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Entrevista: Carlos Do Carmo + Carlos Zel – “Falar Fado”

Pop Rock

27 de Novembro de 1996

Falar Fado

Carlos Zel e Carlos do Carmo regressam com novos disco de fado. Zel com “Fado”, onde os antigos vendavais da voz dão lugar ao intimismo, numa mudança de estilo algo inesperada. Quanto ao autor de “Um Homem na Cidade”, “Margens” interrompe um período de seis anos de paragem discográfica, trazendo de volta a aliança de Carlos do Carmo com Lisboa e a língua portuguesa. Nas entrevistas que ambos concederam ao PÚBLICO, para além do que os separa, mostraram ter algumas opiniões e facetas em comum. Garantem que o coração é a fonte onde lhes nasce o fado. Demonstram o máximo desvelo no modo como lidam com a palavra dos poetas. Franzem o nariz ao estado actual das casas de fado em Portugal. Amam o fado à maneira antiga. À sua maneira. Sofrendo-o para melhor o cantar.

“As casas de fado estão subvertidas”


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Há quem cante o fado com a cabeça, com a garganta, com o diafragma… Carlos Zel canta com o coração. Um coração que no seu novo álbum, intitulado simplesmente “Fado”, aprendeu a moldar-se a uma voz mais atenta a si própria, com outro espaço para a escuta e o sentimento. Mas “é preciso sofrer-se muito” para lá chegar. Onde até uma tempestade pode ser fado.

PÚBLICO – Em “Fado” mudou a sua forma de cantar, dando outra forma à emoção, um tom mais intimista. A que se deve esta diferença?
CARLOS ZEL – É uma mudança que se deve, em grande parte, ao produtor, Mário Martins. Ele esteve durante os últimos 30 anos atento à minha maneira de cantar, gostava, mas achava-a um bocado agreste. Neste disco aconselhou-me a ser mais melodioso e menos incisivo.
P. – Sentiu isso como um sacrifício?
R. – Não, como um desafio. Confesso que no princípio tive uma certa relutância, mas, depois de gravar o primeiro tema, de ver o efeito, fiquei convencido, e fiz todos os outros temas seguindo a mesma técnica.
P. – Porquê relutância?
R. – Porque canto com o coração, não canto com a garganta. Há várias maneiras de se cantar o fado: há quem cante com a cabeça, com a garganta ou com o diafragma. Eu canto com o coração, ou seja, dou muita importância à interpretação dos poemas, ponho muita ênfase neles. E tenho o máximo cuidado com a divisão das orações, com as tónicas, tudo isso… Depois, no produto final, transforma-se numa coisa com muita força. É óbvio, se eu cantar uma frase do estilo “vou-te matar!”, se calhar se o fizer de uma maneira leve, sem ênfase, não tem peso. Mas, por outro lado, se estiver a cantar uma frase de amor, se a disser com essa ênfase, estou a tirar-lhe beleza, o que não acontecerá se lhe der mais carinho.
P. – Quer dizer que, ao vivo e em estúdio, canta de duas maneiras diferentes?
R. – Curiosamente, ao vivo também já estou a tentar imprimir a mesma mudança. Justamente para não haver essa diferença.
P. – Essa mudança terá a ver com uma tendência geral para tornar o fado mais sofisticado, mais dirigido a um tipo de público que não tinha antes?
R. Não… isso, em parte, é verdade, mas repare numa coisa: eu canto há 30 anos e, já na altura em que comecei, havia grandes discussões sobre as novas incursões no fado, novos estilos. E mais, no tempo da sra. dona Amália, quando ela começou a cantar, sobretudo os temas do Valério, foi muito atacada porque aquilo foi visto como uma grande machadada no fado, um escândalo. E, hoje em dia, fados como “Ai Mouraria” ou “Foi Deus” são considerados clássicos… Vai acontecer o mesmo daqui a alguns anos com alguns fados que estão a ser cantados agora de uma nova maneira.
Também é preciso notar que agora existe outro tipo de condições técnicas. Lembro-me de que, no primeiro disco que gravei, espetara, comigo dentro de um estúdio em Paço de Arcos, com quatro músicos, e fiz um EP com quatro temas em três horas! Isto, hoje em dia, é impossível, há muito mais cuidado, até porque o público é menos ignorante, menos inculto.
P. – As casas de fado ainda desempenham alguma função no sentido de levar as pessoas a ouvir o fado?
R. – As casas de fado estão hoje subvertidas. Você vai a uma e vê que os grandes nomes do fado não estão lá. Exactamente como no teatro de revista, em que as figuras de cartaz actuais não têm nada a ver com as de dez anos atrás. As de agora estão na televisão a fazer concursos ou a apresentar programas. No fado, hoje em dia ganha-se dez, 15 contos, por dia, numa casa de fado. A televisão paga obviamente mais. Antigamente, havia colegas meus que eram fadistas das nove e meia às três da manhã e depois, entre as dez da manhã e as seis da tarde, eram vendedores ou empregados de escritório… Era difícil. Hoje em dia, o elenco das casas de fado é, regra geral, composto por pessoas já com os seus 50 anos, que se acomodaram àquele estilo de vida ou porque não tiveram outras oportunidades.
Temos ainda os donos de algumas casas de fado que também são fadistas, como a sra. dona Argentina Santos ou a sra. dona Fernanda Maria. Já estive com a sra. dona Argentina no estrangeiro, a ouvi-la telefonar para a sua Parreirinha de Alfama a perguntar se os bifes estão a sair bem ou se o cabrito foi bem assado.
P. – No seu novo disco, um fado como “Anda o fado noutras bocas”, de Artur Ribeiro, ganha uma estranha actualidade. Quis dar algum recado?
R. – É um fado dos anos 50. Mas é assim, não tenho nada contra os novos, também já fui novo, e quando se é novo quer-se, acima de tudo, singrar, seja qual for a profissão. Mas uma coisa é as pessoas serem arrojadas e outra é desvirtuarem o fado. Entendo que há por aí grandes valores, estou a referir-me, por exemplo, ao Miguel Capucho, à Mafalda Arnauth, à Maria Ana Bobone, ao Rodrigo Costa Félix, miudagem nova com vozes espantosas… E, em termos instrumentais, guitarristas como o Ricardo Rocha, o Paulo Ferreira, o Carlos Manuel, o Paulo Jorge, que anda a acompanhar a Dulce Pontes, isto só para citar alguns. Depois há o campo do Paulo Bragança e da Mísia… os desvios…
No caso do Paulo Bragança, tenho um bocado de pena de que ele se valha de alguns subterfúgios para fazer valer a voz fabulosa que tem… É que, para se cantar, não é preciso os homens usarem xaile, barretes ou andarem descalços… Quanto à Mísia, não é o que se pode chamar propriamente uma fadista, mas sim uma boa cantora de fado…
P. – Além da voz, para se cantar bem o fado, não é preciso uma vivência interior que só a idade e a experiência conferem?
R. – Claro que sim. Lembro-me de uma ocasião em que a sra. dona Amália foi entrevistada, em directo, pela RDP e lhe perguntaram se ela gostava de me ouvir cantar. Ela saiu-se airosamente respondendo que agora gostava, mas quando eu era miúdo não. É preciso sofrer-se muito. Sendo-se novo pode ter-se jeito, uma boa voz e cantar de uma maneira airosa… Agora, cantar com o peso do próprio fado, é preciso uma certa tarimba… A dona Amália começou a cantar já com 20 e poucos anos.
P. – Um dos fados do novo disco chama-se “29 de Novembro de 1995”. Que teve de especial esta data?
R. – Nesse dia 29 de Novembro, estava em casa, chovia muito, uma tempestade desgraçada, as coisas não me estavam a correr como queria. Agarrei num papel e saíram os versos desse fado; mostrei-os ao Mário Martins, que os achou bonitos. Ficou a data como título, em vez de lhe chamar as coisas do costume, tipo “Nostalgia”…
P. – O fado anterior é de Manuel de Almeida, “Geração anos 60”, a sua…
R. – É um fado que me é particularmente querido porque me foi dado pelo próprio Manuel de Almeida, pouco tempo antes de ele ter morrido – julgo que foi das últimas coisas que ele escreveu. É um fado que fala dessa década, de um dia que ele passou em Vila Franca, onde era frequente ir, às esperas de gado.
P. – “Fado dos sonhos”, de Frederico de Brito, é o meu fado preferido deste disco. O que tem a dizer sobre ele?
R. – Considero-o também, em termos estruturais, o mais bonito de todos. Tive a preocupação de ir buscar a primeira letra que se fez para esse fado, como a cantava penso que o José Viana, não tenho a certeza. Quando o gravei, emocionei-me bastante.
P. – É fácil emocionar-se num estúdio?
R. – É… no caso deste disco, pelo menos, foi. O Mário Martins tem uma maneira de trabalhar diferente da habitual. Deixa-nos cantar até a fim, mesmo que nos enganemos, para não nos sentirmos frustrados; só no fim é que ele nos chama à “régie” e diz onde é que nos enganámos. Se ali desafinámos um bocadinho… para depois corrigirmos. Assim, a gravação não se torna maçante nem frustrante. Ainda se torna mais fácil para mim porque canto sempre de olhos fechados. Assim que as guitarras começam a tocar, a única coisa que peço no estúdio é para apagarem as luzes o mais possível, de maneira a dar um ambiente mais íntimo. Depois, fecho os olhos e esqueço-me de que estou no estúdio. Às vezes imagino que estou noutro sítio, com imensas pessoas e amigos.

“Olhar para a minha cidade, a beber tudo”

“Margens” é o título do novo álbum de Carlos do Carmo. Sete anos depois de “Que se Fez Homem de Cantar” e da grave queda de palco que o obrigou a parar, o fadista regressa com a música de José Luís Tinoco e as palavras de António Lobo Antunes. Para cantar Lisboa, o Tejo e a noite, margens anímicas da voz mais clara do fado nacional. Agora com uma serenidade conquistada.

PÚBLICO – Não procurou que “Margens” funcionasse, um pouco, como catarse para o acidente que o vitimou?
CARLOS DO CARMO – Sinceramente, não. Se reparar, tanto os textos como a ambiência espelham antes uma maturidade, uma vida vivida, mas, simultaneamente, uma grande paz interior. Da pessoa que sabe que esteve a morrer, que conversou com a morte e que sabe que nada será como dantes. Mas não fiquei de mal com a vida.
P. – Nada mudou, então?
R. – Era muito radical, em vários aspectos. Por exemplo, um dos defeitos que tinha era ser irascível, e isso modificou-se. E passei a prestar mais atenção às pequenas coisas que dão a pequena felicidade. Distraio-me menos. Ainda há pouco fui fazer uma sessão de fotografias para uma revista. De repente, o rapaz teve necessidade de ir ao carro buscar um “flash” para a máquina e eu fiquei pacificamente, no mais profundo silêncio interior, a olhar para a minha cidade, a beber tudo.
P. – Essa observação ou essa relação com Lisboa é marcante ao longo da temática do álbum. Como tem acompanhado as transformações da cidade nos últimos anos?
R. – Há uma relação cúmplice. E uma visão romântica. Procuro acompanhar e perceber o tempo, as transformações, em si, não me perturbam. Mas é óbvio que Lisboa, como outras cidades, se descaracterizou com a transferência de população do campo para os centros urbanos. Isto aconteceu porque, uma vez mais, nada foi previsto nem planificado com seriedade e rigor. A carroça foi mais uma vez posta à frente dos bois. Foi mais um erro político.
Mas o bairro onde vivi até me casar, o Bairro da Bica, está intacto – é um bairro que pulsa ao ritmo do elevador. Há ainda o espírito do raminho de salsa, do guardar a criança porque os pais chegam tarde. É uma certa resistência do lado humano. E trabalhei no Bairro Alto até aos 40 anos de idade. Não estou a dizer que o Bairro Alto está intacto, já não é o Bairro Alto das casas de fado, dos jornais e das casas de prostituição. É outro Bairro Alto, com a sua “movida”, embora a sua alma permaneça. A minha Lisboa é a Lisboa do Tejo, das gaivotas, da luz…
P. – Esse apelo da luz é também o apelo da lua. Contabilizei cinco temas em que a lua está presente. E a noite…
R. – Sou um boémio, completamente! Não quer dizer que me vão ver numa discoteca, com todos aqueles decibéis!… mas prezo muito o espírito de tertúlia e os velhos amigos. Encontramo-nos em pequenos bares, silenciosos ou com uma pequena música de fundo, para desenvolver o espírito de solidariedade. Mas também gosto de ficar em casa, quando tudo acalma, no meu escritório, a ouvir música na rádio e a ver se aparece algum tipo inteligente a dizer coisas interessantes. Sou um homem que não existe até ao meio-dia, só uma emergência me faz levantar de manhã. No outro dia fiquei todo contente porque me disseram que o Caetano Veloso se levanta às sete da tarde; e o meu velho e querido Alfredo Marceneiro levantava-se às oito da noite!
P. – Essa atenção ao pormenor, à luz e ao som, nunca o empurrou para tentar compor?
R. Devo dizer que gosto muito de assobiar. Este acto de assobiar tem muito a ver com Lisboa, com uma tradição de bairro lisboeta, de se assobiar. Eu raramente canto fora do palco, mas assobio muito. A minha mulher costuma estar atenta e, de vez em quando, é como se estivesse a compor um fado. “Eu isso nunca ouvi, Carlos!”, diz-me ela às vezes, “devias gravar isso!” Mas gravar o quê, se quando voltar a gravar já não é a mesma coisa porque não fixei?
P. – Voltando a Lisboa, ela está presente por inteiro nos poemas de Lobo Antunes. Deu-lhe algumas indicações, como é que trabalharam juntos?
R. – Aí, não gostaria de me sobrepor ao António. Bom, como se sabe, ele é psiquiatra: não é uma pessoa que fale muito, é uma pessoa que pensa muito. Ele gosta muito de me ouvir cantar, ele e a família, quando canto nalgum lado, vai a família em bloco para me ouvir. Isto sei, da boca dele.
P. – É como se ele tivesse entrado na sua pele?
Eu não lhe fiz essa pergunta… mas já nos conhecemos há muitos anos, ainda o António não era o escritor famoso que é agora. Até agora, só tinha sido cantado pelo Vitorino, mas são casos diferentes: o Vitorino, que também é amigo dele, pediu-lhe poemas para musicar; no meu caso foi ao contrário, o António teve que fazer o m ais difícil, vir até à música do José Luís Tinoco, que já estava composta. Foram serões comoventes. Voltei a ver uma coisa que já não via há muitos anos, como o Ary fazia, que era contar as sílabas pelos nós dos dedos. Ver alguém encaixar as palavras na música. O acto de criar, ou de tentar criar, pressupõe uma grande cumplicidade entre as pessoas que têm algo para dar entre si.
P. – “Margens” é um disco de fados, mas também de canção. Que relação tem actualmente com o fado?
R. – Excelente. Nos últimos cinco anos, nos recitais que tenho feito, não exagero se disser que canto acima de 50 por cento de fado clássico.
P. – Mas deixou de cantar nas casas de fado…
R. – Isso é fácil de explicar: os meus pais fundaram uma casa de fado em 1947, o meu pai morreu em 62 e eu tomei o lugar dele e, até 1980, até aos 40 anos de idade, trabalhei quase 20 anos, dia e noite, numa casa de fados. Uma relação com esta duração pode tornar-se um pouco traumática, é preciso não nos saturarmos do belo. Mas ainda continuo a ir, uma ou duas vezes por ano, só para ouvir a Argentina Santos à Parrerinha de Alfama. Como quem vai beber a água da fonte. Mas não consigo estar sentado numa casa de fados e ficar neutro; pela força do antigo hábito, estou atento a todos os pormenores, aos erros que são cometidos…
P. – É considerado um inovador no fado, pelo estilo de cantar que criou. Continua a preocupar-se com a renovação desse seu estilo? Ou, pondo a questão noutros termos, há inovação em “Margens”, para além da tal diferença de registo interior?
R. – Um termo lindíssimo, “registo interior”… Sou uma pessoa que gosta de ouvir, sou capaz de ir ouvir um concerto de música de câmara ou de me meter no Hot Clube com os meus filhos. Eu não vivo em “ghetto” – é que há esse perigo nos fadistas, não estarem abertos à vida. Continuo, claro, a gostar muito de cantar a língua portuguesa (você deve sentir isso neste disco), temos é que nos defender nas zonas difíceis, nos sibilantes, nas vogais fechadas. Sem querer estar a auto-elogiar-me, não há uma única palavra deste disco que não se entenda. O Saramago escreveu há uns anos, num disco meu, que para mim “a música é uma sonda das palavras”. Ele percebeu.
Outro exemplo: sou um artista que não tem problemas nenhuns no Brasil. Canto no Brasil e é costume as pessoas irem ter comigo ao camarim para venerar a língua e os poetas portugueses, Bocage, Camões, Pessoa, Ary, Saramago. Quando falo com os meus companheiros de profissão que, muito entusiasmados, dizem que vão ao Brasil e depois, na maioria dos casos, vêm de lá frustrados, eu aviso-os sempre: “Atenção à dicção!” Não é por acaso que se pede muitas vezes, no Brasil, para se legendar um filme português.
P. – Pode dar um exemplo da maneira como trabalhou, em “Margens”, essa sua relação com a palavra poética?
R. – Há contrastes. Gravei o “Soneto a Cesário” à primeira: já com a base musical gravada, enfiei os auscultadores e interiorizei uma situação – “sentei-me” num banco de jardim e pedi para desligarem as luzes do estúdio. Servi de ponte, pus o Dinis Machado a falar com o Cesário Verde. Foi uma espécie de interiorização simbólica da relação de um escritor, o Dinis Machado, com o poeta. Como o Dinis Machado não canta, cantei eu por ele.



Entrevista: Dulce Pontes – “Fica tudo levezinho, doce…”

Pop Rock

13 de Novembro de 1996

Dulce Pontes sente os “Caminhos” do seu novo álbum

“Fica tudo levezinho, doce…”

Dulce Pontes gosta da naturalidade, de se ouvir experimentar a voz numa igreja ou num espaço aberto, sob a chuva ou os aplausos do público. Com uma nova imagem e um novo disco, “Caminhos”, encontrou amigos da Galiza e a essência da música portuguesa, da qual é hoje uma das estrelas mais cintilantes.


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O sucessor de vendas do seu disco anterior, “Lágrimas”, em Portugal e nos estrangeiro, e a participação na banda-sonora de um filme com Richard Gere, “Primal Fear”, exibido e todo o mundo, não afectam a natural simplicidade de Dulce Pontes. O mais importante continua a ser cantar os poemas e as músicas que lhe dão prazer. “A capella” ou acompanhada por uma orquestra. Demarca-se de Amália, “Somos mundos distantes”, e leva Carlos Nuñez “a sítios onde ele não iria”. Dulce Pontes segue, no fundo, o seu próprio caminho, que toca com os caminhos dos outros. O PÚBLICO acompanhou-a na fase mais recente da sua viagem.
PÚBLICO – A abrir caminho no disco está “O Infante”, com letra de Fernando Pessoa e música sua. Como surgiu este tema?
Dulce Pontes – Há uns três meses atrás estávamos a jantar, eu e o Guilherme [Inês], e à procura de um poema que pudesse ser o “leitmotiv” de todo o disco. Encontrei-o nesse poema.
P. – Que “leitmotiv” é esse?
R. – Inspirando-nos nas nossas raízes – o fado, o folclore e a música popular – quisemos alargar um pouco mais estas influências, sendo o mar o factor de união.
P. – “Caminhos”, pelo tipo de produção, parece-nos feito a pensar no mercado internacional. Concorda?
R. – Também. É para quem o quiser ouvir. É evidente que pessoas como o Carlos Nuñez ou o Leonardo Amuedo tiveram influência no som final. Procuro que a minha mensagem seja universal.
P. – Não receia perder-se num atalho, tantos são os caminhos do disco?
R. – Não. Andar num caminho com umas palas nos olhos seria pior. Podemos continuar no nosso caminho tendo uma visão mais abrangente, influenciada por tudo o que se vê à nossa volta.
P. – O que é que dá unidade a “Caminhos”?
R. A tal essência da música portuguesa. A música é algo muito maleável e a portuguesa, por ter uma base tão simples, harmonicamente falando, permite uma série de interpretações, uma série de caminhos distintos. Dá-me imenso gozo experimentar essas diferentes formas de cantar, esses diferentes sons, embora tendo sempre como base o ponto de partida que já referi.
P. – “Lela”, um dos temas com Carlos Nuñez, já aparecia no álbum deste músico, “O Caminho das Estrelas”. Foi um aproveitamento?
R. – Não. Aliás, isso também aconteceu noutro tema, “Porto”, que está no disco do Leonardo. Com o Carlos Nuñez trata-se de o levar a sítios onde ele não iria e vice-versa.
P. – No meio da sofisticação que impera na maioria dos arranjos, acaba por sobressair a sua interpretação “a capella”, em “Senhora do Almortão”. Em qual dos contextos prefere cantar?
R. – Em termos afectivos – e noto muito isso nos espectáculos ao vivo – prefiro o “less is more”, sinto que consigo aproximar-me mais do público do ponto de vista emotivo, quando canto “a capella”, ou só com o piano ou uma guitarra.
P. – Por que razão foram precisos seis estúdios para gravar o disco?
R. – Aconteceu… Bem, no que respeita àquele onde fizemos as misturas, os Wisseloord studios, em Hilversum, na Holanda, é fácil de explicar: São os Rolls Royce dos estúdios da Europa. A orquestra sinfónica fomos gravá-la em Roma também porque era mais fácil ir eu lá com o Guilherme e os dois técnicos do que trazer a orquestra inteira para aqui. Em Espanha, foi por ter estado lá a gravar um tema do disco de Luís Pastor, “Chuva de Maio”. Adorei o estúdio, tinha um grande microfone, daqueles antigos, com um som que não tem explicação! Com uma naturalidade e neutralidade espantosas!
P. – Cultiva essa naturalidade, não é?
R. – Sim, embora também goste do que se faz em estúdio, efeitos, “delays”, “reverbs”, mas de facto tenho esse gosto pelo natural. Por vezes, quando estive numa igreja, em Brasília, comecei a cantar lá dentro, só para ouvir o som, um som que não se consegue em estúdio nenhum. Noutra ocasião, ia a passear na Arrábida, ao pé do convento, estava a cair uma chuva miudinha. Parei para fazer uma coisa que gosto de fazer em espaços abertos, quando está silêncio absoluto: emitir alguns sons, não é bem cantar. Consoante os lugares, obtêm-se “delays” diferentes. Nessa altura, de repente, estava eu a fazer esse tipo de experiência, vejo ao fundo uma luz a acender e a apagar, ao ritmo do que fazia com a voz. Acho que estavam a gravar cenas do filme “Afirma Pereira” e alguém deve ter ligado o projector, quando me ouviu…
P. – Como é que se sentiu a cantar com uma orquestra?
R. – Foi arrepiante. Parece que se sente o som a atravessar os poros. Fica tudo levezinho, doce… É um luxo a que não estamos habituados em Portugal, infelizmente. Continua a haver alguns preconceitos de alguns músicos clássicos em relação à música ligeira, o que é uma estupidez.
P. – As fases mais recentes da sua carreira, com participações em filmes estrangeiros, como “Primal Fear”, e o sucesso de vendas do disco anterior, “Lágrimas”, conduziram-na ao estrelato. Como lida com este estatuto, tão rapidamente adquirido?
R. – Não sinto muito… Como fui sempre um bocadinho “marginal”, não sinto quaisquer pressões, apenas a da responsabilidade do trabalho que falço. O que mudou na minha vida foi passara a ter menos tempo para estar com os amigos, algo um pouco doloroso. Mas por outro lado posso estar com muita gente, amigos anónimos. Uma coisa compensa a outra. Quando acabo um espectáculo, o facto de saber que as pessoas estão na sala com um sorriso, que, de alguma forma, lhes proporcionei um bom momento, sentir que tive esse privilégio, faz-me ultrapassar tudo.
P. – Irritam-na ou sente-se lisonjeada com as constantes comparações que fazem entre si e Amália?
R. – Não me irritam, é um elogio, mas não gosto que façam essas comparações. Como intérpretes e cantoras não temos nada a ver uma com a outra. Nem a forma de sentir o fado. São mundos distantes.
P. – Mudou a sua imagem. Porquê?
R. – Toda a gente me dizia para não cortar os caracóis, que não era lá muito boa ideia, que as pessoas estavam habituadas ao corte que tinha. Mas decidi mesmo cortar, depois já não havia nada a fazer. E foi como voltar a sentir-me de novo dentro da minha pele.



Entrevista: Boris Ex Machina – “Retorno Ao Interior”

Pop Rock

25 de Setembro de 1996

Boris Ex Machina estreiam

RETORNO AO INTERIOR

Boris Ex Machina, em homenagem a Boris Vian, escritor e músico. O primeiro álbum da banda acabou de sair, embora as canções andassem na cabeça dos músicos há já vários anos. Tem por título “Tango Infernal”. Junta tangos e valsas, Brel e literatura, o passado e o futuro, num parque de variedades virtual.


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São seis os elementos que integram a formação dos Boris Ex Machina, mas apenas quatro puderam estar presentes na conversa com o PÚBLICO. Rini Luyks, o acordeonista holandês, está em França. Miguel Pereira, contrabaixista com formação clássica, encontra-se em digressão com a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Os outros quatro – Armando Teixeira, teclas, programações e voz (também elemento dos Da Weasel e Bizarra Locomotiva), Ernesto Pinto, bateria, Carlos Morgado, guitarra, e Carlos Costa, guitarra – optaram por falar no colectivo.
PÚBLICO – O preto e branco e a pose do grupo na capa significam alguma imagem especial que queiram dar?
BORIS EX MACHINA – Há um ambiente que vem de há cinco anos a esta parte e que tem a ver com o “bas fond” dos cabarés. O nosso único interesse é mesmo tocar numa sessão de “strippers”, em festas de casamento, coisas assim…
P. – As danças de “Tango infernal” são o tango e a valsa…
R. – E rumbas! É uma música que reflecte, em parte, a nossa cultura, do país latino que somos. E mais acessível do que alguma música com origem externa que se ouve por cá. A valsa e o tango… Se calhar, na sua casa ou nas nossas, era o que os nossos pais ouviam. Isso e o fado, cujas letras reflectem uma certa nostalgia…
P. – Há nostalgia na música do grupo?
R. – Bastante.
P. – E tragédia?
R. – Sim, muito sublinhada pelas letras.
P. – Que, por vezes, não se conseguem perceber bem, abafadas pela música…
R. [de Armando Teixeira, A.T., aqui tínhamos que personalizar] – Pois, isso são os meus problemas de dicção, não há hipótese [risos]. Há músicas onde não se deve perceber minimamente o que estou a dizer… mas e relativo… Se não percebes a letra toda, pelo menos uma parte apanhas e acabas por construir uma imagem entre a música e essas partes da letra. Não pusemos as letras na capa por alguma razão…
P. – Sente-se na vossa música um certo luto que, por vezes, faz lembrar o universo estético dos Sétima Legião. Concordam?
R. – Não! Não! (…) [A.T.] Bem, vamos lá a ver, temos um determinado percurso e os Sétima Legião fizeram parte da minha adolescência, como o Tom Waits e tantos outros.
P. – Na ligação da electrónica aos sons acústicos, o nome dos Tuxedomoon diz-vos alguma coisa?
R. – Diz-nos muito. Fizeram história. Embora sejam bastante mais jazzísticos do que nós.
P. – Jacques Brel?
R. – Esse, sim, bastante mais do que todos os outros. “Le port d’Amsterdam”, gravado ao vivo, cada vez que ouvimos aquilo, dá-nos arrepios. É emoção, uma questão de “feeling”. E a ironia dele, mais do que tudo.
P. – A valsa é a vossa dança preferida?
R. – Se calhar é o tecno! [risos] Neste álbum, de facto, são as valsas e o tango. Tem três valsas e dois tangos – um resultado que se pode considerar equilibrado. Mas há algo a acrescentar: é que todos estes temas têm entre três e cinco anos.
P. – Por que motivo ligaram o adjectivo “infernal” ao tango e não à valsa, cujas conotações diabólicas são conhecidas?
R. – O tango é mais infernal! Pela cor. O vermelho, o púrpura, são muito mais “underground”. E este disco, embora não seja pesado, é um bocado fumarento, denso…
P. – Brel, valsa, acordeão, ambientes marítimos, no fim um poema de Mário de Sá-Carneiro e agora os fumos… O ambiente compõe-se… “Tango Infernal” é um disco de alucinações de ópio?
R. – Tem a ver com todo um imaginário. Mas sem dependências nenhumas… Na altura em que foi feito, as coisas batiam de maneira diferente. Se fosse feito agora, era muito mais leve.
P. – E as alusões à heroína, em “Cavalo louco”?
R. – Tem mais a ver com histórias e situações de pessoas que conhecemos. A maneira como descrevemos, nesse tema, a viagem não é a mais normal de se falar de droga, há aquele lado da perda dos amigos. Depois é aquilo de saberes que não deixas, não queres lá meter ninguém contigo mas a tendência é levares sempre mais alguém, embora não de forma consciente.
P. – Que tipo de dificuldades encontraram e os impediu de gravarem há mais tempo?
R. – Editoras, promessas… Depois, só há uns dois anos é que se começou a ouvir e a falar sobre um determinado tipo de música como a dos Tindersticks, por exemplo, que talvez tenham as mesmas influências que nós. Durante muito tempo, houve quase uma luta contra um tipo de música mais lenta. Há seis ou sete anos atrás, os Tindersticks não tinham qualquer hipótese de vingar. Agora nota-se de novo uma apetência por coisas que tinham sido completamente esquecidas pela pop, como o tango e a valsa.
P. – Despediram-se definitivamente do rock?
R. – Estamos a tentar! A música que fazemos é uma espécie de retorno ao nosso interior, da descoberta das origens dentro de nós mesmos.
P. – Já nos estávamos a esquecer de António Calvário, a propósito de alguns excessos de sentimento nas vocalizações…
R. – Sabe qual é o problema? Às vezes, essa coisa do amor, dessa maneira de cantar, é muito séria. A maneira como abordamos isso não é a gozar, queremos de facto dar esse ambiente. O tom pejorativo com que se fala do António Calvário ou do Tony de Matos é por culpa das pessoas que têm deles determinada imagem. O facto é que marcaram a cultura portuguesa. Devia ser um espectáculo estar a cantar naquelas rádios, com a orquestra por trás. Isso fascina-nos bastante. Claro que uma coisa era a atitude, a maneira como eles cantavam, e outra aquilo que diziam. O que nós dizemos não tem nada a ver com o que eles diziam. É aí que jogamos.
P. – Sentem algum particular fascínio pelos chamados “dias da rádio”, anteriores à televisão?
R. – Bastante. É capaz de ter sido a época mais bonita da rádio, pelo menos para nós, que a vemos à distância. Havia aquele “stress” todo do directo, do gajo que está a fazer o programa e está preocupado se o artista vai ou não chegar a horas ou se o som da orquestra está a sair audível lá fora, por uns transístores. E o fascínio das pessoas que estão a ouvir, as famílias que se reuniam num serão em volta de uma telefonia…
P. – Gostavam de fazer essa experiência, de tocar ao vivo e em directo na rádio?
R. – Gostaríamos muito, não uma coisa do tipo “unplugged”, mas um concerto em AM, com som AM, nada de FM estéreo. Vivam os Parodiantes!
P. – Seria o fim dos “samplers”?
R. – Só os utilizamos por não nos ser possível arranjar um instrumentista para cada som que se encontra lá. Uma orquestra de 50 elementos, era espectacular! É esse o nosso sonho. Uma filarmónica!!! Isso é que seria mesmo uma máquina, como aquelas bandas dos filmes italianos.

P.S. – Os Boris Ex Machina andam à procura de um baixista e de um pianista-organista. Os interessados podem contactar com a Symbiose pelo telefone (01)3526483