Arquivo mensal: Agosto 2017

The Red Krayola – “Fingerpainting”

Sons

24 de Setembro 1999
DISCOS – POP ROCK


The Red Krayola
Fingerpainting (8)
Drag City, distri. MVM


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No início, nos anos 60, em pleno Psicadelismo, os então The Red Crayola, com “c”, desde sempre o projecto do guitarrista Mayo Thompson, eram uma das muitas bandas de “freak out” (leia-se desbunda induzida pelo ácido) que então proliferavam. Data dessa altura o álbum de estreia, “The Parable of Arable Land”, ilustrativo dessa estética, digamos, “free”. Na primeira de muitas reciclagens, já no final dos anos 70, uma episódica junção com os Pere Ubu resultou no álbum “Soldier Talk”, equivalente “garage” do som da banda de David Thomas. Após uma série de álbuns que poderíamos designar por “restos podres do psicadelismo”, os The Red Krayola emergiram nos anos 90 com a máscara do pós-rock, em “Hazel”, um álbum celebratório que reunia um número razoável de luminárias do movimento, de Jim O’Rourke a John McEntire. Mas Mayo Thompson não é homem para facilitar e “Fingerpainting” atira de novo os Red Krayola para o caixote das inanidades, através da repescagem de temas compostos na época de “The Parable of Arable Land”, mas agora filtrados pela electrónica e pelos mandamentos do pós-rock, sem que tal signifique, porém, qualquer tipo de reconhecimento, a não ser o das semelhanças evidentes entre as vozes de Thompson e David Thomas. “Fingerpainting” soa, assim, como uma colagem anárquica de sons sintetizados, “tapes” saturadas de todo o tipo de ruídos e uma rudeza que em “Hazel” parecia ter retrocedido. Durante parte dos 15 m do tema final, Thompson passa o tempo a balir como um carneiro antes de ir para o matadouro – Faust mais cacofonia mais romantismo perdido – e torna-se perigoso demorarmo-nos por lá.



David Grubbs & Mats Gustafsson – “Apertura”

Sons

15 de Outubro 1999
DISCOS – POP ROCK


David Grubbs & Mats Gustafsson
Apertura (3)
Blue Chopsticks, distri. MVM


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A paciência tem limites. Ouvir do princípio ao fim os 39’50” – duração exacta do primeiro dos dois temas que preenchem “Apertura” – pode provocar danos sérios no sistema nervoso de qualquer um. O tema em questão consiste numa “drone” rigorosamente de uma só nota produzida num velho órgão de foles por David Grubbs (Gastr Del Sol), cortada apenas pelo que parece ser o ruído dos foles e aumentando gradualmente de volume. No segundo tema o som enriquece-se ao nível dos harmónicos, o que, comparativamente, faz a dose (25 minutos) soar como o Centro Comercial Colombo em hora de ponta. É verdade que LaMonte Young e, em geral, a maior parte dos minimalistas, já tinham testado antes a capacidade de resistência do ouvido humano. Mas isso foi num tempo, já lá vão 30 anos, em que as cabeças funcionavam a outra velocidade e eram alimentadas por outras substâncias. Um único som, bem trabalhado, chegava para fazer um “happening”. Até porque era frequente, nessas ocasiões, ser de tal forma intensa a meditação do auditor que as forças lhe faltavam para se levantar e desligar o gira-discos. Era a vitória da vanguarda construída sobre a inércia. Mas “Apertura” exagera: vazio antes, vazio durante e vazio depois. E abertura de quê? Da porta que permita fugir o mais rapidamente possível? É bem possível. Ou tratar-se-á apenas de um sinónimo de “aperto”, o que já faz algum sentido? Seja como for, não é com discos destes que se avança para algum lado. Nem se recua, aliás.



Mouse On Mars – “Niun Niggung”

Sons

1 de Outubro 1999
DISCOS – POP ROCK


Circuitos reactivados

Mouse on Mars
Niun Niggung (9)
Rough Trade, import. Ananana


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Nas pistas de dança do próximo milénio o ritmo vai ser imposto pelos Mouse on Mars. Com um pendor mais acentuado para o “groove” que os seus compatriotas Kreidler, To Rococo Rot ou Tarwater, a dupla germânica Jan St.Werner e Andi Toma voltou a reactivar os circuitos após um decepcionante “Autoditacker” que se revelou não estar ao nível do excepcional “Iaora Tahiti”. Depois de um começo desconcertante, algo como o prelúdio, em guitarra acústica, de uma “cowboy song” cibernética pós-rock, “Niun Niggung” entra numa vertiginosa campanha com os ruídos e batidas mais estranhas que o pós-rock alguma vez conheceu ou o manifesto futurista de Marinetti alguma vez enunciou. De resto, o termo pós-rock já nem faz muito sentido na definição do universo particular dos Mouse on Mars, criado a partir da fusão dos curto-circuitos e tecnologia de escritório dos Microstoria e dos Oval com o legado lúdico dos Cluster e Pyrolator e a tal intuição que os faz não perder de vista o indispensável swing. Ao contrário de “Autoditacker”, caracterizado por um mecanicismo e uma superficialidade de processos que raiavam a indulgência, “Niun Niggung” junta os músculos e a cabeça, levando longe a investigação no capítulo das sonoridades bizarras e da sua articulação interna, contanto de novo com a participação do abstraccionista F. X. Randomiz e, desta feita, com naipes de cordas e metais.
“Super sonig fadeout” pode ser encarado como uma paródia aos Daft Punk da mesma forma que “Diskdusk” inventaria os tiques de “Saturday Night Fever”, fazendo subir a febre mas já nos salões de feira estreados pelos Cluster em “Zuckerzeit”, enquanto “Gogonal” permite compreender até que ponto era ainda humanista a tecnopop dos Kraftwerk. O ritmo ausenta-se nos embates múltiplos de “Mompou” para irromper de seguida com violência numa investida bárbara de drum ‘n’ bass fabril, em “Distroia”. “Albion rose” é a cereja no topo do bolo, reflexos coloridos em bolas de sabão, música de câmara executada por ciborgues em transe, intersecção de sonoridades contrastantes como são habitualmente conectadas por Jim O’ Rourke. “Niun Niggung” fecha com o peso-pesado “Circloid bricklett sprüngli”, como se a maquinaria acabasse finalmente por emperrar num charco de baixas frequências.
Pontos, traços, sinais, multiplicações e divisões, esquadrias, luzes, algoritmos, figuras geométricas e volumes são recortados e remontados na quinta dimensão – na placa de circuitos privativa onde apenas os Mouse on Mars sabem mexer. Com paciência é mesmo possível entrar na câmara secreta – um 13º tema escondido no CD. “Niun Niggung”, repetimos, empurra-nos para a dança, a questão está em como articular os movimentos do corpo com a multiplicidade de estímulos a que o cérebro é submetido.