Arquivo da Categoria: Críticas 1991

Pierce Turner – “Now Is Heaven”

Pop-Rock / Quarta-Feira, 05.06.1991


PIERCE TURNER
Now Is Heaven
LP / CD, Beggars Banquet, distri. Ananana



Começou apadrinhado por Philip Glass e logo se lhe adivinharam tendências minimalistas para a feitura de óperas, que decerto superariam quaisquer “Einsteins na Praia”. Falso alarme. Pierce Turner aprecia sobretudo uma boa canção, de preferência nostálgica, sugerindo origens célticas e apetências melódicas insuspeitáveis. Nada de genial, mas suficientemente agradável para não se lhe voltar as costas. Na modesta opinião do crítico, por natureza voltado para as franjas, digo, tranças, mais radicais da música actual, “Now Is Heaven” oscila entre os arranjos Pet Shop Boys da abertura ou de “Zero here”, as baladas imediatamente referenciáveis à tradição irlandesa, e o inacreditável “rap” em câmara lenta que é “Sunday Night Yap”. Pierce Turner navega por águas musicalmente mornas. Não é o mesmo que “águas mortas”. ***

Danny Gatton – “88 Elmira St.”

Pop-Rock / Quarta-Feira, 22.05.1991


DANNY GATTON
88 Elmira St.
LP e CD, Elektra, distri. Warner Music port.



A revista “Guitar World” chamou-lhe “o melhor guitarrista desconhecido do mundo”. Danny Gatton é tímido, não dança nem canta. “Os meus dedos chegam para me manter ocupado”, diz. E isso chega para revelar um grande guitarrista. Quando era pequeno surpreendeu tudo e todos, tocando banjo “a mil à hora”, como diziam os pais, num programa televisivo de música country. Os outros músicos não o conseguiram acompanhar. Mas então, trata-se de um artista de circo a mostrar as suas habilidades? Nada disso. Com os anos, Danny Gatton aprendeu a conter-se e a utilizar todas as guitarras postas à sua disposição (desde as Gibson e Fender Telecaster até modelos especialmente concebidos para si) da melhor maneira. “88 Elmira St.” Não é um grande disco, valendo essencialmente pelo virtuosismo do guitarrista, à vontade em géneros tão diferentes como o rockabilly (“Elmira St. Boogie”), os blues (“Blues Newburg”), a rumba (“Quiet Village”), a música sul-americana (“Red Label”) ou na versão do clássico dos Beach Boys “In My Room”. Em “Mutha Ship” o órgão Hammond limpa o terreno para a guitarra se soltar com a elegância do galope de um cavalo de raça. Arquive-se em “especial instrumental”. ***

Collection D’Arnell-Andrea – “Au Val des Roses”

Pop-Rock / Quarta-Feira, 08.05.1991


COLLECTION D’ARNELL-ANDREA
Au Val des Roses
LP e CD, Art Lively, distri. Mundo da Canção



Colecção de Outono / Inverno, à chegada do Verão… São franceses, intelectuais como só os franceses sabem ser, românticos e apaixonados por paraísos perdidos. Anseiam habitar a terra prometida. Sonham com mundos utópicos de fantasia, como aquele descrito em “Le Grand Meaulnes”, pelo autor francês do início do século, Alain Fournier.
O disco refere-se ao “vale das rosas” que reproduz na capa, mas a música sugere mais um “vale de lágrimas”. Tanta tristeza. Tanta melancolia. Tantas canções de embalar saudades e desgostos. Chloe Liphard é a voz feminina que faz chorar os corações. Jean-Christophe d’Arnell dá o apelido à banda e toca “teclas de metal”. Carine Grieg – teclados -, Xavier Gaschignard (mais um apelido aristocrático) – violoncelo – e Peter Rakoto (este é que estragou tudo) – baixo – completam a colecção. Rivalizam com os This Mortal Coil no género “gótico sofisticado”. Só que são franceses. E mais românticos. E ainda acreditam em paraísos perdidos. Sons de antigamente, clássicos e solenes, e títulos como “Un horizon de lune”, “Un matin de Septembre”, “Un refuge lointain” ou “Un tiède reposoir” (sempre “um”) chegam para nos fazer sonhar.
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