Arquivo mensal: Julho 2018

Feliz Kubin – “Tetchy Teenage Tapes”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
28 Fevereiro 2003


FELIX KUBIN
Tetchy Teenage Tapes
Skipp, distri. Matéria Prima
6|10



Vão-se rir mas é verdade: o génio alemão da pop eletrónica com legitimidade para se considerar herdeiro de Holger Hiller gravou “Tetchy Teenage Tapes” quando tinha entre 11 (!) e 18 anos. O Felix actual mostrou, no gozo, à editora as amostras dessas gravações efetuadas num gravador de quatro pistas com um sintetizador, um órgão caseiro, um computador de ritmos e um “dosophon” (set de bateria composto por latas de doces vazias) e que os tipos gostaram. A verdade é que foi graças a este trabalho pioneiro que, por volta de 1983, em plena “neue deutsche welle” (“new wave” alemã), surgiu em Hamburgo um movimento de bandas juvenis “underground” de eletrónica com nomes singelos como Voll Die Goennung, Intensive Styroporsymbole, Rekonstruirtes Relativpronomen e Universum. “Tetchy Teenage Tales” prova, por outro lado, que a eletrónica mais lúdica que hoje se faz pouco evoluiu desde então. Descontando a voz imberbe, as programações-pipoca e melodias arrumadas entre os Yello, os Der Plan e os Human League, é o mesmo Kubin excêntrico que encontramos, com uma frescura que os Nova Huta, Oleg Kostrow e Sergej Auto se encarregaram de dissecar. E o electroclash afinal começou aqui.



Ruins – “Tzomborgha”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
14 Fevereiro 2003


RUINS
Tzomborgha
Ipecac, distri. Sabotage
7|10



Um dos principais problemas das bandas que vão buscar inspiração às décadas de 70 e 80 é terem a alma pequena. Assimilam por vezes apressadamente determinadas fórmulas ignorando a matéria de fundo. Os japoneses (que nutrem especial simpatia pelo rock progressivo) Ruins fizeram a sua seleção com método e rapidez. Combinam “hardcore”, uma atitude simultaneamente visceral, intelectualizada e “punk” para fabricar algo que bebe em Frank Zappa e nos Magma (juntos em “Mennevuogh”), nos King Crimson e na psicose “nonsense” dos Renaldo and the Loaf, embora sejam igualmente apregoadas as lições dos Henry Cow, Area e This Heat.. São guitarras abrasivas de cepa crimsoniana, explosões de “noise”, vocalizações entre o épico e o operático furibundo, batidas marciais, síncopes e acelerações brutais sucessivas que respeitam a mesma ordem de prioridades que fez o grupo passar anteriormente pela editora Tzadik, de John Zorn. “Tzomborgha” não é tanto um caso de revisitação desmiolada do passado como a filtragem do espectro de frequências de algum do rock progressivo mais radical. Ou do que restou das suas ruínas.



Low Res – “Blue Ramen”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
07 Fevereiro 2003


LOW RES
Blue Ramen
Plug Research, distri. Ananana
6|10



Mais um disco que parece ter saído da fábrica ainda a pingar o “som do momento”. Eletrónica ambiental, ambientes digitais, notas alinhadas de maneira a parecer jazz, “easy listening” à hora do “cocktail”, batidas automáticas de rumba tiradas de “presets” de velhos órgãos eletrónicos. É a fórmula escolhida pelos Low Res para tentar bater a concorrência e arranjar um cantinho sossegado para fazer correr os seus programas. A fusão, se assim se pode chamar, de “Blue Ramen” encontra antecedentes no Paul Schütze “light” de “Site Anubis”; o som, deliberadamente artificial, tresanda a Atom Heart (do projeto mimético Lassigue Bendthaus) e, esforçando um pouco a imaginação, até é possível encontrar numa faixa como “Dirty serenade” uma microssequência transportando a informação dos ficheiros de Robert Wyatt. Soa, em suma, como um produto típico da idade cibernética, clone de um clone de um clone de uma entidade entretanto desaparecida. Música ambiente que faz as cidades modernas mergulharem ainda mais fundo na sua solidão.