Arquivo mensal: Fevereiro 2024

Peter Apfelbaum & The Hieroglyphics Ensemble – “Joyloyji Brightness” + Jai Uttal – “Footprints”

pop rock >> quarta-feira >> 19.05.1993


AS CIFRAS DO SWING

PETER APFELBAUM & THE HIEROGLYPHICS ENSEMBLE
Joyloyji Brightness (9)
CD …, import. Contraverso
JAI UTTAL
Footprints (8)
CD …, import. Contraverso



É quando se está nas tintas para o jazz que surge o melhor jazz. Longe do diferendo que opõe os apologistas da morte desta linguagem aos guardiões da ortodoxia, mais intransigente, Peter Apfelbaum, um “rookie” compositor, saxofonista e teclista cheio de técnica e de talento, assina um álbum notável, onde transporta o idioma e a sensibilidade de um “jazzman” para terrenos em que a surpresa e o convívio com margens que lhe são exteriores acontecem a cada momento, “Jodoji Brightness”, para além de um festival de técnica dos 16 elementos que compõem a banda dos hieróglifos, com destaque para os solistas, prova que o termo “fusão” pode fazer sentido e ajudar o jazz a percorrer a terra de ninguém que actualmente, se diz que atravessa.
A música africana, as ragas indianas e o rock surgem aqui como elementos perfeitamente integrados e assimilados, dando continuação a um trabalho iniciado por Apfelbaum, anteriormente no seio dos Kamikaze Ground Crew e, já com a sua própria banda, em “Signo f Life”. Descendentes em linha indirecta da experiência pioneira dos Art Ensemble of Chicago, os Hieroglyphics Ensemble referem, não tanto a influência, mas a inspiração do saxofonista compositor Jim Pepper e do percussionista William “Beaver” Harris.
Uma vista de olhos por panoramas mais recentes permite encontrar um parentesco nas concepções “free” para “big band” de câmara dos New York Jazz Composers Orchestra. Acima de tudo, a música de Peter Apfelbaum ostenta orgulhosamente algo que o jazz por vezes tende a esquecer: o “swing”, esse senhor que nasce de dentro e transfigura o compasso, cuja presença enfeitiçante numa faixa como “The band that signed the paper” (com um texto de Dylan Thomas) faz o auditor rebolar de prazer. Para quem, pelo contrário, preferir assestar a lupa sobre os pormenores técnicos da execução de Apfelbaum, basta escutar “The glow” e deixar-se derreter nas vagas envolventes do sax tenor.
Jai Uttal figura com alguma discrição na banda do saxofonista. Façamos então incidir o foco de atenção no seu trabalho a solo, “Footprints” (já prolongado num segundo e mais comercial “Monkey”), no qual este norte-americano de origem indiana persegue um outro tipo de ideal: o casamento dos sons urbanos da grande metrópole com a atitude contemplativa e a instrumentação características da Índia tradicional. Deste modo, a guitarra, os “samplers” e sintetizadores conjugam-se com as vocalizações de Lakshmi Shankar, o “dotar”, o “swaramendala”, o “gubgubbi” e outras fontes sonoras de designações coloridas, seja na adaptação para “new music” do tema popular “Raghupati”, seja na beatitude “new age” de “Matzoub” que o trompete de Don Cherry dilacera. O espírito dos Himalaias pairando nos céus da “big apple”.

Heiner Goebbels – “Shadow / Landscape With Argonauts2

pop rock >> quarta-feira >> 19.05.1993


Heiner Goebbels
Shadow / Landscape With Argonauts
CD ECM, distri. Dargil



Heiner Goebbels gravou há alguns anos, na editora ECM, as estranhas aventuras de “Um homem no elevador”, sobre “libreto” do seu habitual colaborador Heiner Müller (que recentemente trabalhou com um dos elementos dos Einsturzende Neubauten, na ópera “Hamplet Maschinen”).
Neste seu novo trabalho, o antigo companheiro do saxofonista Alfred Harth mantém-se fiel ao estilo de “Der Mann im Fahrstuhl”, alternando numa única sequência, separada por indezes, textos declamados (de Heiner Müller e do escritor inglês Edgar Allan Poe), sobre uma base musical acusmática, com temas instrumentais / vocalizados, bastante mais acessíveis que os do elevador.
O assunto gira de novo em torno de um pesadelo, dos muitos que Poe idealizou e que os apontamentos de Müller reenviam, de um contexto simbolista, para uma cacofonia de referências disparadas ao caos da sociedade actual. Curioso, o núcleo de músicos convidados: René Lussier (Conventum, guitarrista-mor canadiano da Recommended e das Ambiances Magnétiques, parceiro habitual de Fred Frith), Charles Hayward (percussionista e conceptualista, This Heat, The Camberwell Now), Christos Govetas, nos sopros, e a cantora árabe Sussan Deihim (das “Desert Equations”, na Made to Measure), cujas inflexões vocais conduzem a música pela trela. Algures entre os mistérios proibidos de “Deadly Weapons” (Beresford, Zorn, etc.) e as gramáticas mais dançáveis de “Sahara Blue” (Hector Zazou) e dos Minimal Compact, estes argonautas da sombra poderiam mesmo assim ter navegado mais longe. (7)

Beautiful People – “If 60’s Were 90’s”

pop rock >> quarta-feira >> 19.05.1993


Beautiful People
If 60’s Were 90’s
CD Castle, distri. Megamúsica



Esqueça-se a capa, o título, o nome da banda e o “lettering” (deliberadamente?) pirosos. Com “If 60’s were 90’s”, os Beautiful People fizeram o novo disco de Jimi Hendrix. Confusos? É caso para tal. A ideia desta banda desconhecida nem sequer é muito original, mas resultou. Para os Beautiful People, o final dos anos 80, o “acid houde”, as festas e as roupas coloridas não passaram de uma réplica dos anos 60 e do psicadelismo. E Jimi Hendrix é o seu ídolo. Ocorreu-lhes então samplar a guitarra e as vozes do mestre, dos temas mais conhecidos e algums raridades, acrescentar-lhes uma batida electrónica, mais um baixo e umas guitarras, e arranjar títulos novos para as canções. Que acabam por soar de facto a novas canções do guitarrista negro, imaginando que este as faria assim se fosse vivo nos anos 90. Um gráfico assinala as “pilhagens” efectuadas caso a caso, entre as quais se contam a gravação de uma festa, com Frank Zappa metido no meio dos convidados, a cantar “Lucy in the sky with diamonds”, e apresentações de concertos ao vivo, num jogo de espelhos que, não sem alguma surpresa, funciona em termos de coerência e ainda por cima tem piada. O próprio Hendrix escrevera, premonitoriamente, um tema intitulado “If 6 was 9”. Os Beautiful People limitaram-se a agarrar a “deixa”. (6)