Arquivo da Categoria: Críticas 1991

Kraftwerk – “The Mix”

Pop-Rock Quarta-Feira, 24.07.1991


KRAFTWERK
The Mix
LP e MC duplos / CD, EMI, distri. EMI-VC


Ralf Hutter e Florian Schneider inventaram novas formas de sensibilidade. Conseguiram que as máquinas adquirissem um rosto humano e os humanos ganhassem corpos cibernéticos. Os manequins-“robots” da capa de “The Mix” são elucidativos quanto ao que os Kraftwerk consideram a “condição humana”. Considerados como “pais” de grande parte dos movimentos musicais assentes no primado da electrónica (a “electronic body music”, a “techno-pop” ou mesmo a “house” negra), os Kraftwerk são mestres na disseminação de novas pistas estéticas – e, talvez mais importante, éticas – e na utilização da informática ao serviço de uma boa melodia. Da “trip” cósmico-industrial de “Autobahn” à apoteose mediática de “Electric Café”, passando pela viagem fantástica pela Europa de metal de “trans Europe Express”, o infantilismo mutante de “Radio activity” ou o classicismo gelado e elgíaco do novo mundo anunciado em “The Man Machine” e “Computer World”, é todo um percurso de descoberta das fronteiras do humano, na concepção cartesiana de um “Deus ‘ex-machina’”. Em “The Mix” a dupla recolheu alguns dos temas-chave da sua discografia e regravou-os para os devolver na forma de autocitações reactualizadas, segundo o critério de porenciação máxima das qualidades essenciais. O resultado é esmagador.
****

Legenda:
. Imperdoável
* Mau Mau
** Vá Lá
*** Simpático
**** Aprovado
***** Único

Kirsty Maccoll – “Electric Landlady”

Pop-Rock Quarta-Feira, 24.07.1991


KIRSTY MACCOLL
Electric Landlady
LP/CD, Virgin, distri. Edisom



O nome da menina impõe respeito. Kirsty é nada mais nada menos que a filha de um nome lendário da folk escocesa, Ewan MacColl, casada ainda por cima com Mr. Steve Lillywhite. Kirsty procurou fazer um álbum eclético, mas espalhou-se ao comprido. Recorre a um leque alargado de músicos convidados – que inclui os Pogues (com quem já havia trabalhado em dois temas de “Red, hot and blue”), Johnny Marr (ex-Smiths, actual Electronic), Mark E. Nevin (ex-Fairground Attraction) e Terry Woods (da formação original dos Steeleye Span), entre outros – e a estilos tão diversificados como o “samba jazz” de “My affair” e “The hardest word”, o exotismo terceiro-mundista de “Children of the revolution” ou as reminiscências célticas de “The one and only”, mas “Electric Landlady” não consegue ultrapassar o estatuto de “disco engraçado de artista à procura de consagração”. Um caso típico de ausência de projecto consistente.
**

Legenda:
. Imperdoável
* Mau Mau
** Vá Lá
*** Simpático
**** Aprovado
***** Único

Lalange – “Harpa de Lalange”

Pop-Rock / Quarta-Feira, 10.07.1991


HARPA DE LALANGE

São cinco. Escolheram como designação uma expressão que evoca tradições e lendas de encantar. Lalange, personagem, real ou imaginária, sobre a qual preferem não falar. Os segredos não se dizem. Guardam-se. As suas canções falam de anjos, imperadores, sereias e fantasmas. Todo um universo de fábula, mas imbuído, dizem eles, de uma subtil ironia. Como se vê, dão muita importância aos textos, escritos pelo Carlos. Quanto à música, evoca o misticismo da 4AD, de nomes como os Dif Juz ou Dead Can Dance. Música que, ao vivo, exige lugares especiais e gente não vulgar. Disponível para se deixar fascinar. Em igrejas, de preferência, ou noutros lugares em que o silêncio convide à atenção.
Afirmam-se diferentes. Na música e nas intenções, embora não especifiquem muito em que consiste essa diferença. Filhos, por enquanto menores, de uma geração incarnada pelos Madredeus e Sétima Legião, eles negam as semelhanças. Dizem-se mais próximos de uma realidade, portuguesa sim, mas voltada para as pessoas particulares e não para o mito. O principal foco de interesse reside na voz das duas meninas, de formação clássica, a Margarida (solista principal, soprano) e a Conceição. Nas suas vozes tudo se joga à procura de uma originalidade por agora difícil de encontrar. Seguem por mares serenos, em busca do seu próprio mar.