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Van Der Graaf Generator – “O Gerador De Absoluto” (valores selados | blitz | artigo de opinião | dossier)

BLITZ 7 NOVEMBRO 1989 >> Valores Selados


VAN DER GRAAF GENERATOR

O GERADOR DE ABSOLUTO



É difícil escrever sobre a perfeição. É difícil, sobretudo, relatar em pormenor e com um mínimo de distanciação aquilo que de essencial existe na música dos Van Der Graaf Generator em geral e de Peter Hammill em particular. Será talvez difícil para os leitores, confundidos por tanta veneração, acreditar na palavra do crítico. Pois é, aqueles que desde o início têm acompanhado o percurso de Hammill e companhia sabem decerto do que se trata. Para esses, na posse de todos os segredos, a música e poesia da banda representam muito mais do que o habitual nestas coisas dos discos, quase se revestindo com as roupagens do sagrado. Os que estão de fora jamais compreenderão. Durante os últimos vinte anos as palavras de Hammill têm sido fervorosamente vividas por toda uma geração. A sua poesia é a voz profética e a encarnação das esperanças e terrores das duas últimas décadas. Hammill é o amigo que vive na carne as nossas angústias mais escondidas, os nossos amores mais profundos e sofridos, a nossa solidão.
Quanto à música propriamente dita, a dos Van Der Graaf esteve sempre muito além de tudo, sorrindo sobranceiramente dos sinfonismos que então faziam escola. O seu experimentalismo foi sempre o da busca (aos níveis da forma e conteúdo) do Absoluto. Refiro-me à paixão pelo abismo (como todas as paixões), à aventura derradeira, a crucificação de todos os géneros, sacrificados na unidade de uma música verdadeiramente universal.
Tracemos então, cronologicamente, o percurso exterior (que o interior é um segredo bem guardado pelos iniciados) da banda mais importante dos anos 70 e grande parte dos 80, adiando para a próxima semana a obra a solo de Hammill.
Tudo começou pela gravação de um single, «Telstar», com a participação de um tal Chris Judge-Smith que a dado momento se lembrou que o gerador de Van Der Graaf daria um nome engraçado para uma banda. E foi já com esta designação que 1969 viu surgir timidamente no mercado discográfico um álbum estranhamente intitulado «The Aerosol Grey Machine», integrando uma série de canções deixando já antever o génio poético do então adolescente Peter Hammill e ostentando os germes do futuro som Van Der Graaf. É contudo com o álbum seguinte, «The Least We Can Do is Wave to Each Other», de 1970, que se dá a grande explosão. As canções de Hammill alternam o lirismo mais intimista com a vertigem das imensidões cósmicas. «After the Flood», o tema mais longo, cumpre fielmente a fundamental regra alquímica que refere ser «o que está em baixo igual ao que está em cima», o microcosmos humano refletindo, à sua própria escala, a imensidão e constelações do Espaço exterior. Depois do dilúvio o que resta? É sobre ruínas calcinadas que Hammill inicia o caminho de Santiago. O peregrino iniciava a demanda do seu Graal. «Refugees» é o imenso adeus, canção definitiva da solidão compartilhada; quem verdadeiramente a conhece jamais a esquecerá.
A aventura prossegue com «H to He, Who am the only one». Estamos no domínio da física atómica ou da psicologia patológica. Hidrogénio para o Hélio ou para ele que sou o único? Somos o anjo ou o demónio? – pergunta Hammill em «Killer», brilhante dissertação sobre as forças antagónicas e sobre-humanas que nos movem e animam. Em «House with no Door» a chuva cai perpetuamente e é sempre de noite. «Lost» dança e canta o reencontro, o eterno «I love you» ganhando a força do desespero apocalíptico. «H to He» é a primeira de uma longa sequência de obras-primas.
Chegados ao ano de 1971 deparamos com o marco incontornável que é «Pawn Hearts», para muitos o melhor álbum de sempre da música popular. Três temas: «Man-Erg», «Lemmings» e «A Plague of Lighthouse Keepers», este último elevando-se às alturas do sublime. Não há palavras que o definam. Hammill, Banton, Jackson e Evans, quarteto essencial dos Van Der Graaf, alcançaram aqui a perfeição. Hammill, reconhecendo ser impossível ir mais longe nesta direção, encerra a 1.ª fase do grupo e parte para a sua odisseia a solo. Para trás ficavam a música e as palavras ora gritadas ora sussurradas por aquele que é já hoje considerado como um dos maiores poetas vivos da língua inglesa. Refira-se ainda a presença nestes dois últimos álbuns do guitarrista e seu amigo de sempre, Robert Fripp.
1975 assinala o ano da ressurreição. Os Van Der Graaf ressurgem em «Godbluff» com os mesmos músicos e uma nova sonoridade. O som é agora mais direto e abrasivo, aberto a improvisações «jazzy». O que de algum modo se perde em subtileza, sobra em energia. Os teclados de Hugh Banton, o sax de David Jackson e a batida dura de Guy Evans ganham autonomia, construindo uma barragem sonora demolidora.
«Still Life», do ano seguinte, leva ainda mais longe as premissas enunciadas no álbum anterior. O som torna-se selvagem, as palavras de Hammill explodem literalmente, a paixão e o ódio confundem-se na exaltação dos sentidos, como em «La Rossa», confrontação definitiva com a Mulher Absoluta, encenação vertiginosa da Morte e do Amor.
A 2.ª fase do grupo completa-se com «World Record» ainda de 76. É o álbum mais despojado e elétrico, girando como sempre em volta das obsessões existenciais de Hammill. A guitarra torna-se a sua única e derradeira amiga, chorando e gemendo no grandioso blues branco de «Meurglyss III», longa e comovente despedida do mundo exterior.
Os Van Der Graaf deixam de ser Generator e gravam ainda «The Quiet Zone/The Pleasure Dome», editado em 77. Banton e Jackson, peças fundamentais no som da banda, são substituídos pelo filho pródigo Nic Potter que fizera parte da formação inicial, no baixo, e o violinista Graham Smith, vindo dos String Driven Thing. O som ressente-se das mudanças, restando a magia e energia dos poemas de Hammill. É ainda editado o duplo ao vivo «Vital», registando para a posteridade as derradeiras prestações ao vivo do grupo. Peter Hammill estava definitivamente livre para encetar nova fase na sua carreira. Para a semana fica prometida a história das suas posteriores aventuras.



«La Rossa»: O corpo feminino suspenso no vazio projeta-se doidamente…
…Para o alto, em conclusões de véus e Alma. Noiva de sangue e Lua, prometida de ninguém

Gong – “Gnomo – A Desbunda Cósmica” (valores selados | blitz | dossier | artigo de opinião)

BLITZ 24 OUTUBRO 1989 >> Valores Selados


GNOMO
A DESBUNDA CÓSMICA



GONG é o planeta da folia. Os seus habitantes, os Pot Head Pixies, viajam através do Universo dentro de bules de chá. É de um destes bules, algures nas imensidões cósmicas, que a RÁDIO GNOMO INVISÍVEL emite telepaticamente mensagens subliminares para todo o Cosmos. Às cinco da tarde, conseguem apanhar-se em FM.
A referida estação, presumivelmente pirata e talvez por isso mesmo em constante deriva pelo espaço, fugida às autoridades galáticas, vem por mero acaso encalhar no planeta Terra. A partir daqui é o caos, a loucura desenfreada, Dada, chá, cabeças a voar. Gong é o resultado das lucubrações mentais de Daevid Allen, um australiano que um dia se viu impossibilitado de permanecer em Londres por ter caducado o seu visto de cidadão estrangeiro. Nessa altura, já lá vão 21 aninhos, em plena época hippie, fazia parte de um grupo que então despontava na cena alternativa inglesa de Canterbury: os Soft Machine, ao lado de rapazes como Robert Wyatt, Mike Ratledge e Hugh Hopper. Despeitado, saiu, atravessou o canal e assentou praça na vizinha Espanha. Foi substituído nos Softs por outro louco, Kevin Ayers, que também abandonou o grupo e veio para Espanha. Espanha, um país de loucos onde vêm parar os filhos preteridos de Sua Majestade.
Daevid enlouquece de vez e forma os Gong. Juntaram-se-lhe os também lunáticos Didier Malherbe (sax, flauta), Christian Tritch (baixo), Laurie Allan e Pip Pyle que mais tarde viria a fazer parte dos Caravan e Hatfield and the North, ambos na bateria e a vocalista Gilli Smyth. Charles Hayward (muito mais tarde nos This Heat) fazia uma perninha de vez em quando, ainda na bateria.
Neste período inicial gravaram três álbuns: «Magick Brother, Mystic Sister» de 69, que, segundo Daevid Allen, nunca existiu. Talvez. Contudo eu ouvi-o e gostei. Alucinação? Já mais reais são os dois seguintes: «Continental Circus» de 71, para um documentário sobre corridas de motas e «Camembert Electrique», do mesmo ano, capaz de fazer fundir os fusíveis aos mais atinados.
Entretanto assinam previsivelmente contrato com a Virgin, para a qual gravam de enfiada as três obras-primas que formam a trilogia «Radio Gnome Invisible», «The Flying Teapot» e «Angel’s Egg» ambos de 73 e «You» de 74. Por esta altura faziam parte do grupo dois músicos essenciais na definição do melhor som dos Gong: Steve Hillage (guitarra) e Tim Blake (eletrónica e teclas).
Estes três álbuns são o desatino total. Os músicos adquiriram personalidades demenciais: Allen era Zero the Hero ou Dingo Virgin, Didier Malherebe, Bloomdido Bad de Grasse, Gilli Smyth, a deusa da Lua, intitulava-se Shakti Yoni e por aí fora. A música era uma mescla inspirada de jazz experimental com a canção ultra-melodiosa, à boa maneira do som Canterbury, mais eletrónica planante (nesta época não podia faltar) e nonsense nonstop. O planeta Gong rebentava de riso e de boa música. Os seus habitantes perdidos em desbundas de freaks funcionando em galáxias alternativas.
Aos poucos a confusão vai atingindo níveis incontroláveis. Saem e entram constantemente novos músicos. É a grande salganhada. Sem saberem bem como, Gilli Smyth, Steve Hillage, Tim Blake e o próprio Allen dão por si fora do grupo. Quem se vai aproveitando desta confusão é Pierre Moerlen, o virtuoso percussionista erudito vindo das Percussões de Strasbourg, trazendo consigo do mesmo grupo Mireille Bauer e assenhoreando-se progressivamente da orientação musical dos Gong que aos poucos se vão tornando num mero grupo de jazz-rock. «Shamal», de 75, é a despedida do humor, do ecletismo e, sobretudo, da inspiração e originalidade anteriores. O álbum seguinte, «Gazeuze», de 76, reduz-se às exibições pirotécnicas dos percussionistas que, na altura, eram já quatro; para além de Moerlen e Bauer, tinham entrado o irmão do primeiro, Benoit e mais um virtuoso, Mino Cinélu, atualmente nos Weather Report. De qualquer modo é um regalo escutar os rendilhados cristalinos traçados pelo vibrafone e pelas marimbas de Pierre Moerlen e companhia. Por vezes ainda contavam com a participação de mais um baterista, Bill Bruford, nas atuações ao vivo. Devia ser bonito.
Em 77 os Gong, já indignos do seu passado, gravam dois duplos: «Gong Live» e o irónica e adequadamente intitulado «Gong est mort». É um facto. Os Gong, sem o seu principal mentor espiritual, há muito que estavam mortos. Assinava-se pois a certidão de óbito. Ainda chega a ser editado, em 78, «Expresso II» de uma vulgaridade atroz. A partir daí passava a existir o Pierre Moerlen’s Gong, designação mais correta para um projeto que já nada tinha a ver com o original.
Allen, Hillage, sobretudo estes dois, Malherbe, Blake e Smyth tinham entretanto já gravado dezenas de álbuns a solo, alguns deles bastante bons, como «L» de Steve Hillage, «Crystal Machine» de Tim Blake e quase todos os de Daevid Allen.
Os Gong, talvez por serem tão personalizados, tanto musical como conceptualmente, não deixaram descendência. Permanecerão para sempre um mundo à parte. A Rádio Gnomo Invisível continua a rir e a emitir.



«o bule voador»
Alerta B.V.N.I.s (Bules Voadores Não Identificados) invadem a Terra durante o chá das cinco. A bruxa Yoni e as misteriosas frequências emitidas pela máquina de cristal dão cabo da cabeça dos humanos. Só Zero (não o recruta) os poderá salvar



«o ovo do anjo»
O próprio Zero fica sem cabeça que voa até à Lua ou ainda mais acima, até ao paraíso dos orgasmos perpétuos. Zero é um anjo ou um demónio? Mais acima, ainda mais para cima. O anjo és tu. Agarra o ovo do Céu

«Tu»
O templo interior é de cristal. Aqui vive o grande construtor. Aqui vives tu. No palácio da eterna sabedoria são-te revelados os derradeiros mistérios. Estás salvo. Salvo pelo GONG

Duplex Longa + Criterium – “Obliquidades” (concerto)

BLITZ 17 OUTUBRO 1989

OBLIQUIDADES

O concerto dos Duplex Longa/Criterium, designado «Projetos Oblíquos», foi a primeira de uma série de iniciativas que o Instituto Franco-Português se propõe levar a cabo nos tempos mais próximos, visando a divulgação das propostas mais recentes e inovadoras da música moderna portuguesa.
Este primeiro espetáculo saldou-se por um semi-êxito. O público afluiu em número razoável. O som estava bom. Os atrasos de horário não foram exasperantes. Em termos exclusivamente musicais é que deixou muito a desejar. Para a maioria dos presentes não foi esse o caso, o mesmo é dizer que o público gostou, aplaudiu delirantemente sobretudo os Duplex Longa, grupo sobre o qual recaíam as maiores expetativas. Esta discrepância assenta numa série de equívocos que procurarei esclarecer.
Relatemos então o que se passou. Os Duplex Longa são dois, melhor, três, se contarmos com o computador de ritmos, disposto no centro do palco, comandando quase sempre as operações. Os dois humanos são Carlos Raimundo, no baixo, e Mário Resende, no violino, tendo ambos a seu cargo as programações rítmicas. O grupo vinha referenciado como praticante de um som fazendo a ponte entre os Tuxedomoon e os Penguin Cafe Orchestra.
O esquema inicial da sua prestação foi invariavelmente a alternância de temas rítmicos com outros em que o computador se calava, permitindo aos dois instrumentistas, sobretudo ao violinista, exibirem os seus talentos. E aqui o primeiro equívoco. O tipo de música que os Duplex se propõem fazer exige um virtuosismo que os seus membros estão longe de possuir. Não é que toquem mal, mas não possuem ainda a fluência instrumental, o à-vontade que lhes permita libertarem-se da rigidez que por ora ostentam. Era notório o esforço que por vezes faziam para conseguir acompanhar o ritmo computorizado, quando seria suposto tocarem com ou sobre os esquemas rítmicos de base. Por outro lado, os Duplex estão, por enquanto, longe de serem originais e sabe-se quanto a originalidade conta no campo musical que escolheram. Para já limitam-se a alinhavar influências de etnias várias, como a árabe ou eslava num contexto classizante, não indo muito além do percorrer de escalas resultando num som bonitinho e imediatamente reconhecível. Nenhum risco ou ponta de audácia nas soluções melódicas e harmónicas. Jogam para já num exotismo de pacotilha e no facto de se movimentarem num campo que, em termos nacionais, se apresenta praticamente virgem. Em terra de cegos…
Mas o pior de tudo foi o final, quando os Duplex se afundaram no seu próprio pretensiosismo. Subiram ao palco uns instrumentistas «da clássica», com instrumentos «a sério» como o violoncelo, a flauta e o trompete e, finalmente, um coro de senhoras, todos juntos para um final pretensamente grandioso. O resultado foi assistirmos a uma aula de alunos do Conservatório, com todos os participantes desunhando-se para não desafinarem ou saírem do compasso. Os Duplex Longa são, por enquanto, apenas uma boa ideia. Podem ir longe se souberem admitir e até mesmo tirar vantagem das suas próprias limitações e se se preocuparem menos em «mostrar que também sabem fazer» e mais com a criação de uma linguagem própria, sob risco de não passarem de um puro exercício de estilo. Ah, é verdade, na 1.ª parte tocaram os Criterium, variante nacional n.º 6348 dos Joy Division.
Aguardam-se futuras iniciativas, com propostas menos certinhas e mais desestabilizadoras.