Arquivo da Categoria: Críticas 2001

Dean Elliot – Zounds! What Sounds!

21.09.2001
Dean Elliot
Zounds! What Sounds!
Basta, distri. Ananana
7/10

LINK (“College Confidential (1960)”)
pwd: youdont

Prosseguindo o louvável trabalho de desenterrar do baú dos anos 40 e 50 as mais incríveis excentricidades musicais, a Basta apresenta-nos agora “Zounds! What Sounds!” de Dean Elliot, a comprovar que Raymond Scott não era o único maluco Americano a envenenar os anos do swing e das big bands. A particularidade da música de Elliot está na combinação de efeitos “concretos”, habilmente montados e sincronizados em estúdio, com o desempenho “normal” da sua “big, big band”. Serrotes, chuva, trovões, talos de aipo (“os mais estaladiços”!…), relógios, pinos de bowling e a estrela da companhia, uma betoneira último modelo, assumem-se como parte activa da composição, estruturados como elementos rítmicos ou simplesmente ornamentais. O próprio Elliot explica como procedeu numa deliciosa entrevista que o livrete reproduz na íntegra. Delicioso este “easy listening” swingante que soa a um improvável casamento de Benny Goodman com os Negativland.

Peter Hammill – What, Now?

21.09.2001
E Agora, O Quê?
Peter Hammill
What, Now?
Fie, distri. Megamúsica

LINK

“E agora, o quê?”, pergunta Peter Hammill. Chegado aos 53 anos, o músico, poeta e antigo vocalista dos Van Der Graaf Generator, interroga-se, como não podia deixar de ser, sobre o tempo e as marcas da sua passagem. “What, Now?” provoca no admirador incondicional da obra deste trovador dos tempos modernos, impressões contraditórias. Em termos exclusivamente poéticos, o álbum pauta-se por um retorno aos grandes temas cósmicos e filosóficos – a solidão do indivíduo, a descoberta de um sentido para a vida ou a submissão religiosa, que caracterizavam obras máximas como “The Silent Corner and the Empty Stage”, “In Camera” e a trilogia a preto e branco, “The Future Now”, “PH7” e “A Black Box”. Neste particular, “What, Now?” contém temas merecedores de reflexão, por sinal os mais longos, nos quais Hammill se questiona sobre os limites da individualidade, da santidade e da paranóia, como “Here comes the talkies2, “Lunatic in Knots” e “Edge of the Road”. As palavras, saídas da experiência ou arrancadas ao inconsciente colectivo, que Hammill rompeu a golpes de uma introspecção violenta, são arrebatadoras na exposição, por vezes trágica, do homem apresentado na sua dimensão de divindade aprisonada. Pelo tempo, pela carne, pelo pensamento, pelos outros, por si próprio. “So many angels/ However man can there by, ghosts and djinns/Dancing on the head of a pin?/How many questions are left unresolved?/Exactly where do I begin/Now that the walls are closing in?/Who’s the lunatic/And who’s the sensible soul deep within the skin/Hanging on and listening in…?”, pergunta, em “Lunatic in Knots”, trazendo à lembrança a grande dilaceração entre o ego, os anjos e os demónios (os “djinns” bíblico…) da obra-prima dos Van Der Graaf, “Pawn Hearts”.
Mas há o reverso da medalha num álbum marcado pelas guitarras e pela electrónica épicas aos quais não terá correspondido, desta feita, uma produção à altura. Falta espaço e tridimensionalidade a este conjunto de canções marcadas por uma profunda tristeza. O tempo, sempre o tempo, não perdoa, e faz sentir os seus efeitos na voz. A “What, Now?” falta o “punch”, a força e a revolta de antanho que tornavam cada intervenção vocal de Peter Hammill num tornado ou numa prece tocada pelo fogo sagrado. O que parece indicar que esta tensão poética que em “Waht, Now?” subitamente se reacende, já não conseguirá traduzir-se numa catarse como a de “In Camera”, mas poderá continuar a desenvolver-se em terreno de excepção na veia mais intimista de “Fireships” ou dos recentes “This” e “None of the Above”. “The boy’s alive, the boy is in the man”, canta o poeta-músico em “Wendy & the lost boy”. Pressente-se o drama. O Peter Hammill de “What, Now?” não perdeu a pureza do Peter Hammill de “Fool’s Mate” (1971), mas o corpo enfraqueceu (as imagens da capa parecem contradizê-lo, numa série de fotos do músico em movimento, entre a prostração e a tentativa de voo). Porém, Hammill já venceu a morte e essa é a maior das suas vitórias, no decurso de uma longa ascese, sem precedentes na música deste século.
“What, Now?” dá ainda a conhecer o Hammill profeta, em “The American Girl”: “The American girl stubbed her toe on the old world/And the old world’s unforgiving rigidity/Well, times got hard/And talk came cheap/She found that finally/Something wasn´t right across the sea…/Now she´s stateless in all but her memory”. E agora, o quê?

Caravan – If I Could Do It All Over Again, I´d Do It All Over You (self conj.)

21.05.2001
Reedições
Arcebispos de Cantuária

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Caravan
If I Could Do It All Over Again, I´d Do It All Over Over You
9/10
In The Land of Grey And Pink
9/10
Waterloo Lily
8/10
For Girls Who Grow Plump In The Night
8/10
Caravan & The New Symphonia
6/10
Todos Deram, distri. Universal

Os cães ladram mas a caravana passa. Agora re-remasterizada (as anteriores versões já tinham o som melhorado mas estas fazem finalmente justiça à magnificência do vinil original). Os Caravan passam, de facto, por ser os mestres-escola de Canterbury. Quem pela primeira vez se depara com a música de “If I Could do it…” (1970) torna-se participante de uma história interminável de fascínio e descoberta. Do primeiro rezam as crónicas que o título-tema foi tocado de forma maníaca por John Peel no seu “Top Gear” até as espiras do disco se gastarem. Fabulosos o swing, a suavidade “naif” de um “riff” vocal viciante. As canções, pop até à medula, infiltradas por uma sensualidade quase hedonística, jogam xadrez com o paradoxo e o sonho, fundem-se com deambulações instrumentais de jazz psicadélico, descobrem o prazer da inflexão-surpresa, da respiração, da melodia voadora. “In The Land of Grey and Pink”, considerado pela revista “Mojo” um dos melhores dez discos de música Progressiva de sempre, separa o que em “If I Could…” estava ligado. Canções gloriosas de um lado, a longa “suite” “Nine feet underground”, de outro. Ouve-se de um trago, como um requintado licor auditivo. Canções como “Winter Wine” ou “golf girl” misturam a imprevisibilidade do jazz com a arquitectura melódica da pop e o sopro de uma narrativa aberta. A entrada em cena do piano eléctrico de Steve Miller, em substituição de David Sinclair, empurrou “Waterloo Lily” (1972) para sonoridade menos sensíveis à pureza juvenil dos álbuns anteriores, cultivando o rigor instrumental e uma menor elasticidade dos materiais de composição, tendência que se manteria em “For Girls Who Grow Plump in the Night” (1973), desta feita em estreita dependência da viola de arco de Geoffrey Richardson, enquanto o regressado David Sinclair garante o equilíbrio entre a complexidade e o swing, segundo aquela fórmula secreta das bandas de Canterbury. Apenas curiosa, a experiência com orquestra de “Caravan & The New Symphonia” (1974), corresponde à fase de maior sucesso e entrada nos “charts” britânicos do grupo. Mas “Cunning Stunts”, de 1975 (6/10), perdera em definitivo o sortilégio, sobrando canções que ainda assim retinham migalhas do antigo esplendor.