Arquivo mensal: Maio 2020

Matto Congrio, Maddy Prior Band, Bailia Das Frores, Llan De Cubel, Bleizi Ruz, De Danann “Terceira Edição Do Intercéltico Começa Hoje No Porto – Pelo Caminho Das Estrelas”

Cultura >> Quinta-Feira, 02.04.1992

Terceira Edição Do Intercéltico Começa Hoje No Porto
Pelo Caminho Das Estrelas

Durante três dias, a música folk vai trazer de volta a animação à cidade do Porto, com gaitas-de-foles, violinos e bombardas. É o Festival Intercéltico, na sua terceira edição, tornado “ex-libris” cultural da capital nortenha. “Estes celtas são loucos”, já dizia Obélix. Ao Porto vai-se pelas estrelas.



Ao contrário das duas anteriores edições, em que a programação incidiu em regiões específicas do mundo celta, casos da Galiza em 1990, e da Bretanha, em 1991, este ano o Intercéltico estende-se à Irlanda, Inglaterra, Bretanha, Astúrias, Galiza e Portugal, de maneira a, pela primeira vez, fazer jus à designação que ostenta. De Danann, Maddy Prior Band, Bleizi Ruz, Llan de Cubel, Matto Congrio e uma “bailia das frores” encenada por António Tentúgal são os nomes agendados.
Também o leque das chamadas actividades paralelas se alargou. A organização – da Mundo da Canção, numa iniciativa do pelouro da Cultura da Câmara Municipal do Porto – voltou a apostar numa política de enquadramento cultural do certame, que visa fomentar, de facto, e não ao sabor de oportunismos a reboque da moda, o gosto do público pela música tradicional.
Assim, desde segunda-feira e até sexta, funciona no teatro Rivoli, no Porto, um Curso de Aproximação à gaita galega, em regime de seminário aberto ao público, com a participação do gaiteiro D. Jesus Olimpio Giraldez Rio. Tempo dos jovens portugueses ganharem pulmão e soprarem com força nas gaitas. Nas gaitas alheias porque infelizmente as nossas desafinam.
Mas há outras coisas para aprender e entreter neste Intercéltico que dispensam a utilização da caixa toráxica. Por exemplo: uma exposição de instrumentos musicais (no CRAT – Centro Regional de Artes Tradicionais) e outra sobre o barco Rabelo (embarcação que figura no logotipo, criado pela primeira vez para o festival, por Tentúgal). Ou videoramas e diaporamas sobre as nações célticas, com música e paisagens a condizer. Para quem quiser comprar os discos e livros da praxe haverá uma banca bem recheada logo à entrada do Rivoli. E porque não adquirir um artefacto de inspiração céltica, construído por um artesão galego, digamos, o caldeirão de Panoramix, um saquinho com restos de Stonehenge ou uma miniatura da catedral de Santiago de Compostela.
Festa é festa e por isso não faltará a gastronomia. Fala-se à boca pequena numas queimadas galegas a realizar em local incerto. Os verdadeiros degustadores celtas poderão sempre seguir a pista pelo olfacto. “O que está em cima é como o que está em baixo.” Os caminhos do céu correspondem aos da terra. E aos do estômago.

caixa
GRUPOS INTERVENIENTES
Quinta-Feira, 2 de Abril
MATTO CONGRIO (Galiza)
A Galiza tradicional dá as mãos à pop, ao rock e á “salsa”. Os Matto Congrio não têm preconceitos. Carlos Nunez, líder e gaiteiro da banda, tem uma folha de serviços de se lhe tirar o chapéu: trabalhous com o grupo de gaitas “Xarabal” com o qual gravou a caixa (4 LPs) “Instrumentos Populares Galegos”, participou no duplo CD “Cornemuses en Europe” (gravação ao vivo com os melhores gaiteiros solistas da Europa, no festival da Cornualha, disponível por altura do Intercéltico), e gravou com os Chieftains a banda sonora de “A Ilha do Tesouro”. Os restantes Matto Congrio são Anxo Lois Pintos (gaita-de-foles, violino), Santiago Cribeiro (acordeão, teclados), Diego Bouzón (guitarras), Pancho Alvarez (baixo, bandolim) e Isaac Palacin (bateria, percussões).

MADDY PRIOR BAND (Inglaterra)
Esteve no Folk Tejo do ano passado onde as condições acústicas não perdoaram. Para Maddy Prior, vocalista dos Steeleye Span, “irmã” de June Tabor das Silly Sisters e intérprete de música antiga na Carnival Band, o regresso a Portugal constitui uma espécie de vingança. A sua voz justifica por si só toda a atenção, sejam quais forem os músicos acompanhantes, neste caso: Nick Holland (teclados), Richard Lee (contrabaixo), Mick Dyche (percussões) e Steve Anftee (guitarra). Discografia seleccionada: “Please to see the King”, “Tem Man Mo por Mr. Reservoir Butler Rides Again”, “Below the Salt” e “Parcel of Rogues” (todos com os Steeleye Span), “Summer Solstice”, “Folk Songs of The Olde England”, vols. 1&2, (com Tim Hart), “No More to the dance” (Silly Sisters), “A Tapestry of Carols” (Carnival Band).

Sexta-Feira, dia 3
BAILIA DAS FRORES (Portugal / Galiza)
Projecto de António Tentúgal, que utilizará todo o espaço do teatro Rivoli para recriar o ambiente e os mitos da Ibéria medieval. Cerimónia que girará à volta dos quatro elementos que ligam Portugal e a Galiza: a terra, o mar, a saudade e a língua. Com músicos dos Vai de Roda e alguns convidados especiais: a cantora Uxia (ex-na Lua), um gaiteiro galego, Paulo Marinho (Sétima Legião), três sanfonineiros portugueses (que equivalem a 100% do total nacional), cantadeiras, pauliteiros, palhaços, bugios e o mais que se verá. Discografia: “Vai de Roda”, “Terreiro das Bruxas”.

LLAN DE CUBEL (Astúrias)
Utilizando uma instrumentação exclusivamente acústica, o reportório dos Llan de Cubel inclui, para além do folclore asturiano, tradicionais da Irlanda, Escócia, Bretanha e País de Gales. Tocaram ao lado de Alan Stivell, Oskorri, Chieftains, Tannahill Weavers, Milladoiro e Capercaillie, entre outros. Formação composta por Jose Manuel Cano (guitarra), Guzmán Maqués (violino, bouzouki, voz), Elias Garcia (bouzouki, voz), Marcos Llope (flauta, tin whistle, voz) e Fonsu Mielgo (acordeão, tambor e gaita-de-foles asturianos, tin whistle, voz). Discografia: “Deva”, “Na Llende”.

Sábado, dia 4
BLEIZI RUZ (Bretanha)
Os Bleizi Ruz (lobos vermelhos) há 18 anos que animam as tradicionais “Fest noz” (à letra: festas de noite) da Bretanha. Celebraram o aniversário com um disco ao vivo, “En Concert”. Aliás, para estes bretões (“ils sont fous ces bretons”, como diria Obélix) todas as ocasiões são boas para celebrar. Por isso a sua música assimilou ao longo dos anos as influências irlandesas, galegas, balcânicas ou a “cajun” do Louisiana. Para dançar sempre, seja qual for a origem do ritmo. A vertente séria pode ser encontrada nos “kan há’ diskan” (cantos de resposta) em que são peritos. Cantados em bretão porque “essa é uma forma de se ser bretão”. Os lobos são Eric Liorzou (guitarra, bandolim, sintetizador, voz), Bem Creach (baixo) e Bernard Quillien (bombardas, flauta, gaita-de-foles, voz). Discografia selecionada: “Coz Liorzou”, “Klask ar Plac ‘h”, “Pell há Kichen”.

De Danann (Irlanda)
Banda lendária, do “folk revival” irlandês dos anos 70, ao lado dos Planxty e dos Bothy Band. Sobreviveram da formação original o flautista (violinista Frankie Gavin e Alec Finn (guitarra, bouzouki). Pelos De Danann passaram, ao longo de várias formações, grandes vocalistas femininas como Dolores Keane, Mary Black ou Maureen O’Connor, presentes as três no álbum “Song for Ireland”. No Porto a responsabilidade cabe a Eleanor Shanley. Completam a formação que actuará no Intercéltico Arty McGlynn (outro grande guitarrista), Colin Murphy (bodhran) e Aidan Coffey (acordeão). Discografia selecionada: “De Danann”, “Selected Jigs, Reels & Songs”, “A Song for Ireland”, “Ballroom”, “Anthem”.

Eugénia Melo E Castro – Eugénia Melo E Castro Comemora Com “Mel” Dez Anos De Carreira – ‘Tenho Uma Energia Que É Frenesim'”

Cultura >> Domingo, 29.03.1992


Eugénia Melo E Castro Comemora Com “Mel” Dez Anos De Carreira
“Tenho Uma Energia Que É Frenesim”


“Terra de Mel – 10 anos depois” assinala o regresso de Eugénia Melo e Castro aos palcos portugueses. Um espectáculo contido, de piano e voz, com Wagner Tiso e canções do princípio do século. “O amor é cego e vê”? Geninha não é cega: a SEC subsidia o recital. Longe vão os tempos da “maluca” que corria atrás dos seus ídolos.



“Terra de Mel – 10 anos depois” recupera o título do álbum de estreia da cantora ao mesmo tempo que comemora uma década de colaboração regular com o compositor e músico brasileiro Wagner Tiso, cujo novo álbum “Profissão: música”, foi considerado disco do ano pela Associação Brasileira de Críticos de Discos. Serão dois espectáculos reduzidos ao essencial, uma “coisa séria” como diz a cantora: dia 13, em Lisboa, no Teatro D. Maria II, e dia 15, no Porto, na Casa das Artes, ambos às 22h00. Um piano e uma voz em busca do paraíso perdido do princípio do século.
PÚBLICO – O formato piano / voz significa um regresso à essência das suas canções?
EUGÉNIA MELO E CASTRO – Exactamente. Um resumo muito forte. O uso exclusivo do piano e da voz retiram toda a grandiosidade dos arranjos que geralmente vestem uma canção. Além disso, fica-se mais exposto e há que encontrar um equilíbrio. Acho que um espectáculo de piano e voz se pode transformar numa coisa cansativa se for muito longo ou se as canções forem mal escolhidas. No meu caso vai durar cerca de uma hora. Sem convidados, sem nada. Será um recital super, super sério.
P. – Qual vai ser o reportório?
R. – Vão ser canções de toda a minha carreira e algumas novas como “No puedo ser feliz”, do Bola de Neve, que era um cantor cubano dos anos 30, e outra brasileira, chamada “Hei-de amar-te até morrer”, de autor anónimo, também do princípio do século.
P. – Porquê essa quase fixação em canções do início do século, que perdura já desde “O Amor é Cego e não Vê”?
R. – Foi uma coisa que de repente aconteceu na minha vida. Acho que é uma fase. Por exemplo, as canções que eu tenho neste momento nas mãos são coisas assim completamente imortais, lindíssimas, e eu acho que é muito bonito trazê-las para as pessoas que nunca ouviram falar ou já não se lembram delas.
P. – Em matéria de gravações, 1992 seria o ano de edição de um novo disco, de forma a cumprir a tradição de lançar um álbum de dois em dois anos. “O Amor é Cego e Vê2, data de 1990…
R. – Vou entrar em estúdio em Julho e fazer as misturas na Suécia. Será um CD editado num selo francês de “world music” chamado “A Divina Comédia”. Vai ser um disco que sai fora de tudo.

“Eu Vou!”

P. – Como explica que apesar de actuar tão pouco em Portugal, consiga manter as pessoas atentas e receptivas à sua música?
R. – O que se passa é que quando não se está a falar de mim aqui, está a falar-se no Brasil. Não paro de trabalhar um minuto. Se fico oito dias sem fazer nada entro em depressão profunda. Pronto, habituei-me a este ritmo. Mas não faço a menor questão de aparecer por aparecer. O que se passa é que tenho conseguido criar sempre expectativas que cumpro. A princípio, quando dizia que iria gravar com o Wagner Tiso ou com o Milton Nascimento, ou que ia ser parceira do Caetano Veloso e do Ney Matogrosso, as pessoas riam-se. Mas nunca disse uma coisa que não cumprisse.
P. – Costuma dizer-se que tem um magnetismo muito forte…
R. – Sim, e que funciona. Tenho uma energia que é esse frenesim de trabalhar, de querer fazer coisas, de me superar. A minha cabeça não para. O Herman José dizia-me assim, há dias: “De manhã queres que o Chico Buarque cante contigo. Passados dez minutos estás no estúdio com o Chico Buarque”.
P. – Pode concluir-se que consegue sempre o que quer?
R. – Respondo com o exemplo de como conheci o Wagner Tiso. Houve um “show” que ele e o Milton deram aqui no Coliseu. Eu, no meio do “show”, decidi que ia ser cantora. E corri que nem uma desesperada quando eles iam apanhar o avião – uma maluca barrada pelos polícias que gritava: “Wagner, Wagner, preciso de falar contigo”. Ele pensou que eu era uma fã e ‘fez-me adeuzinho’. Pensei: “Não consegui falar com ele aqui, vou ter que ir ao Brasil”. Um mês depois fui até lá, bati à porta do Wagner e disse-lhe: “Olhe, lembra-se de uma maluca no aeroporto? Era eu!”
P. – Houve quem no início da sua carreira criticasse a sua voz, que não estaria à altura de tantas pretensões…
R. – Aceito essas críticas. Mas também acho que tenho vindo a evoluir muito e a crescer vocalmente. Quanto mais se canta melhor se canta, mais se ganha segurança. E eu tenho sido muito ajudada.
P. – Precisamente, considera-se uma artista privilegiada?
R. – Sim. Mas acho que é um privilégio que eu invento para mim mesma.
P. – Como inventou o subsídio da SEC aos seus concertos, num “abrir os cordões à bolsa” pouco usual em espectáculos deste tipo?
R. – Neste caso não acho que seja um privilégio mas um pioneirismo. Por exemplo, o espectáculo dos Resistência com os Lua Extravagante também foi subsidiado pela SEC. Serei portanto a segunda. Os grupos de teatro têm sempre subsídios, a música parece que não é levada muito a sério. Eu percebi que havia uma abertura e não perdi tempo. Tomei eu própria a iniciativa de me dirigir à SEC onde fui muito bem tratada. Não ia ter o Wagner em casa um mês, a olharmos um para o outro, quando podíamos estar a trabalhar. Não sou de ficar quieta. Existe um ditado que diz: “Quem quer vai, quem não quer manda”. Eu vou.
P. – Está sempre segura de si. Nunca sentiu medo do palco, por exemplo?
R. – Antes tinha, agora não. Acontece que tive algumas experiências muito tristes, como cantar sem som de retorno e pensar que o defeito era meu, que eu é que era má. Experiências traumatizantes. Tinha tanto medo do palco que quando me falavam em cantar ao vivo, fugia.
P. – Preocupa-se com a imagem que dá de si própria aos outros?
R. – Não me preocupo muito. A minha imagem é a da pessoa que eu sou: supernormal, na maneira de vestir, de viver, de estar.
P. – Mas, há pouco, tinha receio que as fotografias saíssem mal…
R. – Mas isso é porque a gente tira fotografias em casa e sai sempre com os olhos tortos. Eu estou aqui, à vontade, sem maquilhagem, sem coisa nenhuma, vem um gajo, pega-nos uns “flashes” na cara e depois saem aquelas coisas horrorosas. As pessoas não são assim.

Gilberto Gil – “Gilberto Gil, Que Promove Um Novo Disco Em Portugal, Ao PÚBLICO – ‘O Mundo É Grande Porque a Terra É Pequena'”

Cultura >> Quinta-Feira, 26.03.1992


Gilberto Gil, Que Promove Um Novo Disco Em Portugal, Ao PÚBLICO
“O Mundo É Grande Porque a Terra É Pequena”


O novo disco de Gilberto Gil, “Parabolic”, assinala o regresso do compositor brasileiro às origens. Como se o tropicalismo entrasse de cara lavada no novo mundo, um “mundo grande porque a Terra se tornou pequena”, filtrado pela tecnologia e com o Apocalipse no horizonte. Um mundo em que a mulata Madalena é a antena que liga a terra a o céu.



Gil entusiasma-se e gesticula ao dissertar com igual facilidade sobre o fim da História, os índios Xingu ou os novos artistas “cyber”, como lhes chama, produzidos pela máquina industrial. Não acredita muito no futuro do Brasil mas fez questão de lembrar aos mais jovens, num espectáculo gratuito em Copacabana, os bons velhos tempos de confraternização “hippie”. Gilberto Gil é um humanista, para quem a História não pode ser um capítulo encerrado. Esteve em Portugal para promover o seu mais recente álbum, “Parabolic”. O PÚBLICO falou com ele e aprendeu como fazer uma parabólica de vime.
PÚBLICO – “Parabolic” começa por intrigar pela capa, um cesto transformado em antena parabólica. A junção do primitivo com a tecnologia…
GILBERTO GIL – A ideai é manifestar um sentimento de compromisso com a realidade factual, a minha realidade num determinado momento. Quando as sociedades tradicionais que vigoraram até ao início da II Guerra Mundial, até à descoberta da relatividade, da rádio e da televisão, transitaram para um mundo ainda pouco conhecido, pouco explorado, de novas situações tecnológicas.
P. – Um conceito presente no tema “Sonho”, que aborda pela ironia o lado demagógico de certo discurso ecológico, tão em voga nos tempos actuais…
R. – Não defendo a ideia construtivista de apresentar idealizações, modelos de sociedade, essas coisas todas. Antes o mundo em pequeno porque a Terra era grande. Hoje o mundo é grande porque a Terra é pequena, do tamanho de uma antena parabólica. O cesto, exemplo artesanal da cultura tradicional da Baía, ainda existe, mas já está sendo substituído pelos elementos e pela rapidez electrónicos.

O Fim Da História

P. – Defende que a resposta ao problema ecológico se encontra no retorno ao “bom selvagem”, personificado pelo índio Xingu, referido no texto da canção?
R. – A postura da sociedade para com os índios Xingu é contraditória. Quando, na canção, abandono a sala, descubro que estou nu e sou identificado com um índio, na verdade tal identificação é ao mesmo tempo saudada e ridicularizada. O grito dos estudantes e operários de “viva o índio Xingu”, é ao mesmo tempo de solidariedade e ridicularizador. Há na figura do índio, ou das sociedades primitivas em geral, um sentido trágico, ao serem, em teoria, aceites pela antropologia e por certas medidas protecionistas, mas na prática exterminadas, de forma sistemática e programada, pela sociedade moderna.
P. – Há em toda essa questão um lado apocalíptico, de extremos que se tocam, de situações levadas ao limite…
R. – Sim, vivemos uma época em que tudo se revela e tudo se confunde.
P. – Relaciona directamente esse Apocalipse com o “fim da história” que dá título a outra canção?
R. – Essa canção procura desmistificar uma certa concepção de “fim da história”, segundo a qual esta teria acabado no sentido clássico do termo. A ideia, com que não concordo, de que todas as experiências relacionadas com a lei, a justiça, o direito e a fraternidade, enfim todo um conjunto humanista que foi consagrado universalmente pela Revolução Francesa, e mais tarde o marxismo, a ideia de socialismo e o sentimento de colectivismo, tivessem desaparecido para sempre. Como se a humanidade não pensasse mais, no seu destino colectivo e tudo estivesse ligado ao indivíduo isolado, na prática de uma possível democracia económica, toda essa coisa hegemónica com a queda do comunismo, etc. Por mim acredito em ciclos, em reciclagens, na possibilidade de retorno a momentos mais exigentes da humanidade.
P. – Não se tratará afinal do fim das ideologias?
R. – Sim, de esquerda e de direita. Se por um lado caiu o socialismo, enquanto caminhada histórica da humanidade, caíram também todos os sistemas que tentaram negar essa marcha, os sistemas individualistas, centrados na propriedade privada, o capitalismo, enfim.
P. – O índio e a cultura Xingus estão para além da História?
R. – Exactamente. São o antes e o depois da História.
P. – Já que se fala em Apocalipse, o termo aplica-se com propriedade à actual situação política no Brasil…
R. – O Brasil é hoje uma das nações mais exemplares, ao nível de convívio, diferenças, confrontos e desníveis vários. É um país extremamente rico na sua natureza, no seu povo, etc, mas extremamente exaurido nas suas possibilidades de conforto material e de educação mínimos para a maioria da população.
P. – Que razões impedem o salto em frente?
R. – Primeiro porque o Brasil, no plano da civilização mundial, é um país que desde a sua descoberta e a sua formação como nação, sempre viveu o papel da subordinação – primeiro aos interesses da colonização, e mais tarde aos americanos e ao capitalismo internacional. Um país que até hoje não conseguiu desenvolver um modelo de sociedade próprio. No momento em que o Brasil poderia dar o salto e desenvolver-se, à semelhança dos Estados Unidos, do Japão ou da Alemanha, acontece que os modelos que regeram o desenvolvimento destas nações tornaram-se impraticáveis.
P. – Que papel político desempenha como vereador do Conselho Municipal de Salvador da Baía?
R. – Um papel muito minimizado na sua importância, pelas dificuldades de compatibilização entre o exercício do poder e uma personalidade muito doce que é a minha.

Madalena Parabólica

P. – “Parabolic” assinala o seu regresso às origens e a um certo tropicalismo de que andava arredado. A que se deve tal aproximação?
R. – Foi um impulso do inconsciente, um chamamento irrecusável. Nos últimos dez anos, em discos como “Luar”, “Realce”, “Raça Humana” ou “Extra”, os elementos brasileiros eram colocados ao serviço da construção de um modelo internacionalista, que poderíamos enquadrar na “world music”, com uma vertente caribanha, africana, etc. Neste disco é o contrário. Toda essa acumulação de experiência internacionalista ficou subordinada aos próprios géneros brasileiros: o baião, o xaxado, o “coco do Norte”, o samba, a “moda de viola”.
P. – O tema de abertura, “Madalena”, e “Quero ser teu Funk” são bons exemplos dessas atitudes opostas…
R. – Sim. “Quero ser teu funk” é um tema dos que trabalham à superfície do profundo: o funky, os ingredientes da facilidade cosmopolita, imediata, o tempero do supermercado, o descartável. “Madalena”, pelo contrário, é um tema dos anos 50 que trata de um momento de transição. Madalena é uma personagem de um mundo tradicional que começou a desaparecer nessa altura, na Baía, com a chegada da exploração petrolífera, da industrialização e da invasão pós-guerra do mundo europeu. Ela confronta-se com a impossibilidade de continuar a viver numa comunidade agrícola verdadeira, dilacerada pelo caos provocado pela chegada da máquina. A música, composta por um homem do povo de quem não se sabe sequer o nome verdadeiro, foi um “hit” na Baía durante a minha adolescência e antecipava coisas como a lambada, o movimento afro, artistas como Margareth de Menezes, tudo isso.
P. – Será esse então um outro simbolismo para a imagem da baiana, com o cesto / parabólica a servir de chapéu?
R. – Exacto. É um cesto primitivo que representa a força da antena parabólica, mas em que a energia está subordinada à cabeça da mulher.
P. – O que significa “Parabolicamará”, título de uma das canções?
R. – “Camará” é compressão de capoeira. Significa “camarada”, “colega”, “amigo”, o “parceiro”. É o chamamento comunitário da roda de capoeira, símbolo dessa comunidade primitiva, clássica, brasileira. Aqui justaposta à parabólica, símbolo da “techné” moderna.
P. – Por falar em “techné” moderna. Como vê um fenómeno como o de Marisa Monte, que, sem tradição na chamada MPB, conseguiu, no Brasil e não só, um sucesso quase instantâneo?
R. – É o significado da eficácia da indústria cultural. São artistas que nascem de um “design”. Artistas industriais, mesmo. Na minha geração havia talentos que acabavam ou não por produzir para a indústria cultural, no tempo em que esta ainda não estava totalmente desenvolvida. Agora não, essa indústria já funciona em pleno, o que implica dinheiro, investimento, “design”. Há estatísticas, linhas de controlo, de avaliação, etc, e portanto já se consegue construir, a partir do artificial, artistas biónicos, “cyber”. É a pragmatização absoluta do talento. Nós éramos a fase humanista.
P. – Esse humanismo levou-o a abrir a digressão mundial com um espectáculo gratuito em Copacabana?
R. – Foi uma ideia da minha assessoria. Talvez ligado a esse sonho de reviver e dar testemunho a uma nova geração, de um tempo de festa: a época “hippie” à qual pertencemos. Uma época de grandes ‘shows’ em que se juntava a Natureza, belas fazendas, belas praias, com música e cultura e em que havia um sentimento de confraternização.