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Manuel Freire, Francisco Fanhais e Pedro Barroso – “Freire, Fanhais e Barroso No S. Luiz – Encontro De Amigos” (concerto / s. luiz)

Cultura >> Quinta-Feira, 03.12.1992


Freire, Fanhais e Barroso No S. Luiz
Encontro De Amigos


AMIGOS, AMIGOS, negócios à parte, costuma-se dizer. Não é nem vai ser o caso de Manuel Freire, Francisco Fanhais e Pedro Barroso, amigos de longas lutas contra o antigo regime, em forma de canções. Ainda há quem se lembre que houve Abril, um certo Abril, e que antes era difícil dizer o que havia a dizer. Três amigos voltam a encontrar-se, a relembrar lutas passadas, a inventar, talvez, lutas futuras. Manuel Freire, Francisco Fanhais e Pedro Barroso, num “Encontro de Amigos” a realizar hoje e amanhã, em Lisboa, no Teatro Municipal S. Luiz, às 21h30, e dia 10 no Porto, no Teatro Rivoli, à mesma hora.
Acompanham os três cantores, em palco, Jorge Gonçalves (acordeão, baixo e piano), Pedro Fragoso (guitarra, cavaquinho, piano, guitarra portuguesa, sintetizador, viola campaniça e braguesa) e Luís Sá-Pessoa (violoncelo). O espectáculo inclui textos e música dos próprios, de António Gedeão, Manuel Alegre, Viniciius de Morais, Rebordão Navarro, José Fanha, Martinho Marques, José Afonso, António Cabral, Sophia de Mello Breyner, Sebastião da Gama, Reinaldo Ferrreira, Adriano Correia de Oliveira, Rosália de Castro, José Niza e António Portugal. Apoiam o “encontro”, as Câmaras Municipais de Lisboa e Porto, a RTC – Radiotelevisão Comercial e RDP – Antena 1, em colaboração com a MC – Mundo da Canção.
Francisco Fanhais abandonou a batina e o seminário para se dedicar às baladas de intervenção. Ainda na qualidade de padre e baladeiro actuou no mítico “Zip Zip”, em 1969, fazendo na altura parte de um grupo de cantores que usavam “a poesia, a voz e a viola para dinamizar inúmeras e acidentadas sessões de resistência ao Estado Novo”. Em 1971 foi com José Afonso para Paris, para a “resistência”. Cinco dias depois da revolução dos cravos regressou a Portugal onde, desde então, tem tocado “um pouco por todo o lado”. Mas os tempos não estão para revoluções. O ex-padre resume a sua vida nos seguintes termos: “Dois filhos, dois discos, muitas árvores, muitos amigos”.
“Não há machado que corte a raiz ao pensamento porque é livre como o vento…”. Quem nunca, numa ou noutra ocasião, deu por si a cantarolar estes versos? Cantou-os Manuel Freire, outro lutador, para quem a música sempre foi indissociável da crítica intervencionista. Foi ele quem disse uma vez: “Eu canto textos de poetas especialmente porque me sinto um poeta frustrado”. Esteve, como os outros, em Paris (ah, Paris, Paris, que bem lá se estava, longe dos fascistas, nos boulevards e nas tertúlias do Quartier Latin…), onde conheceu Luís Cília (grande músico) e José Mário Branco. Também foi ao “Zip Zip”, claro, e cantou a “Pedra Filosofal”. Enfim, o percurso habitual, problemas com a censura, o 25 de Abril surgido um pouco a despropósito, a obrigar outros sons e outras palavras.
A mensagem de Pedro Barroso é a mais hiperbólica: “… Se me perguntarem hoje onde estou, para onde vou e de que me alimento, a resposta surge – ‘longe daqui’. E tenho de ir buscar diariamente à nossa história a alma vertical para poder continuar. E ao sonho impossível da doce e laboriosa utopia do São Nunca”. Parece ser uma boa mensagem, sobretudo no que diz respeito à alimentação, a julgar pelo bom e nutrido aspecto que o cantor aparenta. “Zip Zip”, “baladas a desempenharem importante papel de consciencialização e mobilização”, actor numa peça de Mishima e campanhas de dinamização cultural do Movimento das Forças Armadas fazem parte do seu currículo. Nele o mais interessante é o recurso à música tradicional, às chulas, corridinhos e malhões, embora depois diga coisas do estilo “Tenho a estrada suficiente para emitir opinião do ponto de vista étnico-social: o cantor da eira aparece, nos recitais, cruzado com devaneios intimistas que falam de mim”. Que falam dele. É um andarilho que evoca nas suas canções os seus temas de sempre – “a mulher, o mar, a natureza dos tipos humanos, a solidariedade, o amor e a portucalidade”.
São três amigos e vão fazer de conta que nada mudou.

Altan – “Harvest Storm”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 02.12.1992

COLHEITA DE OURO


Altan
Harvest Storm
CD Green Linnet, import.



Os Altan são o grupo do momento da cena Folk na Irlanda. Ao quarto álbum, depois de “Altan”, “Horse with a Heart” e “The Red Crow”, todos distribuídos em Portugal, a banda sediada no condado de Donegal tornou-se a menina querida da “Folk Roots”, que nela vê uma digna sucessora de lendas como os Clannad (da fase anterior à “new age folk”), Bothy Band e De Danann. Mairéad Ní Mhaonaigh ocupa o centro das operações. No violino, de que é exímia executante, e nas vocalizações em gaélico, que entroncam na melhor tradição de uma região que à folk deu já nomes como Triona e Micheál O’Dhomnaill, a par dos “traidores” Enya e Clannad.
“Harvest Storm” é o puro gozo de música que aprendeu a crescer e a respirar no seio de sumidades – James Byrne, Tommy Peoples ou Connall O’Donnell, entre outros – em instrumentais urdidos por três violinos (Mairéad, Paul O’Shaughnessy e Ciaran Tourish), em diálogo de espantosa fluidez e rigor contrapontístico com a flauta mágica de Frankie Kennedy (um virtuose à altura de Frankie Gavin, dos De Danann, ou Michael Tubridy dos Chieftains) e as cordas dedilhadas de Mark Kelly e Ciaran Curran. Sem esquecer a contribuição de convidados de nomeada: Donnal Lunny, nos teclados, e Dáithi Sproule (Buttons & Bows) na guitarra.
Inseridas numa linha próxima dos Bothy Band, as baladas em gaélico dão a conhecer o lado melódico dos Altan, sobressaindo as intricadas harmonias vocais de “Dónal Agus mórag”, uma canção de casamento da ilha de Rathlin, e a sobreposição de voz e didgeridoo em “Sí do mhaimeo Í”. O melhor disco de música tradicional irlandesa do ano. (9)