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BALANÇO 1998: Música portuguesa – Fado – “Entre guitarras e mulheres”

Sons

31 de Dezembro 1998


BALANÇO 1998
Música portuguesa
Fado

Entre guitarras e mulheres


on

Porque Lisboa já não está só no mundo, também a sua música, o fado, foi forçada a expandir-se e a ganhar novo fôlego. Ovelha Negra, Mísia, Amélia Muge e Camané vestiram-lhe roupas novas. Mas a velha guarda também não ficou esquecida.

Se é verdade que Mísia e, sobretudo, Paulo Bragança foram os primeiros a romper o xaile e a limpar o pó às guitarras (os Madredeus fizeram de outro modo, criaram uma outra espécie de fado, enquanto, numa escala bem mais reduzida, Maria Ana Bobone, João Paulo e Ricardo Rocha propuseram em “Luz Destino” a fusão do fado com os cravos barrocos…), recebendo em troca uma boa dose de escândalo e de indignação, é um facto quer foi este ano que as portas e os preconceitos se abriram em definitivo à inovação e à ruptura. Talvez por culpa da Expo, talvez por culpa dessa outra abertura, do mercado português ao marcado europeu. A própria Mísia lançou este ano “Garras dos Sentidos”, enquanto Bragança, além da participação em “Red, Hot + Lisboa”, se estreou como actor no filme “Tráfico”, de João Botelho, onde também canta uma versão do hino nacional.
Sucederam-se as experiências, umas mais radicais do que outras. Foram mais longe os Ovelha Negra, de Pedro Paulo Gonçalves, um ex-Heróis do Mar que emigrou para Londres e regressou, instigado pela saudade, para fazer um disco intitulado “Por Este Andar ainda Acabo por Morrer em Lisboa”, onde o fado rejuvenesce através da ironia, de forma brutal.
“Só depois de uma pessoa emigrar é que começa a olhar para Portugal com outros olhos”, confessou Pedro Paulo Gonçalves, que uma vez, levado pela mão de Pedro Ayres Magalhães, “chorou” ao ouvir cantar o fado numa das suas casas da especialidade. Consumado o desvio da Ovelha Negra, o fado ainda entrará nas discotecas, contagiado como está, em “Por este Andar…”, por loops, guitarras eléctricas, jungle e tecno.
Mas outros sinais há que indiciam a metamorfose que a música mais tradicional de Lisboa está a sofrer. Escute-se, por exemplo, uma das canções do mais recente álbum de Amélia Muge, “Taco a Taco”, um fado “sui generis” intitulado “Há quem te chame menina”. A menina que Lisboa há muito deixou de ser.
Também a guitarra portuguesa andou em bolandas no ano que passou. A um dos seus mestres, António Chainho, deram um punhado de mulheres para acompanhar a sua guitarra. O álbum chama-se “A Guitarra e Outras Mulheres” e nele as vozes de Teresa Salgueiro, Filipa Pais, Nina Miranda (dos Smoke City), Elba Ramalho e Marta Dias brilham, embora não consigam esconder a fonte instrumental de onde brota a arte maior deste disco. Aliás, pouco se falou da voz da sexta participante neste projecto, curiosamente aquela que m ais fundo interiorizou a emoção do fado. Referimo-nos a Sofia Varela, que já impressionara com a sua participação num espectáculo de fado e flamenco realizado recentemente no Centro Cultural de Belém (CCB).
Outro mestre incontestado da guitarra portuguesa, Carlos Paredes, viu sair outra compilação sua, intitulada “Guitarra – O Melhor de Carlos Paredes”. Sobre ele foram feitas algumas considerações interessantes pelo amador José Rocha Ferreira, que numa edição de autor, de genérico “Memoriam”, faz uma homenagem a Paredes, interpretando algumas das suas composições e tecendo sobre o sujeito comentários, no mínimo, curiosos: “O estilo e a técnica são únicos e a sua precisão torna quase hercúlea a leitura integral do que ele tocava. (…) a inspiração do mestre pedia mais qualquer coisa que o instrumento não podia dar.”
Ainda no capítulo das edições discográficas, Camané prosseguiu no seu segundo álbum, “Na Linha da Vida”, o difícil trilho que conduz da ortodoxia à descoberta de outros fados. Composições de José Mário Branco e João Ferreira Rosa, textos de Pessoa, Antero e Manuela da Freitas, com uma verdade na mira, de que “o fado é uma coisa espiritual” e “uma maneira diferente de cantar a vida” que “não é uma coisa racional”.
Mas a velha guarda também não tem razões de queixa, com a publicação de diversas colectâneas e “Biografias do Fado” de fundo de catálogo que de novo nos trouxeram vozes como as de Alfredo Marceneiro, Lucília do Carmo, Max, Carlos Ramos, Maria Teresa de Noronha, Hermínia Silva e Fernando Farinha, entre outros. Interessante foi assistir a uma nova vaga de interesse do mercado francês pelo fado (ainda o efeito Expo?…). Assim, foram editados em França “Fado Lisboa-Coimbra, 1926-1931”, pela Frémeux & Associes, reunindo velhos discos de 78 rotações de registos de Artur Paredes, por exemplo, e dois volumes da série Canta Portugal, pela EMI francesa, onde se podem escutar as vozes, entre outras, de Amália, Tony de Matos e Maria da Fé. “Music from the Edge of Europe” propõe uma leitura mais contrastante do fado, colocando lado a lado Carlos Paredes e os Madredeus.
O ano fadista terminou com um duplo espectáculo ao vivo no CCB de Carlos do Carmo, a festejas de forma apoteótica os 35 anos de carreira do autor de “Um Homem na Cidade” e do recente “Margens”. Na ocasião, Carlos do Carmo trouxe consigo, como convidados, além de Camané, uma das decanas do fado de Lisboa, Argentina Santos, de quem começa a ser urgente a edição de um novo álbum. Com fado do que se escreve com maiúscula.



Maria João e Mário Laginha – “Cor ” + Carlos Barreto – “Suite Da Terra” + Frei Fado D’el Rei – “Encanto Da Lua”

Sons

22 de Maio 1998
PORTUGUESES


Saber a lição de cor

ff

Maria João é uma voz que afirma e que procura. Mário Laginha é um dos maiores pianistas portugueses da actualidade. Dos mais lestos de imaginação e dos mais atentos aos fluxos que brotam um pouco por todo o lado da sua música. Nos últimos tempos tem estado sobretudo atento aos sons que nascem da voz de Maria João, que no seu piano tem encontrado trapézio seguro e à sua altura. Maria João e Mário Laginha chegaram a uma encruzilhada que explicitamente se revela em “Cor” e, em parte, fabrica as suas próprias contradições.
“Cor” é um álbum de fusão que só não é idêntico a milhares de outros álbuns de fusão que todos os dias se fazem e desfazem sem glória, um pouco por toda a parte, porque os seus artífices sabem desde há muito os terrenos que pisam. Pessoais e intransmissíveis. A “Cor” foram impostas, à partida, senão condições, pelo menos fronteiras, resultantes de uma encomenda que pedia música oceânica, pronta a navegar nas águas da Expo. Maria João e Mário Laginha ancoraram no Índico, buscando alimento nas suas margens. O canto de Maria João oscila entre a espontaneidade, quando “scata” com o coração em África e no Brasil, e a disciplina das composições que o piano de Laginha lhe impõe. Ou dispõe. No primeiro caso encontramos o mesmo rio de sempre, rico de caudal, mas onde nadam os peixes habituais. Continuam a impressionar os movimentos de barbatanas, a respiração, a variedade de cores e tamanhos, do minúsculo arenque à carpa que não pára de crescer, do tubarão escuro ao arco-íris do peixe-papagaio, da piranha voraz ao doce peixe de aquário. E impressionam porque na sua renovada autodescoberta, Maria João se entrega de alma e coração à alma e ao coração que tem.
Mas há riscos, nesse abandono, de uma voz que a si própria se contempla, mesmo quando a quantidade de espelhos é enorme. É então que Mário Laginha corre a salvá-la. “Cor” avança pistas e oferece descobertas, não quando o discurso de João flui fácil pelas veredas tropicais, mas quando a escrita de Laginha se organiza e organiza a voz em quadraturas que, além de acatarem o correr das emoções, obrigam ao trabalho da razão. Aspectos que em “Cor” se iluminam em temas como “Horn please”, “Nazuk”, “Charles on a sunday with sunday clothes” e “A forbidden love affair”. Baladas, pois. Mas fundas. Cheias, umas vezes de calma, outras de inquietação. Cheias das águas do Ganges, dos lagos da Europa, das seivas do corpo. A abarrotar de sentimento. Disciplinadas pelo rigor. O resto é familiar, étnico q. b. (nota mais alta em “Nhlonge yamina”), com a contribuição preciosa de Trilok Gurtu, nas percussões, e inapelavelmente agradável. Há mar e mar, há ir e voltar. Não foi Vasco da Gama quem o disse, mas Alexandre O’Neill, quando fazia de publicitário. (Verve, distri. Polygram, 7)

Carlos Barreto é um estimável contrabaixista de jazz. Ou foi. Também ele decidiu que a árvore das patacas estava noutro lugar que não o interior de si próprio. Inventou em conjunto com o guitarrista Mário Delgado e o baterista e percussionista José Salgueiro, uma “Suite da Terra”, quer dizer, um caldo em que cabem os tambores de Rui Júnior e o Ó Que Som Tem, a voz de Janita Salomé (em “Mediterraneando”, de longe o melhor tema do álbum) e muitos ritmos portugueses a obrigarem o compasso à simplicidade. Assoma, como é da praxe em ano da Expo, o Oriente, em “Let’s Goa”, sem esquecer uma ponta de ecologia. Mário Delgado faz exercícios ditados por Bill Frisell, curiosamente, fazendo lembrar também o anti-swing introspectivo de Phil Lee (Gilgamesh) ou de Phil Miller (Caravan), dois estetas da guitarra do mundo perdido de Canterbury. Salgueiro, que é pau para toda a obra, dá o seu pequeno “show”. Barreto aguenta o barco. “Suite da Terra” é bom para fazer oó. (Ed. e distri. Farol, 5)

No seu mais recente álbum, “Encanto da Lua”, os Frei Fado d’el Rei buscaram abrigo e alento numa época de inquestionável sedução: A Idade Média. Inspirados pela Lua e inspirando os ares dos Dead Dan Dance, no tema de abertura, “Mediantal”. E, se os Amazing Blondel fizeram há quase 30 anos o mesmo que os Frei Fado d’el Rei fazem em “Ramo verde” (com participação vocal de Vitorino), já em “Bailia de Vigo” as gaitas-de-foles (de Amadeu Magalhães, dos Realejo) e o ritmo popular reinventam em moldes atraentes a tradição celta do Norte da península. Os antigos Madredeus emergem em “Encanto da Lua”, com o acordeão de Helena Soares. Janita Salomé empresa a sua voz e o seu bendir a “Perdido em miragem” no habitual registo árabe, enquanto Uxia canta em “O anel do meu amigo” com um arranjo e uma produção do tipo das que Júlio Pereira não dispensava quando se encarniçava a polir cada nota do seu cavaquinho. E serão propositados os desníveis de volume do tema final, “Onde pára o mar?” O movimento das ondas, talvez? É, em todo o caso, um dos momentos mais originais de um disco… bonitinho. (Columbia, distri. Sony Music, 6)



Madredeus – Entrevista – “A Pequena Eternidade”

Sons

3 de Outubro 1997


A pequena eternidade

Há paraísos e paraísos, artificiais e naturais. Paraísos azul-cueca e paraísos de um azul profundíssimo e transparente. Da cor do céu. O paraíso dos Madredeus é o caminho e a viagem em direcção a este azul, num barco capitaneado por Pedro Ayres com a voz de Teresa Salgueiro a servir de farol. “O Paraíso” é, muito provavelmente, o melhor álbum dos Madredeus.


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Pedro Ayres Magalhães, autor da maior parte das palavras do novo álbum dos Madredeus, quando se trata de uma entrevista, usas essas mesmas palavras num registo que, simultaneamente, esconde e revela. Percebe-se no que diz uma corrente oculta, mas ele prefere escudar-se nas alegrias e na luz do mundo e dos feitos materiais. Mesmo assim, à conversa, o tempo parou por um bocadinho.
PÚBLICO – O paraíso fica onde?
PEDRO AYRES MAGALHÃES – É uma ideia com mais de dois mil anos, sobre a qual se construiu a vida da sociedade ocidental. No caso deste disco, trata-se, na canção com este título, de uma utilização muito especial da voz da Teresa, neste caso aproximada dos modelos da música que ouvi durante a minha vida toda, os “blues”, os “slows” das bandas rock, os solos de guitarra, a música ambiental. Pretende-se ainda mostrar um estado de graça absoluta do próprio conceito Madredeus. Neste momento, o trabalho do grupo decorre numa harmonia que eu nunca tinha conhecido antes. Algo que decorre da conformidade das pessoas e da própria carreira do grupo. Uma mistura de convites e oportunidades, uma chuva de pedidos para os Madredeus se apresentarem nos sítios mais incríveis que se pode imaginar.
P. – Como é que se consegue esse estado de graça no meio de constantes digressões?
R. – Utilizando uma metáfora. É como a construção de um barco. O novo reportório é um barco muito mais forte do que aqueles que construímos até agora.
P. – Assume-se neste álbum como o timoneiro desse barco?
R. – Hoje em dia esse meu capitanear está mais do que consagrado, como nunca esteve até agora. Um estatuto criado e suportado pelos outros músicos.
P. – Há alguma unidade conceptual nas 14 canções que compõem o disco?
R. – Uma unidade de intenção. Foram todas compostas para a figura e para a voz da Teresa, por três autores [Pedro Ayres, Carlos Maria Trindade e José Peixoto] que fizeram três digressões mundiais com o grupo e esta proposta de reportório.
P. – Foram gravar a Itália por alguma razão especial?
R. – Aí há duas coisas. Para gravar o disco era necessário não estarmos em Lisboa, onde toda a gente tem muitas solicitações, família, não sei quê. Depois, fui para Veneza por gosto, apanhava o barco todos os dias para ir passar o dia a tocar e voltar de barco para a cama!… Era o único sítio onde eu podia fazer isso [risos]. É uma metáfora!
P. – A luz da cidade influenciou a luz do disco?
R. – Penso que sim, que ajudou muito. Pensei em muitas coisas quando quis ir para Veneza, que era um destino ideal para a tal construção de um barco para viajar. Tornou-se um lugar ideal nos últimos séculos. Um lugar de peregrinação e de sonho da Europa e do resto do mundo. É uma cidade onde foi cultivada a beleza, o requinte, o exagero e a ostentação, expoentes da criatividade.
P. – É claro que o facto de a apresentação oficial de “O Paraíso” ir ter lugar em Sintra não é por acaso…
R. – Claro que Sintra tem uma ressonância simbólica especial. Vamos estar no Palácio da Vila, o palácio real, que ainda por cima é manuelino. Mas se vamos por aí, há mais símbolos… Também preparámos o disco no CCB, na Praça do Império. O primeiro concerto foi em Évora. Posso fazer um guião fantástico das coisas dos Madredeus. Mas esse é um cenário que não é o objectivo. Acontece naturalmente.
P. – Já que falamos de conotações simbólicas, estou a lembra-me de um disco que gravou há muito tempo, intitulado “O Ocidente Infernal”…
R. – Mas é a mesma ideia! Esse disco tinha duas faces, aquilo que era o lado B era a construção do paraíso tal qual eu a vejo hoje. Como no “Espírito da Paz” já existia a preocupação de criar nas pessoas um estado de paz. Neste momento estamos apenas a repetir a mesma ideia que o mundo rico abraçou. Para nós, músicos, é o paraíso termos estes convites, fazermos estes concertos, chegar lá e ver as salas todas cheias.
P. – Então o lado material é o mais importante?
R. – O lado material é o suporte, qual é a dúvida?
P. – Nunca se cansam de estar tanto tempo juntos?
R. – Precisamente, o reportório actual é útil na ultrapassagem do problema da rotina. É mais interessante de tocar, mais ritmado, mais melodioso e mais pulsante do que tudo o que fizemos até agora.
P. – Os Madredeus encontraram a sua forma ideal?
R. – Não foi por acaso que ao saírem os outros músicos eu preferi que ficassem só os que já lá estavam, porque quis trabalhar com veteranos do processo dos Madredeus, com músicos como o Carlos Maria e o José Peixoto, que são meus professores e não meus alunos. Trabalhar com a sensibilidade, a experiência e a sabedoria deles. Foi isso que fiz e que correu bem. Este grupo, nesta altura, é o grupo ideal.
P. – Quando se chega ao paraíso como é que se sai de lá?
R. – Nunca se chega lá. O paraíso é o caminho e a construção de uma imagem… A música dos Madredeus associa-se melhor a este tema do que, se calhar, a outros, como o combate à pobreza. O que nos mobiliza é o chamamento, ou a invocação, das maiores ambições, da maior ambição do homem, que é o paraíso. Mesmo que não tenha a expressão da construção cristã do paraíso, no pós-morte.
P. – O “paraíso” constrói-se em torno da ideia do tempo?
R. – Sim. A espera, a vivência do tempo, o bom tempo.
P. – Com as “coisas pequenas” que cantam no álbum?
R. – Quando olho para trás, para a carreira pública deste grupo – e este grupo foi feito para ter uma carreira pública – muitas vezes encontro grandes parangonas, grandes palavras sobre a música, que às vezes me obrigam a ter uma relação um pouco extraordinária com as pessoas com quem falo. “Coisas pequenas” é uma canção de amor em que uma mulher diz ao seu amante que não são só coisas pequenas que podemos dar uns aos outros, mas que quando damos coisas grandes é preciso ter a certeza que estamos a dar. É outra metáfora sobre a própria carreira do grupo. Identifico os Madredeus com um caminho lento de aperfeiçoamento.