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Vários – “Novo Catálogo BMG” (editora)

Pop-Rock Quarta-Feira, 11.09.1991


NOVO CATÁLOGO BMG

Há um novo canal editorial para a música portuguesa – a multinacional BMG. Esta editora já operava há mais de dois anos entre nós, mas tinha os Delfins como único nome nacional no seu catálogo. Agora, com a entrada de Tozé Brito para a direcção, no capítulo pop/rock, já assinaram pela BMG, os LX-90, Peste & Sida, Piratas do Silêncio, Sitiados e UHF. A festa de apresentação do catálogo foi na semana passada. Ouvimos e fotografámos as seis bandas contratadas e o seu novo patrão, para anteciparmos o que se arrisca a ser um dos mais importantes acontecimentos no panorama da música portuguesa dos anos 90.


UHF



Novo guitarrista “heavy”, novo baixista “thrash”, mas som mais pop em “A Comédia Humana”, o álbum já a sair dos UHF. Ainda e sempre António Manuel Ribeiro

Para António Manuel Ribeiro, líder histórico dos UHF, a vida não tem sido fácil. Uma carreira e atitude ímpares no meio rockeiro nacional nem sempre foram suficientes para proporcionar à banda almadense o tipo de condições de trabalho que há muito justificariam. Ainda há bem pouco tempo, A.M.R. se queixava da promoção e distribuição deficientes da parte da antiga editora. Agora, a inclusão no catálogo nacional da BMG parece abrir para os UHF perspectivas mais risonhas. Com um novo álbum, de genérico “A Comédia Humana”, pronto a sair na última semana deste mês e uma canção, “Brincar com o fogo”, já a passar na rádio, o futuro aponta para um relançamento em força da banda mítica de Almada.
O problema da promoção e distribuição dos discos tem sido, de resto, o principal cavalo de batalha. “Só tínhamos dois caminhos”, assegura A.M.R., “ou abríamos um selo próprio e entregávamos a distribuição, ou então tínhamos um bom contrato e um plano de trabalho.” Questões que, para o vocalista dos UHF, passam sobretudo pela granatia de que “os discos vão chegar ao seu destino”, isto é, aos locais onde as pessoas os possam comprar. Como exemplo das deficiências a que alude aponta o caso recente ocorrido numa digressão dos UHF aos Açores, onde “Noites Negras de Azul” passava por ser o último disco da banda.
Não se deve, pois, pôr o problema em termos de dinheiro – “mais ‘royalties’ menos ‘royalties’, não era isso que estava em causa” -, mas antes em termos de segurança e garantia de um bom trabalho. Há mesmo a promessa, da parte da editora, de procurar “furar” no mercado internacional e impor lá fora os produtos no catálogo. “Isto dá-me uma largueza de trabalho, de vistas de futuro que nunca tive”, declara aliviado António Manuel Ribeiro. “Penso que há cerca de nove anos que não tinha isto, desde que deixei a Valentim de Carvalho.”
Se nos recordarmos dos tempos negros recentes – “tive uma série de angústias porque as promessas que nos tinham sido feitas não estavam a ser cumpridas” -, não deixa de ser curiosa a confiança agora reencontrada, confiança que, segundo A.M.R., passa pelo conhecimento pessoal das pessoas envolvidas na nova equipa e projecto da BMG, escolhidas a dedo segundo um critério de “selecção de valores” e já “com provas dadas”.
Provisoriamente arredados para a gaveta ficam anteriores projectos independentistas – “não foram para agaveta”, garante A.M.R., “abrir um selo em Portugal é sempre um desafio. E é um desafio para mim que sou um teimoso, que acredito nisto”. Longe vão os tempos derrotistas em que perguntava ironicamente a alguém da antiga editora se a música portuguesa “ia acabar”. Pelos vistos, a dos UHF não acabará nunca.
A prova-lo, o novo álbum, nova formação (com o Toninho, na guitarra, proveniente da banda de “heavy” Iberia, e o Nuno Filipe, no baixo, com experiência em várias bandas de “thrash metal”) e uma mudança de estilo tendente a fazer aumentar ainda mais o número de fiéis dos UHF. “A produção é diferente”, sintetiza o vocalista, “é um disco de extremos, com um som mais pop que talvez tivesse começado a aparecer com “Hesitar”, juntamente com algumas canções bastante rudes, à maneira dos UHF.”
Para os novos recrutas, como o Toninho, habituado ao ribombar metálico, a princípio “foi difícil entrar”, já que “o estilo era completamente diferente”. Mas, como faz questão de frisar o Renato Júnior, teclista e saxofonista, a mudança de som detectável no novo álbum passou inevitavelmente pelo aval e pelos arranjos de António Manuel Ribeiro – “é ele que filtra tudo e sintetiza aquela coerência que é a dos UHF”. A.M.R representa, de facto, a firmeza de princípios e a rebeldia típicas do verdadeiro rock. Que sonhos ou ambições fazem correr ainda este veterano para quem o “rock ‘n’ rol” foi a forma que escolheu de estar na vida? “Somos músicos. Não ‘mais ou menos’ músicos, mas músicos mesmo. Vivemos isto intensamente o ano inteiro, a vida inteira.” Histórias que se vão contando na “Comédia Humana”.

Sérgio Godinho – “Luz Na Sombra”, De Sérgio Godinho, Começa Hoje Na RTP2 – As Sombras Da Ribalta” (televisão | documentário)

Secção Cultura Domingo, 21.07.1991

“Luz Na Sombra”, De Sérgio Godinho, Começa Hoje Na RTP2
As Sombras Da Ribalta

Luz e sombra são parte integrante do mundo do espectáculo. Em “Luz na Sombra”, Sérgio Godinho dá a conhecer os bastiadores, os rostos na sombra, o real por baixo damaquilhagem. “The show must go on”, é verdade, mas pode parar por instantes, e mostrar o outro lado do espelho. De que matéria são feitos os sonhos?



Hoje, a partir das 20h15, no canal 2 da RTP, a luz incidirá nos recantos mais escuros dos bastidores da música, iluminando aquilo que por norma apenas se adivinha. Sérgio Godinho, viajante de todos os imaginários, contador de histórias e de vidas que já não vamos tendo tempo de vivar, vai levantar o pano e mostrar como se constrói a imagem em que acreditamos.
São seis programas, genericamente intitulados “Luz na Sombra”, “cada um sobre uma pessoa que trabalha dentro da música”, numa reflexão pessoal sobre outros tantos aspectos ligados à produção musical, personificados por quem sabe e quer partilhar esse saber.
José Salgueiro, músico, é o protagonista do primeiro programa. Depois será a vez de Carlos Tê, letrista, Paulo Pulido Valente, produtor de espectáculos, Ricardo Camacho, produtor e músico, Rui Fingers, “roadie” e músico e, por último, Tó Pinheiro da Silva, técnico de som. Todos os domingos, até finais de Agosto.
Sérgio Godinho, além de autor de “Luz na Sombra”, acumula ainda as funções de apresentador e entrevistador. A realização e montagem estão a cargo, respectivamente, de Teresa Olga e Henrique Monteiro.

O Outro Lado Existe

Luz e sombra são pólos complementares de uma mesma realidade. Sem um o outro não existe nem tem razão de ser. Luz e sombra que constituem a própria essência do espectáculo. De um lado o brilho dos projectores, a fama, a claridade das vozes e da música, a encenação e simulação dos gestos. Do outro, aquilo que não se vê mas está lá, atrás da cortina ou da câmara, omnipresente, indispensável para o bom funcionamento da parte visível. Os alicerces, as infra-estruturas técnicas e humanas, a imaginação e o suor dos que trabalham para que a máquina funcione, tornando possível o sonho e a ilusão credível.
Para Sérgio Godinho trata-se de deixar por algum tempo o papel de “escritor de canções” para contar outro tipo de histórias, feitas de imagens e jogos sobre a música e as pessoas a ela ligadas. Jogos de sombra. Jogos de luz. Ficções, ainda e sempre, urdidas por quem há anos vem tecendo o pano cru onde sonho e realidade se confundem. Eis o argumento resumido desses pequenos filmes subjectivos, parte integrante da grande-metragem que é a música popular portuguesa.

Seis Argumentos Possíveis

José Salgueiro, baterista (hoje) – O suor dos ensaios, o trabalho de professor, as “tournées” com os Trovante que ciclicamente se repetem. É difícil manter o ritmo, mesmo para um baterista. A vida e música de um músico, no compasso certo.
Carlos Tê, letrista (28 de Julho) – o verbo também se escreve com caneta. A letra “T” sempre presente nas palavras que Rui Veloso canta. Palavras nascidas de uma cidade antiga e mágica, o Porto, cenário de muitas histórias por contar. Canções inéditas da dupla, recolhidas num ensaio da banda. Novos projectos. Um livro aberto.
Paulo Pulido Valente, produtor de espectáculos (4 de Agosto) – Como se organiza um espectáculo? Ninguém se preocupa, desde que o pano suba. Um exemplo: as Festas de Lisboa de 1990, onde o citado produtor se encarregou de animar o cinzento das ruas com fantasia, trabalho e a música dos Repórter Estrábico, Capitão Fantasma e a Lua Extravagante de Vitorino e Janita Salomé.
Ricardo Camacho, produtor – E músico dos Sétima Legião, acrescentamos nós. Explica como se produz um disco, se arranjam as canções e se idealiza o som global. Sem um produtor capaz não há disco que resista. Música da Sétima Legião, António Variações, GNR e Manuela Moura Guedes.
Rui Fingers, “roadie” – O “roadie” é quem carrega com o piano às costas. Quem liga e desliga os amplificadores. Quem monta e desmonta o palco. É o operário da música, o homem dos músculos, um “mouro” de trabalho. O “roadie” em questão, para além de trabalhar com os Rádio Macau, que veremos actuar, ainda arranjou tempo pra tocar na banda de “heavy metal” V 12. Uma canseira.
Tó Pinheiro da Silva, técnico de som – Ele escuta as opiniões e as bocas, tantas vezes despropositadas, dos músicos, mas faz como acha melhor. No estúdio é ele que sabe, pode e manda. Dele depende em grande parte o sucesso ou fracasso de um disco. Vamos ver essa alquimia, durante a gravação e misturas de um tema do último álbum de Jorge Palma.
Depois de “Luz na Sombra” tudo ficará, de certo modo, mais claro. Luz e sombra, o difícil está em separá-las. Ou, como diria Neil Young, “there’s more in the Picture, than meets the eye”.

Vários | Hexagone – “Divulgados Segredos do Hexágono” (editora)

Pop-Rock, Quarta-Feira, 03.07.1991


DIVULGADOS SEGREDOS DO HEXAGONO

A Hexagone foi a principal editora francesa dos anos 70, na área da música folk. Contando com o grupo Malicorne como cartão de visita, foi alargando o catálogo até albergar no seu seio tendências tão diversas como as experiências de renovação da música tradicional, de expressão francesa, a ortodoxia militante do tango de Juan José Mosalini, ou o genuíno reggae dos Steel Pulse. As capas, do tempo em que não era necessário poupar cartão, são pequenas maravilhas. Mas a mudança dos tempos implicou a reconversão para o formato CD de, para já, dez títulos deste catálogo, em boa hora distribuído entre nós pela MC-Mundo da Canção.



Surgidos na primeira metade dos anos 70, na altura em que, do outro lado da Mancha, o “folk revival” britânico atingia o apogeu, e em Frnaça, seguindo o exemplo do bretão Alan Stivell, se davam passos semelhantes, os Malicorne constituem, para muitos, o expoente máximo daquilo que é possível fazer de novo, sem atraiçoar o espírito original, a partir da infinita matriz da música tradicional.
Datado de 1974, “Malicorne” irrompe na cena folk com a imponência e majestade de um monarca que, por direito divino, se prepara para tomar posse do seu reino. Clássico nas premissas, o álbum evidencia já o leque de estímulos estéticos e a fabulosa capacidade geradora de imaginários luxuriantes fundados e forjados nas lendas e rituais celtas, de que a banda se viria a revelar formidável cultora.
Entre as rondas, “bourrées” e “branles” gaulesas, avultam as baladas divinamente interpretadas pelos irmãos Yacoub, Gabriel e Marie, e as sonoridades de ressonâncias medievais, arrancadas aos céus e aos abismos por uma instrumentação rica e diversificada, onde pontificavam o violino, “bouzouki”, saltério, bandolim, órgão de foles, cromorna, espineta e sanfona.
Para a história ficariam este e os álbuns seguintes, anteriores à decadência: “Malicorne” (foram editados três discos diferentes com a mesma designação), “Almanach”, “Malicorne”, “L’Extraordinaire Tour de France d’Adélard Rousseau” e “Le Bestiaire”.

Ciclos Mágicos

No ano seguinte, novo disco intitulado “Malicorne”. Histórias de guerras e de amores: a rendição amorosa de Henriette de France ao rei Carlos I de Inglaterra, em “Le mariage anglais”. Os passeios de Marion, “La fille aux chansons”, por um jardim encantado à beira-mar, até ser raptada por piratas. O voyeurismo juvenil do “galante indiscret” que olha a sua “nanette” na penumbra gelada da meia-noite. Motes gregorianos, “andros” bretões, canções nascidas das profundezas do cancioneiro occitano. Mil e uma maneiras de cantar o lado mágico do mundo.
“Almanach”, álbum conceptual, é um “pequeno almanaque das tradições, festas mágicas e procedimentos que devem ser seguidos durante os doze meses do ano”. Para Gabriel Yacoub, só o conhecimento das práticas mágicas e dos ciclos cerimoniais, relacionados com as estações do ano, permite “compreender em profundidade o fundo espiritual dos cantos tradicionais”.
“Malicorne”, álbum número quatro, aprofunda a vertente clássica do grupo: “Nous sommes sonneurs de sornettes”, gavota retirada de “Terpsichore”, recolha de danças antigas compiladas por Michael Pretorius, entre 1571 e 1621, “Daniel mon fils”, inspirada no canto litúrgico das “Vésperas”, ou “La fiancée du timbalier”, escrita com base numa “pastiche” de Victor Hugo sobre a poesia medieval, projectam os Malicorne na busca do alicerce definitivo que sustenta o mundo e fundamenta a liberdade. Histórias sem fim, cíclicas, de transformações, típicas da mitologia celta: “La blanche biche” conta as desventuras da deusa Sarv, meio mulher, meio raposa, numa complexa polifonia vocal, em que a voz de Marie Yacoub se eleva sobre um “órgão de vozes” celestial.
O sonho prosseguiria, já na Elektra, com “L’Extraordinaire Tour de France…” (viagem iniciática de um pedreiro-livre pelo país de França) e “Le Bestiaire”. “Le Balançoir en Feu” e “Les Cathédrales de l’Industrie” pouco ou nada têm que ver com a aventura inicial.

Quintas-essências

De certa forma discípulos dos Malicorne, os La Bamboche constituem outra importante coluna do templo. Com quatro álbuns gravados (dois de título homónimo, “Quitte Paris” e “Née da la Lune”), os La Bamboche, liderados por Jean Blanchard – músico que deverá vir a Portugal, durante os II Encontros da Tradição Europeia, a realizar brevemente -, enveredam, na fase Hexagone, por uma via mais tradicionalista, recorrendo às danças rurais e ao “sabor a terra” da sanfona, do acordeão e da rabeca. A editora optou, para já, pela edição da colectânea “Quintessence” (genérico igualmente utilizado para os Malicorne, num e noutro caso subintitulado “pequeno sumário das suas mais belas cnções…”).
“Le Grand Bal Folk” reúne os Malicorne, La Bamboche, La Chiffonie e Le Grand Rouge na celebração feérica das danças rurais (na capa referem-se as “bourrée”, valsa, polka, mazurka, marcha “scottish”, giga, gavota e “branle”…). Quem, nos tempos de hoje, sabe ainda dançar como mandam as regras?
Grupo emblemático da folk magiar, distante dos códigos enunciados pelos Vosjikas, Sebö Ensemble ou os Muzsikas, de Marta Sebestyen, só para citar alguns nomes editados em Portugal, os Kolinda caracterizam-se por uma aproximação sofisticada (e estilizada) ao folclore húngaro, sem renegarem as “vozes” de instrumentos tão característicos como o “gardon” (espécie de violoncelo esculpido num tronco de árvore), a espineta húngara ou o oboé turco (versão da popular bombarda bretã). Destaque para a voz profunda e misteriosa, de Agnes Zsigmondi e para os arranjos, tradutores da vertente mais soturna e dramática da sensibilidade magiar.
Completam a lista dos compactos agora editados pela Mundo da Canção os tangos de “Don Bandoneón”, superiormente interpretados a solo, no bandónio, por Juan José Mosalini, e a viagem guitarrística pelos universos de fábula de “Douar nevez” (“terra nova”), empreendida com algumas cedências de mau gosto ao rock por Dan Ar Bras, antigo companheiro de Alan Stivell, nos tempos de “Chemins de Terre”.
Do catálogo Hexagone constam ainda (por enquanto só em vinilo) outras obras dos já citados La Chiffonie, Kolinda, La Bamboche e Le Grand Rouge, bem como dos Vielleux du Bourbonnais (quatro sanfonineiros e dois gaiteiros), dos argentinos Lagrima e Tiempo Argentino e dos mexicanos Tequila. Por estas e por outras é que gostamos tanto dos franceses.