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Mafalda Arnauth: “Não foi Deus, foi ela mesmo” – Artigo de Opinião

Sons

8 de Outubro 1999

Não foi Deus, foi ela mesmo

Do grupo de jovens fadistas apadrinhados por João Braga, Mafalda Arnauth cedo demonstrou estar mais próxima da essência do fado. Na sua estreia discográfica a solo, porém, Mafalda Arnauth ignorou os clássicos do fado e fez um disco que é um roteiro da sua vida. Onde o fado, em definitivo, não está arrumado “na prateleira da desgraça”.


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Não há fados conhecidos de todos mas apenas originais compostos pela própria. Prova de auto-confiança da autora, “Mafalda Arnauth” torce um novelo que muitos adivinhavam ser a continuação de uma tradição que, desde Amália Rodrigues, não encontrara ainda representante à altura. Não era “a nova Amália”, rótulo que, periodicamente, se tenta colar a qualquer fadista cuja voz suba mais alto do que as outras, porque Amália é única, mas quando a ouvíamos cantar o fado, sentíamos nela o mesmo fogo, a mesma dor sentida como destino.
Há quatro anos atrás, quando ainda integrava o grupo de jovens fadistas apadrinhados por João Braga, Mafalda Arnauth não pensava sequer em gravar um disco. “Não tinha maturidade”, confessa, “era tudo uma coisa nova que estava a acontecer, cantava meia dúzia de coisas que gostava mas não tinha ainda qualquer filosofia ou ideal”.
Quatro anos fizeram amadurecer o que então não passava de um hobby. João Braga lançou-a. Ela acabou por seguir o seu próprio caminho. “Foi uma coisa natural, essa emancipação, sou uma pessoa independente, com as minhas próprias ideias, embora ainda hoje aprenda com o João Braga, foi com ele que aprendi o gosto pelo poema”. Em paralelo com o canto, Mafalda continuou o curso de Veterinária: “falta-me uma cadeira para entrar no último ano”.
O disco, agora editado, iludiu algumas expectativas. Que foi feito de “Foi Deus?” Onde param os clássicos? “Nunca encarei a carreira de fadista como o objectivo primordial da minha vida, por isso preferi fazer uma coisa mais arriscada. É a minha história que eu conto, a minha realidade, quer as pessoas gostem ou não”. Admite que o disco poderia ter “o tal lado comercial” onde decerto caberia o tal fado de Amália que “seria um sucesso garantido”. Mafalda Arnauth não condescendeu, se o termo se pode aplicar no caso de um fado como “Foi Deus”. A cantora acaba por admitir, no entanto, que “foi um bocado a opção da editora, que já tinha um espólio enorme da Amália”. “Quase de certeza que, se gravasse um fado dela, a atenção acabaria por não recair na minha interpretação”. Mafalda Arnauth não põe, no entanto, de parte, a possibilidade de gravar um dia um álbum dos fados que a “marcaram”. Para já “isto”, os seus fados, são aquilo que mais gosta de cantar. “Tudo o resto continuo a cantar nos espectáculos, mas gravar é outra coisa”. Depois de permanecer algum tempo a cantar nas noites do Embuçado, Mafalda Arnauth afastou-se um pouco, guardando apenas uma noite por semana para esta casa de fado. “Estou com um horário mais complicado”, explica. É que as aulas não perdoam. “Depois da época dos exames poderei definir melhor os meus planos”.
João Gil foi escolhido para produtor de “Mafalda Arnauth”, um álbum que conta ainda com a composição e participação de Rui Veloso em “Vale a pena”. Em relação ao primeiro a fadista confessa que fez “uma coisa de que não estava à espera mas que resultou bem: gravar tudo na mesma sala, sem pistas separadas”. Entre os vários fados que Mafalda Arnauth compôs para o álbum, um deles, “De quem dá”, teve especial significado. “Foi feito no meio das gravações, com um gravador quando ia de carro para o estúdio. O disco está estruturado segundo uma espécie de ordem cronológica. Esse corresponde à fase ‘down’. A partir daí as coisas aclaram-se. A vida renova-se. A letra desse fado andava há tempos a bailar-me na cabeça, fala de uma forma de amor que raramente se canta no fado. Um amor bom”.
Em frente ergue-se o caminho do tal “novo fado” de que muito se fala. E que para Mafalda Arnauth “passa pela atitude”. “As pessoas estão todas a pegar nas músicas e nas letras e a fazer grandes mudanças. Mas as pessoas que cantam o fado não têm que ser boémios. A expressão ‘fadinho’ não me diz nada. Como em tudo na vida há mais do que um lado e o fado destina-se a cantar a vida, as emoções, com momentos bons e momentos maus. O que eu não aceito é que o ponham apenas na prateleira da desgraça”.



Ala dos Namorados – “Solta-se o Beijo”

Sons

5 de Fevereiro 1999


Beijos ao vivo

Ala dos Namorados
Solta-se o Beijo (6)
Ed. e distri. EMI-VC


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A Ala dos Namorados é uma boa e sólida banda portuguesa. Das poucas, aliás, que ainda se podem considerar genuinamente portuguesas. “Solta-se o Beijo” reúne material gravado ao vivo, o ano passado, em Paço de Arcos, dos seus três álbuns de estúdio, “Por Minha Dama” e “Ala dos Namorados”, ambos de 1994, e “Alma”, de 1996. Mais um original, “Solta-se o beijo”, e três temas nunca antes gravados pelo grupo, “Can’t help falling in love”, “Perdidamente” e “Não tragais borzeguis pretos”. De “Solta-se o beijo” nada a dizer de especial, num tema de “music hall”, com letra de Catarina Furtado, vocalizado pela convidada Sara Tavares. As harmonias vocais dos Vozes da Rádio funcionam como mais-valia no “standard”, “Can’t help falling in love”, enquanto “Perdidamente”, um original dos Trovante sobre um poema de Florbela Espanca, conta novamente com uma vocalização de Sara Tavares, cujos trejeitos não fazem esquecer Luís Represas. O tom de música antiga, tão caro à Ala, está presente no tradicional do séc. XVI “Não tragais borzeguis pretos”, no registo de trovador que casa bem com a voz de Nuno Guerreiro. O modo como a Ala dos Namorados se apropria do universo folk, adoptando-a a um discurso original, é, aliás, uma das características mais fascinantes do grupo, exemplarmente demonstrada em temas como “De tudo e de nada” ou no belíssimo, e colorido com tonalidades medievais, “Manto negro”. E se a voz de Nuno Guerreiro se mostra tão à vontade tanto nos ambientes mais fadistas como nas baladas ou nas marchas populares, já o registo mais agudo de fantoche que utiliza em “Princesa desalento” irrita sobremaneira, um final infeliz para um disco algo desequilibrado, pautado com demasiada frequência pelo ruído das palmas da assistência. Nada como a intimidade do estúdio para fazer ressaltar a paixão dos namorados.



Dulce Pontes – “O Primeiro Canto”

Sons

15 de Outubro 1999
PORTUGUESES


Voz de barro

Dulce Pontes
O Primeiro Canto (7)
Polydor, distri. Universal


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Dulce Pontes reencontrou o canto que melhor calha à sua voz. O canto de inspiração étnica, afastadas anteriores hesitações e desvios de percurso. Novos registos vocais nascem como que por magia da garganta de Dulce nesta sua demanda do barro primitivo capaz de se transmutar nos quatro elementos que compõem o mundo. “Alma guerreira (fogo)” abre de forma auspiciosa, em espirais que começam por sugerir o mesmo tipo de pesquisas de Amélia Muge, embora descaiam no fim para a pompa de um Rick Wakeman a quem presentearam com brinquedos novos. Depois da obrigatória passagem pelo fado, em “Fado-mães”, Dulce toca na tradição transmontana com um “Tirioni” muito Brigada Victor Jara mas nem por isso menor na sedução que transmite. Dedicado a José Afonso, o título-tema é outro dos bons momentos de “O Primeiro Canto”, tanto pela beleza formal – com citações a Índia e a África – como pela versatilidade que a cantora imprime à interpretação, num baile entre os graves e os agudos em contraponto com o “overdubbing”. Depois da folk de câmara de “O que for há-de ser (ar)”, dos momentos mais tocantes do disco, “Modinha das saias” mostra um trio com Maria João e a cantora lírica Gemma Bertagnolli que recorda a Banda do Casaco. “É tão grande o Alentejo” é mesmo grande, com o cante de Dulce e dos Ganhões de Castro Verde a responder à gaita-de-foles do sueco Anders Norudde, dos Hedningarna, sobre uma drone de didgeridoo. Espectáculo dentro do espectáculo, a voz de Dulce em “Pátio dos amores” bem poderia ser uma homenagem a Amália. O flamenco (“Garça perdida”), a música angolana, (“Velha chica”, com Waldemar Bastos), o celtismo com banca num baile popular (“Ai solidom” com a harpa do bretão Myrdhin), a new age de ouvido à escuta a Maria João (“Suite da terra”) ou o prazer de ouvir Kepa Junkera tocar trikitixa e, em geral, um abraço estreito à world music, são outros focos de interesse que fazem deste primeiro canto de Dulce Pontes um desfile de promessas cumpridas que apenas pecará pelo desculpável novo-riquismo da produção “porquê usar apenas um som quando se pode usar dez?” e de uma lista de convidados – além dos nomes citados, participam Leonardo Amuedo, Justin Vali, Wayne Shorter, Jacques Morelenbaum e Trilok Gurtu – que por pouco não rivalizava com Carlos Nuñez.