Arquivo mensal: Agosto 2017

Fred Frith Guitar Quartet – “Upbeat”

Sons

15 de Outubro 1999
DISCOS – POP ROCK


Fred Frith Guitar Quartet
Upbeat (7)
Ambiances Magnétiques, distri. AudEO


ff

Um pouco como fez Robert Fripp com a sua League of Gentlemen, também Fred Frith reuniu o seu próprio “ensemble” de guitarras, com a diferença de que, enquanto o guitarrista dos King Crimson distribuiu tarefas por alguns dos seus alunos, o antigo guitarrista dos Henry Cow chamou para seu lado três instrumentistas de créditos firmados: René Lussier (ex-Conventum), Nick Didkovsky (Doctor Nerve) e Mark Stewart. “Upbeat” é uma demonstração feliz do que pode ser feito com uma guitarra eléctrica, a solo – cada um dos músicos teve uma faixa à disposição – ou em trabalho colectivo. Experiências com “drones”, fragmentações harmónicas e tímbricas, desmultiplicações rítmicas, exploração de sonoridades e técnicas de execução pouco ortodoxas, ao estilo da série “Guitar Solos” organizada há anos pelo próprio Frith, criam momentos de interesse e intensidade variada, no que constitui um objecto prioritariamente dirigido aos adeptos da guitarra. Para Fred Frith, pólo aglutinado deste “ensemble” de virtuosos nada académicos, “Upbeat” serve ainda como pretexto para o humor que sempre o caracterizou (dos Henry Cow a álbuns deliciosos como “Cheap at Half the Price” ou “Live, Love, Larf and Loaf”), mas que tem andado algo arredado da sua discografia “de câmara” mais recente. Rock ‘n’ roll, ragtime e outros anacronismos contrastam com momentos mais duros numa arrumação por títulos na prateleira dos advérbios: “stinky”, “spitty”, “squinty”, “speedy”, “feety”, “slinky”, “skinny”, “sinky”…



Gorky’s Zygotic Mynci – “Spanish Dance Troupe”

Sons

15 de Outubro 1999
DISCOS – POP ROCK


Gorky’s Zygotic Mynci
Spanish Dance Troupe (7)
Mantra, distri. MVM


gor

Depois do decepcionante “Gorky 5” (incursão falhada no country-pop), os Gorky’s Zygotic Mynci retomam em “Spanish Dance Troupe” a aprendizagem e assimilação de algumas das estéticas “arty” dos anos 70 mas também dos 80 (Teardrop Explodes, XTC) que tinham encetado com “Barafundle”. De caminho tornaram-se uma estante fascinante da pop dos anos 90, capaz de colorir uma melodia com as cores de velhos retratos restaurados. “Hallway” entra em suavidade na “Saint-Tropez” dos Floyd, com os mesmos ecos, a mesma espacialidade e as mesmas vocalizações valium de Roger Waters. Ziggy Stardust arranha as guitarras dos Faust em “Poodle rockin’”, enquanto vai raspando em “Flying doesn’t help” de Anthony Moore. O gosto pela cena de Canterbury permanece intacto nos GZM, a julgar por temas como “She lives on a mountain” (influência dos Caravan) ou “Over & out”, este último praticamente decalcado de Kevin Ayers (já citado, aliás, em “Barafundle” na versão de um dos primeiros temas dos Soft Machine) entre interlúdios de guitarra acústica no meio de bucólicos prados. “Don’t you worry” é um curto postal ilustrado de saudades aos Incredible String Band, com uma voz émula de Licorice e o violino agatanhado de Robin Williamson. Um dos temas mais interessantes de “Spanish Dance Troupe”, “Hair like monkey teeth like dog”, microbestiário doméstico com o toque dos Faust, contrasta com o classicismo e os arranjos de cordas de veludo de “Freekles”, num álbum que, infelizmente, ficaria bem melhor sem o derradeiro “The humming song”, em que as ideias parecem ter-se escoado de súbito pelo ralo.



Mr. Bungle – “California”

Sons

15 de Outubro 1999
DISCOS – POP ROCK


California Dreamin’

Mr. Bungle
California (10)
Warner Bros., import. Carbono


mb

A diversão e o humor são componentes essenciais e omnipresentes no rock. Sem ser preciso instalarmo-nos no chapitô de trupes como os Monty Python ou os Bonzo Dog Doo Dah Band, são múltiplas as linhas que cosem o absurdo e o pueril, a sátira e o “nonsense”, a pantomina e a ironia: dos Beatles a Kim Fowley; dos Residents aos Negativland; dos Sparks aos Queen; de Albert Marcoeur aos Gong; e, obviamente, de Frank Zappa a Frank Zappa.
Os Mr. Bungle de “California” só serão uma surpresa para quem não ouviu “Disco Volante”, o álbum anterior desta banda encabeçada por Mike Patton (dos Faith No More e colaborador assíduo de John Zorn), onde eram já visíveis as forças “poltergeist” que alimentam um som em permanente combustão.
“California” é uma turbina em aceleração máxima, de onde brota uma corrente absolutamente inacreditável de “gags” que derrubam como um furacão a mínima noção de politicamente correcto. É um desenho animado contínuo, de sequências vocais e instrumentais, que se acotovelam e pisam e interagem mutuamente, às gargalhadas e em golpes de génio.
“Sweet charity” é surf music, easy listening, cha cha cha e Zappa (presença patronímica ao longo de todo o álbum) em technicolor dos anos 60. “None of them knew they were robots” sobrepõe Snakefinger, Clint Ruin e o Zorn de “Spillane”. Em “Retrovertigo”, que poderá ser ou não ser uma referência a Hitchcock, são os Beach Boys supervisionados por Phil Spector em sonhos de mescalina, com Bowie a intrometer-se pelo meio “Pet Sounds” em doo-wop cruza-se com Lalo Schiffrin, os Zombies e – suspeita-se – com tudo o que a memória lhe quiser atribuir, em “Ars moriendi”.
Mas há também flamenco, música árabe, acordeões musette, Morricone, grupos de baile, Nurse With Wound, Yello, Elvis Presley, Raymond Scott numa caixa de música, Godard, electrónica-jazz-porky pig, deslumbrantes baladas decadentes de lágrimas e estrelas borbulhantes, em estranhas formas de vida a agitar-se em títulos tão zappianos como “Pink cigarette”, “Golem II: The bionic vapour boy” e “Vanity Fair”.
“California” é o fantasma-“clown” do “Smile” que Brian Wilson jamais se atreveu a sonhar e o “cocktail” musical mais delirante (“Goodbye sober day” é um título bastante apropriado para fecho do álbum…) desde que os Mothers serviram “We’re only in it for the Money”. Pelo menos, até se conseguir recuperar o fôlego: nota máxima.