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Tunas Académicas | Tuna da Universidade Internacional | Estudantina Universitária de Lisboa | Tuna Universitária do Instituto Superior Técnico | TunaMaria – “Tuna Fixe!” (dossier)

pop rock >> quarta-feira >> 27.07.1994
DOSSIER


Tuna Fixe!

Serenatas ao luar. Farra até às tantas. A camaradagem e o espírito de grupo. A música. A borga. O reatar de tradições. Quim Barreiros, o herói. Pela alegria e pela irreverência. São as tunas académicas, um fenómeno emergente entre a juventude universitária portuguesa.



Um pouco por todas as universidades do país os estudantes envergam de novo a capa e a batina, erguem o estandarte e tentam recuperar o verdadeiro espírito académico. Algo que se perdeu na vertigem da competição e do individualismo que grassam na sociedade portuguesa actual. As tunas servem, entre outras coisas, para fortalecer o espírito de grupo. Os tunos nascem para se divertirem mas também para conquistarem uma unidade perdida. Os estudos, nalguns casos, quando a paixão é maior, ressentem-se. É preciso sacrificar num lado para celebrar no outro.
Tudo está ainda no princípio. Ensaiam-se fórmulas e discutem-se modelos. O exemplo vem de Espanha, onde a tradição das tunas é mais antiga. Os tunantes, ou tunos, ou seja, os amigos da boémia, fortalecem laços, juntam as guitarras, bandolins, cavaquinhos, contrabaixos, acordeões e pandeiretas e cantam temas populares, melodias fortes, algumas brincalhonas, outras mesmo picantes. Estão unidos. Nalguns casos nem tanto. Há dissidências, elementos que saem de uma tuna para entrar noutra. Mas a regra não é essa. É-se tunante, de uma tuna que não pode ser nenhuma outra, até ao fim da vida. Com orgulho. Há quem fale na formação de uma quadratuna, tuna de veteranos.
Entra-se para uma tuna por uma porta estreita. O candidato a tuno submete-se a praxes. A rituais de iniciação. Pelo menos deveria ser assim. O mais importante é saber se tem ou não o espírito. Quem der provas entra, quem não se achar capaz sai. Cada tuna tem cerca de trinta elementos. Muita gente. Mas o corpo colectivo é só um. As serenatas podem ser um problema. Antigamente era fácil, no tempo dos orfeãos, considerados por alguns antepassados das tunas. Os rapazes saíam para a rua e cantavam à janela para as donzelas. Hoje já há tunas femininas e o caso mudou de figura. Elas perderam a timidez e cantam aos rapazes. É a mudança dos tempos e de mentalidades. A renovação da tradição. É normal, dizem alguns. Não pode ser, a tuna é coisa de homens, dizem outros, tradicionalistas ferrenhos. Mas o pior é quando as tunas são mistas. Aí fia mais fino. Como é? Raparigas fazendo serenatas a raparigas? Rapazes guitarrando outros rapazes? Não pode ser. Não fica bem. É um problema que é preciso resolver. Há vários problemas a resolver.
E os trajes? Há que ter cuidado. Sobretudo no caso das raparigas. Nem saias muito curtas, para não distrair demasiado as atenções e evitar os piropos dos mais atrevidos, mas muito compridas também não. Porque isto de cantar, vivar parte da vida numa tuna, não é só brincadeira, pode ser uma coisa muito séria. Por isso é preciso separar as águas e distinguir entre os verdadeiros tunos e aqueles que se fazem passar por tal como justificação para a bandalheira. É preciso trabalho, ensaios, fortalecer o tal espírito de grupo. Existe ordem na aparente desordem de uma tuna. Tem que ser assim. As tunas viajam por Portugal e pelo estrangeiro, participam em festivais, representam uma instituição.
Tornou-se moda convidar tunas para os programas de televisão. Têm pinta, fazem número, são folclore, pensam os responsáveis. Metem-nos nas primeiras filas, trajados a preceito e pedem-lhes palmas e alegria. As tunas, algumas, vão. Em geral arrependem-se. Dizem-lhes que vão tocar, mas mal os tunos pegam nos instrumentos e se preparam para atacar a primeira canção, logo surgem os irritantes genéricos, com a ficha técnica a passar depressa e as tunas a ficarem a ver navios. Também é costume convidar tunas para colorirem homenagens a fadistas conhecidos. No último aniversário de Amália, não podiam faltar. Lá estava uma tuna. É bom, é mau? As pessoas falam deles e delas, vestidos de negro, a cantarem coisas que toda a gente pode cantar. São contagiadas pela alegria dos tunos. Voltam talvez a ter saudades do tempo em que eram estudantes. É mesmo assim, eles e elas juram que sim: tuno até ao fim.
O PÚBLICO entrou no universo das tunas. Falou com elementos de algumas delas. Com os magísteres, por exemplo, que são uma espécie de chefes, organizadores, catalisadores do espírito de cada tuna. Desfizeram-se ideias feitas. Tunos da Estudantina Universitária de Lisboa, da Tuna da Universidade Internacional, da Tuna Universitária do Instituto Superior Técnico, e da Tuna-Maria, uma das poucas tunas femininas existentes, contaram histórias e segredos. As duas primeiras já gravaram compactos. Ficaram de fora muitas outras, de Lisboa, Porto e Coimbra. Todas elas com as suas próprias histórias para contar. É um mundo mais complexo do que parece, o das tunas universitárias. Eferreá!!

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De Pára-Quedista A Pranchado

O fenómeno das tunas explode nos meios académicos de Lisboa em 1988, com o aparecimento da Tuna da Universidade Internacional, formada por um grupo de amigos que “gostava de tocar e beber uns copos”. Tem 30 elementos. “Com uns a sair e outros a entrar.” Foi a primeira tuna mista e a primeira a fazer o ressurgimento da capa e batina em Lisboa. Mas a história vem de trás. “As tunas são originárias de Espanha”, explica Rogério. O fenómeno chegou cá “com a vinda da tuna de Santiago de Compostela a Coimbra. Surgem nessa altura, por volta de 1912, a Estudantina de Coimbra e a Tuna do Orfeão do Porto, as duas tunas portuguesas mais antigas”.
Rogério diz que a Tuna da Universidade Internacional (TUI) surgiu para ressuscitar em Lisboa o espírito das tunas. A primeira das praxes de uma tuna diz respeito ao seu nascimento. Para nascer, uma tuna tem que ser apadrinhada por outra, já existente. No caso da TUI o padrinho foi o Orfeão do Porto. Ramón – um espanhol que se transferiu de uma tuna castelhana para a TUI, ficando os dois agrupamentos geminados – critica as tunas que não cumprem esta praxe: “É preciso que haja uma tuna com experiência que ensine aos candidatos o que é ser tuno. Ninguém nasce tuno. Aprende-se com a prática.”
Na TUI para se chegar a tuno tem de se passar por três fases distintas. “Na primeira, vemos se o candidato tem aptidões para ser tuno”, explica Ramón. É a fase do “pára-quedista”, em que “uma pessoa ainda não está integrada na tuna, nem sobe ao palco com os outros para cantar. Vem aos ensaios para aprender. Ninguém lhe pode tocar. É como se fosse imaculado”. Esta fase dura em geral três, quatro meses. “Quando vemos que ele já está a tocar e a cantar bem, fazemos-lhe uma prova escrita em que terá de mostrar perante um júri se aprendeu ou não as músicas.” Se passar, torna-se caloiro e já poderá subir com os outros para o palco. “Já tem mais responsabilidade”. Esta segunda fase, em que o caloiro é denominado “pranchado”, costuma durar cerca de dois anos.
O “pranchado” deverá desempenhar tarefas, como “transportar os instrumentos, comprar bebidas, fazer a limpeza depois de um ensaio, etc.”. “São os burros de carga!”, diz a rir o Rogério. “É nessa altura que vemos se ele tem ou não o espírito de camaradagem e se quer cumprir as regras do jogo.” Finalmente, a última iniciação, a entrada definitiva na tuna, ou seja, o “baptismo”, acontece “de surpresa”. “Vamos um dia para uma fonte e é aí que se processa o baptismo. Com o caloiro em cuequinhas…” Chegado a este ponto convém precisar que a TUI é uma tuna mista… “É igual, elas em cuequinhas e ‘soutien’.”
A TUI foi a primeira a organizar em Lisboa um festival de tunas, com “tunas de todo o país e de Espanha”. Em Dezembro deste ano vai realizar-se a sexta edição. Mandam as regras que a tuna receba “cachet” pelas suas actuações apenas nas participações em festivais nos vários pontos do país ou do estrangeiro. No âmbito das actividades académicas não se cobra.
É o lado mais formal das actividades musicais. Além dele, a tuna “toca nas ruas e nos bares”, diz Rogério. “É mais boémio, vamos para o Bairro Alto ou Mouraria, fazer serenatas.” As canções do nosso disco [“Encantos de Lisboa”, editora Ovação] falam da vida da boémia, das serenatas ao luar.” E as raparigas? “Há um preconceito quando se diz que as tunas têm que ser só masculinas ou femininas. Ninguém tem problemas em fazer serenatas juntos.” (Ver foto.)
Um aspecto curioso na vida das tunas é a rivalidade existente entre elas: “uma rivalidade saudável”, garante Rogério. “Podemos sair nós e outra tuna qualquer e irmos para os copos juntos.” A quem a TUI não perdoa é à Estudantina Universitária de Lisboa. “Fizeram uma coisa muito mal feita”, comenta Ramón. “Numa altura em que já havia algumas tunas em Lisboa, eles, em vez de arranjarem caloiros, foram buscar elementos a outras tunas, incluindo a nossa. Aconteceu que as outras tunas que estavam a começar ficaram fracas. Não é por acaso que a Estudantina nunca foi convidada para nenhum festival de tuna em Portugal.”
Rogério e Ramón apreciam ambos Quim Barreiros, embora sejam de opinião de que ele “não tem nada a ver com as tunas”. Para Rogério, “o fenómeno Quim Barreiros surgiu a nível universitário porque em Lisboa ou em qualquer outro lado onde há queima das fitas o Quim Barreiros está lá. Pode dizer-se que nas universidades toda a gente gosta muito dele.



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A Tuna Institucional

A Estudantina Universitária de Lisboa (EUL) foi formada em 1992. É uma espécie de supertuna, ou tuna das tunas, integrando elementos de várias faculdades da capital. “Das universidades públicas e privadas e privadas, da medicina à informática, há praticamente elementos de todos os cursos”, diz Luís Jerónimo, “magíster” da EUL, que tem cerca de 30 elementos. A tuna já apareceu na televisão ao lado de Herman José e colaborou recentemente no aniversário público de Amália. Nela, ao contrário de outras tunas, não há praxes de entrada. Para Luís Jerónimo, “é um processo natural”: “As pessoas vão aparecendo, é óbvio que têm que ter determinados requisitos – ser estudante universitário, saber tocar um instrumento e cantar. Depois vão andando connosco, vão aos ensaios. Se virmos que eles entraram bem no estilo das músicas e que tocam razoavelmente, começam a acompanhar-nos como caloiros.”
Alvo de várias críticas, nomeadamente por ter “roubado” elementos a outras tunas, Luís Jerónimo, que foi um dos fundadores da Tuna da Universidade Internacional, uma das que se sentem mais lesadas, defende-se: “Quando há críticas, das duas uma, ou há alguma coisa muito má e muito grave ou há alguma coisa muito boa. Não fomos buscar ninguém à Tuna da Universidade Internacional. Eles vieram de livre vontade. Foi aí que surgiu a ideia da Estudantina. Depois, como este era um projecto que agradava a muitas pessoas, pessoas que já pertenciam a outras tunas, estas juntaram-se por sua vez à Estudantina. Não havia qualquer pretensão de ‘roubar’ seja quem fosse.”
Outra das críticas relaciona-se com a falta do chamado “espírito de tuna” na EUL, encarada como um grupo onde, de facto, em termos artísticos, os seus elementos são excelentes, mas onde a camaradagem é menor e a vida de boémia mais controlada. Em suma, uma tuna mais bem-comportada. “Não aceitamos que digam isso. Até porque, para contradizer essa opinião, posso dizer que estivemos na Páscoa em Paris, durante 15 dias e, além dos espectáculos marcados, aproveitámos para conviver uns com os outros, acertar ideias, discutir projectos, fazer músicas, enfim, mas também um bocado de boémia, de copos, etc.”, replica Luís Jerónimo.
Já com um compacto no mercado, editado pela Vidisco, “Estudantina Universitária de Lisboa” e um segundo em preparação. A EUL é, a par da Tuna da Universidade Internacional e, anteriormente, das tunas de Coimbra e do Orfeão da Universidade do Porto, uma das poucas que tem a sua música gravada. Sem a preocupação de seguir modelos ou a tradição: “Não existe uma verdadeira tradição, porque a tradição implica muitos anos passados sobre uma mesma realidade. A tradição das tunas em Portugal não existe, está a fazer-se agora. Existiram a Estudantina de Coimbra e a Tuna do Orfeão Universitário do Porto, no início do século, mas depois essa tradição apagou-se.”
Uma das ideias avançadas por Luís Jerónimo é a criação de “uma instituição nacional que regulamentasse um bocadinho a realidade das tunas”, no sentido de definir normas e defender a qualidade artística delas.: “Uma tuna não é só juntar 20 ou 30 indivíduos em cima de um palco. O espírito académico, toda a gente fala nele mas pouca cumpre. Há uma rivalidade estúpida entre as várias tunas, não há uma amizade, uma coesão, uma força. A rivalidade tem que pressupor o respeito entre uns e outros e isso não se verifica. Aquilo que cada tuna quer dar a entender é uma coisa, o espírito é a capacidade de ser tuno, de se dar bem, de ir para os copos, sem se embebedar.”
E o “magister” da EUL explica: “Quando as pessoas ouvem falar em tuno, boémia, copos, tudo isto lhes faz confusão e, devido à má imagem criada pelos estudantes nestes últimos anos, nomeadamente nas manifestações ou nas semanas académicas, em que passam nos carros completamente bêbedos, vão para o hospital em estado de coma alcoólico, tudo junto cria na consciência das pessoas que boémia é sinónimo de bebedeira. Não é. A magia dos copos não quer dizer estar ali numa mesa a beber até cair para o lado. Os copos encerram em si toda uma mística muito importante que é o convívio e a amizade.”
Sobre as tunas mistas, Luís Jerónimo tem ideias formadas: “Não faz sentido raparigas estarem a cantar para raparigas ou rapazes para rapazes. É problemático. Uma pessoa quer usar palavrões próprios, às vezes, entre os homens. Com meninas… se bem que as mulheres que fazem parte das tunas tenham, digamos assim, uma personalidade diferente da das outras raparigas estudantes, mais para a frente, também gostam de beber o seu copo. Agora, concordo e acho que é de incrementar a existência de tunas femininas.



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Dez Horas A Jogar Matraquilhos

Vinte e oito elementos formam a Tuna Universitária do Instituto Superior Técnico. Manuel Correia toca pandeireta e é “o principal”, já que na TUIST não se emprega o termo “magister”, de origem espanhola. “Tentamos puxar às tradições portuguesas o mais possível e não imitar os espanhóis. Procuramos investigar o que havia há 50 anos atrás, o que faziam as estudantinas e orfeões da altura.” A data oficial de formação da tuna é 20 de Março de 1993, embora alguns dos seus elementos se tenham reunido há mais tempo. Actuaram na primeira parte do espectáculo recente de Quim Barreiros na Aula Magna de Lisboa. Foram apadrinhados pela Tuna do Liceu de Évora, a única liceal do páis e uma das mais antigas, formada em 1902. “Mantiveram-se até hoje e usam capa e batina.”
Nas intenções do grupo esteve desde o início a vontade de serem diferentes, “não em ser uma bandalheira mas sim uma tuna no verdadeiro sentido”. “Fizemos recolha sobre as características das tunas. Tentamos, além disso, adaptar o nosso reportório aos dias de hoje, embora procurando manter particularidades como as praxes, o traje, etc.” o mais difícil, na formação de uma tuna, diz Mário Fernandes, guitarrista da TUIST, “não é arranjar cem pessoas que toquem bem viola, é arranjar vinte pessoas com uma boa atitude”.
Manuel Correia não concorda com a existência de festivais que, segundo ele, seguem o modelo espanhol, com atribuição, por exemplo, de prémios aos melhores solistas. “Nas nossas tunas não há solistas. Só nas espanholas, que têm uma tradição muito mais forte. As tunas portuguesas copiam-nas. Na TUIST não há solistas.” O “principal” acha igualmente que “é grave haver tunas em que metade do seu reportório é composto por músicas espanholas”. A tuna do Técnico toca apenas temas próprios, embora “com raízes na música popular portuguesa”.
Manuel Correia critica também o facto de algumas tunas se estarem a virar “para o lado comercial, em vez de o fazerem para o mais importante, que é o espírito. O disco, por exemplo, deverá ser uma consequência de vários anos de existência”. “De todos os discos gravados por tunas portuguesas – garante Manuel Correia -, só conheço um em que realmente transparece o espírito académico e a raiz portuguesa, o primeiro da Estudantina de Coimbra. O segundo já é mais comercial, vê-se que foi feito por contrato.”
Torna-se evidente que a TUIST não quer ser, de facto, uma tuna igual às outras. “Ser tuno não é só vestir a capa e a batina. É uma maneira de estar”, diz Mário Fernandes. “O mais importante é, pr exemplo – embora tenhamos todos namoradas -, podermos estar juntos num jantar ou ir para a feira jogar matraquilhos. Chega estarmos lá, sem ser preciso apanhar bebedeiras.”
É fácil entrar para a TUIST? “Não pomos barreiras à entrada de algumas pessoas. Só que, pela especificidade do grupo, só gente com este espírito é que se adapta. Quem não gostar de estar dez horas a jogar matraquilhos… Uma vez no dia 31 de Julho do ano passado, estávamos reunidos e resolvemos que tínhamos que ir passar férias a qualquer lado. Juntámo-nos no dia seguinte em Santa Polónia e apanhámos o primeiro comboio!…
A quem quiser entrar, levamo-lo a um jantar e vemos se alinha nas brincadeiras, para estudarmos a personalidade da pessoa. O ano passado tivemos o caso de alguém que nem sequer sabia tocar. Levámo-lo a jantar, passámos uma noite divertida com ele e pronto entrou logo na tuna. Demos mais importância a esta maneira de estar… É muito mais fácil entrar um rapaz que saiba tocar só o dó e sol mas que tenha o espírito do que um gajo que seja um maestro mas não tenha esse espírito.”
Fazem a apologia de Quim Barreiros: “Pode lá ter todos os defeitos mas ele é de facto um êxito, porque é bem português. Aquilo é Portugal. Damo-nos muito bem com ele.” Mas advertem: “O perigo está em que as pessoas associem as tunas ao Quim Barreiros. Há muitas tunas que entram na onda. Não sabem ter o seu espaço e vão atrás do Quim Barreiros. Entram na fase da brejeirice mas não sabem fazê-lo bem. O Quim Barreiros sabe ser brejeiro. É diferente de ser ordinário e mal-criado.”
A TUIST orgulha-se de ter contribuído para o ressurgimento do espírito académico no Técnico: “Havia uma grande sede. As festas no Técnico, há dez anos, eram no estilo dos marinheiros do Cais do Sodré. Só iam homens e acabava sempre me naifas e facada. Agora têm mil pessoas, o ambiente é outro, e as pessoas vêm de todo o lado para nos ver. Mas ainda há quem nos ache exibicionistas. Por andarmos de capa e batina. A capa e batina são o traje autorizado para os estudantes universitários de Portugal e não são só para o Porto ou Coimbra. Só falta arranjar um concurso público, como aconteceu na Universidade Nova, e escolher um estilista para fazer os fatos, com apresentação na Gare Tejo…”



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Até Ao Outro Dia De Manhã

Da cisão na tuna mista da Faculdade de Ciências e Tecnologia nasceu, em Novembro do ano passado, a TunaMaria, uma das raras tunas femininas existentes em Portugal. Em finais de Abril deram o primeiro espectáculo, num festival de tunas. São 30 e tocam os instrumentos habituais numa tuna: acordeão, bandolins, cavaquinhos, guitarras, pandeiretas, flautas. Sandra Isabel toca acordeão. Ana Teresa, pandeireta.
Começaram por ser recebidas pelas pessoas e pelas tunas masculinas, como elas próprias dizem, “com um pé atrás”. “Até porque as duas tunas femininas mais antigas são pouco conhecidas – diz a Sandra, que desempenha no grupo a função de magister -, a tuna feminina do Orfeão do Porto e outra, da Covilhã.”
Sandra e Ana são ainda muito novas, 21 e 20 anos, respectivamente. Para elas, como para outros elementos da TunaMaria, nem sempre é fácil sair para as noites de boémia. “É difícil, aqui em Lisboa. Normalmente só a seguir a um espectáculo”, observa Sandra. “Há pessoas que moram com os pais, outras na outra banda.” Mas quando se juntam não brincam em serviço: “Somos capazes de estar até ao outro dia de manhã.” O espírito de tuna “foi crescendo”. No que diz respeito a serenatas, a TunaMaria anda a preparar aquilo que é a sua obrigação: “Ainda não fizemos. Mas os rapazes também hão-de gostar. Mas primeiro que tudo é preciso arranjar um reportório para isso.” Um reportório que, nas actuações normais, inclui canções “mexidas”, temas populares, por enquanto sem composições originais.
Praxes vão “passar a ter”. Por serem uma tuna muito recente, não têm ainda caloiras. O traje adoptado é o clássico saia-casaco, com um pormenor extra, o chapéu alentejano, de aba larga. “É o nosso símbolo, o que nos distingue. As pessoas acham piada.” Preferem seguir o modelo português, embora não se importem de tocar músicas espanholas, “até italianas, que são mais difíceis”. De resto, tunas femininas em Espanha, são coisa recente e as que existem “não gozam de muito boa fama”. “É a tal coisa de raparigas bonitas e mal-comportadas” (risos). Na TunaMaria, passa-se por cima dos preconceitos: “Apanhamos bebedeiras se for preciso, como os rapazes.” Mas há um conservadorismo na atitude que nem Sandra nem Ana negam. “Dentro da nossa tuna estabelecemos uma certa altura para a saia. No Porto elas usam abaixo do joelho. Em Coimbra, mais ou menos a meio do joelho. Nós escolhemos acima do joelho.” “Logo acima do joelho”, apressam-se a acrescentar. Mesmo assim “ouvem-se comentários”. Mesmo da parte de outras tunas, “se alguém aparece com uma mini-saia”. “Temos muito cuidado com o comportamento que temos”, diz a magister da TunaMaria, “até mesmo em palco”. É que “enquanto os rapazes podem mandar piadas às raparigas”, às raparigas “não convém” fazê-lo, “por causa da imagem que se dá para fora e porque as pessoas à vezes interpretam isso de maneira errada”. Os copos, esses, não constituem problema, “até dão uma certa alegria quando uma pessoa sobe para o palco. Não ir bêbedo, claro, mas alegre. Uma alegria que pode ser contagiante”.
Problema real são os estudos, que amiúde passam para segundo plano. Há quem “deixe de estudar um bocadinho”, para se entregar às actividades da tuna, como há quem faça o contrário e não esteja disposta a sacrificar os estudos. Quando há um teste, por exemplo. A Ana Teresa, a partir de certa altura, “só via a tuna à frente”. A Sandra afirma que já sacrificou bastante o curso. Os professores não dão qualquer apoio. “Alguns acham giro mas não dão qualquer ajuda. Mesmo da parte da faculdade, que nós representamos, ninguém facilita, por exemplo, no aspecto das faltas. Simplesmente não ligam nenhuma.”
Apesar de tantas dificuldades, a TunaMaria ensaia duas vezes por semana, na Faculdade de Ciências e Tecnologia. Três, quando há espectáculo. Todos os dias, antes do primeiro espectáculo.
Numa coisa a TunaMaria não difere das tunas masculinas. Na admiração por Quim Barreiros. Ao ponto de incluírem no seu reportório “Bacalhau à Portuguesa”. “Por brincadeira. Os espanhóis adoram esta música.” ” A tuna chegou mesmo a fazer uma primeira parte de um espectáculo do popular acordeonista. “Eu, pessoalmente, não gostava dele”, diz Sandra. “Mas depois de conviver com ele, vê-se que há nele uma alegria que contagia. Fala com as pessoas de uma maneira cómica. E as músicas têm imensa piada.”



Anabela Duarte – “Em Público” (dossier | grande entrevista)

pop rock >> quarta-feira >> 20.07.1994
EM PÚBLICO


ANABELA DUARTE *


Como e quando surgiu o canto lírico na sua carreira?
Desde há quatro anos que ando a trabalhar nesta técnica. Há cerca de um mês, fiz a voz soprano no “Requiem” de Verdi. Tenho evoluído musicalmente e procurado desenvolver o meu instrumento, que é a voz. À medida que fui estudando e afinando este instrumento, cheguei imediatamente à conclusão que o campo onde me posso exprimir melhor em termos vocais é o canto lírico. Podia ser o fado, mas em termos de precisão, o canto lírico é entre todos os géneros aquele que tem uma técnica mais sofisticada.

Trata-se então mais de uma ginástica e menos uma vocação?
É uma vocação. Mas não se deve ver as coisas dessa maneira. Canto pop, canto fado, canto lírico, canto árabe, canto não sei quê… O canto é só um e eu tenho essa possibilidade de fazer a diversificação. O meu instrumento é suficientemente maleável e híbrido para poder aplicá-lo a outros cantos sem ficar preso a nenhum em particular.

A sua presença na pop é um assunto definitivamente encerrado?
O que eu faço hoje tem muito a ver com o que fazia nessa altura. Os Mler Ife Dada sempre foram um grupo que no início começou por ser muito ligado a gente que frequentava as Belas-Artes. Era um grupo muito “artístico”, no sentido em que a sua música era inseparável do aspecto cénico. Era arte total. Não no sentido wagneriano, mas pronto, era uma aproximação. No campo lírico é exactamente isso. Se aplicarmos o lírico em termos operáticos.

O contexto não é bem o mesmo…
Há no rock e na pop talvez um lado mais improvisado. Um lado mais rebelde. Na música lírica, tudo isso tem que ser em doses mais restritas. Para já, estamos ligados a uma partitura. Não podemos chegar ali, está lá um sol, e fazemos um lá sustenido.

Quer dizer que hoje privilegia o rigor e a disciplina, em detrimento desse tal outro lado mais rebelde?
Sim, é um processo de disciplina. Mas isso tem o seu lado subversivo. Utilizar essa disciplina para subverter.

O mesmo tipo de subversão que utilizou no fado, em “Lishbuneh”?
Não sei se nesse caso foi bem subverter. O fado, encarei-o de uma maneira diferente. Mas em termos vocais acho que até cantei o fado de forma bastante tradicional. O tradicional é que nessa altura estava fora de moda.

Nos Mler Ife Dada havia também o lado do gozo, de um certo gosto iconoclasta. Ficou-lhe essa faceta de “destruir” o instituído?
A mim o que me dá gozo é surpreender. Não só os outros como a mim própria. Daí começar a experimentar coisas diferentes. O disco de fado foi uma dessas coisas.

O canto lírico é para si ponto final ou ponto de passagem?
Afinar o instrumento desta maneira é como por exemplo um violoncelista que, desde que tenha o instrumento bem aprendido e dominado tecnicamente, tanto pode tocar música clássica como jazz, fado ou seja o que for. O canto lírico em si já tem muita coisa. Por exemplo, “Salomé” – que eu gostaria de fazer – é uma ópera clássica no sentido tradicional do termo. Mas é uma ópera tão empolgante que mesmo dentro do clássico ultrapassa barreiras. O personagem em si, muito ligado à voz. O que vai criar dinamismo, cores e tessituras vocais entusiasmantes.

A sua voz serve melhor certos personagens do que outros?
Sim, sou soprano “stinto”, mais próximo do dramático. O que me dá a possibilidade de fazer os papéis mais de “prima dona”, que exigem uma presença forte em termos vocais e teatrais.

Os Mler Ife Dada, pela sua estética e atitude, davam espectáculo, no sentido em que enfatizavam o lado cénico e visual. Isso acontecia consigo e na maneira como se apresentava ao vivo. Consegue transpor essa característica, de algum exibicionismo, para o canto lírico?
Nunca tinha pensado nisso antes. Cada vez estou mais afastada disso. As entrevistas e as fotografias então eram uma chatice completa. Não sou uma pessoa extrovertida.

Nos Mler Ife Dada exibia-se bastante…
Normalmente é sempre assim [risos]. É o protótipo do artista. Uma faceta a que eu infelizmente não posso escapar. Agora, o canto lírico é muito exibicionista. Qualquer arte é exibicionista, senão não se fazia. Ficava-se em casa a coser meias ou a lavar pratos, ou ia-se para o escritório…

E narcisismo, o desejo de reconhecimento público?
Isso nunca me passou pela cabeça. Aliás nunca fiz bem a distinção entre o ser eu e ser no palco.

Gostaria de fazer teatro?
Nunca fiz, mas já me propuseram umas coisas. Sempre achei que não tinha jeito. O teatro implica uma relação com a palavra dita, discursiva, enquanto a minha relação é cada vez mais com a palavra cantada. Embora haja muitos discursos de teatro que não passam pela palavra. Esses são muito mais interessantes e muito mais próximos do canto lírico.

Sente-se à margem das cantoras ligeiras ou doutras áreas da música portuguesa? Nunca se ouviu falar em qualquer colaboração com algumas delas…
Sou muito individualista. A única com quem poderia fazer coisas interessantes seria a Maria João e só ela. Fazer com mais gente… Isto agora é um bocado chato… Mas o que é que me interessa a mim fazer duetos, que projecto é que eu posso ter com outras cantoras além da Maria João? Não estou a ver… Porque a Maria João é a única que explora a voz de um ponto de vista mesmo vocal. A mesma coisa que eu faço, embora em moldes diferentes. Ela em moldes mais jazzísticos, próximos quase da música contemporânea. Mais ou menos o meu campo… O mesmo não se passa em termos de canção, com a Teresa Salgueiro, ou a Lena d’Água, ou…

Afastou-se então em definitivo da música dita “ligeira”?
Claro. Não me apetece. Mas não tenho nada contra.

Até onde pretende chegar no canto lírico?
O meu interesse é apenas ser cantora. É nisso que estou a apostar. No canto lírico quero ser uma cantora ilimitada. E, nesse sentido, apurar uma técnica que depois se possa aplicar a muitas outras coisas.

Eis o que se pode chamar uma autoconfiança total…
Mas eu sou assim em tudo. Quando há uma coisa que me chateia, abro logo a boca. Sai-me logo o coração pela boca. Qualquer episódio do dia-a-dia, sei lá, um problema qualquer com um taxista ou um padeiro, tenho sempre conseguido resolvê-lo da melhor maneira. Em termos artísticos, é exactamente a mesma coisa. Sou uma pessoa arrojada.

De que modo foi recebida no meio do canto lírico? As outras “divas” aceitaram a sua entrada?
Para já em Portugal, divas não estou a ver nenhuma… Não sei, não as conheço pessoalmente. A partir de agora é que vou saber. Uma coisa é certa: posso perfeitamente fazer carreira no canto lírico. Não é forçoso que o canto lírico seja clássico. É tudo um problema de estruturas. Dos conservatórios, das academias de música. O que cria muito medo nas pessoas. Já percebi isso. Ao nível do canto, ao nível dos instrumentistas, ao nível da música em geral, há um medo das pessoas em se afirmarem. O facto de eu vir de um canto diferente e de me atrever a fazer coisas que elas não fazem cria atritos. Já fiz audições, falei com pessoas, inclusive da Gulbenkian, e há umas certas reticências nas pessoas. Por exemplo, alguém atrever-se a fazer uma “Lady MacBeth” neste país é uma heresia.

Tenciona forçar a entrada nesse meio ou, pelo contrário, manter-se à margem dele?
Uma coisa é a gente querer fazer as coisas, outra é na realidade não as conseguir fazer. Ou porque não temos o instrumento suficiente para isso, ou porque à última hora ficamos a tremer e não conseguimos, ou porque alguém nos faz a cabeça e não se consegue, ou porque temos um acidente e morremos… Se conseguirmos ultrapassar tudo isto, as pessoas terão que reconhecer-nos. As pessoas, quando me vêem, sabem reconhecer as minhas capacidades. Mas antes disso dizem tanto mal que quase nos levam a desistir. Em relação a entrar ou não no meio, o que é que me interessava? Só se fosse para mudar aquilo tudo! Ganhar 300, 400 ou 500 contos, para depois ouvir “você tem de fazer o que a gente quer”?

Que estratégias utiliza então para levar à prática os seus projectos?
Recorro a meios alternativos. Tenho encontrado imensos mecanismos de resistência. Sobretudo porque as pessoas não t~em referências de mim como cantora na área delas. A minha luta é contra o academismo e contra as mentalidades tacanhas. Há em Portugal um provincianismo que corta as pernas às pessoas.

* Ex-vocalista dos Mler Ife Dada. Autora-intérprete de pois a solo. Dedica-se actualmente ao canto lírico e está a preparar um recital de voz e piano (com José Colorado), a apresentar no final do Verão, em que interpretará “Lieder” e excertos de operetas de compositores como Richard Strauss, Offenbach e Lecocq, e peças operáticas de Puccini, Wagner, Verdi e Catalani.

Leonard Cohen – “À Beira De Um Colapso Nervoso” (entrevista)

pop rock >> quarta-feira >> 29.06.1994


À Beira De Um Colapso Nervoso



Leonard Cohen acabou de lançar o álbum “Cohen Live”, o segundo ao vivo da sua carreira. Perfeccionista, praticante de zen, amigo dos amigos e do vinho, o veterano cantor canadiano continua a dizer com a mesma voz suave de sempre: “Estamos à beira de um colapso nervoso.” Hoje há menos gente a chamar-lhe “louco”. Das preocupações iniciais do jornalista até às relacionadas com a forma manifestada no novo disco ao vivo, Leonard Cohen é cima de tudo um poeta atento às mutações do mundo e de si próprio. O fim dos tempos aproxima-se, disse ele ao PÚBLICO, em Madrid, onde o fomos entrevistar. O diabo anda à solta, a cultura perdeu-se, Júlio Iglésias é maravilhoso. Não digam que ele não avisou.



PÚBLICO – Antes de se dedicar à música fez jornalismo…
LEONARD COHEN – Fiz algumas entrevistas, com pouco sucesso. Procurei ser um entrevistador de televisão, porém não tinha jeito. Tentei uma vez entrevistar Glenn Gould, mas sem êxito. Acabei por desistir. Sempre gostei do espírito de iniciativa do jornalismo. Ao longo da minha carreira, os jornalistas foram sempre importantes, no sentido em que contribuíram para me manter activo.
P. – Que motivos o levaram a gravar este seu segundo disco ao vivo? Apenas “show time” ou algo mais essencial?
R. – Queria ter uma ideia exacta do que estava a fazer em termos de “performances”. Há, sem dúvida, o lado do espectáculo, mas também pretendi verificar de que maneira a minha voz evoluíra.
P. – Mas há um intervalo de cinco anos entre as duas digressões, 1988 e 1993, aproveitadas para o disco.
R. – Quis escolher entre o máximo de material possível. E além disso mostrar novas e diferentes maneiras de abordar canções antigas. Houve mudanças radicais. Por exemplo, começo sempre cada concerto com “Dance me too the end of love”, por isso iniciei o álbum com ela. É sempre diferente da versão original de estúdio. Não havia à partida uma grande estratégia para este disco. Tinha feito duas digressões, duas centenas de espectáculos, bebi muito nessa época. Houve algo nessas digressões muito importante para mim: a camaradagem com os outros músicos, a sua excelência musical. Quis preservar isso.
P. – Mas porquê estas canções e não outras quaisquer? Foi uma escolha aleatória?
R. – Muito instintiva. Primeiro que tudo, elas tinham que atingir um determinado nível de qualidade técnica. Não gosto de ouvir discos ao vivo porque não têm, na generalidade, boa qualidade de som. Não se trata de querer a perfeição, mas pelo menos que os outros músicos não se queixassem de que não conseguiam ouvir a minha voz…
P. – As pessoas, mais do que a música, querem ouvir as suas palavras…
R. – Sim, mas quando se tem algo de importante para dizer, convém dizê-lo da forma mais correcta. Preocupo-me muito com a forma. Em termos literários, mas também tecnológicos.
P. – Desde a era “hippy” até hoje, continua a cantar o amor. Só que antes fazia-o de uma forma positiva, enquanto agora carrega na ironia e nada parece ser tão evidente e claro como dantes…
R. – Tento apenas manifestar a realidade dessa experiência.
P. – Mas não acha que houve uma inversão, no sentido em que as pessoas, sobretudo os políticos, dizem hoje uma coisa querendo significar precisamente o oposto?
R. – É verdade. Há uma espécie de conversa com duplo sentido [“double-talk”], de fala secreta. As pessoas são manipuladas, mesmo aquelas que pensam ser as manipuladoras. Manipuladas pelo espírito da época. Ninguém pode escapar a este espírito.
P. – Que espírito é esse?
R. – É diabólico. As pessoas estão a sofrer bastante com essa manifestação do lado escuro. Elas precisam d equilíbrio. Embora pense que devemos estar gratos a esse lado escuro da mesma maneira que devemos agradecer ao lado luminoso, só que hoje tudo pende apenas para o primeiro. Está a ficar um cheiro a enxofre no ar…

“O Dilúvio É Uma Catástrofe Interior”



P. – Quando fala em equilíbrio, recordo-me de já uma vez se referiu à santidade. O santo é o homem que encontrou, ou reencontrou, o equilíbrio?
R. – Até certo ponto, comparo-o a um esquiador. Ele apenas se adapta e desliza sobre os contornos da paisagem. Não se trata de uma reacção agressiva ou beligerante e certamente não não tem nada a ver com as leis. O santo não põe o mundo em ordem. É mais uma reconciliação com a situação presente, com o momento. A capacidade de perdoar, de mudar perdoando. Por outras palavras, compreender o poder do amor e do perdão.
P. – Numa canção como “The future”, a sua visão é bastante mais escura e pessimista…
R. – Complexa. Se apenas considerarmos a letra, é irónica, divertida, escura. A música, por seu lado, é bastante ligeira. O casamento entre ambas faz com que se dissolvam reciprocamente, criando uma espécie de ar fresco. Evidentemente que é chocante dizer coisas como “dêem-me ‘crack’ e sexo anal”, mas são coisas que as pessoas dizem na realidade. É o que existe por baixo, quando se retira a última faixa protectora – a cultura. Já deixei de brincar. Não acredito que haja sequer uma cultura ou que valha a pena salvá-la. Ela está a desaparecer como as árvores e os rios. A poluição é interior. Não vale a pena fingir que vale a pena protege-la, porque ela, já não existe de facto.
P. – Trata-se então do apocalipse?
R. – Já ando a dizer isso há uma quantidade de tempo, mas as pessoas acusam-me de ter uma neurose qualquer. Quando falava no assunto há 20 anos, as pessoas diziam-me: “Porquê essa melancolia? Tens dinheiro, tens mulheres, tens fama, de que é que te estás sempre a queixar?” Achavam o meu trabalho neurótico e que eu era um burguês individualista, dependendo do ponto de vista da crítica, por exemplo sob uma perspectiva freudiana. Em suma, a acusação principal é que eu era doentio. Tudo porque dizia que tinham chegado os dias do dilúvio. Mas o dilúvio é uma catástrofe interior. Era o que eu dizia em “Avalanche”. Ou em “The gipsy’s wife”, onde cantava: “Estes são os dias finais, esta é a escuridão, este é o dilúvio.” Evidentemente, toda a gente concordava que a família estava a desagregar-se, que a estabilidade desparecera, mas ninguém previa que isso iria provocar o tal colapso.
P. Considera-se uma pessoa religiosa?
R. – Não sei. Tenho consciência de que é importante cultivar o espírito. Acredito que, se não cultivarmos uma coisa, ela apodrece. Não gosto da religião porque ela apresenta um deus objectivo, concreto. Quando se afirma um deus concreto, surgem os problemas, a desordem.
P. – Há pouco mencionou o diabo…
R. – Acredito em ambos mas não que existem no exterior. São aspectos de uma realidade sem desejos. Não precisamos de ser governados por um desejo ou uma vontade. Deus é espontâneo: manifestação e criação.
P. – É a sua costela zen a falar…
R. Vivo num mosteiro zen, na Califórnia. Não é bem um mosteiro, mais um centro zen. Num mosteiro não há espaço privado. É um velho edifício de madeira, a 1800 metros de altitude. Tem um bom Inverno.
P. – É lá que compõe?
R. – Sim, escrevi aí muitas canções, ao longo dos anos. Antes passava aí alguns meses do ano, mas agora vivo mesmo lá, desde a minha última digressão, no Outono do ano passado. Claro que tenho coisas para fazer no exterior, no entanto isso não constitui problema, uma vez que fica apenas a duas horas de Los Angeles.
P. – Há uma continuidade entre a atitude “hippy” dos anos 60 e o zen?
R. – Há provavelmente uma ligação. O que aprecio no zen é a prática, o regime. Gosto de me levantar cedo (às vezes não tanto…). Há em mim um lado profundo que me faz gostar de levantar cedo, vestir as minhas roupas negras, caminhar através da neve até à sala de meditação, ao lado de outras pessoas doidas. Sentamo-nos ao frio durante duas horas antes do pequeno-almoço. Faço isto todos os dias. Há algo nesta disciplina que aprecio. O meu pai havia de compreender. Antes de morrer, queria mandar-me para uma academia militar.

Móveis Mentais

P. – Na sua obra verifica-se uma quase oposição entre a complexidade dos textos e a simplicidade da música. Será para fazer chegar a mensagem às pessoas mais facilmente?
R. – Desenvolvi ao longo dos anos uma estratégia de choque que me pareceu um casamento apropriado entre os textos e a música. A música é muito importante, não é acidental. Em especial nos meus dois últimos álbuns, penso ter conseguido obter o equilíbrio desejado, nos termos de que falava há pouco.
P. – “The Future”, em particular, é muito modernista…
R. – Penso prosseguir na mesma direcção no próximo álbum… É do que gosto, fazer canções como “The future”, em que a música, como há pouco fez notar, é irónica, um pouco mecânica, um pouco convulsiva.
P. – Pensa que o público capta com facilidade essa ironia?
R. – Um número suficiente de pessoas, sim. Não sei até que ponto elas recebem as coisas de forma consciente ou se não são antes tocadas de outra forma. Nem sequer sei até que ponto as pessoas levam hoje a sério seja o que for. Se as pessoas conseguem ter esse luxo. A vida interior é actualmente como que uma provação. Há tanto sofrimento nas pessoas que encontro… Chega a ser heróico tentar penetrar nelas. A maior parte das pessoas vive agarrada a um pequeno pedaço de mobília mental, um fragmento de uma mesa ou de um móvel qualquer. É esta a imagem que tenho andado a mostrar nos últimos 20 anos. Devo dizer que é hoje bastante melhor aceite do que há 20 anos. Estamos a viver o dilúvio. Qual será então o comportamento mais indicado a adoptar num dilúvio? O que devemos fazer quando vemos as pessoas a ser arrastadas, agarradas a um bocado de uma mesa ou de uma porta? Devemos declarar-nos conservadores ou liberais? De esquerda ou de direita? Homem ou mulher? Branco ou negro? Todas estas categorias tornam-se completamente irrelevantes, dada a natureza e a premência da catástrofe.
P. – Como é o quadro visto de cima, ou seja, da perspectiva do anjo?
R. – Vê-se ao mesmo tempo que as coisas estão OK, exactamente como deveriam estar.
P. Aceitaria participar em grandes festivais de beneficência, em defesa de uma causa?
R. – Nunca fui convidado para nenhum. E, se fosse, não aceitaria. Para mim não significam nada. As pessoas acham importante ter uma forma de exprimir a sua boa vontade. É como um cartão de Natal que se envia uma vez por ano…
P. – Afinal de contas actua para audiências ao vivo apenas por questões materiais?
R. – É certamente uma questão que não posso ignorar. Tenho responsabilidades na medida em que muitas pessoas dependem de mim. Não é só a minha família. Sou feliz por poder ganhar dinheiro de maneira a responder a essas responsabilidades. Mas, para além disso, há algo na vida na estrada de que gosto: a camaradagem entre os músicos, os técnicos. E o aspecto da bebedeira. Bebo muito. Gosto de beber e cantar. E de manifestar o espírito da embriaguez.
P. – Não há uma contradição entre a disciplina zen que diz professar, e essa prática dionisíaca do prazer do vinho?
R. – Toda a minha vida tem sido uma contradição. Depois de um dia inteiro no centro zen a meditar – há uma semana por mês em que se chega a estar por dia 17 horas sentado a meditar – gosto de beber durante algumas horas: Depois deito-me e durmo mais umas horas, para me levantar e começar tudo de novo.
P. – Os restantes membros da comunidade aceitam bem esse seu comportamento?
R. – Não há nenhum ponto de vista moralista no zen. Não é propriamente uma religião. Não há nenhum deus nem nenhuma adoração. É apenas uma situação em que se proporciona às pessoas a possibilidade de poderem estar sozinhas consigo mesmas. Se há alguém que quer estar sozinho consigo mesmo bêbedo, tudo bem! E, se quiser fazê-lo sóbrio, na mesma tudo bem. Em geral, ninguém gosta de estar só consigo mesmo. Eu gosto. Às vezes.
P. – E drogas?
R. – Não gosto de usar drogas. Passei imenso tempo a recuperar delas. Descobri que as drogas me punham o espírito doente. O álcool é diferente. Nas digressões gosto de beber, com os outros músicos. Não só para aliviar a pressão – a vida “on the road” é dura, fazemos cinco concertos e viajamos durante toda a semana. Não actuamos em estádios, apenas em auditórios de concerto, temos que ser económicos -, mas sobretudo como um sacramento. Juntamo-nos todos para beber, para sentir a luz do sol, a força, o espírito das canções, para celebrar em conjunto com a assistência. Para nos rendermos a ela e celebrar o sacrifício, num bom, num grande concerto. O vinho ajuda a entregarmo-nos ao momento.

Beber Para A Música

P. – Os outros músicos também pensam que é doido?
R. – Sim. Adoro-os e eles adoram-me. Embora haja alturas em que as coisas não correm bem.
P. – Que alturas?
R. – Sou muito exigente nos aspectos técnicos. E penso que toda a gente devia dar o máximo de si em cada concerto.
P. – Como define um bom concerto?
R. – A um nível básico, é aquele em que as pessoas deram por bem gasto o seu dinheiro. A outro nível, aquele em que as pessoas sentiram que fizeram parte de um acontecimento importante.
P. – O seu modo de cantar é invariavelmente sereno. Nunca a fúria ou a violência assomam de forma explícita no seu estilo, mesmo quando canta as coisas mais terríveis…
R. – Eu dizia o mesmo do Júlio Iglésias. É um cantor muito subestimado. As pessoas pensam que é um cantor barato. Para mim não é. Andei a estudá-lo ultimamente. É maravilhoso. Tem um centro. Muito calmo, muito seguro sobre o amor, muita experiência do sofrimento. As primeiras vezes que o vi era mais novo, procurava dar a imagem do romântico, do “gigolo”. Mas agora vi-o na televisão e achei-o maravilhoso.
P. – Nunca teve a tentação de usar o seu poder em proveito próprio, no sentido de manipulação, de posse?
R. – O poder é uma carga pesada. Como uma possessão, uma grande casa, um iate ou automóveis caros. Quando se tem poder, gasta-se o tempo todo com ele. Sou demasiado preguiçoso para ter poder. Para se ser poderoso é preciso seduzir as pessoas. Sou demasiado preguiçoso para isso…
P. – Assume-se como um profeta?
R. – Não sei se sou um profeta, mas escrevi coisas que se desenrolaram depois de as ter escrito. A visão original sobre o tal colapso nervoso é a única coisa relevante que disse, a minha única contribuição. Não se tratava apenas de dizer que as coisas eram nojentas, horríveis ou que a vida se estava a destroçar. Tudo isto é verdade, mas o importante é saber quais as consequências. Estamos à beira de um colapso nervoso. Vamos confessar-nos uns aos outros.
P. – O que pensa fazer no dia seguinte ao dilúvio?
R. – Espero beber uma boa chávena de café.