Arquivo da Categoria: Críticas 1991

Harpa de Lalange – “Harpa de Lalange”

Pop-Rock / Quarta-Feira, 10.07.1991


HARPA DE LALANGE

São cinco. Escolheram como designação uma expressão que evoca tradições e lendas de encantar. Lalange, personagem, real ou imaginária, sobre a qual preferem não falar. Os segredos não se dizem. Guardam-se. As suas canções falam de anjos, imperadores, sereias e fantasmas. Todo um universo de fábula, mas imbuído, dizem eles, de uma subtil ironia. Como se vê, dão muita importância aos textos, escritos pelo Carlos. Quanto à música, evoca o misticismo da 4AD, de nomes como os Dif Juz ou Dead Can Dance. Música que, ao vivo, exige lugares especiais e gente não vulgar. Disponível para se deixar fascinar. Em igrejas, de preferência, ou noutros lugares em que o silêncio convide à atenção.
Afirmam-se diferentes. Na música e nas intenções, embora não especifiquem muito em que consiste essa diferença. Filhos, por enquanto menores, de uma geração incarnada pelos Madredeus e Sétima Legião, eles negam as semelhanças. Dizem-se mais próximos de uma realidade, portuguesa sim, mas voltada para as pessoas particulares e não para o mito. O principal foco de interesse reside na voz das duas meninas, de formação clássica, a Margarida (solista principal, soprano) e a Conceição. Nas suas vozes tudo se joga à procura de uma originalidade por agora difícil de encontrar. Seguem por mares serenos, em busca do seu próprio mar.

Crowded House – “Woodface”

Pop-Rock / Quarta-Feira, 10.07.1991


CROWDED HOUSE
Woodface
LP / MC / CD, Capitol, distri. EMI-VC



Os irmãos Finn, Tim e Neil, fizeram parte de uma banda neo-zelandesa do inícios dos anos 80, os Split Enz, responsável por algumas das melodias mais engraçadas da era pós-new wave. No tempo dos Verões passados a dançar ao som da “Echo beach” de Martha and the Muffins, dos Shirts, enfim, das mil e uma pequenas bandas que então serviam para tornar mais agradáveis os dias, e sobretudo as férias, da nossa imaginada adolescência. Os Crowded House terão perdido, com a passagem dos anos, a inocência dos Split Enz. O que decerto não perderam foi a capacidade de, a partir do modelo eterno, os Beatles, construírem um naipe respeitável de canções Pop suficientemente agradáveis para se levar para a praia e usar em caso de necessidade (festa, esplanada, pôr-do-sol com a/o namorada/o, etc.) Com títulos como “Chocolate cake”, outra coisa não seria de esperar. ***

Camouflage – “Meanwhile”

Pop-Rock / Quarta-Feira, 19.06.1991


CAMOUFLAGE
Meanwhile
LP / CD, Metronome, distri. Polygram



Na linha dos grupos continentais lançados periodicamente no “circo” à cata de dividendos, os alemães Camouflage surpreendem no bom e no mau sentido. O trio constituído por Marcus Meyn, Oliver Kreyssig e Heiko Maile, chegado ao terceiro álbum (após “Voices & Images” e “Methods of Silence”, ambos bem sucedidos em termos de vendas na Europa e nos Estados Unidos), não consegue libertar-se de uma série de óbvias influências, ao ponto de por vezes se tornar difícil distingui-los dos originais. Mas, e aqui radica o lado positivo da questão, embora destituídos de identidade própria, os Camouflage conseguem surpreender pelo apurado sentido melódico e pela criação, ao longo dos 12 temas que compõem o disco, de ambientes “techno pop” suficientemente sugestivos para uma fruição descomplexada por parte do auditor. Assim, “Mellotron”, “Mother” ou “Handsome” poderiam fazer parte de qualquer disco dos Depeche Mode, sem que se notasse a diferença. “These eyes”, “Waiting”, “Bitter sweet” e “Spellbound” passam facilmente por temas dos Japan, a tal modo a voz se parece com a de David Sylvian. “Heaven (I want you)” não destoaria ao lado de outras canções dos Orchestral Manoeuvres in the Dark. Agora que o Verão se aproxima, não são de desperdiçar futilidades tão agradáveis como esta. ***