Arquivo mensal: Junho 2020

Chet Atkins & Jerry Reid – “Sneakin’ Around”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 06.05.1992


Chet Atkins & Jerry Reid
Sneakin’ Around
LP / CD, Columbia, distri. Sony Music



Que Chet Atkins tem um passado ninguém duvida. O homem é uma espécie de avô da “country music”. Tocou com Elvis Presley e Hank Williams e ajudou a definir o denominado “Nashville Sound”. Aconselha-se então a audição desse passado e de álbuns como “Stay Tuned” ou “Chester & Lester”.
“Sneakin’ Around”, ao contrário do anterior “Neck and Neck” (gravado de parceria com Mark Knopfler) não faz jus a esse passado. A receita “country” com um cheirinho a jazz dos anos 50 regado com “chantilly”, e contando de novo com a presença de Knopfler num par de temas, resulta aqui em enjoo “mainstream”, que nem a técnica de guitarra – irrepreensível – de Atkins e de Reed (“toca guitarra como Ray Charles tocava piano”, diz o amigo Chet) consegue tornar apetecível.
Interessantes o ambiente muito “varieté” de “Vaudeville daze” e a evocação dos grandes “westerns” de antanho do título-tema, ao estilo de “Era uma vez na América”, com a harmónica solitária da praxe. Desce-se ao execrável em “Cajun stripper”, em que o dito “cajun” se despe sobre uma batida “disco”. Shit Atkins, não! (5)

Audeo, Rec Rec, Materiali Sonori – “Audioestetas”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 06.05.1992


AUDIOESTETAS



Audeo-Audiovisuais, Publicações e Moda é uma nova empresa portuguesa “dirigida à importação, promoção e comercialização de música com novas tendências estéticas e material afim” – ou, pelo menos, assim a definem os seus responsáveis. E definem bem. Com sede no Porto, a jovem firma assegurou desde já a “importação oficial” dos catálogos Rec Rec e Materiali Sonori. Quanto ao “material afim”, também há resultados palpáveis, através da edição recente de “Tristesse”, do compositor e guitarrista argentino Luis Rizzo Cuarteto, um álbum de tangos e “milongas”, ou da renovação, na linha de Astor Piazzola. “Tristesse” aborda temas tristes e poéticos, como “um casamento falhado” ou “a chegada dos ventos frios de Outouno”. A formação é composta, para além de Luis Rizzo, por César Stroscio (bandoneão), Adrian Politi (guitarra) e Carlos Carlsen (violoncelo e baixo), contando ainda com a participação da cantora Susanna Rizzi.
Depois é todo o catálogo Rec Rec e as suas inúmeras jóias, que volta a estar à nossa disposição (a Contraverso há muito que importa discos desta editora, bem como da Materiali Sonori), com destaque par algumas das mais brilhantes: “Paradise of Replica”, dos After Dinner, “Gravity” e “Speechless”, de Fred Frith, e “Dropera”, deste músico com Derdinand Richard, “Escape From Noise”, dos Negativland, “Voix de Surface”, dos Normal, “Learn to Talk / The Country of Blinds”, dos Skeleton Crew.
No capítulo das novidades já editadas ou a editar proximamente, encontram-se “Differently Desperate”, dos Hat Shoes, “In a Certain Light We All Appear Green”, dos No Secrets in the Family”, “Helter Skelter”, dos Que D’La Gueule, “Death of the Prophet”, de Sabreen, “Tier der Nacht”, do grupo homónimo, “Domina Dea”, dos Unknown Mix, e “The Principle of Moments”, dos Romeo Vendrame.
Da Materiali Sonori – editora italiana que, para além dos seus próprio lançamentos, faz a prensagem local de selos como Les Disques du Crepuscule e de alguns nomes pouco conhecidos da cena experimental italiana -, também há muitos e bons discos por onde escolher. Nas edições próprias, estão “Half Out”, de Steven Brown e Blaine Reininger, “Waterplay”, dos Cudu, “Dry”, dos Durutti Column, “Greetings 9 + Premonition 11”, dos Legendary Pink Dots, “Tem Years in one Night Live”, dos Tuxedomoon, e “Piano Piano”, de Hans-Joachim Roedelius. Muito especiais são “Live Ghosts” e “Magic Music”, dos Third Ear Band – banda inglesa dos anos 60 e 70, pioneira do que, anos mais tarde, se viria a chamar “world music” – e a diversão pop de um dos seus elementos, Glen Sweeney, com o título de “Prophecies”.
No segundo grupo, incluem-se “East on Fire”, dos Foreign Affair, e parte da discografia de Wim Mertens (2Maximizing The Audience”, “Struggle For Pleasure”, “Vergessen” e os recentes “Motives for Writing” e “Strategie de la Rupture”). Do terceiro naipe fazem parte, entre outros, “Port Faunine”, dos Il Gran Teatro Amaro, “Dunarobba”, dos Militia (com Blaine Reininger e o ex-violinista dos Amon Düü II, Chris Karrer) e “Syriarise”, de Alturo Stalteri.
A Audeo não tenciona ficar por aqui e diz-se pronta a negociar com outras companhias discográficas. Para já, não está mal.

Sérgio Godinho, Os Tubarões, Rádio Macau – “Comemorações Do 25 De Abril Em Concerto Ao Ar Livre Em Belém – Qual Revolução?”

Cultura >> Domingo, 26.04.1992

Comemorações Do 25 De Abril Em Concerto Ao Ar Livre Em Belém
Qual Revolução?

Eram jovens, na maioria rondando os quinze, vinte anos de idade. A Revolução e o 25 de Abril dizem-lhes tanto como a nós a guerra dos Cem Anos. Para eles, não faz sentido falar de um “antes” e de um “depois”. Foram a Belém ouvir música e beber cerveja. Os mais velhos esperaram para ouvir Sérgio Godinho e pela festa que não houve.



Para os mais jovens a revolução resume-se a uma data nos compêndios de História. Quando muito, sabem que os pais faltaram às aulas nesse dia. Ou que houve cravos vermelhos na ponta de espingardas, uma canção na rádio e um tal Marcelo que foi recambiado para o Brasil. Aos 15 anos, não se quer saber de cravos nem do Brasil e muito menos do Marcelo. Aos 15 anos, é preciso guardar todas as energias para as revoluções que assomam no coração em cada cinco minutos. Vai-se a Belém para estar com ela ou com ele, ouvir música e curtir.
Na noite de sexta para sábado, no relvado imenso em frente à torre de Belém, dava ideia de que ninguém queria ouvir falar do 25 de Abril. Anunciavam-se festejos, uma celebração, enfim, esperava-se qualquer coisa que tivesse a ver com “liberdade” e “democracia”, que nos lembrasse que o “povo unido jamais será vencido”. Nada disso aconteceu. Pelo palco, feericamente iluminado, passaram os Tubarões de Cabo Verde, os Rádio Macau e Sérgio Godinho. Sem uma referência à data, uma palavra de ordem, nada. Não se gritou contra o fascismo. O rio mesmo ali ao lado e nenhuma gaivota voava, voava… A reacção não passará? Já passou. E em 18 anos de democracia, “o pior sistema de todos com excepção de todos os outros”, como diz a canção de Sérgio Godinho, os portugueses passaram-se.

“Quero Lá Saber!”

Os Tubarões deram tudo por tudo para animar e “avisar a malta”. Sem grandes resultados, diga-se. Catadupas de ritmos africanos, uma iluminação de palco eficaz e uma som que dava todas as hipóteses aos músicos não foram suficientes para entusiasmar os milhares de pessoas espalhadas pelo relvado que preferiram passear ao longo do Tejo ou então – alternativa muito do agrado dos mais novos – a renovação periódica e sistemática das provisões alcoólicas. Os basbaques optaram por especar diante da Torre e abrir a boca de espanto diante dos bonecos de Vasco da Gama, Camões ou da Cruz de Cristo projectados em feixes “laser” contra as paredes do monumento.
Xana e os Rádio Macau vieram a seguir. A cantora surgiu de “top” e calças negras por baixo de um casaco vermelho, numa das poucas alusões à cor de Abril. Os Rádio Macau também não entusiasmaram. Poucos minutos depois da meia-noite aconteceu o inesperado, quando acabados de entrar na data histórica, público e banda entoaram o refrão “quero lá saber”.
Esperava-se que Sérgio Godinho pudesse salvar a noite, mas tal não aconteceu. O único dos músicos presentes com um passado de luta contra a censura e de clandestinidade passou cheio de pressa pelo palco de Belém. Disse “olá”, um “hoje é 25 de Abril” sem outros comentários e “boa noite, obrigado”. Quem quisesse “mensagem”, que procurasse nas letras das canções: “Salão de Festas”, “Arranja-me um emprego”, “Aos amores”, “Coro das velhas”, “Alice no país dos matraquilhos”, “Etelvina”, “Os demónios de Alcácer-Quibir”, servidos a preceito pelo cantor e pela banda num registo popular que não logrou o efeito de festa pretendido. À distância todo esse passado, já pouco mais consegue provocar que um “brilhozinho nos olhos”.
Para a semana é o 1º de Maio e, com sorte, talvez Torres Couto disserte sobre os Descobrimentos. E assim “cá se vai andando, com a cabeça entre as orelhas”.