Kepa Junkera. O músico português responsabilizou-se pela concepção geral do som e pelos arranjos, além de contribuir com dois temas seus e de tocar bandolim – como principal interlocutor do acordeão -, braguesa, guitarras, “bouzouki”, cavaquinho e outros instrumentos de corda. “Saudade”, um tema de Cabo Verde, conta com a participação vocal de Minela.
Encerrado, em termos de trabalho, o episódio basco, Júlio Pereira encontra-se presentemente a produzir e a fazer a direcção musical do álbum de estreia de João Afonso, ainda sem título nem editora. O primeiro a sair do novo estúdio do autor de “Acústico”. “Um disco que me está a dar um prazer infinito”, afirma Júlio Pereira, para quem este projecto, já em fase final de produção, significará, sem querer adiantar mais pormenores, “uma pedrada no charco”.

Joanie Madden – “A Whistle On The Wind”

pop rock >> quarta-feira >> 27.12.1995
world


Joanie Madden
A Whistle On The Wind
GREEN LINNET, DISTRI, MC-MUNDO DA CANÇÃO



A senhora anafada e de bochechas coradas que aparece a sorrir na contracapa faz parte do grupo feminino Cherish the Ladies e é considerada uma das mais reputadas intérpretes – não diremos irlandesa, porque nasceu no Bronx, nos Estados Unidos, embora filha de pais irlandeses – de “tin whistle” e flauta da actualidade. “A Whistle on the Wind” faz jus a esse estatuto. Ao contrário do álbum de Ann Heymann, também recenseado nestas páginas, não se confina ao cacifo, pouco requisitado, dos instrumentos solistas. Possuidora de um controlo de respiração notável, aspecto mais pertinente na técnica do “tin whistle”, Joanie aproveita da melhor maneira todas as potencialidades desse pequeno tubo de lata que tão bem canta a jovialidade da alma irlandesa. Tocando ora num estilo pessoal, ora adequando a prática instrumental às restrições do estilo tradicional de Galway, Joanie Madden tanto reproduz a atmosfera de uma sessão num “pub” em Tipperary, onde conheceu os violinistas Liz Carroll e Sean Ryan, como a de um outro encontro, em Sligo, com outra violinista da Green Linnet, Eileen Ivers, e o acordeonista de Chicago John Williams. No final dá a palavra ao seu amigo e figura lendária da folk irlandesa Liam Clancy, para este recitar um poema de Mary Hynes adaptado do gaélico por Raftery. Obrigatório, para os que já têm o vício da Irlanda no corpo. (8)

Ann Heymann – “Queen Of Harps”

pop rock >> quarta-feira >> 27.12.1995


Ann Heymann
Queen Of Harps
TEMPLE, DISTRI. MC – MUNDO DA CANÇÃO



Após várias colaborações com outras harpistas, Alison Kinnaird, Ann arrisca por fim mostrar-se a sós, com a sua harpa gaélica de cordas metálicas – a “clarsach”. A produção enfatiza os acordes e as reverberações amplas, tanto nos temas de “little music”, os “reels” e “jigs” tradicionais, como na “great music” dos séculos XVII e XVIII, tocada nas cortes irlandesa e escocesa para príncipes e auditores eruditos, conhecedores das técnicas ancestrais e das origens bárdicas do instrumento. “Queen of Harps” provoca uma impressão de profundidade, porque é nas profundezas que vai buscar os ensinamentos e o alento, algo que apenas conseguimos encontrar nos velhos harpistas, bretões (esqueçam Stivell), ou irlandeses, como Derek Bell, e nunca em apenas bons tecnicistas, como William Jackson, experimentalistas, como Savourna Stevenson, “hippies” reciclados, como Robin Williamson, ou galegos eternamente constipados, como Emilio Cao. Ann Heymann devolve-nos a harpa enquanto varinha de condão. (8)