Arquivo da Categoria: Avant-Rock

Ferdinand Richard Et Les Philosophes – “… Enclume”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 02.12.1992


Ferdinand Richard Et Les Philosophes
… Enclume
CD Rec Rec, import. Audeo



Filosofia à parte, Ferdinand Richard é, de facto, um amante da palavra, do texto. Ganhou notoriedade como baixista dos Etron Fou Leloublan, grupo francês que aliava o “vaudeville” e Captain Beefheart às divagações literárias de pendor surrealista. Tudo bem se Ferdinand não insistisse em ser ele próprio a cantá-las. Pela simples razão de ser tão bom baixista como mau vocalista, mas parece que ninguém tem coragem para lhe dizer isso. Nem sequer Fred Frith, com quem gravou um bom disco intitulado “Dropera”. “… Enclume” é um festival de baixo, guitarra (Alain Rocher) e bateria (Dominique Lentin) ao desafio, em intricadas texturas ao modo Etron Fou com o toque Frithiano que caracteriza grande parte das produções guitarrísticas com o selo Recommended. O pior são as tais palavras, excessivas, que brotam em catadupa em cada canção, no estilo discursivo de Richard – “50 sílabas por cada verso; se não couber, aperta-se” – que impede a respiração e uma maior eficácia na explanação instrumental. Não fora a oratória (e alguns textos até são interessantes, corrosivos e sarcásticos na análise a estereótipos sociais) e o tom redundante das vocalizações e a filosofia de “… Enclume” poderia ser bastante mais que um mero exercício de retórica. (6)

John Zorn – “Elegy”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 30.09.1992


JOHN ZORN
Elegy
CD, Eva, import. Contraverso



“O Diário de Um Ladrão”, de Jean Genet – onde este faz a correspondência entre a alma dos condenados e as flores – serve de ponto de partida a cerca de 30 minutos de loucura musical, divididos em quatro partes, correspondentes a outras tantas cores, “azul”, “amarelo”, “rosa” e “negro”. “Elegy apresenta as idiossincrasias que fazem o estilo de John Zorn: a mistura de géneros musicais, a velocidade, o grito, a paranoia, a reprodução das técnicas de “cut up” interpretadas em tempo real, a Nova Iorque “downtown”, o erotismo em tons carregados. Para trás ficou a histeria, na versão Carl Stalling, substituída por estruturas formais próximas do dodecafonismo. Flautas hesitantes, “staccatos”, estrondos de percussão, gorgolejos vocais e o saxofone psicótico de Zorn, radiante, no meio de um caos cuidadosamente elaborado, conferem a “Elegy” a aura de música concreta. Da séria. A parte final, “Black”, perturbante de outro modo, espécie de invocação ritual-gutural, junta a fanfarra totalitária dos Laibach a uma qualquer celebração religiosa tibetana. Interessante, embora menos que a recente compilação “Locus Solus”, contendo material antigo que o autor considera “o mais estranho” que alguma vez gravou, disponível na mesmam discoteca. (7)

David Cunningham – “Water”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 22.07.1992


DAVID CUNNINGHAM
Water
CD Made To Measure, distri. Contraverso



O principal problema com que a Made to Measure (MTM) se confronta actualmente é a imagem que, ao longo dos anos, criou de si própria. Se a etiqueta de “músicas de circunstância” é suficientemente vasta para incluir uma variedade de estilos e abordagens musicais que garantam a diversidade, verifica-se por vezes na MTM, sobretudo em algumas das suas produções recentes, a tendência para uma certa lassidão, traduzida em bandas sonoras anódinas, que pouco mais são que uma forma sofisticada de “muzak”. “Water”, colecção de instrumentais do ex-mentor dos Flying Lizards, inclui-se nesta categoria de paisagens ambientais que não apontam para lado nenhum, repetindo até ao infinito as lições há muito enunciadas por Brian Eno. Um piano flutua no vazio. Sombras, ritmos hesitantes, esboços de melodias, um tom geral de aguarela semelhante ao dos discos gravados nesta mesma editora por Peter Principle. Há a curiosidade de Robert Fripp tocar num dos temas, se bem que não se note muito na audição. “Laissez faire, laissez passer” parece ser o lema. Não por acaso, as notas da capa, explicam tudo muito explicadinho, com as habituais teorias sobre “continuidade e espaço acústico”, aconselhando finalmente o ouvinte a um “acto de imaginação”, de modo a ter a oportunidade de “explorar um método de audição que não é baseado na natureza usual da forma clássica iu da arte musical europeia”. Quer dizer: o que o músico não faz tem de fazer o ouvinte. Não deixa de ser agradável, sobretudo para quem tem imaginação. (7)