Arquivo mensal: Maio 2020

Carlos Paredes – “Recital De Carlos Paredes, No S. Luiz, Em Lisboa – O Silêncio Convulsivo”

Cultura >> Domingo, 22.03.1992


Recital De Carlos Paredes, No S. Luiz, Em Lisboa
O Silêncio Convulsivo


Lisboa homenageou ontem, no Teatro S. Luiz, o mestre da guitarra portuguesa. Carlos Paredes, como de costume, quase não deu por isso. Não vale a pena insistir, mas é verdade: a guitarra de Paredes somos todos nós.



Um concerto de Carlos Paredes é sempre motivo de júbilo e de uma certa vergonha. O júbilo de nos deixarmos levar pelo sonho que temos de nós próprios, de sermos portugueses de verdade e não os “cadáveres adiados” de que falava o poeta. E a vergonha de nos termos acomodado e habituado a que ele, Paredes, estivesse sempre à nossa mão, disponível, com a sua guitarra e com uma modéstia que nos convinha, para nos confortar da nossa mediocridade.
A música de Paredes vem de longe e do fundo, da História e das cordas de uma guitarra que, nos seus dedos, se transforma no instrumento mais completo do mundo. Assim foi nas noites de sexta-feira e sábado, no Teatro S. Luiz em Lisboa. Assim será a 25 no Rivoli do Porto.
Na sexta-feira, numa espécie de gala tardia, nem sequer faltaram Mário Soares, o hino nacional e convidados especiais. E a televisão, que gravou o acontecimento em sistema de alta definição para posterior emissão europeia.
Acompanhado por Luísa Amaro, Paredes arrancou com “Sede” para uma primeira sequência que incluiu os inéditos “Arcos de jardim” e “Cantiga para minha mãe”.

A Perna Esquerda

Primeira convidada da noite, Natália Casanova surgiu deslumbrante, sobretudo a sua perna esquerda, emergindo gloriosa da longa racha aberta no vestido negro. Pena foi que a voz da cantora dos Diva ter entrado antes de tempo na “Cantiga de Maio”, de José Afonso. Apoiada por um contra-tenor não identificado, de figura andrógina mas possuidor de excelentes recursos vocais, Natália acabou por emprestar à canção uma razoável dose de emoção e sensualidade.
Fernando Alvim, antigo companheiro de Paredes, secundou o guitarrista em “Variações em Ré menor” e “Divertimento”, antes do regresso de Luísa Amaro numa inesquecível “Dança de Camponeses”. A primeira parte do recital encerrou com um “pas de deux” coreografado pelos bailarinos Ofélia Cardoso e Francisco Pedro segundo a estética do “pulinho a compasso”: um pulinho por cada semínima, dois por colcheia e assim por diante, em progressão geométrica, não há que enganar.
Cumpridos os rituais de exposição social do intervalo (muito actor e músico presente, muita sociedade, muito vestido curto), de novo a música, com Paredes a dar o mote de “Porto Santo” para o pianista Mário Laginha improvisar no que foi um dos momentos mais altos do espectáculo.
Depois, de novo Luísa Amaro como acompanhante, em mais dois inéditos, “Mar Goês” e “Titi” e nas notas por todos ansiadas de “Verdes Anos”, as que melhor traduzem o silêncio convulsivo que vai na nossa maneira de sermos portugueses.
Fracassado, foi o encontro com Rui Veloso, a quem Carlos Paredes pediu desculpa por alguma eventual “asneira”. O diálogo instrumental não chegou a acontecer. As duas guitarras pouco tinham a dizer uma à outra. Carlos Paredes apagou-se, dando lugar a Rui Veloso que, sozinho, interpretou “Porto Sentido”.

Pelo contrário, a participação de Paulo Curado, na flauta, em “Mudar de Vida”, resultou em pleno, talvez porque o tema, gravado para o filme de Paulo Rocha e incluído no álbum “Movimento Perpétuo”, fora escrito para este instrumento.
As “Variações de Artur Paredes” fecharam a sequência oficial do programa. A sala aplaudiu de pé. Carlos Paredes levantou-se, esbarrou contra uma câmara de televisão, vagueou perdido pelo palco e agradeceu de forma desajeitada. O público pediu mais e Paredes, como sempre, fez-lhe a vontade. Pela primeira vez ficou completamente só, no centro do palco, dobrado sobre a guitarra, a confundir-nos, a emocionar-nos. Mas o guitarrista surpreendeu tudo e todos em alguns segundos de uma “brincadeira” (“os meus amigos vão-se rir de certeza”), antes de se despedir com uma nota de ironia – numa peça, inspirada em Camilo, que traduz em música os “discursos vazios e balofos com que certos senhores nos pretendem enganar” e assinada com um “tenho dito” bem-humorado.
Para todos, para cada um diferentemente, a música e a vida de Carlos Paredes servem de lição. Que poucos souberam ou quiseram estudar e aprender.

Madredeus – “‘Existir’ Para A Europa”

Cultura >> Domingo, 22.03.1992


“Existir” Para A Europa

Sexta-Feira, no Teatro Ibérico, em Lisboa, os Madredeus actuaram para uma plateia de convidados, numa operação de “charme” aos vários executivos de diversas delegações europeias da EMI presentes, com o objectivo de uma hipotética edição do álbum “Existir” no estrangeiro.
Para Teresa Ribeiro, Pedro Ayres de Magalhães, Rodrigo Leão, Francisco Ribeiro e Gabriel Gomes foi também o regresso ao local de ensaios e gravação dos “Dias da Madredeus”, disco com que se estrearam no mercado discográfico nacional: uma divisória de um antigo convento, responsável em grande parte pelo ambiente e orientação estética do projecto.
Cerca de 45 minutos de música que em alguns momentos roçou o sublime – devem ter chegado para convencer os homens de negócios. De postura sóbria, quase de recolhimento, os cinco músicos projectaram os sons até à cúpula do recinto, aproveitando a sua acústica para melhor acentuar o carácter religioso da maior parte das canções. O início, um dueto vocal de Teresa Salgueiro e Francisco Ribeiro evocativo do cântico gregoriano, deu o tom ao concerto, que evitou temas mais extrovertidos como “O Ladrão” para se centrar numa solenidade que poderíamos definir como “fado de câmara”.
“O Navio”, “Cuidado”, “O Pomar das Laranjeiras”, “Vaca de Fogo” e o instrumental “As Ilhas dos Açores”, entre outros títulos dos Madredeus, serviram de igual forma para demonstrar a capacidade dos seus membros em recriarem e remodelarem, em cada concerto, os arranjos. Da voz e da presença, ao mesmo tempo angelical e fadista, de Teresa Salgueiro, nunca é demais repetir que não tem rival no actual panorama da moderna música portuguesa. Modernidade que no caso dos Madredeus se funda na Eternidade.
Os Madredeus existem para navegar. A partir de agora talvez também no inconsciente de uma Europa à procura de outro mar.

Moby Dick – “Novo Supergrupo Edita Primeiro Álbum Em Abril – No Ventre Da Baleia”

Cultura >> Sexta-Feira, 20.03.1992


Novo Supergrupo Edita Primeiro Álbum Em Abril
No Ventre Da Baleia


João Gil e Artur Costa fartaram-se dos Trovante, Alexandre Cortez tirou férias dos Rádio Macau. Juntos decidiram chamar-se Moby Dick, preocupar-se com o problema das baleias, recuperar alguma poesia portuguesa e fruir o simples acto de tocar. Num disco de palavras “fora de uso”, exorcismos e guitarras.



Depois dos Resistência e dos LX-90, é a vez dos Moby Dick recuperarem o velho conceito de “supergrupo”, explorado até à exaustão na década de 70. A ideia é trocar músicos e ideias. Explorar novas formações fora das bandas consagradas. João Gil vai mais longe: para o antigo guitarrista dos Trovante, trata-se de “uma maneira de continuar” a sua “existência em vida”. Uma espécie de reencarnação antes de tempo.
O disco sai a 2 de Abril com o selo BMG mas, segundo afirmaram os próprios elementos da banda, em conferência de imprensa, ontem em Lisboa, há já quem, sem sequer o ter ouvido, fale de “canções giras” e da voz que “é uma grande merda”.
Escutadas as canções há que reconhecer que são bastante mais que “giras”, Dispensam o acessório para se firmarem no essencial, em arranjos que procuram preservar a verdade de cada instrumento e a sua inter-relação em estúdio. Por isso, um tema comno “Lua dos Imortais”, dos mais fortes do disco que, um pouco ao estilo de Ry Cooder, evoca a desolação e as grandes solidões alentejanas, foi gravado ao primeiro “take”. Por isso, as guitarras ora cortam como lâminas, ora se elevam ao céu. Por isso, Artur Costa (saxofone e sintetizadores) fala na “descoberta” e no “prazer” de juntar uma guitarra, um baixo, um piano e um saxofone. Sem que o estúdio constitua uma traição ou um engano. De maneira a “tentar esquecer vícios passados” e a “recriar o espírito de uma primeira banda”, como refere o baixista Alexandre Cortez. O reencontro com a “força que advém da relação com o silêncio” de que fala João Gil.
Depois há os textos de Manuel da Fonseca (“O Vagabundo Do Mar”), Jorge Palma (“Estrada”) ou Sebastião da Gama (2º Sonho”), entre os originais de João Gil e João Monge (autor da letra de “Timor”, dos Trovante). E a coragem em cantar de caras, em “Olhos nos Olhos” – escolhida para o “single” a retirar do disco – coisas quase loucas como “amo-te loucamente” que rimam com “esteticamente” e “constantemente”. Coisas que se dizem e ouvem, num drama doméstico soluçado na sala e nas horas de espera de um consultório médico e da vida, entre sonhos cor-de-rosa e folhas de “Hola” com que os corações se iludem nessa espera.
Quanto à voz, também não é tão má como a pintam. Embora o próprio João Gil reconheça “ter ainda muito que aprender” neste aspecto. João Gil que, em “Carta Aberta”, exorciza o fantasma dos Trovante, numa canção que fala de si próprio e de todos os que “fazem as malas e têm de recomeçar tudo de novo”.
Moby Dick não esconde a sua vocação pop. Os “únicos limites”, que os seus elementos aceitam são os dos seus “sentimentos”. E as preocupações ecológicas que só lhes ficam bem. Com as baleias ou o “efeito de estufa que se fazia sentir no panorama musical português”. Partilhadas pelos músicos convidados: Luís Sampayo, António Chainho (guitarra portuguesa), José Salgueiro e Emanuel Ramalho (os três bateristas convidados), João Cabeleira e Paulo Monteiro (guitarra eléctrica), Manuel Paulo (teclados), Quim M’Jojo (percussões), Kalu (dos Xutos & Pontapés, coros) e Jonathan Miller (sintetizadores). Sem esquecer o coro feminino formado por Dora, Katila e Cláudia Mingas, que em “Kyrie Elésion” “brilha e sobe às alturas”.
Ao vivo, os Moby Dick estreiam-se em Setembro, “de preferência nos Açores, uma terra marítima, de mar bravo”. Como convém.