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Juan Manuel Serrat – “Juan Manuel Serrat Promove Novo Disco Em Portugal – ‘Coloco-me No Lugar Proibido'”

cultura >> terça-feira >> 20.09.1994


Juan Manuel Serrat Promove Novo Disco Em Portugal
“Coloco-me No Lugar Proibido”



A vinda de Juan Manuel Serrat a Portugal reata uma relação desde há longos anos interrompida. O cantor catalão criador nos anos 60 da “nova canço”, de resistência à ditadura franquista, falou do seu novo disco, “Nada es Perfecto”, do amor, dos poetas e da anarquia. E de como mesmo a um viajante infatigável como ele sabe bem por vezes descansar à sombra da figueira.

Define-se como um anarquista e um romântico. Mas tem o cuidado de explicar o significado das palavras. Nos anos 60, criou o núcleo “Els Setze Jutges”, impulsionador do movimento da “Nova canço” que nos anos 60 agitou a canção na Catalunha. A ditadura chegou a impedi-lo de cantar em catalão uma canção festivaleira. Hoje, como ontem, Juan Manuel Serrat continua a sonhar com a utopia. E a ser do contra. É espanhol quando querem que ele seja catalão. É catalão quando lhe pedem que seja espanhol.
PÚBLICO – Esta sua vinda a Portugal significa algo mais que uma simples visita promocional?
Juan Manuel Serrat – Estou aqui sobretudo para promover uma relação com Portugal que nos últimos anos praticamente não existiu. A última vez que estive cá foi há treze anos para fazer um programa de televisão. Cantar ao vivo, há mais de vinte anos.
P. – Como explica uma ausência tão longa?
R. – Pela relação terrível que existe, ou melhor, não existe entre Portugal e Espanha. Uma coisa incompreensível, entre gente com tantas coisas em comum. Com tanta História compartilhada. Tantas experiências recentes parecidas. Esforço-me por aproximar-me dos portugueses. Considero o facto de não tocar em Lisboa, no Porto, em Coimbra ou em Setúbal tão grave como se não tocasse em Valência, em Bilbau ou em Sevilha.
P. – Nos últimos tempos têm vindo a Portugal sobretudo artistas do Sul, da Andaluzia…
R. – Talvez por causa da facilidade de comunicação do eixo Sevilha-Badajoz-Portugal. Mas porque não via Salamanca, ou Galiza? Não sei… Estou um bocado mais longe, em Barcelona… Mas o catalão e o português são duas línguas muito parecidas. Ao fim e ao cabo são as duas latim mal falado.
P. – Considera-se em primeiro lugar um espanhol ou um catalão?
R. – Tenho passaporte espanhol e sinto-me catalão. Se me perguntar o que é que sinto com mais força, respondo que é aquilo que não me deixam sentir. Quando me impedem de ser alguma das duas coisas, automaticamente coloco-me no lado proibido. S o estado espanhol me proibisse de ser catalão, eu seria um catalão radical. Se os meus conterrâneos me proibissem de ser espanhol, desde logo ficaria solidário com o resto dos povos de Espanha.
P. – Em 1975, no México, proferiu algumas declarações contra Franco. Depois, com o fim da ditadura, de regresso a Espanha, o seu discurso tornou-se bem mais pacífico…
R. – A partir desse momento entrei num país que acabara de recuperar a liberdade. O país mudou, eu não tive necessidade. Como em 1968, quando fui forçado a retirar-me do Festival da Eurovisão [com o tema “La la la”], porque me proibiram de cantar em catalão. Tão pouco há hoje os mesmos problemas que existiam em Espanha nos anos 70 e que obrigavam os artistas a sair de Espanha para poder trabalhar. Nessa época fiz parte do grupo que se encerrou em Montserrat, como forma de protesto contra as condenações à morte de militantes políticos no chamado “processo de Burgos”. Entretanto a pena de morte foi abolida em Espanha. Também deixou de fazer sentido o exílio, como aconteceu comigo em 1975. Felizmente para mim o ditador caiu nesse mesmo ano, e a ditadura no ano seguinte.
P. – A mudança de regime implicou uma viragem na sua carreira? Era mais fácil quando o inimigo era bem definido?
R. – Jamais estarei de acordo com aqueles que pensam que é preciso cortar a mão para se perceber o que é ser maneta. Prefiro ter as duas mãos. A repressão só cria mais repressão, ódio, histórias porcas. Não acredito que a repressão seja uma fonte de criatividade. A liberdade, sim. Mas é verdade que estes tempos de liberdade coincidem com a falta de solidariedade, a intolerância e a falta de respeito. A liberdade em que nos movemos é uma liberdade intolerante. Talvez por ser ainda uma liberdade jovem.
P. – No seu novo disco “Nadie es Perfecto” [edição BMG] há várias canções que falam de amor de uma maneira muito especial…
R. – Há quatro. Uma delas, “Por dignidade” é a história de um cornudo que aceita ser cornudo para defender o seu amor. Não é costume escrever-se canções deste tipo na Península Ibérica. Normalmente não vendem… Outra é o retrato de desamor [“Desamor”]. Outra, “Mensages de amor de curso legal”, fala da importância do dinheiro numa relação. E há ainda “Entre un hola y un adeus”. Em todas elas o amor é encarado de um ponto de vista diferente do habitual.
P. – Que motivos o levaram a gravar canções em Buenos Aires e no Rio de Janeiro?
R. – Quis utilizar um “bandoneon” em dois temas, “Benito” e “Historia de vampiros”, por isso fui a Buenos Aires. Se quisesse gravar uma guitarra portuguesa viria a Lisboa…
P. – Num dos sues discos antigos, “Cançons Traditionals”, recuperou a tradição catalã. Po que razão não voltou a repetir a experiência?
R. – Nasci em Barcelona. Funciono e vivo plenamente a minha cidade. Tudo o que é possível fazer hoje em dia é recuperar a memória da cidade como era há uns anos atrás. A música tradicional é cantada hoje de forma “anedótica”. Não tem nada a ver com o velho cantor que toda a vida cantou canções tradicionais. No caso desse disco, foi gravado em 1967, em plena ditadura. Nessa altura estávamos todos preocupados em recuperar um tipo de canção que tinha sido condenada ao ostracismo pelo Governo central do general Franco. A cultura catalã era desprezada, como se fosse inexistente. Uma das maneiras de lutar contra isso foi fazer este disco. De há quinze anos a esta parte venho-me dedicando a um trabalho que não sei se acabarei alguma vez e que poderia intitular-se “A História está contada”. É uma história com início nos séculos X, XI e a música dos trovadores e dos jograis. Uma história que desde então vem contando a história de um povo. É um trabalho total. Como voltar ao colégio e estudar tudo outra vez.
P. – Tem o gosto pelas palavras dos poetas…
R. – Pretendo não tanto divulgar a palavra dos poetas, seria demasiado ambicioso, mas divulgar o nome dos poetas. As palavras dos poetas têm a sua poesia própria. Estão nos livros, não estão nas canções que eu possa cantar. Há pessoas que dizem que conhecem Antonio Machado porque ouviram um disco em que cantei poemas dele. É a mesma coisa que pretender conhecer um filme apenas por ter visto a apresentação. Limito-me a pegar em textos já escritos que correspondem a coisas que eu próprio penso.
P. – Como se processou a sua relação com o movimento da “Nova canço” catalã dos anos 60? Foi ou não conflituosa?
R. – Fiz parte do núcleo fundador da “Nova canço”, chamado “Els Setze Jutges”. Eu era o “jutge” número três. Se não tivesse existido uma ditadura nunca teria existido um fenómeno como aquele. Claro que, com o desaparecimento da ditadura, desapareceu o movimento. Também por desgaste, porque os seus elementos sofreram uma espécie de selecção natural. Houve aqueles que passaram a ter um emprego e outros que continuaram como músicos profissionais. Os movimento existem para nascer, funcionar, crescer e desaparecer. Tudo o que se perpetua acaba por se tornar uma merda. Foi o que aconteceu com a “nova canção”, de resto um rótulo curioso, porque de nova tinha pouco, era antes uma via de recuperação. A consequência negativa da morte do ditador, com a chegada da liberdade, foi o triunfo na Catalunha de um Governo de centro-direita que não tinha muito interesse em que a canção catalã funcionasse. Entre todos os elementos importantes da “nova canção” não havia nenhum que fosse simpatizante do grupo político fiel ao Governo, o que produziu um grave retrocesso intelectual. Apenas podíamos sobreviver. E os que sobreviveram são poucos: Maria del Mar Bonnet, Luís Llach e eu. Alguns passaram mal. Como Ramon, no início o mais importante de todos, que passou anos difíceis.
P. – Define-se como um anarquista?
R. – A anarquia, o socialismo libertário é um dos posicionamentos ideológicos mais límpidos que conheço. Reconheço que é de difícil aplicação no mundo em que vivemos. Mas como sistema teórico-político permite aprender muito. Creio que a utopia é o único caminho que permite aos homens avançarem. A utopia não é um lugar para se chegar. É um caminho. Como um farol a indicar o caminho a seguir.
P. – Nunca teve receio, em termos artísticos, de estagnar, de se contentar com o que já conquistou?
R. – Claro que sinto essa tentação. E às vezes sento-me. Mas quando me sento aborreço-me muito. Sinto-me pior, como se estivesse morto. E descubro que é melhor continuar a caminhar. Mas também é bom sentarmo-nos de vez em quando à sombra da figueira a saborear os figos.
P. – É um romântico?
R. – É preciso ter cuidado com o significado pejorativo do termo. Sou romântico à maneira de Larra [Mariano José de, 1809/1837], um escritor espanhol que se suicidou. Não sou romântico como nas telenovelas. Sou um romântico como Larra, que crê no homem, no humanismo, na luz, no individualismo e na solidariedade.

Isabel Leal – “EM PÚBLICO”

pop rock >> quarta-feira >> 14.09.1994
EM PÚBLICO


ISABEL LEAL *

Conte-nos o seu percurso musical antes de entrar para os Jig.
Talvez aos 15 anos, não sei bem, comecei a cantar em público, já integrada num grupo. Foi uma época agitada, logo após 74. Juntamente com as chamadas músicas de intervenção, aparecia o interesse pela música tradicional portuguesa. Mais tarde fiz parte do grupo Vai de Roda, até ao aparecimento dos Jig. Nessa altura tive de escolher e escolhi o Jig. Ao mesmo tempo, e sem grandes compromissos, apenas pelo prazer que me dava, tocava guitarra e cantava em cafés-concerto e em bares, percorrendo o mundo das canções.

Qual a sua relação com a música tradicional? É o género no qual se sente mais à vontade a cantar ou apenas o faz por obrigação e imposição do grupo?
Desde pequena que a música tradicional é algo que está presente nas festas, nas viagens… Cantava-se muto em família e com os amigos. A música tradicional tem força e por alguma razão resiste através dos anos. Muda de roupa mas está sempre lá. Nunca a cantei por imposição do grupo. Foi uma escolha e uma inspiração para outros voos mais originais.

Em particular, que laços existem, se é que existem, entre si e a música tradicional irlandesa?
É difícil explicar uma paixão. Foi o que aconteceu quando ouvi pela primeira vez o som da Irlanda. Apaixonei-me. Quando fui com o Vai de Roda numa minidigressão ao Canadá, tocámos com vários grupos de música tradicional celta, nomeadamente os Reel Union, com a Dolores Keane e o marido, John Faulkner, que andaram sempre em digressão connosco, além de um grupo sueco cujo nome não me recordo e grupos canadianos. Fomos bastante influenciados sobretudo pelos Reel Union. Gerou-se um convívio, conhecemo-nos, cantávamos juntos…

Uma imagem da Irlanda mítica dos seus sonhos…
Uma floresta, com fadas ruivas que dançam no ar ao som de uma harpa. À noite, claro, junto de um lago iluminado por pirilampos.

Como explica o entusiasmo que a juventude portuguesa reage à música irlandesa e, em particular, aos espectáculos dos Jig?
A música irlandesa acho que ninguém resiste. Tanto nos faz sonhar como nos desperta para a dança. O público jovem, e não só, adere com entusiasmo aos espectáculos dos Jig porque conseguimos reunir os melhores ingredientes, ou seja, algumas das músicas mais significativas e populares. Pode estar-se apenas confortavelmente a ouvir ou, então, alegremente a dançar.

Que sentido faz uma banda portuguesa (os Jig, ou qualquer outra) dedicar-se à música de uma tradição estrangeira?
Neste momento não faz muito sentido, sobretudo música irlandesa. Há oito anos, quando o Jig apareceu, a palavra “celta” aparecia apenas na História, distante da música. Hoje, temos cá, ao vivo, os melhores grupos de música celta. Os irlandeses sempre compartilharam as suas vivências musicais com outros povos, estou a lembrar-me dos Chieftains, por exemplo, na China e na Galiza. Mas se o Jig quer compartilhar, tem de ter por seu lado algo que lhe pertença. É um dos motivos aliás porque o Jig tem estado mais ou menos parado. Não sei até se está parado ou se acabou (risos), precisamente porque achámos que deixou de fazer sentido tocar só música irlandesa. Temos já alguns temas em português, falta saber se há garra suficiente para pegar neles e andar para a frente.

Nos Jig, procura imitar, na medida do possível, as técnicas tradicionais de canto irlandês, ou, pelo contrário, está-se nas tintas e procura antes adaptar essa música (a irlandesa) a um estilo pessoal de interpretação?
Não me estou nas tintas! Mas é verdade que não penso muito, quando canto, em determinadas formas de cantar para depois escolher uma. É intuitivo. Mas houve pessoas irlandesas que nos ouviram e acharam que havia muito em comum. Às vezes até pensavam que eu era irlandesa. Não era forçado, devia ser por causa do sotaque que eu às vezes exagerava. Era como me soava bem e era assim que saía.

Dos quatro instrumentos paradigmáticos da música tradicional irlandesa, cada um corresponde a um dos quatro elementos, com qual sente maiores afinidades: “Tin whistle” (ar), rabeca / “fiddle” (fogo), “uillean pipes” (terra), harpa (água)? Justifique e divague à vontade.
Harpa, para que a voz possa navegar livremente. No entanto, todos os outros elementos são bem-vindos, desde que não asfixiem, queimem ou enterrem.

Admitindo que passava a cantar só em português, que poetas escolheria para cantar? O que encontra em cada um deles?
Escolhia os poetas músicos, como Zeca Afonso ou Sérgio Godinho. Em cada um deles encontro-me muitas vezes. Quando escrevem é já com a função de musicarem. Ou o contrário, no caso do Sérgio Godinho, que, segundo creio, escreve depois. Esta relação é importante para uma canção. Podes pegar num poema do Fernando Pessoa que seja lindíssimo, mas acaba por ser difícil pegar nele e conseguir uma certa unidade. Os poemas mais bonitos se calhar já estão musicados. Andei uns tempos a ler imensos livros de poesia em casa, até de Camões – Camões já é mais fácil… – e custava-me imenso encontrar poemas que não estivessem já musicados e eu pudesse cantar. Ou seja, que aquilo que os poetas dizem pudesse ser eu a dizer.

Escolha para si um caminho musical fora dos Jig. Como gostaria que fosse? Onde quereria ou gostaria de chegar?
Nunca defini as minhas ambições. Fui-me envolvendo com a música e vou continuando enquanto gostar de ouvir a minha voz. Agora mais do que nunca, depois dos Madredeus, cantar em português não é uma barreira. Gostava de seguir o meu caminho. Sem destino. É verdade que houve alturas em que já estive mais convencida de que a música era mesmo o que eu queria. Faço muitas outras coisas, dar aulas por exemplo, que me tiram tempo e disponibilidade, mesmo mental. Sobretudo em tempo de aulas fico muito absorvida. Falta acrescentar que mesmo nas aulas que dou, no ensino primário, ensino muitas coisas através de canções que gravo e levo para as aulas. Aproveito sempre o facto de cantar.

Além desse aspecto, é-lhe então difícil conciliar a sua actividade enquanto professora com a música?
É um pouco complicado e, por vezes, tenho que optar. Quando isso acontece, a música fica para segundo plano. Preciso urgentemente de tempo.

Vai ou não aparecer um segundo disco dos Jig?
Não sei se vai aparecer, nem sei mesmo, como já disse, se o Jig ainda existe. No entanto, a vontade de criar não se perdeu e, quem sabe, a qualquer momento estamos de novo aí.
* vocalista dos Jig.

Amélia Muge – “Todos Os Dias Nasce Uma Pessoa (Com Chapéu)” (entrevista) + “Todos Os Dias… ” (crítica de discos)

pop rock >> quarta-feira >> 07.09.1994


Todos Os Dias Nasce Uma Pessoa (Com Chapéu)

“Todos os Dias”, segundo trabalho discográfico de Amélia Muge, rompe com algumas premissas estéticas do álbum estreia, “Múgica” – que revelava já uma voz no pleno domínio das suas potencialidades -, ao mesmo tempo que assinala a passagem da artista de uma independente para uma multinacional. Viagem à volta dos dias, do tempo e da eternidade que vive em cada instante, “Todos os Dias” permite percursos e aproximações várias, formas diferentes de lhe encontrar outros sentidos nos sons e nas palavras. Convidámos a cantora a escolher um. Amélia escolheu os véus e os chapéus, pelos quais nutre uma paixão secreta, para ilustrar cada canção. Chapéus há muitos, é verdade. A arte está na cabeça e na maneira de os usar.

1 – Nevoeiro
“Chapéu branco. O primeiro a ser fotografado (com a rede, enevoando um rosto ainda só promessa). O ‘Nevoeiro’ também é o primeiro momento do álbum. É a urgência da hora. O que há a cumprir (como este encontro). É o aqui e agora. É, claro está, o chapéu do público. É a Hora!”

2 – Ser Pessoa (prólogo)
“’Todos os dias nasce uma pessoa’ – um mote que atravessa todo o segundo momento do álbum e se vai desdobrando em posturas. Um lenço colorido que, no prólogo, começa a ser armado… uma lengalenga que, pulsando, vai revelando um alguém.”

3 – Quinto Império
“’Grécia, Roma, Cristandade, Europa / os quatro se vão / para onde vai toda a idade…’ Um passado pesando no momento em que se nasce… como um tecido que se vai enrolando, à volta, à volta… Um levante ‘perturbante’ com toda a sua carga histórica, cultural, musical… e técnica, pois claro. Um Próximo Oriente num eterno retorno ao Re-Nascimento?”

4 – O Cego Pedinte
2Nas histórias antigas, as meninas estão sempre em anáguas e toucados. Agora improvisa-se, dá-se o ar (até porque os toucados não se encontram por aí aos pontapés). O iniciar da caminhada no mundo fantasioso das relações amorosas. ‘Abre a porta, Ana’ – diz o afinal falso cego. “Tradição? Já não é o que era’?… Pois!”

5 – O Mal-Lavado
“Chapéu de palha. Pois então? Que outro chapéu nos sairia ao caminho ao ‘sair das terras do milho’, ao ‘entrar nas terras da urze’? Uma toada de gaitas-de-foles desenha os contornos da estrada nos territórios das nossas descobertas. ‘Estar de amores não é maleita’ (uma paisagem mais bucólica que rural… a pedal).”

6 – Eu Hei-d’ir
“Aceitar o não como um desafio e um ‘charme’ discreto… ‘ se me mandares embora, muito eu hei-de aporfiar’. Uma boina que não se enterra na cabeça e que quase levanta voo p’ró ‘circo que leva a Lua’. Uma tomada de posição quase a sério. Um ‘hei-de m’ir assentar’ quase tradicional, prolongando cumplicidades e improvisos (é assim que se começa?).”

7 – Leões E Mais
“Ele há tecido que melhor evoque as selvas africanas que a capulana? Feita lenço à volta da cabeça evoca que selvas? E que cabeças? Um mundo de fábulas reforçando as duplicidades de qualquer moral… Ai os Lafontaines africanos que nem de capulana disfarçam as desconfianças… O Zé Martins a reinar nos simuladores, sintetizadores e outras bichezas… Servir reis? Muito chorareis! (ora tomem).”

8 – Estar Vivo É Estar À Morte
“Não tem um chapéu ou véu particular… na impossibilidade de os ter todos, cruza dois véus: o do Ser pessoa e a mantilha preta da Viúva do enforcado que vai chegar lá mais para a frente. Um refrão obsessivo… um Plim! Colorido onde um negro véu vai aprisionando tudo o que já não vamos poder ser. ‘Estar vivo é estar à morte / cativo de um Plim! Da sorte… no baralho da ideia / entre achado e perdido’… Todos os dias.”

9 – Vagarinho
“A boina preta ao lado evocando o método das almas – em que combate combater? Já fez uma caminhada reveladora no caminho das ideias. ‘Neste muro há duas pedras / sse se partirem ao meio / uma foi de dizer basta / outra foi de mal alheio’ – morrer pelas ideias? Sim… de morte lenta?”

10 – Terreiro Dos Passos
“Um chapelinho antiquíssimo… uma r… preta, sombra vinda da vida que encerra a da que passa… ‘e nessa sombra, outra sombra / mais escura que nenhuma / sonhando a.. que esvoaça’… O mim mais migo dos no… eus… o terreiro que os nossos passos criam cá dentro de nós…”

11 – Passarinho Da Charneca
“’Lindo vai o chapéu preto / e a azeitona também / já se pode armar aos tordos / e eles caem… (como tordos, como tordos)’ Mas o Dono não é Cantor!”

12 – Os Novos Anjos
“O único chapéu que não funciona na cabeça. Só imagem. Novos anjos? Estão cansados de voar! Só querem agenciar! ‘The show must go on’ (no meio do mar, o coração do sr. Arcanjo bóia – não é, Zézes?). Mas viva a alegria da nossa terra… ninguém é triste… passam-se os dias sem se dar por isso… uns vão para casa dormir…”

13 – Ser Pessoa (“Intermezzo”)
“As pontas do lenço divertem-se. Este ‘intermezzo’ fugiu a sete pés dos concursos e telenovelas (não se deve ter percebido muito bem, claro – mas até o sentido dos sentidos tem o seu ‘intermezzo’; não é Pavarotti?). Tirubi titirubi… ôdos us ias… hã hã hã hã…”

14 – Cantigas A Rosália
“Este chapéu veio lá das Galizas da Rosália. Acho que lhe teria ficado bem. À Uxia também. A pandeireta que se ouve, desdobrada pelo Zé Martins, chegou até nós por ela. Ai os veludos vermelhos que nos amaciam as memórias quentes do Intercéltico… ‘Por vales e por montanhas / pela água larga e fria / no berço do vento embalam’… as cantigas.”

15 – A Senhora Está Sentada
“Não sei lá porquê, mas os véus da santa e demais damas da corte celestial são quase sempre azuis. Nossa minha Senhora… que dizer-te nos dias de hoje? ‘A Senhora está sentada / sobre as suas próprias mãos / e baloiça no vazio / no céu de todos os chãos’.”

16 – A Viúva Do Enforcado
“Um véu negro cobrindo o fogo apagado, o cão aluado, o lamento de uma viúva nova. Adufes ressoam… guimbardas soluçam.. ai! É com a morte dos outros que rondamos a nossa.”

17 – O Pastorinho
“O boné também nasceu para vivermos a preguiça como uns príncipes… abaixamos a pala e prontos… descansamos o espanto todos arrumadinhos e tudo. Ai o descanso… a antecâmara do último sono? Será que por lá continuará a haver vozes às riscas como a da Teresa-mana que comigo canta este tema? Que há nuvens-abelhas, não duvido… e bonés com palas, também!!!”

18 – Ser Pessoa (Fuga)
“Vai-se-nos o rosto, ficam-nos os véus e os chapéus. E o riso mais lúcido da criança que nos habitou (a Voz?).”

Amélia Muge
Todos Os Dias… (8)
Columbia, distri. Sony Music
A Invenção Dos Dias



Houvesse discos com a qualidade deste todos os dias e a música popular feita em Portugal seria sem sombra de dúvida a melhor do mundo. Com o segundo trabalho de Amélia Muge não estamos, é evidente, perante um fenómeno semelhante ao de Pedro Abrunhosa, construído sobre uma moda e o aproveitamento de um momento, ou dos Madredeus e o seu “Espírito da Paz”, que navega noutro tipo de momento, na aparência mais vasto e bastante mais tranquilo. Amélia Muge está longe deste e doutros “momentos” que duram enquanto a direcção do vento não muda. “Todos os Dias…”, como as pilhas Duracel, dura e dura e dura e vai tão fundo quanto pode nos caminhos abertos pelo anterior “Múgica”. Uma voz, de Amélia, rompe as amarras do tempo e procura, por vezes bem próxima, sem dúvida bem dentro, nascer e viver a cada instante. “Todos os Dias” é cada dia e a totalidade dos dias. Uma vida.
José Mário Branco investiu e investiu-se neste disco, assegurando a direcção artística, ficando a produção, como em “Múgica”, entregue a António José Martins. As diferenças são perceptíveis na maneira como a música soube libertar-se dos simples efeitos que, no passado, nada lhes acrescentavam. O “ouvido clínico” da velha raposa da MPP a fazer das suas, José Martins, por seu lado, ficou com tempo livre para explorar outro tipo de horizontes com o seu arsenal de sintetizadores, “samplers” (ou “simuladores”, como ele próprio diz, em bom português, no livrete ilustrado que acompanha o CD), guitarras e percussões.
“Todos os Dias…” é uma viagem circular. Para sermos mais precisos, em espiral. Ciclo da voz que nasce, cresce e não morre. A imagem do berço com um bebé está presente em ada etapa da viagem, em cada história, nos silêncio que intercalam essas histórias. O canto surge das brumas do “Nevoeiro”, de Pessoa, para de imediato se jogar o primeiro jogo, na passagem para “Ser pessoa”, prelúdio e movimento da onomatopeia e do sussurro para a fala. “Ser pessoa” que volta no meio do disco, num “intermezzo” em forma de polifonia brincalhona onde as vozes dos homens provocam e convidam ao riso de Amélia e, no final, numa “fuga” em que as palavras regressam ao berço a à matriz da vibração primordial.
Há grandes canções em “Todos os Dias…”: “O cego pedinte”, em que a poesia do romanceiro algarvio se teatraliza na plasticidade da voz de Amélia Muge, “O mal-lavado”, atravessado por sobressaltos contraditórios de uma gaita-de-foles (Paulo Marinho) e um bendir (Rui Júnior). “Terreiro dos passos”, dedicada a José Mário Branco, revela o lugar central da música de Amélia Muge, igreja e camarim, onde a cantora veste “o espaço do centro” de “uma casa onde nunca entra”. O violoncelo de Luís Sá Pessoa traz negrume e dramatismo à música (“A senhora está sentada”, imagem do feminino velado, que chora e cura, “matéria sem nome transformada numa estátua que não tem sono nem fome”). Amélia Muge guarda espaço para mais. Para o sorriso e o escárnio subtil. Em “Os novos anjos”, onde José Afonso desce à terra para se confrontar sabe-se lá com que filhos da madrugada que “chegam aos magotes”, ou em “Leões e mais”, selva onde os reis são animais de brinquedo e a voz da cantora parece mimar os trejeitos infantis de Lena d’Água. E há outros portos de abrigo e cais de partida: na Galiza, nas “Cantigas a Rosália” escritas por Emílio Pita em homenagem a Rosália de Castro. Ou nas vozes das duas irmãs, Amélia e Teresa, unidas numa mulher só, em “O pastorinho”.
Um dos álbuns portugueses do ano. Para ouvir e desfrutar “todos os dias”. De todas as vidas. “É a hora!”